Edição 366 | 20 Junho 2011

A delicada ligação entre opção religiosa e ascensão socioeconômica

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Graziela Wolfart

Joel Portella Amado considera que um bom caminho espiritual para as chamadas novas classes médias passa não apenas por relações fraternas entre os membros das comunidades, mas também pelo contato direto com os crucificados da terra e, pensando ecologicamente, com a Terra crucificada

“Para a chamada nova classe média, não podemos oferecer o mesmo cristianismo de serviços, ainda que sejam serviços atualizados ao tempo atual, como é o caso de certos atendimentos excessivamente voltados para os prodígios e os resultados imediatos e individualizados. Precisamos oferecer a possibilidade de efetiva vida comunitária, abrindo espaço, indicando possibilidades e acompanhando em meio às crises e aos avanços”. A conclusão é de Joel Portella, padre, professor na PUC-Rio, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Ele compreende a proposta de aproximar a Igreja Católica da “nova classe média” como “um dos vários esforços da Igreja para acompanhar os novos ritmos do mundo, encarnando-se nas realidades que vão surgindo”.

Joel Portella Amado possui graduação em Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e graduação, mestrado e doutorado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, onde é professor.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual sua opinião sobre a proposta de aproximar a Igreja da “nova classe média brasileira”?

Joel Portella Amado - Eu a compreendo como um dos vários esforços da Igreja para acompanhar os novos ritmos do mundo, encarnando-se nas realidades que vão surgindo. Esta aproximação, por certo, deve ser considerada dentro de um conjunto de atitudes que colocam a Igreja no que se tem chamado de nova evangelização. Não implica distanciamento dos demais setores sociais.

IHU On-Line - Podemos identificar que em locais onde as pessoas ascenderam socialmente diminuiu a presença de evangélicos? Como entender esse processo?

Joel Portella Amado - Não tenho dados concretos para fazer esta afirmação. Estou ainda com os dados do penúltimo Censo e de algumas pesquisas que se seguiram, as quais afirmaram que os bolsões de pobreza em torno das grandes cidades apresentavam-se mais voltados para o pentecostalismo, enquanto áreas com melhor situação econômica permaneciam católicas. Se este fato mudou, preciso aguardar e mesmo agilizar meus estudos em relação aos dados do novo Censo. Creio que a ligação muito direta entre opção religiosa e ascensão socioeconômica é delicada de se fazer. Do modo como está formulada a questão, tende a identificar catolicismo com ascensão social e protestantismo com pobreza, enquanto as relações, em nossos dias, não são tão bicolores assim. A realidade se manifesta de modo mais complexo. Sabemos que o protestantismo não se restringe ao neopentecostalismo e que este se manifesta também nos ambientes católicos. Sabemos que uma das razões para o sucesso do neopentecostalismo é a promessa de resultados imediatos e personalizados, num mundo em que falharam os grandes projetos e as instituições que os poderiam garantir. Este aspecto ajuda a explicar a relação pobreza/neopentecostalismo. Deixa de fora, contudo, certo tipo de neopentecostalismo de classe média e mesmo de classe alta, presente, como lembrei, tanto no catolicismo quanto no protestantismo. A questão, a meu ver, é que o neopentecostalismo não pode ser restrito a este aspecto da solução imediata dos problemas. Ele tem outras vertentes que podem e devem ser estudadas, como, por exemplo, a individualização, o já referido caráter imediato das soluções, a contínua novidade, a emotividade, entre outros. Estes elementos fazem parte de uma dinâmica religiosa que transcende a questão especificamente socioeconômica. Precisam ser considerados nos planejamentos pastorais.

IHU On-Line - Como a relação entre fé e comunidade pode ser importante para a proposta de ampliar a atuação da Igreja na chamada nova classe média?

Joel Portella Amado - A relação entre fé e comunidade é importante não apenas para a chamada nova classe média. Ela faz parte integrante da experiência cristã e, sem ela, não se pode falar plenamente em cristianismo. Trata-se, a meu ver, de um dos grandes desafios para a Igreja Católica em nosso tempo. As estruturas usuais de vida comunitária não têm apresentado muito fôlego para permitir uma efetiva experiência de comunidade. Algumas novas estruturas têm manifestado certa atratividade, mas ainda carecem de melhor inserção na pastoral de conjunto, na missionariedade e no compromisso sociotransformador. É neste sentido que destaco a importância da tendência às redes de comunidades, assumidas desde a Conferência de Santo Domingo  (1992) e ratificadas pela Conferência de Aparecida  (2007). Estas pequenas comunidades, com relacionamentos diretos, convívio, fraternidade, solidariedade, serviços e ministérios, permitem um salto qualitativo na vivência da experiência cristã, para além de um cristianismo de momentos. Para a chamada nova classe média, não podemos oferecer o mesmo cristianismo de serviços, ainda que sejam serviços atualizados ao tempo atual, como é o caso de certos atendimentos excessivamente voltados para os prodígios e os resultados imediatos e individualizados. Precisamos oferecer a possibilidade de efetiva vida comunitária, abrindo espaço, indicando possibilidades e acompanhamento em meio às crises e aos avanços. Considero muito importante o n. 179  do Documento de Aparecida. Eu o entendo como critério para todas as pequenas comunidades.

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