Edição 263 | 24 Junho 2008

Rio Grande do Sul: uma fronteira para o expansionismo joanino

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Patricia Fachin

Para o historiador Fábio Kühn, o Período Joanino representou uma comunhão de interesses entre a elite sul-rio-grandense e as pretensões de D. João

“A vinda da Corte marcou o início do processo de ‘interiorização da Metrópole’”, avalia Fábio Kühn, historiador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Nesse processo, considera, o estado gaúcho apareceu com grande destaque. “O Rio Grande do Sul enquanto garantidor das fronteiras portuguesas - e depois brasileiras - na região Sul se definiu nesta época”, complementa. Na prática, explica, “isto significou investimentos em terras e sociedades comerciais por parte dos portugueses emigrados, além do reforço dos vínculos sociais entre as elites locais e do centro imperial, no caso, o Rio de Janeiro”.
Kühn possui graduação e mestrado em História, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Além disso, é doutor em História, pela Universidade Federal Fluminense (UFF), e foi investigador visitante, junto ao Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, entre novembro de 2004 e fevereiro de 2005. O pesquisador participará do debate “Etnias, ocupação de território e projetos de civilização no Brasil nos primórdios do século XIX”, na noite da próxima sexta-feira, 27-07-2008, no Auditório Central, na Unisinos. O evento faz parte do Colóquio Internacional a Corte no Brasil. População e sociedade no Brasil e em Portugal no início do século XIX, que ocorre na universidade entre os dias 23 e 27 de julho de 2008.

IHU On-Line - Quem era o gaúc ho de 1808? Ele mudou hábitos e costumes com a chegada da Corte Portuguesa?

Fábio Kühn - Na verdade, a expressão “gaúcho” tinha um significado completamente diferente no início do século XIX. O termo ainda não qualificava os naturais do Rio Grande do Sul, mas fazia alusão àqueles indivíduos avulsos que viviam nos campos, os “hombres sueltos”. Originalmente, o termo tinha uma conotação até pejorativa. Quanto aos habitantes sul-rio-grandenses da época, tinham, sim, hábitos e costumes “rústicos e agrestes”, mas o impacto da transferência da Corte não alterou de imediato esta forma de viver. Com o desenvolvimento econômico e social verificado ao longo do século XIX, pode-se dizer que houve uma modernização da sociedade.

IHU On-Line - Como era o Rio Grande do Sul na época em que a Corte Portuguesa chegou ao Brasil?

Fábio Kühn - O Rio Grande do Sul era uma região de fronteira, com a posse territorial ainda bastante recente pelo império português. Desde o final do século XVIII, o Continente do Rio Grande vinha se integrando às estruturas imperiais, especialmente através dos seus vínculos com o Rio de Janeiro, de onde vinham os escravos e mercadorias européias, e para onde era enviada boa parte da produção de charque e trigo que caracterizava a economia local na época.

IHU On-Line - O que a transferência da Corte Portuguesa significou para o Rio Grande do Sul? 

Fábio Kühn - Assim como para as regiões Sudeste e Sul do Brasil, a vinda da Corte marcou o início do processo de “interiorização da Metrópole”, nas palavras de Maria Odila Silva Dias.8 Este processo foi marcado pelo enraizamento dos interesses portugueses na região Centro-Sul do Brasil e, nesse aspecto, o Rio Grande do Sul aparecia com destaque. Na prática, isto significou investimentos em terras e sociedades comerciais por parte dos portugueses emigrados, além do reforço dos vínculos sociais entre as elites locais e do centro imperial, no caso, o Rio de Janeiro.

IHU On-Line - Que aspectos políticos e econômicos construídos a partir de 1808 foram fundamentais para a “constituição” do Rio Grande do Sul, como conhecemos hoje?

Fábio Kühn – É difícil ver este tipo de continuidade, mas, sem dúvida, o papel do Rio Grande do Sul enquanto garantidor das fronteiras portuguesas, e depois brasileiras, na região Sul, definiu-se nesta época. Da mesma forma, o tipo de inserção econômica do estado, voltado para o abastecimento do mercado interno brasileiro, também se definiu neste momento.

IHU On-Line - Que tipo de relações passaram a existir entre a Capitania do Rio Grande de São Pedro e o Centro-Sul, após a vinda da Corte?

Fábio Kühn – Já apontei alguns elementos desta relação, mas quero enfatizar que os vínculos entre o Rio de Janeiro, sede da Corte, e o Rio Grande do Sul são efetivamente reforçados. De fato, parece ter havido uma espécie de cooptação das elites gaúchas pelo projeto político bragantino de formação de um império luso-brasileiro nos trópicos. Todavia, essa cooptação parece não ter sido completa, pois a Guerra dos Farrapos evidenciaria uma ruptura, não consumada, entretanto.

IHU On-Line - Podemos dizer que no período de D. João houve uma aceleração do tempo histórico devido ao aumento populacional que se deu na época? A elevação populacional no Rio Grande do Sul significou crescimento econômico e social para a capitania?

Fábio Kühn – Que houve aumento populacional, não há dúvida. Tanto é que a população do Rio Grande do Sul passou de aproximadamente 18 mil pessoas em 1780 para mais de 70 mil em 1814. Ou seja, a população quase quadruplicou em pouco tempo. Agora, falar em aceleração do tempo histórico me parece um tanto anacrônico. Não que as mudanças não tenham ocorrido. Acontece que elas não foram tão rápidas quanto se costuma pensar. As estruturas sociais e mentais de Antigo Regime se mantiveram ainda bem adiantado o século XIX.

IHU On-Line - Um ano após a chegada da Corte Portuguesa, Porto Alegre foi nomeada vila da capitania. Qual a importância desse fato para o Estado?

Fábio Kühn – Porto Alegre já era a capital desde 1773, mas não tinha a condição jurídica de vila. Neste sentido, a elevação de Porto Alegre à vila somente reafirmava sua importância enquanto centro político e administrativo do Rio Grande do Sul. A elevação do Rio Grande do Sul à condição de capitania-geral, efetivada em 1809, com a posse de Dom Diogo de Souza  como primeiro governador e capitão-general, foi politicamente mais relevante. O Rio Grande do Sul deixava de ser capitania subalterna e ganhava mais autonomia dentro da configuração política do império luso-brasileiro.

IHU On-Line - Que função o Rio Grande do Sul deveria desempenhar no projeto expansionista joanino sobre o Prata?

Fábio Kühn – O papel do Rio Grande do Sul para o expansionismo joanino foi fundamental. Pode-se dizer que houve uma comunhão de interesses entre a elite sul-rio-grandense e as pretensões de D. João sobre a Banda Oriental. Juntava-se “a fome com a vontade de comer”, isto é, atendia-se aos interesses dos estancieiros gaúchos que queriam o acesso ao gado e terras da Banda Oriental, ao mesmo tempo em que o império bragantino incorporava um território que atendia ao seu projeto estratégico e político de constituição de uma “fronteira natural”, no Prata.

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