Edição 357 | 11 Abril 2011

Fórum Mundial de Teologia e Libertação, uma conquista a ser potencializada

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Patricia Fachin

A expectativa do teólogo Erico Hammes é de que o Fórum Mundial de Teologia e Libertação – FMTL possa se inserir com mais intensidade no Fórum Social Mundial – FSM

O conceito de militância “não é mais suficiente para dar conta da problemática” do FMTL, constata Erico Hammes, em entrevista concedida à IHU On-Line. Segundo ele, a continuidade do evento depende do envolvimento de instituições ligadas à temática do fórum. “Pessoas isoladas participam e, embora sejam significativas, não têm representatividade nas suas comunidades ou ambientes de origem. Por isso, é preciso uma articulação mais ampla para que instituições possam se responsabilizar com o fórum e para que ele não seja dependente de participantes isolados, que tenham de se sacrificar para que o evento aconteça”, pontua. 

Na avaliação de Hammes, a inserção do FMTL no FSM pode ajudar teólogos e teólogas a pensar a teologia “com senso de realismo no que se refere aos grandes dilemas mundiais”. Apesar das fragilidades do evento, ele menciona que o evento “é o único espaço de articulação mundial de teologia existente hoje. (...) Essa é uma conquista que devemos potencializar”. Na entrevista que segue, concedida por telefone, ele ressalta também que o encontro conseguiu colocar em pauta temas importantes como a pobreza, as crises financeiras e a relação entre crescimento econômico e desenvolvimento, repercutindo, inclusive, em eventos como o Fórum de Davos.

Erico Hammes é graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora da Imaculada Conceição e em Teologia pela PUCRS. É mestre e doutor em Teologia Sistemática pela Pontifícia Universidade Gregoriana – PUG, em Roma, com a tese Filii in Filio: A divindade de Jesus como evangelho da filiação no seguimento. Um estudo em Jon Sobrino (Porto Alegre: Edipucrs, 1995).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Que avaliação faz do Fórum Mundial de Teologia e Libertação - FMTL que ocorreu em Dacar, Senegal? Em que aspectos este encontro foi diferente dos demais?

Erico Hammes –
Não estive presente no Fórum de Nairóbi, no Quênia, então, não posso fazer uma comparação entre os dois eventos que aconteceram na África. Participei dos Fóruns de Porto Alegre e Belém. A diferença é que em Dacar teve um problema de logística porque o atual reitor da universidade que sediaria o evento não era favorável à realização do FSM. Ele não liberou espaços suficientes para debates, como salas na universidade, e tivemos de improvisar bastante. Outro problema foi a falta de representatividade do pessoal que mora em Senegal. Por uma questão cultural, de se estar em um país muçulmano, os cristãos não participaram de forma significativa e os africanos também não estavam efetivamente presentes.

De outra parte, percebi a sensibilidade atual com a situação das religiões e da própria teologia. Nas religiões, notei uma crescente “pós-religionação”, ou seja, uma crescente realidade pós-religiosa das pessoas. É importante refletir teologicamente acerca desta constatação e observar as implicações e a maneira como se situará a teologia diante disso. Quer dizer, como será a relação crescente da teologia com a religião.
As confissões religiosas presentes não estavam tão preocupadas com as questões de suas próprias igrejas, ainda que houvesse uma tendência da parte de alguns países - nos quais não se têm uma tradição protestante tão forte -, de se ater a ótica da Igreja Católica. Os americanos são mais religiosos no sentido de pensar o cristianismo, os confrontos com a sociedade, na linha de uma teologia pública.
Também percebi a ausência de pessoas importantes como a de Leonardo Boff, Sérgio Torres, Gustavo Gutiérrez. Eles são figuras históricas dos fóruns e, por diversas razões, não puderam participar do último encontro.
Do ponto de vista do conteúdo, a temática a respeito das vidas em plural, ou seja, as vidas perseguidas, ameaçadas de extinção, tanto do ponto de vista ambiental como cultural, marcou bastante.


Organização do fórum

Houve uma preocupação da organização do fórum, de não transformar o evento simplesmente em uma praça de todas as coisas que têm a ver com religiões. Nesse sentido, foram convidadas pessoas que pudessem contribuir com reflexões ou práticas teológicas, e não tivessem simplesmente experiências pastorais avulsas. Isso se refletiu no evento e penso que é positivo porque se pode usar a linguagem teológica de forma mais clara. Obviamente, a esperança era de que o FMTL pudesse estar mais inserido no FSM, e apesar de ele ter sido realizado dentro do espaço do FSM, isso não aconteceu. A expectativa era oferecer contribuições que pudessem alimentar as nossas próprias conclusões na fase final. Esse foi um experimento novo e não deve ser abandonado, embora não tenha tido tanto êxito quanto se esperava. O FMTL deve começar antes do FSM, emergir no fórum e, nos últimos dois dias, fazer um trabalho interno de reflexão a partir da realidade do encontro.


IHU On-Line – A partir da inserção do FMTL no FSM, que balanço faz do diálogo e da interação entre os eventos?

Erico Hammes –
Esse modelo de iniciar o FMTL antes do FSM e terminar no mesmo momento é o ideal. No último encontro, faltou visibilidade em relação ao FMTL. Entretanto, é importante manter essa relação para abordamos também os temas candentes do FSM. Alguns participantes do FMTL conseguiram participar mais do FSM e fizeram uma leitura ampla do que estava acontecendo no evento. Eu estive em um fórum de economia, que abordou questões financeiras. Essas são discussões pertinentes e podem nos ajudar a pensar a própria teologia de uma maneira melhor, com senso de realismo no que se refere aos grandes dilemas mundiais.


IHU On-Line - Qual é o sentido do FMTL para o debate teológico e social? Em que medida as discussões realizadas causam efeito para repensarmos, por exemplo, a relação da Igreja com os pobres, temas candentes como a crise financeira, a fome, a miséria, e também aquilo que os índios aymara chamam de bem-viver?

Erico Hammes –
Os indígenas do México, Bolívia e Peru participaram do Fórum, em Dacar, e isso foi positivo. O Fórum é o único espaço de articulação mundial de teologia existente hoje. Apesar de todas as suas fragilidades, não existe outro momento em que se articulem mundialmente concepções teológicas e isso é, sem dúvida, uma conquista que devemos potencializar.
Existe uma mobilização mundial em relação aos pobres, a qual teve repercussão no Fórum Econômico de Davos. Esse evento não é mais o mesmo depois do FSM. Se o fórum mudou, então, significa que a própria teologia, na medida em que está articulada com esses movimentos mundiais, também tem algo a ganhar. Qualquer teólogo e teóloga que participa do FMTL, ligado ao FSM, têm a possibilidade de articular seu pensamento nesse sentido.

No meu caso particular, desenvolvia um trabalho de pesquisa sobre cristologia e paz. Então, participar desta mobilização mundial e estar presente na África serviu para alimentar meu trabalho de pensar a relação entre teologia e paz para a construção de uma sociedade humana cada vez mais integrada.

É fundamental que a teologia tenha em vista questões de sofrimento, como as que observamos em Dacar. Não pode haver uma boa teologia cristã sem que ela repercuta, de algum modo, o sofrimento e a tentativa de superação, de salvação, de libertação. A necessidade de recuperar o conceito de libertação foi outra questão de destaque no fórum. Cada vez mais, a sobrevivência das sociedades está ameaçada. No Brasil, corremos o risco de ficarmos obcecados por um ufanismo nacional, pelo progresso, e perdemos a sensibilidade com os problemas agudos que, de fato, afetam grande parte da população brasileira.


IHU On-Line - Quais foram as conquistas do FMTL ao longo desta década?

Erico Hammes –
A primeira conquista do FMTL é o fato de ele existir e conseguir sobreviver apesar de todas as dificuldades existentes para articular experiências no âmbito mundial. A segunda vitória é a rede que se conseguiu construir e manter. Hoje, é possível que diversos integrantes tenham contato, nos cinco continentes, por meio de uma secretaria central do fórum. A terceira conquista se refere à produção teológica a partir do evento. São produzidos apenas alguns periódicos coletivos, mas as discussões do evento são colocadas em âmbito mundial, por meio da presença midiática.


IHU On-Line - O senhor vê aproximação entre o FSM, o FMTL e outras iniciativas como a Rio+20?

Erico Hammes –
Não houve uma aproximação explícita nem uma aproximação programática; penso que esse é um desafio. Algumas pessoas ligadas a fóruns mundiais certamente também estarão no Rio+20.


IHU On-Line – O senhor citou uma mudança no Fórum de Davos, mas de que outras formas o mundo mudou a partir do FSM e do FMTL?

Erico Hammes –
A partir do FSM foi necessário incluir dimensões éticas nas políticas internacionais. Analisei os discursos crescentes do Fórum de Davos a partir da participação do FSM. Houve uma abertura para a dimensão religiosa, mas, sobretudo uma explicitação da responsabilidade social da economia mundial de ter de responder às políticas mundiais.

Algumas figuras políticas também estiveram envolvidas. O fato de Lula ter participado no início dos fóruns e, mais tarde, como presidente, não foi inocente.

Em Dacar, embora o presidente africano não fosse uma figura entusiasmada com o fórum, ele teve de tolerá-lo por razões políticas. Vejo o evento como uma forma de influência na própria história mundial. O fato de alguns políticos terem se interessado pelo fórum, serve como uma contribuição para mudanças positivas. O FSM serve como um movimento de vigilância de fronteiras para dizer que existem mais coisas do que simplesmente a economia. Além disso, ele tem a função de indicar a inclusão de determinados temas que, de outro modo, poderiam passar despercebidos.


IHU On-Line - Que temas sociais e teológicos importantes o FMTL ainda não conseguiu abordar?

Erico Hammes –
O FMTL ainda não conseguiu trazer, suficientemente, para a sua reconstrução sistemática as questões sociais implicadas. Ou seja, conseguimos pensar temas no campo da ética ou da moral social, mas não conseguimos refletir sobre questões teológicas acerca de Deus e Jesus Cristo. Os movimentos religiosos mundiais não conseguiram discutir o impacto que isso tem sobre a teologia. Falta um debate mais amplo no que se refere ao diálogo interreligioso.


IHU On-Line - Qual sua perspectiva em relação ao futuro do FMTL? Que papel desempenhará na próxima década?

Erico Hammes –
O futuro vai depender do que se consiga articular hoje. Precisamos de uma renovação interna significativa. Isso faz com que o fórum tenha que pensar como se articular e ser uma presença significativa, mesmo não tendo muitos militantes. Esse conceito de militância não é mais suficiente para dar conta da problemática. É necessário envolver algumas instâncias mais sérias de pesquisas porque ainda há muito freelance no FMTL. Ou seja, pessoas isoladas participam e, embora sejam significativas, não têm representatividade nas suas comunidades ou ambientes de origem. Por isso, é preciso uma articulação mais ampla para que instituições possam se responsabilizar com o fórum e para que ele não seja dependente de participantes isolados, que tenham de se sacrificar para que o evento aconteça. Se isso não acontecer, ele pode morrer ao natural.

 

Leia Mais...

Erico Hammes já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line.

* Comblin e a reinvenção da igreja. Edição 356 da revista IHU On-Line, de 04-04-2011

* Conceito e missão da Teologia em Karl Rahner. Edição 5 dos Cadernos Teologia Pública, de 01-05-2004

Últimas edições

  • Edição 551

    Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

    Ver edição
  • Edição 550

    Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

    Ver edição
  • Edição 549

    Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

    Ver edição