Edição 279 | 27 Outubro 2008

Resiliência e Fé

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Márcia Junges

O conceito de resiliência provém de analogia com resiliência dos materiais, esclarece o teólogo Luiz Carlos Susin. Para ele, o “trabalho de luto” é importante e faz com que o ser humano supere, aos poucos, a dor da morte

"A resiliência supõe a esperança de conseguir um bem através do sofrimento, da solidão, dos processos de perda e crise. A resiliência humana provém de analogia com a resiliência dos materiais que acumulam força enquanto são pressionados e ‘entortados’, podendo reagir com mais energia depois”, explica o teólogo Luiz Carlos Susin na entrevista exclusiva, que você confere a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line. Ele continua: “No caso da morte, que, segundo a descrição fenomenológica de Heidegger, é a ‘possibilidade de toda impossibilidade’, somente a fé e a esperança depositadas ‘em outro’, fora de si mesmo, é ainda resiliência. Portanto, afirmar a ‘resiliência da fé’ é afirmar que esta transformação da morte em vida só pode vir de outro, de alguém mais forte do que a morte”. Susin analisa, também, a dificuldade que o ser humano tem em aceitar a morte e suas dores, e destaca a importância do “trabalho de luto”, que traz consigo uma superação que não é nem instantânea, nem automática.

Susin é graduado em Teologia, pela Universidade de Ijuí (Unijuí) e pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Cursou mestrado e doutorado em Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma (PUG), Itália, com a dissertação A subjetividade e alteridade em Emmanuel Lévinas, e a tese O homem messiânico em Emmanuel Lévinas. Leciona na PUCRS e na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana (ESTEF), em Porto Alegre. É autor de inúmeras obras, entre as quais citamos O homem messiânico no pensamento de Emmanuel Lévinas (Porto Alegre: EST/Vozes, 1984) e Teologia para outro mundo possível (São Paulo: Paulinas, 2006). É também um dos organizadores de Éticas em diálogo: Lévinas e o pensamento contemporâneo: questões e interfaces (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003).

IHU On-Line - É possível nos prepararmos para a experiência da morte? Como?

Luiz Carlos Susin - A preparação de uma “boa morte” foi conhecida no final da Idade Média  e no início da Idade Moderna como Ars Moriendi, ou seja, “Arte do dever de morrer”, mas traduzida normalmente por “Arte de bem morrer”. Supõe a aceitação da nossa essencial mortalidade, aceitação da aproximação da morte e a melhor forma de acolher a morte. Embora a morte seja um mistério que escapa a qualquer preparação que domine a morte, há exemplos de boa preparação na tradição cristã, como São Francisco de Assis  e Santa Tereza D’Ávila.  Na tradição filosófica, o grande exemplo é sempre Sócrates.  O teólogo biblista Oscar Culmann  comparou a forma de acolhimento da morte por parte de Sócrates com a de Jesus, o que é perturbador num primeiro momento: Sócrates se despedia de um mundo de peso e sombra e acreditava entrar no verdadeiro mundo da harmonia e da verdade, enquanto Jesus se angustiou, suou sangue, teve de superar com muita dor a si mesmo para aceitar a obscuridade da morte. Sócrates velou o rosto para que nem as contrações do veneno manchassem a sua boa forma de morrer, enquanto Jesus é publicamente exposto com o corpo inteiramente dilacerado. Há dois ensinamentos praticamente opostos nisso. O primeiro é que Jesus é o Cordeiro de Deus que carrega e lava o pecado do mundo. O segundo trata da fé cristã.

IHU On-Line - Que relações são possíveis traçar entre morte e resiliência?

Luiz Carlos Susin - A resiliência supõe a esperança de conseguir um bem através do sofrimento, da solidão, dos processos de perda e crise. A resiliência humana provém de analogia com a resiliência dos materiais que acumulam força enquanto são pressionados e “entortados”, podendo reagir com mais energia depois. No caso da morte, que, segundo a descrição fenomenológica de Heidegger,  é a “possibilidade de toda impossibilidade”, somente a fé e a esperança depositadas “em outro”, fora de si mesmo, são ainda resiliência. Portanto, afirmar a “resiliência da fé” é afirmar que esta transformação da morte em vida só pode vir de outro, de alguém mais forte do que a morte.

IHU On-Line - Qual a importância da fé no processo de resiliência em função do sofrimento diante da morte?

Luiz Carlos Susin - A fé não é uma garantia, uma certeza que se possui, como se nós fôssemos “donos da fé”. É antes um ato de confiança, uma entrega e um abandono nas mãos de quem julgamos ser digno de nossa entrega. É somente isso o que se pode no sofrimento que nos coloca na vizinhança da morte e no ato mesmo de morrer. Como dizem bem as línguas clássicas, “morrer” é um ato “passivo”, conjugado na forma passiva. Por isso, as imagens clássicas também fazem uma analogia entre a morte e uma pessoa que chega, uma visita, um ladrão, uma “senhora” que reina e domina: ela é quem dá o salto mortal e nos assalta e nos rouba de nós mesmos, dos outros e do nosso mundo. Nessa passividade inelutável, no entanto, a entrega é o ato supremo da fé. É também a prova suprema da fé.  A resiliência, nesse caso, vem de outro, vem de fora, vem do socorro da presença de alguém mais forte do que a morte, sobre o qual Paulo  diz com todas as palavras na carta aos romanos: Senhor dos vivos e dos mortos.

IHU On-Line - Quais as maiores dificuldades para superar a dor da morte?

Luiz Carlos Susin - Tanto quem está morrendo como quem tem laços com quem morre precisam superar a dor através de um processo que chamamos “trabalho de luto”. Esta superação não é instantânea e nem automática. Comumente se descreve o processo com quatro ou cinco etapas, mas passa-se de uma para outra através de uma elaboração em que é necessário trabalho, decisão, superação de si mesmo. Passa-se da negação à negociação, da negociação à revolta, da revolta à resignação e da resignação à criatividade extrema. É um doloroso percurso, mas chega a um final integrativo. A maior dificuldade está na essência mesma da morte: a finitude humana, a finitude do que há de mais belo e do único mundo que conhecemos, sobretudo dos laços de amor que nos unem às pessoas queridas neste mundo.

IHU On-Line - Começamos a morrer desde que nascemos. Por que a maioria de nós não consegue admitir o inevitável?

Luiz Carlos Susin - Freud  ajuda a explicar: quando nascemos, não sabemos absolutamente a respeito de nossa mortalidade nem de nossos limites. E, por isso, somos narcisistas e onipotentes por nascimento: a morte não existe e podemos tudo. Vamos ter de aprender o contrário através do tempo, dos próprios sofrimentos, das transgressões e suas conseqüências. Admitir a morte teoricamente é relativamente fácil, mas integrar esta aceitação existencialmente somente será possível quando ela se aproximar. Aí saberemos o quanto aceitamos a morte, ou não. De certa forma, é também próprio do ser humano não ser apenas “ser-para-a-morte”, expressão famosa de Heidegger, mas também “ser-contra-a-morte”, como nos ensinou Lévinas  em contraposição a Heidegger. Lévinas experimentou a luta contra a morte em campo de prisioneiros durante a II Guerra Mundial. Lembra os dramas de Shakespeare,  que volta ao tema: mesmo sabendo-se derrotado, caído da muralha, sozinho e desarmado diante do exército da morte, em perfeita “a-gonia”, ou seja, sem amparos, não se desiste de lutar, até mesmo no mais plácido leito de morte. Há uma batalha, há uma vitória certa da morte. No entanto, aspiramos viver porque também fomos feitos para a vida eterna, que não está em nós por natureza. Mas esse desejo não é uma patologia, mero narcisismo. A experiência do amor é uma experiência imortal, e não há experiência humana que não se reconduza a uma experiência de amor. Isso decide no final: podemos confiar em meio a uma batalha perdida. 

IHU On-Line - Apegar-se ao além e desprezar o corpo é a principal acusação de Nietzsche ao cristianismo e budismo, por ele classificadas como religiões niilistas. Como compreender a acusação desse filósofo de que a transcendência anula a corporeidade em função do além?

Luiz Carlos Susin - Nietzsche não dispunha de uma boa interpretação bíblica, nem de uma antropologia e de uma cristologia, como hoje temos. Ele dispunha seja do cristianismo real que o rodeava, basicamente burguês e cheio de sofismas, seja de um cristianismo teoricamente muito influenciado pelo dualismo grego. Hoje, temos condições, depois de mais de um século, seja de ter aprendido a dura lição de Nietzsche, seja de elaboração de uma resposta adequada do que seja uma antropologia cristã. Jesus não morreu com a calma de Sócrates: o cristianismo não crê simplesmente na salvação da alma, mas crê na transfiguração de nossos corpos mortais, na criação de um mundo novo – Novos Céus e Nova Terra, onde reine a justiça. Não se pode amar o céu sem a terra, mas também não se pode separar ou amar a terra sem o céu. A calma de Jesus lhe foi dada como paciência e graça, e a razão e justificação lhe foram dadas como Ressurreição dos Mortos, corpo glorificado, manifestação e antecipação da glória futura, esperança de toda a criação. Portanto, não há desprezo nem desespero; há realismo corporal e esperança espiritual que inclui a terra, a materialidade da existência humana.

IHU On-Line - Quais são as principais diferenças entre a forma como católicos e espíritas lidam com a morte?

Luiz Carlos Susin - A doutrina espírita tem muitos elementos cristãos, mas não tem uma antropologia bíblica. E isto faz uma grande diferença. É bem verdade que o cristianismo foi influenciado pelo dualismo grego, o que gerou muita confusão e muito curto-circuito na antropologia cristã. Sempre se ensinou a respeito da ressurreição dos mortos e da glorificação dos corpos, mas na prática havia a preocupação em torno da “salvação da alma”, pois se acreditava que o resto viria de acréscimo, desvalorizando assim a condição corporal e terrena. A cosmovisão espírita tem coerência consigo mesma em todos os pontos: desencarnação, reencarnação, espíritos sem corpo, e o corpo como veículo do espírito, lugar para se fazer o bem e evoluir até se tornar espírito iluminado sem necessidade de reencarnação. Há, evidentemente, mais fineza. Não pretendo resumir tão brutalmente a doutrina espírita a respeito. Há um claro acento no mérito individual: cada espírito tem um caminho a ser percorrido com seu esforço de evolução através do bem, da justiça e da caridade. Isso é notável, mas o acento cristão está na graça, na redenção e no perdão, na iniciativa divina. Não se despreza o esforço de praticar o bem, mas isso não é condição, é generosidade de quem foi agraciado com divina generosidade. Há também uma questão de base em tudo isso, a “lei do karma”, muito parecida com a constatação e a expressão de São Paulo na carta aos romanos: “corpo de pecado” – do qual ele diz que é Cristo que o liberta, não as suas obras. 
 
IHU On-Line - Pensando em uma perspectiva religiosa, como podemos compreender a morte de crianças e jovens, que não tiveram tempo de viver o bastante para deixar a vida com aquele sentimento de "missão cumprida"?

Luiz Carlos Susin - Numa perspectiva religiosa cristã – não espírita, que busca as causas e efeitos se desdobrando em âmbito individual –, é necessário pensar com uma das afirmações fundamentais que estão no Credo, e que foi esquecida pelo individualismo moderno: todos vivemos na “Comunhão dos Santos”; somos a família divina santificada pelo Espírito Santo, incorporada no Corpo de Cristo. Portanto, nem a quantidade de anos e nem mesmo a qualidade dos anos vividos contam individualmente, mas a qualidade da comunhão. A missão está na altura do desenvolvimento de cada um como resposta e responsabilidade dentro desta grande comunhão humana e divina, que é, em última análise, a comunhão no amor. Deus é amor, e tudo o que vive é amado por ele. O livro da Sabedoria, no capítulo 11, diz com todas as letras que o Criador não despreza nada do que criou, mas se compadece da fragilidade de suas criaturas, pois ele é o “Amante da Vida”. O inocente e o jovem ceifado pela morte sem chegar à vida adulta estão nesta comunhão mais forte do que a morte. Não é necessário e pode ser até ofensivo buscar desculpas para eles ou para Deus, do tipo “foi melhor assim”, ou “quem sabe ele se perderia se tivesse mais tempo”. São mistificações parecidas com as razões dos amigos de Jó  para os seus sofrimentos inocentes. Nós confiamos no mistério divino, que é maior do que o mistério do mal, e confiamos na comunhão onde os laços não se perdem com a morte. Jesus também não envelheceu, morreu de forma injusta ainda jovem. Isso tem um sentido. Não sabemos mais do que isso. 


Leia mais...

Luiz Carlos Susin já concedeu outras entrevistas e depoimentos à revista IHU On-Line e ao site do Instituto Humanitas Unisinos - IHU. O material pode ser acessado no sítio do IHU (www.unisinos.br/ihu)

* II Fórum Mundial de Teologia e Libertação. Entrevista publicada nas Notícias do Dia, em 09-02-2007;

* Depoimento sobre a notificação do Vaticano a Jon Sobrino, publicado nas Notícias do Dia, em 15-03-2007;

* Uma visão idealista e uma afirmação muito identitária. Entrevista publicada nas Notícias do Dia, em  11-07-2007;

* A vivacidade das experiências de chegada e encontro com Cristo na história gaúcha. Entrevista publicada na IHU On-Line nº 238, de 01-10-2007.

* Teologia da Libertação e Aparecida: realmente uma volta ao fundamento?. Entrevista concedida com Erico Hammes à IHU On-Line nº 261, de 09-07-2008;

* Alteridade: um a priori de carne e osso. Entrevista concedida à IHU On-Line nº 277, de 13-10-2008.

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