Edição 279 | 27 Outubro 2008

Invenção - Fabrício Marques

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André Dick

Editoria de Poesia

O poeta Fabrício Marques nasceu em Manhuaçu (MG), em 1965. Publicou, na área de poesia, Samplers (Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000) e Meu pequeno fim (Belo Horizonte: Scriptum, 2002). Como crítico, publicou Aço em flor: a poesia de Paulo Leminski (Belo Horizonte: Autêntica, 2001) e Dez conversas (Belo Horizonte: Gutenberg, 2004), este apresentando entrevistas com vários poetas brasileiros contemporâneos.

Se em Samplers, o diálogo mais evidente é com Leminski e com a poesia marginal, no uso elíptico e bem-humorado dos versos – lembrando-se que Fabrício estudou o poeta paranaense –, Meu pequeno fim, embora também musical e sintético em grande parte, já mostra uma faceta com estruturas mais variadas. Por exemplo, em “A tartaruga tartamuda”, Fabrício escreve: “deixem passar, abram alas amiúde / à tartaruga que, de ruga em ruga, / só pede calma ao tempo, tartamuda, / pra aprender a envelhecer dentro / da juventude, de ruga em ruga”. Já em “Encantamento pelo samba”, se faz presente o mesmo traço labiríntico de sons presente em Leminski, mas com um corte mais denso: “a poesia está com tudo / e não está prosa / / a poesia / não tem pressa / não tem prazo / não tem glosa / / a poesia / está em ramos / está em rosa / / rima petrosa / texto veludo / escrita porosa / / quem / por acaso / mantém / acesa / a brasa / / e vibrando / a brisa / da história / / prima / por ser / vazada / de / proeza / e glória / / a poesia / está em tudo / e não é prosa”. Nesse poema rápido e sugestivo, Fabrício, de forma metalingüística, se refere não só a Leminski (na mistura entre poesia e prosa), mas a Guimarães Rosa e Dante (quando fala nas rimas petrosas). De modo geral, aliás, Fabrício estabelece um diálogo entre os poetas, como no poema “Murilo Mendes encontra Henri Michaux”: “- Meu nome é Murilo, / mas pode me chamar / de abismo com espáduas. / /- Também sou carregado de enigmas. / Movimento no movimento, / salto no Nada”. Nesse caso, Fabrício estabelece uma definição do poeta mineiro e do poeta belga por meio de versos sintéticos.

Sentido menos musical, de perda

Lado a lado com essa vertente mais musical e bem-humorada, há uma poesia de Fabrício com um sentido menos musical, de perda, como em “Poema teleológico” (d’après Dante Milano): “De onde você veio / Há uma coisa branca / De carne, de luz. / / Pra onde você vai / Há uma noite funda / Fria e sem Deus. / / De onde você veio / Há talvez um seio, / Talvez um ventre; / / Talvez um braço / Onde repousar, / Pra onde você vai. / / Nenhum problema filosófico / De onde você veio; / Há uma gruta / Pra onde você vai. / / Há o fim do mundo de onde você veio, / Há uma praia deserta (tudo é exílio) / pra onde você vai. / [...] / Há luzes brilhando / Com intensidade tamanha / Que não consigo mais ver / De onde você veio / Pra onde você vai”. Ou em “Posso estar errado”, que mostra uma harmonia entre o dia e a noite: “Posso estar errado, / Mas há uma hora / Em que os contrários se conciliam / / ‘extremos / chamando extremos na distância’ / / Lá onde luz e treva são sinônimos / / Início e fim / trocam de lugar / / claro-escuro / branco breu / dia noctâmbulo / rir dorido / / Posso estar errado”. Ou em “Reverberação”: “um estampido / que arromba um domingo de chumbo / no mundo / / nesses dias / em que até o maior triunfo / soa como perda”. Neste, a sonoridade das palavras (“chumbo”, “mundo” e “triunfo”, por exemplo) aparecem para acentuar a vinda da “perda” – e a perda da sonoridade. Tais poemas, também, podem ser vistos como mais “prosaicos” (com rigorosas aspas), mas mantêm o traço da depuração.

Fabrício enviou dois poemas inéditos à IHU On-Line. “Os sinos” dialoga com a poesia de Manuel Bandeira, enquanto “Fôlego-fátuo” (expressão extraída de Waly Salomão) apresenta um aumento progressivo de versos, como se o sujeito pelo qual o poeta se expressa, pouco a pouco, fosse adquirindo mais respiração, em meio a um estado de vida crítico. O interessante, com isso, é que cada número do fragmento, no caso, corresponde ao número de versos.

 

 

OS SINOS

Nem bem a banda nova vai
E a velha guarda do samba vem

Nem bem estrelas desabam de Belém
Quanta maravilha por um triz chega de trem

Nem bem o sol soberano
Despeja o seu frescor recém

Nem bem soberana a lua
Frescor despeja também

Nem bem a cidade inteira dorme
Oferto o melhor que o dia tem

Nem bem você chega
Meu coração brilha e badala bem

Badala na balada e brilha além
Por você por mais ninguém

Nem bem... Meu bem...
Meu bem... Nem bem...

 

FÔLEGO-FÁTUO

1.
Respiro por aparelhos

2.
O corpo em desacordo com o dia
Este é o meu tempo: não tenho palavras

3.
Respiro por empréstimo,
Ar alheio que se despede
Ainda úmido de sua respiração

4.
Respiro em mão única
Numa só direção
Idéias se vão
Por entre aléias

5.
Respiro por um triz:
O sol esplende diante do passado
aqui presente. Mas eu não sou o sol: em volta de mim
luzes se cansam de ser luzes
porém não oferecem outra condição de existência

6.
Respiro fora da raia, sem minha presença
E a festa começa
Amigos se reúnem
Uma casa se ergue
Sem minha presença
O passado ainda está por vir

7.
Respiro por sonhos,
Os sonhos adernam pra luz,
A luz resiste num fio,
O fio percorre a cidade,
A cidade não tem janelas
A cidade está morta,
A cidade está viva

8.
Respiro à margem, do lado de fora
onde tudo é a flama do incontido.
Respiro por precaução
Entre vizinhos que mal se conhecem
Lento entranhar-se entre estranhos.
Respiro em surdina, na cidade que se abre
E que se fecha, e a cidade morta
restaure a cidade viva; mãos acenam das janelas

9.
Respiro por fendas
Vou pela sombra das sombras
Entro nas brechas, nas fímbrias que alertam:
Aqui a alegria é quase um milagre
Ninguém distingue migalha de tesouro.
Respiro em falso, e mesmo sabendo
que te querendo eu ia ser feliz
Mesmo assim
Te quis

10.
Da casa da palavra à terra à vista
De chuva desabrida a sol a pino
Em cada nuvem em cada lenço
Em cada coisa da cidade, furiosa,
Respiro por aparelhos, dulçor sem-ar
e canto e danço e silencio –respiro
mesmo na falta de ar, tempos difíceis-
é só um arquejo
um sopro apenas
mas ainda respiro

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