Edição 279 | 27 Outubro 2008

A luz da morte ilumina aquilo que é essencial

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Márcia Junges

O distanciamento criado em torno da morte revela a falta de comprometimento com nossa existência. Devemos retomar nosso projeto de vida como autêntico e único, com responsabilidade, reflexão e cuidado, afi rma Sofi a Dreher

“Educar as pessoas para a morte não é um movimento de formar pessoas temerosas e horrorizadas frente a ela, mas sim de retirar as pessoas da inércia em que vivem e fazê-las ver aquilo que é essencial, que urge ser cuidado, suas próprias vidas. Retomar as rédeas de suas vidas requer autenticidade, responsabilidade, reflexão e cuidado”, reflete a musicoterapeuta Sofia Dreher, na entrevista exclusiva a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line. Segundo ela, “podemos entender o evento da morte como um processo de crescimento quando somos confrontados com a nossa finitude e quando esse evento nos chama a reflexão sobre a nossa existência”. Infelizmente, a morte passou a ser um tema proibido, e as pessoas calam sobre ela, exceto quando esta se torna um “evento midiático”. Dreher analisa, também, o culto à beleza e juventude, que tentam cada vez mais nos distanciar da morte.

Bacharel em Musicoterapia pela FAP-PR, Dreher é especialista em Comunicação e Semiótica: teoria e crítica da sociedade de informação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Tem mestrado em Filosofia pela Unisinos, com a tese Sobre a dignidade humana no processo do morrer. Além disso, leciona no Bacharelado em Musicoterapia na Escola Superior em Teologia (EST) e atua clinicamente nas cidades de São Leopoldo, Sapucaia e Novo Hamburgo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Por que as pessoas têm tanto medo da morte?

Sofia Cristina Dreher - Assim como o sexo era considerado um tabu em tempos atrás, hoje a morte passou a ser um tabu. As pessoas não ousam pronunciar o seu nome e àqueles que tentam introduzir o assunto sobram represálias. Salvo quando a morte se transforma em um evento midiático. Falar desse evento é mais fácil precisamente porque se trata da morte de um outro, de um estranho, e só contribui para uma maior banalização da morte. No entanto, falar de nossa própria finitude é dialogar com a nossa própria existência. Vivemos em tempos de culto à beleza e à eterna juventude. Fazemos de tudo para aparentarmos jovialidade e distanciarmos o evento da morte. Esse distanciamento que criamos sobre a constatação de que somos seres finitos também se reflete numa falta de comprometimento com a vida. Existe a responsabilidade de se ter um projeto de vida autêntico e único e que possa dar um sentido as nossas vidas, bem como de um prazo para executá-lo. O medo da morte provém justamente dessa constatação de que a nossa subjetividade perde sentido no evento da morte. Levamos uma vida inteira para construirmos uma identidade, uma subjetividade e de repente somos todos igualados, precisamente porque todos morremos um dia.

IHU On-Line - No caso de doentes terminais, qual é a justificativa em manter a pessoa viva se a morte virá com certeza?

Sofia Cristina Dreher – Primeiramente, se torna importante esclarecer que a decisão em manter o doente terminal ligado a aparelhos ou não é tomada num diálogo conjunto entre equipe médica e familiares. Para que essa discussão possa dar início, o paciente deve se encontrar fora de possibilidades terapêuticas (FDP), ou seja, quando não existe mais possibilidade de retrocesso da doença ou do quadro instalado. A partir desse entendimento e consentimento dos familiares, entra em cena um outro tipo de paradigma da saúde, não mais o pautado na cura, mas sim no cuidado. O fato desse paciente não precisar mais de procedimentos invasivos e que só prolongam o evento da morte iminente não significa que ele não precise mais de cuidados médicos. A dor precisa ser controlada, e o apoio emocional e espiritual ganham força. Entramos, então, nos Cuidados Paliativos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), Cuidado Paliativo é o cuidado ativo total dos pacientes cuja doença não responde mais ao tratamento curativo. O controle da dor e de outros sintomas e o cuidado dos problemas de ordem psicológica, social e espiritual são o mais importante. O objetivo do cuidado paliativo é conseguir a melhor qualidade de vida possível para os pacientes e suas famílias.

IHU On-Line - Pode-se falar em morrer dignamente? O que seria isso?

Sofia Cristina Dreher - Morrer dignamente significa deixar a vida seguir o seu curso normal, ou seja, a morte no seu tempo certo, sem abreviá-la (eutanásia) ou prolongá-la (distanásia). Esse é o entendimento da ortotanásia. Quando o doente terminal se encontra fora de possibilidades terapêuticas, precisamos evitar que a obstinação terapêutica em manter a vida artificialmente seja introduzida. Da mesma forma, precisamos estar muito atentos na evolução do quadro clínico e termos a certeza de que aquele paciente se encontra fora de possibilidades terapêuticas, evitando assim uma abreviação da vida. Dois personagens de nossa história recente nos deixaram exemplos sobre o respeito perante a constatação da sua própria morte, bem como pela recusa de tratamentos fúteis.  Mário Covas,  ainda enquanto governador do estado de São Paulo, promulgou uma lei estadual para regulamentar o pedido de recusa de tratamentos fúteis. Na artigo 2º da lei de n. 10.241, de 17 de março de 1999, consta que: são direitos dos usuários dos serviços de saúde no Estado de São Paulo: XXIII – recusar tratamentos dolorosos ou extraordinários para tentar prolongar a vida; e XXIX – optar pelo local de morte. Assim como Mário Covas, o Papa João Paulo II  também se recusou a receber os tratamentos extraordinários e optou por morrer na sua casa, longe do ambiente frio e impessoal de um hospital. O exemplo da recusa de tais tratamentos, bem como do respeito pela decisão do sujeito de querer morrer em sua casa, vai ao encontro do contexto da ortotanásia. O prefixo grego ortós quer dizer correto, ou seja, é a morte digna, sem abreviações desnecessárias e sem sofrimentos adicionais, é a morte no seu tempo certo. Para o teólogo Marciano Vidal, a ortotanásia é uma síntese ética do direito de morrer com dignidade e do respeito pela vida humana.

IHU On-Line - Em que aspectos a morte nos faz crescer?

Sofia Cristina Dreher - Para o filósofo Karl Jaspers,  a morte é considerada uma situação-limite. Para ele, situações-limite são todas aquelas situações as quais não podemos escolher, que nos colocam em confronto com a morte e nos fazem refletir sobre a nossa existência, sobre o significado que estamos dando a nossa vida. “Jaspers chama a estas condições, que nenhum ser humano pode escolher, mas às quais, por meio da existência, há de dar um significado, situações-limite.”  Podemos entender o evento da morte como um processo de crescimento quando somos confrontados com a nossa finitude e quando esse evento nos chama a reflexão sobre a nossa existência. Essa reflexão só se dá através dessas situações-limite tais como a morte de um ente querido; um acidente de carro, a notícia de uma doença grave; entre outros exemplos. É a partir desse confronto, com a percepção de que nós também vamos morrer um dia, que somos convidados a refletir sobre o rumo que estamos dando a nossa vida, bem como da responsabilidade em dar a ela um significado único e autêntico. O grande desafio não está na elaboração desse projeto de vida, mas sim na realização do mesmo.
 
IHU On-Line - Como morte e resiliência estão imbricadas?

Sofia Cristina Dreher - Resiliência é a capacidade que o ser humano tem de superar os impactos resultantes de uma experiência traumática vivida e de sair fortalecido dessa mesma situação. É comum escutarmos entre as pessoas que um determinado evento foi um aprendizado em sua vida ou mesmo que sempre procuram tirar uma lição de cada relacionamento, de cada evento. Também dessa forma, a morte de um ente querido ou o confronto com a nossa própria finitude nos convida a refletir sobre essa experiência traumática, buscando significações e um fortalecimento para prosseguir. Isso não significa voltar a viver imerso numa rotina que nos afasta de um diálogo com nós mesmos, mas, a partir dessa reflexão, colocar em prática um projeto de vida que dê sentido a nossa existência.

IHU On-Line - De que forma a família e o doente terminal demonstram resiliência nesses momentos que antecedem a morte?

Sofia Cristina Dreher - Entendo que a resiliência é demonstrada após a morte. É justamente a capacidade de se recompor após uma experiência de estresse, de tensão. É o momento de refletir a partir do evento ocorrido, sobre a significação desse evento, sobre a nossa existência, sobre um projeto de vida e dessa forma, re-começar, re-criar a vida, re-compor a sua história.

IHU On-Line - Que relações você estabelece entre a morte e a dor de quem perdeu o ente querido?

Sofia Cristina Dreher - Norbert Elias  já dizia que a morte é problema dos vivos. Pois para aqueles que já partiram não existe mais um problema, apenas para aqueles que ficaram e continuam vivendo. A dor que provém da perda só existe porque amamos. Não existe amor sem sofrimento, mas é apenas ele, o amor, que pode curar as feridas da perda. Se levamos vinte anos para nos tornarmos alguém e aprendermos a dar os primeiros passos no exercício de amar, deveríamos também ter vinte anos para nos prepararmos para a morte, para a perda. Lidar com o sofrimento não é algo fácil e prazeroso. Crescimento, sim, esse é o prêmio, a recompensa que é dada àquele que se dispõe a enfrentar uma reflexão e uma convivência com a perda. Rubem Alves diz que a luz da morte ilumina apenas aquilo que é essencial. Essa é a verdade, a revelação que a morte nos ensina. Educar as pessoas para a morte não é um movimento de formar pessoas temerosas e horrorizadas frente a ela, mas sim de retirar as pessoas da inércia em que vivem e fazê-las ver aquilo que é essencial, que urge ser cuidado, suas próprias vidas. Retomar as rédeas de suas vidas requer autenticidade, responsabilidade, reflexão e cuidado.

“Mulheres, homens e crianças: tanta luta, tanto desejo de acertar, tanto desânimo vencido, tanto frêmito de beleza, tanto anseio por explicações, tanta esperança renovada. De repente nos informam: quem mais amamos foi marcado, chegou a sua hora: ou nós estamos doentes e vamos morrer; ou alguém muito próximo morre sem que nada nos tivesse preparado – cai como um pássaro atingido. Não tivemos nem tempo de pensar que estávamos vivos, e que era uma tão grande urgência ser bom, ser decente, ser pensativo, ser paciente, ser curioso, ser cansado, ser decepcionado, ser frustrado, ser generoso, ser amoroso, ser humano.”

Últimas edições

  • Edição 551

    Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

    Ver edição
  • Edição 550

    Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

    Ver edição
  • Edição 549

    Caetano Veloso. Arte, política e poética da diversidade

    Ver edição