Edição 263 | 24 Junho 2008

Um retrato do pitoresco brasileiro

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Patricia Fachin

De acordo com Lorelai Kury, a transferência da Corte para o Brasil proporcionou a formação de uma comunidade científica local e a criação de novas instituições de pesquisa

Em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, Lorelai Kury, historiadora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), chama a atenção para o trabalho dos pintores viajantes que retrataram as realidades consideradas exóticas no Brasil do século XIX. Entre os viajantes-naturalistas, a pesquisadora destaca a importância de Saint-Hilaire e Martius, considerados “especialistas em assuntos brasileiros”.
Lorelai Kury é graduada em História, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), mestre em História, pela Universidade Federal Fluminense (UFF), e doutora em Histoire Civilisations, pela École des Hautes Études en Sciences Sociales. Atualmente, é docente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
A historiadora estará presente na Unisinos na próxima quinta-feira, 26-06-2008, participando do Colóquio Internacional A Corte no Brasil: População e Sociedade no Brasil e em Portugal no início do século XIX.  No encontro, ela participará de um debate sobre cultura e sociabilidade no Brasil nos primórdios do século XIX.

IHU On-Line – A vinda da Corte para o Brasil contribuiu para o desdobramento de novos ambientes artístico-culturais?

Lorelai Kury – A vinda da Corte não só por causa dela em si, mas devido ao advento da imprensa, propiciou uma série de transformações mais amplas, inclusive na sociabilidade intelectual e cultural dos habitantes do Brasil. Além disso, a transferência da família real para a colônia trouxe uma série de pessoas para habitarem a região. Elas não eram habituadas ao tipo de vida colonial e demandaram uma série de serviços e produtos, que não estavam necessariamente disponíveis, anteriormente. Então, elas trouxeram para o país tropical alguns hábitos e tentaram transformar essa realidade de uma forma muito abrupta. Então, principalmente para o Rio de Janeiro houve uma transformação mais radical, no sentido de apresentar novas demandas culturais. Mas o que vejo de real mudança, do ponto de vista da sociabilidade científica, foi a vinda da imprensa, que propiciou a formação de uma comunidade científica local.

IHU On-Line – Como, no período de transição para a Independência, a imprensa contribuiu para difundir idéias de maior autonomia econômica e política para o Brasil? Se compararmos com a atualidade, a imprensa, hoje, desempenha um papel decisivo nesses aspectos?

Lorelai Kury - A atuação da imprensa é relevante não apenas por causa do conteúdo que veicula, mas por criar, entre seus leitores, uma espécie de “comunidade imaginada”, que, no caso do Brasil, fortaleceu a identidade americana e brasileira. Hoje em dia, com o advento da televisão e da internet, as identidades globalizadas e supranacionais são fortalecidas.

IHU On-Line – Como a cultura científica francesa do final do século XVIII influenciou na construção da cultura científica brasileira?

Lorelai Kury -A cultura científica francesa era hegemônica no final da século XVIII e na época da vinda da Corte. Mesmo em guerra com Bonaparte, os portugueses e brasileiros admiravam e procuravam copiar as instituições científicas francesas. No periódico O Patriota,  publicado no Rio de Janeiro, entre 1813 e 1814, a presença da ciência francesa é enorme.

IHU On-Line – Como a senhora percebe a atuação dos pintores viajantes no século XIX? Como suas obras ajudaram a construir uma nova percepção da realidade da época?

Lorelai Kury - Os artistas que vieram em algumas das mais importantes viagens científicas tinham muitas vezes uma formação específica em pintura de história natural. Eles trouxeram para o Brasil as novas modas européias e ajudaram a formar os pintores locais e os artistas nascidos na colônia, que não tinham experiência européia. Nessa época, há a presença do neoclassicismo e de pinturas de viagens pitorescas, que eram empregadas para pintar outros países e realidades consideradas exóticas. Nesse sentido, esses pintores trabalharam com o pitoresco brasileiro.

IHU On-Line – Nesse contexto, qual foi a importância do naturalista Von Martius?

Lorelai Kury - Ele foi um dos maiores naturalistas que vieram ao Brasil. Foi um grande especialista em palmeiras e um importante botânico. Além de ter uma excelente formação, ele ajudou a organizar essas áreas no Brasil. Até hoje, os botânicos são devedores do trabalho do Martius6 e da sistematização que ele produziu da botânica brasileira. Além disso, ele era considerado, na época, um grande amigo do Brasil, um especialista em temas brasileiros, como a língua indígena. Não é a toa que várias décadas depois de sua viagem ao Brasil, ele continuava sendo consultado a respeito desses temas.

IHU On-Line – Qual é o papel dos naturalistas franceses no registro do período joanino?

Lorelai Kury - O naturalista francês mais importante do período joanino foi Saint-Hilaire.7 Ele era considerado, assim como Martius, um grande especialista em assuntos brasileiros. Inclusive, ele saiu do Brasil um pouco antes da Independência, e, ao retornar à França, foi convidado para opinar sobre o que estava acontecendo no Brasil e para esclarecer as novas possibilidades do novo país. Ele também foi uma pessoa importante, no sentido de organização da flora brasileira e era uma pessoa bastante erudita. As observações dele sobre os costumes das populações são bastante interessantes. Existiram outros franceses que ficaram menos tempo no Brasil, mas que tiveram uma atuação mais pontual com relação tanto à natureza quanto aos costumes dos habitantes da época. Os naturalistas franceses tinham uma grande influência, inclusive de longe, porque as relações entre as instituições de cientistas brasileiros e o Jardim Botânico de Paris, por exemplo, foram muito fortes ao longo de todo o século XVIII e XIX.

IHU On-Line – De que maneira os relatos produzidos por Saint-Hilaire e demais viajantes-naturalistas contribuíram para a construção da imagem dos portugueses americanos no exterior e para a divulgação do que era o Brasil na época?

Lorelai Kury - Do século XVI ao XVIII, a imagem do Brasil era fundamentalmente vinculada aos indígenas. Somente no século XIX, com a grande quantidade de relatos de viagens ao Brasil, é que a vida dos colonos começa a ganhar descrições pormenorizadas, agora indissociáveis da escravidão. O Brasil era associado imediatamente aos escravos e à natureza exuberante. Outros aspectos, como a ausência de mulheres em espaços públicos e a religiosidade “barroca” de seus habitantes, também eram acentuados.

IHU On-Line – Com a vinda da família real, quais as mudanças ocorridas no modelo de urbanização do Rio de Janeiro? Como os novos hábitos e valores conviveram com os antigos costumes da tradição colonial?

Lorelai Kury - Com a vinda da Corte e a nomeação do intendente de polícia, Paulo Fernandes Viana, e as análises do físico Manuel Vieira da Silva,  percebemos que D. João tomou uma série de medidas para transformar padrões arquitetônicos e delimitar as formas de construção das casas, ruas, iluminação públicas etc. Ocorre que, na realidade, algumas dessas mudanças já tinham sido implementadas, pelo menos nominalmente, antes da vinda da Corte, entretanto não eram seguidas. Analisando a documentação da época, que comunicava as mudanças que a polícia queria instituir, é interessante perceber que as coisas continuaram como antes. Os prédios permaneciam à moda antiga, inclusive com aquelas janelas tradicionais. É como até hoje no Brasil, ou seja, algumas coisas não passam de letra morta. Os hábitos duram muito mais do que a lei gostaria que durasse. Então, a tradição colonial conviveu com as inovações modernas ao longo de todo o século XIX.

IHU On-Line – Qual a importância de instituições como a Biblioteca Nacional e o Jardim Botânico? De que maneira essas organizações modificaram a vida na colônia? 

Lorelai Kury - A Biblioteca foi fundamental. Certamente, graças à vinda dos livros para a biblioteca real é que temos a nossa maravilhosa Biblioteca Nacional. Lógico, com relação ao Jardim Botânico e algumas outras instituições, como a Escola Médico Cirúrgica do Rio de Janeiro e a Escola Cirúrgica da Bahia, se tem o início da constituição de instituições oficiais que congregam cientistas, estudiosos etc. Há, nesse momento um fortalecimento desses grupos ligados ao trabalho intelectual e cientifico. Claro que, no tempo dos vice-reis, várias transformações já tinham começado a ocorrer, inclusive a fundação de algumas sociedades que reuniam os intelectuais, “homens de ciências e de letras”, como eles denominavam na época. Mas, sem dúvida, a vinda da Corte representou um momento de transformações mais aceleradas, no sentido da criação de instituições mais modernas.

IHU On-Line – Como a senhora descreve a imagem de D. João, enquanto um colecionador de árvores exóticas?

Lorelai Kury - Ele teve muitos cortesãos e homens políticos em torno dele, que eram muito mais voltados para esse tipo de interesse. Mas, certamente, ele acompanhou as diversas preocupações da época. Algumas medidas tomadas por ele também vinham do tempo dos vice-reis e mesmo daqueles viajantes que foram discípulos do Domingos Vandelli,  um naturalista diretor do Museu da Ajuda, na época em que a Corte ainda não tinha chegado ao Brasil. Então, esse tipo de interesse em plantas exóticas, na utilidade da natureza, já existia anteriormente, só que o centro desses interesses ficava em Portugal, principalmente em Lisboa e Coimbra. Com a vinda da Corte, há, paulatinamente, um deslocamento. Assim, as instituições cientificas de Coimbra e Lisboa vão perdendo importância em termos de império português, e o Rio de Janeiro ganha destaque como centro do império. É claro que isso durou apenas alguns anos. O Rio de Janeiro nem sempre foi aceito, principalmente pelos cortesãos e habitantes de Portugal, como centro. Mas, de fato, cada vez mais as ciências passaram a se organizar em função das instituições da Corte, no Brasil, e não mais em Coimbra ou Lisboa, como é o caso da Jardim Botânico, que passou a realizar experiências de aclimação de plantas exóticas.

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