Edição 315 | 16 Novembro 2009

El Salvador. 20 anos depois do assassinato dos seis jesuítas

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Patrícia Fachin | Tradução Benno Dischinger

Para o professor de Filosofia da UCA, Héctor Samour os mártires de El Salvador se converteram em exemplo de esperança para a sociedade salvadorenha

Na avaliação do professor de Filosofia da UCA, Héctor Samour, os mártires de El Salvador conseguiram, com sua morte, acelerar o processo de paz, o que contribui para salvar a vida de muitos cidadãos. Especificamente sobre Ellacuría, assinala que “sua contribuição foi fundamental para propiciar o diálogo-negociação entre as partes em confronto no conflito armado de El Salvador e para encerrá-lo de forma racional e justa”.

Na entrevista que segue, concedida, por e-mail, à IHU On-Line, o filósofo faz uma retrospectiva da sociedade salvadorenha e frisa que “desde a assinatura dos acordos de paz de 1992, pode-se avaliar que muito do que Ellacuría e seus companheiros mártires promoviam em suas análises e em suas ações, como a superação do militarismo, a promoção da democracia e o respeito dos direitos humanos, teve concreções importantes”. No entanto, lamenta, as conquistas das últimas décadas em El Salvador se deram apenas no nível político. “A situação social e econômica da população é precária, aumentou o desemprego e a pobreza. Além disso, o país padece de uma crescente onda onda de violência delinquencial que gera uma grande insegurança em todos os extratos sociais”, informa.

Héctor Samour é graduado em Filosofia pelo Departamento de Filosofia da Universidad Centroamericana José Simeón Cañas de El Salvador (UCA), mestre em Filosofia pela Universidad Nacional Autónoma de México – UNAM, e doutor em Filosofia pela UCA, com uma tese sobre a estrutura do pensamento filosófico de Ignacio Ellacuría. Durante dez anos, foi decano da Facultad de Ciencias del Hombre y de la Naturaleza, da Universidad Centroamericana José Simeón Cañas - UCA. Também foi professor visitante do Swarthmore College, dos EUA, e da Universidad de Granada, Espanha. Autor de Voluntad de liberación: la filosofía de Ignacio Ellacuría (Granada: Comares, 2003), Héctor Samour é coordenador do Programa de Pós-Doutorado em Filosofia da UCA.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Vinte anos após a morte de Ignacio Ellacuría e seus companheiros, como avalia seu legado? Quais são, em sua opinião, as principais conquistas que Ellacuría produziu para a sociedade e a Igreja salvadorenha?

Héctor Samour - Os mártires da UCA que, devido ao seu assassinato, morreram antes do tempo, converteram-se, para muitos de nós, em exemplo, ânimo e esperança e, inclusive, motivo de celebração. Além disso, historicamente, conseguiram, com sua morte, que o processo de paz de El Salvador se acelerasse, contribuindo para salvar um grande número de vidas.

No caso de Ellacuría, sua contribuição foi fundamental para propiciar o diálogo-negociação entre as partes em confronto no conflito armado de El Salvador e para encerrá-lo de forma racional e justa. Sua crítica às raízes do conflito, sua denúncia da repressão dos militares e da falta de liberdades no contexto de uma sociedade desgarrada como a salvadorenha, converteu-se num elemento fundamental na defesa dos direitos humanos dos fracos e excluídos.

Para a Igreja salvadorenha, a contribuição de Ellacuría pode ser resumida em duas frases: profecia e utopia. Profecia enquanto denúncia de tudo aquilo que nega os valores de reino de Deus, e utopia enquanto anúncio de uma nova sociedade e de uma nova civilização que tornem possível uma presença maior de Deus na história.

IHU On-Line - Os sonhos de Ellacuría em relação à justiça social ganharam perspectiva em El Salvador? Em que sentido o martírio dos seis jesuítas e das duas mulheres suscitou a busca por melhores condições de vida para o povo salvadorenho?

Héctor Samour - Se olharmos em retrospectiva tudo que sucedeu em El Salvador desde a assinatura dos acordos de paz de 1992, pode-se avaliar que muito do que Ellacuría e seus companheiros mártires promoviam em suas análises e em suas ações, como a superação do militarismo, a promoção da democracia e o respeito dos direitos humanos, teve concreções importantes. As maiores conquistas nas últimas décadas em El Salvador se deram em nível político: retirada dos militares da vida política, pluralismo político, respeito dos direitos civis e políticos, especialmente da liberdade de expressão e de reunião. Certamente ficam pendentes os problemas sociais e econômicos, especialmente a pobreza e a exclusão de grandes segmentos da população, e a desigualdade social e econômica, que são fatores importantes que incidem diretamente na conflitividade e violência social que se observa atualmente na sociedade salvadorenha.

Muito do que os mártires jesuítas promoviam com sua práxis e seu pensamento influiu no desenvolvimento social e político em El Salvador, começando com a assinatura dos acordos de paz e o subsequente processo de democratização que se abriu a partir da década dos anos noventa. Não há agora melhores condições de vida do ponto de vista social e econômico, porém, há ao nível político.

IHU On-Line - Qual é a importância dos mártires para a Igreja latino-americana?

Héctor Samour - Os mártires continuam sendo um exemplo do que é ser uma Igreja encarnada na história concreta de um povo, buscando realizar os valores do reino em sociedades divididas e contrapostas a partir da opção pelos pobres e excluídos. Sua proposta de um cristianismo libertador continua sendo vigente em sociedades pobres como as nossas e que necessitam urgentemente de mudanças fundamentais para poder construir uma convivência social justa, democrática e ambientalmente sustentável.

IHU On-Line - Nos anos 70, a Igreja salvadorenha desempenhou uma função fundamental no despertar político dos movimentos sociais, dos camponeses e trabalhadores. Que análise você faz da conjuntura eclesial de El Salvador, 20 anos após a morte dos jesuítas?

Héctor Samour – Atualmente, a Igreja católica, especialmente a hierarquia eclesiástica, tendeu para a direita e abandonou o espírito profético de monsenhor Romero e dos jesuítas assassinados. Os últimos dois arcebispos adotaram posturas conservadoras e se dedicam à abordagem de temas e problemas que nada têm a ver com o que realmente se passa na realidade social salvadorenha. Temas como a proibição do aborto, o uso de anticonceptivos e os matrimônios gays são seus preferidos. Eles se esqueceram da opção pelos pobres e se dedicam a promover agendas de grupos católicos muito conservadores como o Opus Dei,  os Legionários de Cristo  e de grupos de poder econômico. Sua voz, em lugar de ser profética e concreta, de anúncio de uma nova realidade mais próxima do reino de Deus, tornou-se abstrata, isto é, sem nenhuma relação com os reais problemas de que padecem os mais pobres e excluídos, que são a maioria em nossa sociedade.

IHU On-Line - Qual é atualmente a realidade política e social de El Salvador? Existe espaço para ações em relação com os direitos humanos?

Héctor Samour – El Salvador está sendo governado por um partido e um presidente de esquerda,  porém numa orientação mais social-democrática muito parecida com a do presidente Lula. Os partidos de direita controlam a assembleia legislativa, e o governo do presidente Funes tem que negociar com esses partidos para poder passar leis que propiciem as mudanças de que necessita o país para aprovar os empréstimos externos e para implantar um plano anticrise que ataque a grave crise econômica. A situação social e econômica da população é precária, aumentou o desemprego e a pobreza. Além disso, o país padece de uma crescente onda de violência delinquencial que gera uma alta insegurança em todos os extratos sociais.

Neste contexto, há espaço político para a defesa e promoção dos direitos humanos, no entanto, as instituições ainda são fracas e o contexto social e econômico dificulta a realização de ações a favor deles.

IHU On-Line - Como a experiência de Ignacio Ellacuría ajuda a pensar a criação de uma civilização melhor em termos humanos e libertadores?

Héctor Samour – Ignacio Ellacuría, há vinte anos, assinalou algo que agora se torna mais evidente: que a atual civilização do capital, a civilização ocidental, não é ética, porque não é universalizável. Sua universalização acarretaria uma catástrofe ambiental de proporções inimagináveis. Trata-se de uma civilização que está levando a humanidade e o planeta à sua destruição. Por isso é necessário, dizia ele, reverter a história, subvertê-la e lançá-la em outra direção. Ou seja, para uma nova civilização que ele chamou uma civilização da pobreza na qual a primazia não tenha o capital senão o trabalho humanizador e na qual se torne possível a satisfação das necessidades básicas para todos e o respeito e a preservação da diversidade cultural do planeta que hoje está sendo esmagada pela globalização da cultura popular norte-americana.

IHU On-Line - Qual é a atualidade de Ignacio Ellacuría no debate filosófico contemporâneo?

Héctor Samour – Em Ellacuría, encontramos uma proposta filosófica que, sendo crítica da modernidade, não cai nas posturas conservadoras das filosofias pós-modernistas. Ele propõe enraizar a reflexão filosófica na e a partir da práxis histórica, tratando de pôr no centro da reflexão filosófica os graves problemas de que padecem as maiorias da humanidade. Neste sentido, para ele, a tarefa da filosofia é dupla: de crítica e de criação. De crítica às ideologias e ideologizações que encobrem a realidade, e de criação e de proposta de soluções aos graves problemas da realidade histórica, sobretudo daqueles que afetam as maiorias populares e os povos oprimidos.

IHU On-Line - Como o pensamento de Ignacio Ellacuría contribui para construir alternativas à crise capitalista e social?

Héctor Samour – Ellacuría desenvolveu uma crítica radical ao capitalismo há mais de vinte anos, porém é uma crítica que hoje, com a atual crise econômica e financeira, adquire uma tremenda atualidade e vigência. Os dados nos indicam que a crise atual da sociedade capitalista é profunda e que não se resolverá deixando a solução aos puros mecanismos de mercado. São necessárias soluções pós-liberais, nas quais o Estado volte a adquirir um papel preponderante, o qual havia sido negado pelo pensamento neoliberal. Além disso, é preciso assinalar a grave deterioração ecológica do planeta, provocada principalmente pelos padrões de consumo dos países ricos. Isto leva à necessidade, já assinalada por Ellacuría, de substituir radicalmente a atual civilização por outra que seja mais equitativa, democrática e ambientalmente sustentável. A tarefa hoje é de imaginar e de construir essa civilização, porque nada nos garante que, com os dinamismos atuais, o mundo será melhor. Necessita-se, neste sentido, de uma práxis histórica de libertação, como apontava Ellacuría: uma práxis histórica que responda aos graves problemas da realidade histórica do presente e cujos sujeitos serão aqueles que padecem dos processos alienantes e opressivos da atual civilização do capital em todo o planeta.

Leia mais...

>> Sobre Ignacio Ellacuría e os mártires de El Salvador, confira outras entrevistas e informações publicadas nas Notícias do Dia do sítio do IHU.

• Mártires em El Salvador: uma memória que continua forte 20 anos depois. Reportagem de Moisés Sbardelotto. Publicada em 9-11-2009;

• Ignacio Ellacuría – Um pensador, negociador e cristão. Artigo de Ana Formoso, publicado na revista IHU On-Line número 314, de 9-11-2009;

• Ignacio Ellacuría, um reitor assassinado. Vinte anos depois. Entrevista com Francisco das Chagas. Publicada em 7-11-2009, nas Notícias do Dia;

• Dom Romero e tu: Carta de Jon Sobrino a Ignacio Ellacuría. Publicamos a carta de Jon Sobrino em 28-10-2009;

• Inteligência, compaixão e serviço. Celebrando o martírio de Ignacio Ellacuría e companheiros. Entrevista com Hector Samour, publicada nas Notícias do Dia, em 16-11-2007.

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