Edição 299 | 06 Julho 2009

Literatura, Teologia e Antropologia: um diálogo sobre o ser humano

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Patricia Fachin

Para que Teologia e Literatura possam dialogar, é preciso um terreno comum. A Antropologia pode ser esse caminho, sugere o professor Antonio Manzatto, da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção

Sem serem transformadas, Teologia e Literatura se aproximam porque ambas têm o humano como centro de seu estudo, aponta o teólogo Antonio Manzatto, um dos iniciadores deste assunto no Brasil, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Ele argumenta que a “virada antropológica do século XX, sobretudo depois de Rahner, colocou a Teologia nesse caminho”.
Segundo Manzatto, a Literatura é um dos meios para que a Teologia conheça a realidade do ser humano. “A aproximação com a Literatura brasileira faz com que a Teologia conheça o universo no qual se move o ser humano brasileiro, e então o conheça melhor”, argumenta.

Manzatto é doutor em Teologia, pela Universidade Católica de Lovaina, Bélgica, com a tese Teologia e Literatura. Uma reflexão teológica a partir da antropologia contida nos romances de Jorge Amado (1993). Além de lecionar na Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo, ele também é professor convidado da Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lovaina.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - De que maneira Teologia e Literatura se aproximam pela Antropologia? Que relações o senhor estabelece entre essas três áreas?

Antonio Manzatto - Teologia e Literatura são dois mundos diferentes. Existe, claro, proximidade entre elas, e mesmo algum parentesco, talvez, por exemplo, pelo fato de que elas trabalham com palavras. Aliás, em Teologia Cristã, o centro é habitado pela Palavra encarnada. Há também a questão das narrações, presentes na Literatura e na Teologia, já que ambas as têm no seu âmago. Mesmo a questão da beleza pode aproximá-las, uma vez que a Teologia também se interessa pelo belo e o contempla, reconhecendo aí um possível caminho de acesso a Deus. Sobretudo a poesia contribui nesse sentido, até porque nela sempre foi vista uma certa possibilidade religiosa. Enfim, são muitos os pontos de proximidade entre uma e outra. Mas elas trabalham, inclusive, de maneiras diferentes: a Teologia é ciência, e quer sê-la; a Literatura é arte. Isso as constitui, e de forma diferente. Existe, portanto, também, uma grande distância entre uma e outra. Aproximá-las é um risco, pois se pode atentar contra a identidade de uma e outra.

A Literatura, por exemplo, não pode se resumir a ser veículo de transmissão de uma mensagem pré-definida. Não teríamos mais arte, mas apenas o interesse de apresentar de forma, digamos, lúdica, uma mensagem que poderia ser afirmada de outras maneiras, mas o fazemos pela Literatura por ser mais fácil de “fazer passar a mensagem”. É o que os meios de comunicação atuais fazem pela publicidade. Nesse caso, a Literatura não seria mais Literatura, mas mera peça de propaganda.

Por outro lado, a Teologia não é apenas expressão ou transmissão de tradições; ela quer ser crítica, racional, e por isso trabalha com conceitos, ainda que imprecisos, e tem como referência o dado da fé. A Literatura, em suas múltiplas formas de apresentação do mundo, pode chegar a transformar, até mesmo falsificar, as afirmações de fé, pois a arte se afirma pela liberdade de imagens. Se fosse assim, já não teríamos Teologia, mas simples afirmações ilusórias, ficções no sentido antigo da palavra.

Daí é preciso pensar em aproximar Teologia e Literatura sem transformar uma na outra, mas respeitando suas formas de ser, que são diferentes. Falo em aproximação porque isso vem antes do diálogo, que se estabelece na sequência, após a afirmação da identidade de cada uma.

Para que se aproximem e dialoguem, é preciso um terreno comum. Podem existir vários, diversas formas, então, de reunir Teologia e Literatura. Aqui faço a opção pela Antropologia. De um lado, porque me parece que uma e outra têm o humano como centro: a virada antropológica do século XX, sobretudo depois de Rahner,  colocou a Teologia nesse caminho. A Literatura, por sua vez, sabe, depois de muito tempo, que seu assunto é o humano. Os discursos diferentes da Teologia e da Literatura encontram-se ao pensar a significação do humano, e creio que, então, podem dialogar sobre e a partir daí.

IHU On-Line - Em que sentido a Antropologia e a Literatura interferem e influenciam o diálogo teológico com a sociedade?

Antonio Manzatto - Há que se ver como a Teologia se coloca no diálogo com a sociedade, o mundo, as artes, as ciências. Há que se pensar mesmo na questão da linguagem. Aliás, nesse sentido, temos problemas, e não poucos, com a linguagem teológica, pois, na maioria das vezes, ela é metafórica. Aliás, a linguagem metafórica é própria da Literatura, sem que se constitua em seu monopólio. A Teologia, o sabemos bem, é ciência “à sua maneira”, no sentido de não seguir o parâmetro de cientificidade das ciências ditas exatas e de utilizar a linguagem conceitual de forma não simplesmente descritiva. Estamos acostumados, por exemplo, a dizer que “Deus é pai”; mas isso é uma metáfora, da mesma forma que dizer que “os rios são as veias da terra”. Portanto, há que se ver a questão da linguagem teológica em sua aproximação com as artes e as ciências.

E é preciso ver como a Teologia se coloca em um possível diálogo com o mundo e a sociedade. Não foram poucas as vezes na história em que a Teologia, ou seu correspondente discurso religioso, se colocaram acima dos demais, ditando, ou querendo ditar, ao mundo, o tipo de comportamento que deveria ser adotado, e as ciências o tipo de conhecimento que devia ser cultivado. Mesmo na questão das artes, não é tão distante assim no tempo o hábito de colocar obras no “índex”, pois não se conformam à maneira religiosa de pensar. Não é preciso muito esforço para lembrarmos de filmes, por exemplo, condenados pela religião, porque atentam contra suas “verdades fundamentais”. E isso não é monopólio do Cristianismo.

Assim, quando falamos em diálogo da Teologia com a sociedade é preciso perguntar como ela se coloca nesse diálogo. E também o reverso da medalha, ou seja, como os outros campos sociais, das ciências e das artes, se colocam no diálogo com a Teologia. Porque já houve tempos na história em que, simplesmente, não se quis ouvir o discurso religioso ou teológico, acusando-o de falso, arbitrário e outros adjetivos negativos. Até muitos religiosos negaram-se a um verdadeiro diálogo com a sociedade com a desculpa de que “não querem mesmo nos ouvir”. Aliás, atualmente, se procede de maneira análoga quando se permite que a religião ocupe espaço nos meios de comunicação ou na universidade, optando por guardá-la dentro de certo “regionalismo hermenêutico”. Ou seja, interessa ao religioso, mas não à sociedade.

A Teologia, que é o nosso caso, não precisa ditar ao mundo como ele deve ser, mas também não precisa se calar. Ela pode participar do diálogo social como parte interessada em construir o humano e a sociedade. Existem outros discursos, provindos de outros horizontes, que também participam desse debate. A Literatura pode ser um destes discursos, e então configurar-se como interlocutora da Teologia, já que ela apresenta uma visão de mundo, assim como a Antropologia, e outros mais.

IHU On-Line - Durante séculos, a arte é utilizada pela Teologia para transmitir uma mensagem. Como, no mundo contemporâneo, a Teologia pode se utilizar da Literatura para se comunicar com a sociedade?

Antonio Manzatto - É verdade, todas as artes o foram: a arquitetura, o cinema, a pintura, etc. Podem, talvez, continuar sendo. Temos apreço por uma Literatura, digamos, religiosa: poemas que são verdadeiras orações, narrativas edificantes, e assim por diante. O mesmo acontece com outras artes, como o cinema, a televisão, etc. Ao mesmo tempo em que nos alegramos com as artes com cores religiosas, nos indignamos com aquela que é mais “mundana”. Sim, porque poemas não falam só de “enlevação da alma”, mas falam de outras coisas também: do corpo da amada, do sofrimento dos negros, da pedra no meio do caminho. A arte é tanto mais arte quanto mais gratuita for, ou seja, quando não for elaborada buscando outros objetivos que não fosse a simples admiração pela beleza. Assim, arte não se define pela mensagem. Daí que a Literatura não poderá ser vista apenas como veículo de transmissão de uma verdade já definida de antemão, ainda que seja uma verdade da fé.

Embora reconheça que pode haver certa legitimidade em utilizar a arte para se comunicar com a sociedade, creio que este não é o bom caminho para uma aproximação entre Teologia e Literatura. Esta não é serva daquela, nem vice-versa. Um discurso teológico travestido de literário será má Teologia e péssima Literatura.

IHU On-Line - Em que sentido os romances brasileiros de modo geral e, em especifico, a obra de Jorge Amado, ao apresentar o cotidiano do homem pobre e subdesenvolvido, auxiliam a Teologia a compreender a realidade, a essência do ser humano e a transformar esses históricos?

Antonio Manzatto - A arte é expressão do humano. E a Literatura, como arte, sempre o será. Não é apenas expressão de uma convicção, de um pensamento ou de uma ideologia, mas expressão do ser humano vivo. É o humano que aparece na Literatura, quaisquer que sejam os estilos ou histórias. Quando lemos uma obra literária, qualquer que seja, inclusive o Cântico dos Cânticos, o que percebemos é uma “antropofania”, se posso assim dizer. Há o humano afirmado e construído na obra literária. É assim também com os romances brasileiros, os de Jorge Amado,  por exemplo, ou outros autores nacionais.

A Teologia pode, então, conhecer esse ser humano. Ele não será muito parecido com aquele que encontramos pela rua, mas também não será muito diferente. A Literatura trabalha com imagens e com o imaginário, mas sempre estará em relação com o seu contexto: toda obra é contextualizada não apenas na vida do autor, mas na vida da sociedade. Os romances nacionais, portanto, apresentarão o ser humano brasileiro: o que é e o que não é, o que quer ser e o que é chamado a ser, o que pode e o que deve ser.

Onde a Teologia vai conhecer o ser humano brasileiro? Talvez na rua, talvez nas análises científicas, talvez nos ensaios conceituais ou nas Igrejas, mas, com certeza, na Literatura. A aproximação com a Literatura brasileira faz com que a Teologia conheça o universo no qual se move o ser humano brasileiro, e então o conheça melhor. Claro que a Literatura, os romances especificamente, não constitui a única possibilidade de aproximação e de compreensão desse ser humano, mas é um caminho possível. Dizer que é possível aproximar Teologia e Literatura não é dizer que é preciso fazê-lo, embora sempre se enumere o quanto uma e outra teriam a ganhar com tal aproximação.

IHU On-Line - Como a imagem de homem apresentada pela Literatura Amadiana constrói uma concepção de Deus? E que concepção é essa?

Antonio Manzatto - Aqui realmente estamos no centro da questão que interessa à Teologia. Por que, finalmente, fazer a aproximação com a Literatura? O que se tem a ganhar com isso? A Teologia faz um discurso a partir da fé e sobre Deus; se já temos a Revelação, os estudos e ensaios teológicos e as manifestações do magistério, o que vamos fazer com a Literatura? Não será coisa de desocupados? Claro, todo mundo gosta de ler alguma obra literária nas férias, ou nos momentos de descanso, mas fazer Teologia com isso? Pois bem. Claro que o assunto da Teologia é e sempre será Deus e sua Revelação vistos a partir da fé. Não há que mudar isso. A aproximação com a Literatura deverá, então, contemplar essa questão para que possa interessar à Teologia. Mas o interesse não será, primeiramente, pelas obras literárias que já têm elementos teológicos. Histórias sobre padres, bispos, igrejas, santos, ou sobre pecados e revelações não terão tanto interesse para a Teologia, simplesmente porque elas são influenciadas pela Teologia, pelo pensamento religioso. Tal pensamento, o encontramos diretamente, digamos, dentro da própria Teologia, sem que seja preciso fazer o desvio pela Literatura para o encontrarmos. Daí que o interesse será maior pelas obras “profanas” ou mesmo “pagãs”. Qual a concepção de ser humano que se encontra nessas obras? Nas religiosas a gente já sabe: é a compreensão religiosa; mas e nas outras?

Aqui chegamos na compreensão de ser humano, que chamo de Antropologia. Mas não é esse propriamente o terreno da Teologia, mas sim aquele de Deus. E como chegar até lá? Ora, a tradição cristã afirma Deus revelando-se na história, no ambiente humano, em situações humanas, no ser humano. O caminho da revelação de Deus é o próprio humano: “Felipe, quem me viu, viu o Pai!” A questão é, então, ver a qual Deus corresponde aquela “imagem e semelhança” que é o ser humano apresentado na Literatura; ou, dito de outra maneira, qual a compreensão de Deus possível a partir daquele humano apresentado pela Literatura, e se isso ajunta algo àquilo que podemos conhecer de Deus ou já conhecemos pela Revelação cristã.

Esse processo não é diferente do que aquele que fazemos quando lemos a Escritura, por exemplo. Ali também nos deparamos com obras literárias que falam do humano, de sua vida e de suas situações, e do Deus que pode ser conhecido a partir dali.

IHU On-Line - A obra de Jorge Amado ainda exprime a realidade brasileira e os caminhos teológicos seguidos no Brasil?

Antonio Manzatto - Claro que Amado, em suas obras, não se perguntava muito pelos caminhos teológicos trilhados no Brasil, mas sua obra, incontestavelmente, retrata a realidade e o povo brasileiro. Sim, sua obra é de determinado tempo e contexto, mas tem características de “universalidade”. Só pode ser universal aquilo que é particular, disso sabemos bem. Amado sabe captar a “alma brasileira” a partir de suas histórias baianas, e daí afirmar verdades humanas que são universais. Sendo assim, sua obra permanece atual, e continua sendo estudada por tantos e tantas que querem conhecer melhor o “jeito de ser” nacional.

IHU On-Line - Quais as possibilidades e limitações da Teologia, hoje, no sentido de renovar a fé dos cristãos?

Antonio Manzatto - Claro que a Teologia tem também uma dimensão missionária. Ela não é simples elucubração mental, nem tem como finalidade uma satisfação narcisista de se ver bela ou apologeticamente defender suas posições. Seu discurso é também missionário, sem ser proselitista, na medida em que dá “as razões da esperança”. É bem esse o trabalho teológico, as “razões”. Trata-se, pois, de um discurso racional, diferente de outros discursos religiosos que podem ser simplesmente emocionais ou de outra ordem. A Teologia parte da fé e quer ser sua compreensão. E creio que aqui reside sua força: ajudar os crentes a entender melhor o que creem para crerem mais e melhor. Mas a Teologia não é o único discurso religioso, e nem o Cristianismo é a única religião presente no mundo atualmente.

Creio que, para ser Teologia e para servir a Igreja, ela deverá continuar a ser crítica, inclusive crítica de si mesma. Sua função não é a de simplesmente repetir as verdades cridas, mas explicitar-lhes o sentido, inclusive o vivencial. Afirmar o que é absoluto e relativizar os relativos, para que não aconteça de se absolutizar o relativo, o que seria idolatria.

IHU On-Line - Podemos falar em pós-metafísica? Nessa nova perspectiva, qual é o papel da Teologia, da Literatura e da Antropologia?

Antonio Manzatto - Todo discurso de “pós” é meio perigoso, porque não se tem claro do que se fala. Pós-modernidade, pós-metafísica, pós-cristãos, a que nos referimos com esse pós? Ao conjunto ou a certas compreensões? Quando se fala em pós-metafísica, falamos em “não ter nenhuma metafísica” ou de ultrapassar “certa compreensão de metafísica”? Isso é, sobretudo, importante quando se começa a falar em pós-cristianismo: é ultrapassar certa historicização do cristianismo ou qualquer cristianismo?

De qualquer maneira, é verdade que, no Brasil especificamente, e na América Latina de maneira geral, não tivemos na história grandes filósofos ou grandes metafísicos. A visão de mundo dos brasileiros não é expressa através de sistemas filosóficos, como é o caso da Europa, mas através de obras literárias. Temos, sim, grandes literatos, poetas e romancistas, contadores de histórias de muito talento. Nessas histórias aparece o ser humano brasileiro, que pode ser caminho da Revelação de Deus. Vale a pena, então, debruçar-se sobre essas histórias, para conhecer melhor esse Deus e poder anunciá-lo.

Leia mais...

>> Teologia e Literatura já foram assuntos de destaque em outra edição da IHU On-Line. Elas estão disponíveis no sítio do IHU.

* O belo e o verdadeiro. A tensa e mútua relação entre literatura e teologia. Edição número 251, de 17-3-2008.

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