Edição 263 | 24 Junho 2008

O que fazer com o país que nos deram?

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Márcia Junges

É hora de o brasileiro crescer e de equacionarmos o pensamento sobre o Brasil. Para o jornalista e cronista Affonso Romano de Sant’Anna, ao invés de perguntarmos o que o país pode fazer por nós, a questão é: “o que você tem a dizer sobre o país que lhe deram?”

“Mais do que falar de Freyre, Lobato, Sérgio, Mário, Euclides, Caio Prado, alguém deveria tentar equacionar que pensamento surgiu nos últimos 50 anos que tivesse feito avançar ou expandir esse tema”, sugere Affonso Romano de Sant’Anna, em entrevista concedida por e-mail, exclusivamente à IHU On-Line. “Refazendo aquela histórica frase ‘não pergunte o que o país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo país’, eu diria: ‘não fiquem reescrevendo o que os outros disseram, mas o que tem você a dizer sobre o país que lhe deram’”. E alfineta: “Penso que é hora de o brasileiro crescer. Adolescente é que vive botando a culpa nos pais. Volto à questão, o que a minha geração fez ou tem feito para ampliar esse tema”. Outros temas discutidos com Affonso Romano são o governo Lula, a questão de uma identidade brasileira e a corrupção, sobre a qual afirma: “Não existe sociedade sem corrupção, porque é próprio do ser humano esse tipo de canibalismo amoral e apolítico”. Entre outros escritos, as perguntas realizadas pela IHU On-Line tiveram como base o artigo “Uma certa pergunta”, publicado por Affonso Romano na obra Para entender o Brasil (Org. Luiz Antonio Aguiar e Marisa Sobral. São Paulo: Alegro, 2001).
Mineiro de Belo Horizonte, Sant’Anna teve, nos anos 1960, uma participação ativa nos movimentos que transformaram a poesia brasileira, interagindo com os grupos de vanguarda e construindo sua própria linguagem e trajetória. Também data desta época sua participação nos movimentos políticos e sociais. Como poeta e cronista, foi considerado pela revista Imprensa, em 1990, um dos dez jornalistas que mais influenciam a opinião de seu país. Dirigiu o Departamento de Letras e Artes da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) na década de 1970, organizou a “Expoesia”,  evento que reuniu 600 poetas num balanço da poesia brasileira e trouxe ao Brasil conferencistas estrangeiros como Michel Foucault. Como jornalista trabalhou nos principais jornais e revistas do país: Jornal do Brasil, Senhor, Veja, Isto É e O Estado de S. Paulo. Foi cronista da Manchete e do Jornal do Brasil. Está no jornal O Globo desde 1988. Foi considerado pelo crítico Wilson Martins como o sucessor de Carlos Drummond de Andrade, no sentido de desenvolver uma “linhagem poética” que vem de Gonçalves Dias, Bilac, Bandeira e Drummond. De sua obra, composta por cerca de 30 livros de ensaios, poesia e crônicas, destacamos Que fazer de Ezra Pound? (São Paulo: Imago, 2003), Desconstruir Duchamp (Rio de Janeiro: Vieira & Leme, 2003) e A cegueira e o saber (Rio de Janeiro: Rocco, 2006).

IHU On-Line - Se as interpretações de Gilberto Freyre, em Casa-grande & senzala, são inverossimelmente verdadeiras, como vê a intelectualidade brasileira atual na análise do nosso país?

Affonso Romano de Sant’Anna - As interpretações se acumulam, se contradizem e se complementam. Há várias décadas, Dante Moreira Leite  reuniu, num livro didático, a síntese das interpretações do Brasil: O carácter nacional brasileiro. De lá prá cá houve muita coisa, que precisaria ser também compendiada. E o país mudou muito. O mundo mudou. A realidade é uma espécie de work-in-progress, não permite teorias estáticas e muito rígidas. Veja o caso de D. João VI : essas comemorações serviram para reavaliá-lo, tirá-lo da caricatura feita pelo espírito nacionalista antigo.

A pergunta que se deveria pôr para minha geração é: que contribuição trouxemos para entender o Brasil? Que país encontramos e que país deixaremos? Mais do que falar de Freyre, Lobato, Sérgio, Mário,  Euclides, Caio Prado etc., alguém deveria tentar equacionar que pensamento surgiu nos últimos 50 anos que tivesse feito avançar ou expandir esse tema. 

Refazendo aquela histórica frase, “não pergunte o que o país pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo país”, eu diria: “não fiquem reescrevendo o que os outros disseram, mas o que tem você a dizer sobre o país que lhe deram”. Neste sentido, no que escrevo tanto em prosa quanto em poesia, aponto algumas coisas, que não me cabe comentar aqui. Não apenas “Que país é este?”, “A grande fala do Índio guarani”, “A Catedral de Colônia”, mas os ensaios e crônicas em “Política e paixão”, “Nós, os que matamos Tim Lopes”, “Barroco, do quadrado à elipse” e “O enigma vazio”.
 
IHU On-Line - O senhor afirmou que um país só merece esse nome quando tem justiça social, e quando não a faz é um simples “ajuntamento” ou “pretensão” de país. O Brasil avançou nesse sentido ou sua visão permanece a mesma da época em que escreveu esse artigo?

Affonso Romano de Sant’Anna - Quando passo pelos subúrbios de qualquer grande cidade do país, vem a mesma sensação: “uma coisa é um país, outra um ajuntamento” . Uma tribo de primitivos me parece mais organizada e mais consistente. Tem ritos que organizam o cotidiano e lá as regras são mais claras e consistentes. Nessa confusão que foi exacerbada pela pós-modernidade está todo mundo sem centro, atordoado. Isso pode ser muito interessante para se fazer análise acadêmica, falar de Nietszche, Derrida, Deleuze, etc., mas a vida real das pessoas convertidas em objeto de consumo é constrangedora, cruel e pior que a de muitos primitivos.

IHU On-Line - A democracia no Brasil é um “mal-entendido”, nos termos propostos por Sérgio Buarque de Hollanda, como fragilização do sistema político em função das nossas características de colonização?

Affonso Romano de Sant’Anna - Vou bordejar essas questão, voltando ao que disse no princípio. Mais do que ficar discutindo o que Sérgio Buarque e outros disseram, indago quais modelos foram propostos mais recentemente? Poderia citar vários. Mas precisaria de espaço e mais pesquisa. Torço a pergunta pelo pescoço e digo o seguinte: acho que temos que olhar para frente. Alguns países atuais, como a China, se reinventaram em menos de 20 anos. No nosso caso, veja só, há mais de 20 anos que nossa ditadura acabou e tem gente botando toda culpa nos militares. Há 200 anos, declaramos a independência e continuamos a botar a culpa nos portugueses. Penso que é hora de o brasileiro crescer. Adolescente é que vive botando a culpa nos pais. Volto à questão, o que a minha geração fez ou tem feito para ampliar esse tema?

IHU On-Line - Como a questão da preponderância do privado sobre o coletivo contribui para a solidificação da corrupção em nosso país?

Affonso Romano de Sant’Anna - Certa vez, fiz várias crônicas depois de ler a história da corrupção desde a Grécia até modernamente, nos Estados Unidos. É um espanto. O mais intrigante na corrupção é que ela faz parte da estrutura não apenas ideológica, mas econômica. É quase que um “modo de produção”. Façamos um paralelo com os Estados Unidos, que vivem julgando os outros: vejamos o caso mais recente: que fabulosa corrupção implantaram no Iraque! Corrupção oficial, organizada pela presidência da República, até com a terceirização do exército através da operação “Blackwater”. A economia americana, há mais de 100 anos vive, em grande parte, da corrupção que patrocinam nos países estrangeiros. Foi assim também que a Inglaterra se fez império antes dos Estados Unidos, corrompendo países e governos. Não existe sociedade sem corrupção, porque é próprio do ser humano esse tipo de canibalismo amoral e apolítico. Corrupção é como certos vírus que não conseguimos eliminar, então temos que vigiá-los, aplicar sobre eles o lancha-chama dos antibióticos para que não destruam o organismo. Mas é uma fatalidade, nosso organismo está cheio de bactérias e seres daninhos e indesejáveis, embora alguns, paradoxalmente, sejam importantes ao metabolismo do sistema.  

IHU On-Line - Já fomos conhecidos como o país do jeitinho. Qual é o paradigma brasileiro atualmente?

Affonso Romano de Sant’Anna - Há um certo exagero em achar que o Brasil é que inventou o “jeitinho”. Bobagem. Todas as culturas têm seu jeitinho. É como a palavra “saudade”, outra ficção brasileira. As outras línguas têm outras maneiras de falar deste sentimento. Seria um caso espantoso se o brasileiro fosse o único povo que soubesse sentir “saudade”.

Prefiro encarar essa questão do “paradigma” dentro de uma linha que está no meu novo livro O enigma vazio: impasses da arte e da crítica na contemporaneidade (Rocco). Os paradigmas do século XX já se esgotaram, e a crise da modernidade e da pós-modernidade é uma prova. As pessoas ficam por aí elogiando a filosofia quântica como se fosse a última novidade. Há até uma vulgata do “pensamento quântico” que invadiu a filosofia, as artes e as ciências sociais; um “relativismo” tolo que quer se passar por esperto, enfim, um facilitário da sabedoria. Sintomaticamente, vários físicos começam não só a desconfiar, mas a contradizer a teoria quântica, que por sinal não agradava muito a Einstein. Por isto, temos que intensificar as análises interdisciplinares para demonstrar o que chamo de “falácias” do pensamento moderno e pós-moderno. Precisamos fazer uma análise do discurso, uma análise lingüística da retórica de nosso tempo. É neste espaço que trabalho, por exemplo, em Barroco, do quadrado à elipse (Rocco) e é na busca de uma nova episteme, depois do “relativismo quântico”, que se enquadra O enigma vazio.

Falácias da “modernocontemporaneidade”

Há uma coisa que ainda não foi devidamente explorada para se entender as falácias da “modernocontemporaneidade”. A cultura atual é prisisoneira da síndrome do double bind, uma cultura de discurso duplo, esquizofrênico, que enlouquece qualquer um. Enfim, o discurso viciosamente ambíguo da pós-modernidade se assemelha àquilo que na filosofia se chama de “paradoxo do mentiroso”.

IHU On-Line - Podemos falar em um Brasil ou em Brasis? Como as diferenças regionais auxiliam na construção de uma identidade nacional?

Affonso Romano de Sant’Anna - Olha, vou lhe dizer uma coisa que pode escandalizar: esse papo de “identidade” pode ser uma coisa perigosa, falsa e paralisante. Pode-se ficar retido na busca do  “mesmo”, do “idêntico” e repetindo a metáfora bíblica da mulher de Ló - a pessoa petrificada, paralisada por só olhar para trás, para o mesmo. É tão perigoso quanto o que a modernocontemporaneidade fez ao se apaixonar pela “neofilia”, pela “diferença”. Esta palavra, aliás, virou palavra da moda, quem não botar a palavra “diferença” no seu texto não está por dentro. Fundaram até editoras com esse nome. Ora, isto é tão vicioso quanto o universo do “mesmo”, do “idêntico” pregado desde os gregos por Aristóteles e outros. Como não temos muito espaço aqui, vou sintetizar de uma maneira intrigante-instigante, falando de novo da física. Se o universo de Newton era estável e mecânico (lei da identidade), o universo de Borh e Heisenberg é quântico e instável (lei da diferença). Dentro da nova epistemologia que está surgindo, nem um nem outro detém a resposta: a resposta passa pelos dois e vai para outra margem, para “a terceira margem do rio” de que falava o nosso Guimarães Rosa.

IHU On-Line - Você acredita que temos um projeto de nação? Qual seria ele?

Affonso Romano de Sant’Anna - Sim, há pessoas que têm esse projeto. Em geral são intelectuais. Alguns militares também tiveram isto. Pouquíssimos políticos têm um projeto de nação. O que existe em geral é projeto de poder, o que é algo pobre e mesquinho.

IHU On-Line - O Brasil é mesmo um narciso às avessas? A que se deve a baixa auto-estima de nossa população?

Affonso Romano de Sant’Anna - Essa afirmativa do Nelson Rodrigues não é verdadeira. É uma frase e efeito. O Brasil tem bons frasistas. Na verdade, o povo brasileiro adora o Brasil. Vai ao aeroporto e já volta moído de saudade, querendo cafezinho, feijoada e dizendo que esse é o melhor lugar do mundo.

IHU On-Line - Você qualifica o Brasil como o país da elipse barroca. Essa percepção ainda é atual?

Affonso Romano de Sant’Anna - Acho um modelo muito funcional para explicar de algum modo nossa cultura. Em Barroco, do quadrado à elipse, desenvolvo isto em relação ao futebol, carnaval, literatura, arquitetura, música etc. Não significa que o Brasil tenha inventado a elipse. Ela existe nas galáxias e em nosso DNA, do macro ao micro universo, mas, enquanto outras culturas tentam “enquadrar” e racionalizar, o brasileiro se deixa espiralar.

IHU On-Line - Nesse artigo, o senhor afirmou que o período de 56-60, do governo JK, foi notável, quando o país era feliz e o sabia. Como qualifica o período iniciado em 2003 até o momento, do governo Lula?

Affonso Romano de Sant’Anna - Com todas as suas contradições, é um dos governos mais interessantes que tivemos. Muito mais fecundo que os de Fernando Henrique, Collor, Itamar (que foi um governo de passagem) ou Sarney. Há inúmeras coisas a serem ditas e não temos tempo-espaço aqui, mas esse governo, como outros da América Latina atualmente exemplificam os movimentos e as redefinições do que seja “centro” e “periferia”, superando as velhas classificações ideológicas do século passado. Não sou do PT nem lulista, mas Lula é a cara do Brasil. Acho que é a primeira vez que isto ocorre. Não sei se é bom ou ruim. É um fato.

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