Edição 263 | 24 Junho 2008

1808: muitas razões para se refletir e muitos mitos para se deixar de lado

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Patricia Fachin e Moisés Sbardelotto

Beatriz Vasconcelos Franzen afirma que, com a vinda da Corte Portuguesa em 1808, o Brasil passou a ser favorecido por essa presença, que fez com que o país se transformasse no centro de poder

Se há muitas razões para se comemorar pela data de 1808, não é em termos de festas, mas no sentido de se fazer uma análise a respeito da vinda da família real portuguesa para o Brasil. Essa é a opinião da historiadora Beatriz Vasconcelos Franzen. “A pesquisa histórica nos dias de hoje tem condições de chegar o mais próximo possível daquilo que realmente aconteceu, sem estarmos vinculados a ideologias, a idéias preconcebidas, ou coisas da imaginação popular”, explica.
Nesta entrevista concedida pessoalmente à IHU On-Line, Beatriz afirma que é necessário deixar de lado os mitos e as representações exageradas desse período da história do Brasil. “Hoje, podemos pensar o Brasil não mais como uma colônia que se libertou, mas como um país soberano, que tratou Portugal de igual para igual, sabendo-se que ambos os países poderiam aprender um com o outro”, defende.
Beatriz Vasconcelos Franzen é graduada em História e Geografia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e doutora na mesma área, pela Universidade de Lisboa, Portugal. Atuou como docente no PPG em História da Universidade de Lisboa e na Unisinos.

IHU On-Line – Há 200 anos, a família real portuguesa deixou Portugal, em razão do avanço das tropas de Napoleão sobre a Península Ibérica, e aportou no Brasil. Essa viagem foi mais uma fuga medrosa dos riscos que poderiam advir ou uma transferência baseada em um projeto político de mudança do centro de poder monárquico?

Beatriz Vasconcelos Franzen – A história do Brasil é cercada de mitos, e um deles está relacionado à vinda da família real para o Brasil. Geralmente, é apresentado que D. João  fugiu com a Corte de Portugal. É claro que isso aconteceu, mas não se deve dar uma conotação pejorativa para esse fato. Se um bandido entra em nossa casa pela porta da frente, e temos a possibilidade de sair pelos fundos, não sairíamos? O mesmo aconteceu com D. João. Na verdade, ele saiu de Portugal depois de uma hesitação muito grande. Só tomou uma atitude definitiva no dia 24 de novembro de 1807, e, no dia 27, aconteceu o embarque para o Brasil. Entretanto, essa situação já vinha se desenvolvendo desde 1801, quando Napoleão assumia maior poder e a França se expandia. Esta passou, então, a impor a Portugal o rompimento com a Inglaterra. A saída de D. João e sua Corte para o Brasil faz parte de todo um contexto. Nele, está principalmente o crescimento do poderio da França e sua imposição às demais nações européias, principalmente Portugal, que, em 1807, é o único país a dar entrada à Inglaterra de modo a seus produtos poderem penetrar na Europa. Além do mais, a França perdeu, em outubro de 1805, com a Batalha de Trafalgar,  todo e qualquer acesso ao mar. A vitória inglesa nessa batalha acabou com a esquadra francesa. De modo que Napoleão,  de uma forma ou de outra, queria resistir à Inglaterra. E a única forma que ele encontrou, naquele momento, foi o bloqueio continental. Entretanto, Portugal continuou tentando manter uma política de neutralidade, desenvolvida por D. João desde 1801. Na verdade, Portugal não podia viver sem a Inglaterra, da mesma forma que esta precisava dos portos portugueses naquele momento. Não era possível Portugal se submeter àquilo que Napoleão estava querendo. Como Napoleão se deu conta que D. João não estava fechando os portos aos navios ingleses, ou expulsando-os de seu território, ou mesmo confiscando seus bens existentes em Portugal, ele resolveu tomar uma atitude, apoiado pela Espanha – cujo rei era sogro de D. João, pai de Carlota Joaquina.  Entretanto, em 27 de outubro de 1807, um mês antes da viagem, França e Espanha assinavam um acordo, o Tratado de Fontainebleau,  pelo qual a Espanha permitia que as tropas francesas passassem pelo território espanhol para ir atacar Portugal. E Napoleão, nessa mesma ocasião, dizia que a dinastia de Bragança, que governava Portugal, estava extinta. Ele estava fazendo com Portugal o que já fizera com outros países da Europa, com Nápoles, com a Etrúria, onde depôs os soberanos e colocou seus irmãos e suas irmãs no trono. Pelo Tratado de Fontainebleau, Portugal seria invadido pelas tropas francesas e dividido em três partes: o sul ficaria com a Espanha, no norte seria criado um novo Estado, chamado de Lusitânia, e a maior parte do território ficaria para a França. A dinastia seria extinta, e Napoleão acabaria, portanto, com a coroa portuguesa, assumindo o comando da maior parte do território. No dia 24 de novembro, Lord Strangford,  que era o representante inglês em Portugal, levou a D. João um exemplar do Le Moniteur,  que era o jornal da corte de Napoleão, em que estava o Tratado de Fontainebleau com todas as determinações de Napoleão e mais suas declarações de que a dinastia de Bragança estava extinta. Foi então que D. João tomou a decisão definitiva.

IHU On-Line – Historiadores afirmam que a intenção de D. João era garantir a manutenção da monarquia portuguesa e da unidade do império frente ao desafio do avanço napoleônico. Por que a reação de D. João, nessa conjuntura, foi a de vir para a colônia do Brasil? Foi, em termos históricos, uma decisão acertada?

Beatriz Vasconcelos Franzen – Essa idéia de transferir a Corte para o Brasil há muito tempo era levantada em Portugal, desde o século XVI. Já D. Antônio,  prior do Crato, tinha pensado em instalar, aqui no Brasil, a coroa portuguesa, no momento em que Filipe II  assumiu o governo de Portugal, dando início à União Ibérica, em 1580. Antônio Vieira  levantou essa mesma hipótese a D. João IV  quando a situação era difícil após a separação de Portugal e Espanha. Na época do terremoto, o próprio Marquês de Pombal  chegou a levantar essa hipótese. Quando ocorreu a Guerra dos Sete Anos  – as famosas guerras dos Pactos de Família, quando a Espanha ameaçou invadir Portugal em 1762 –, mais uma vez o Marquês de Pombal tinha levantado a hipótese de D. José, o rei português da época, vir para o Brasil. Portugal era o império. Onde estivesse a coroa e a Corte, em Lisboa ou qualquer outro lugar, ali era o centro de poder. Por que aqui no Brasil era melhor? Porque não era tão longe como Goa  – de onde seria muito difícil de voltar –, nem tão perto quanto os Açores  e a Madeira,  que poderiam ser atacadas. O Brasil era longe o suficiente para se ter segurança, mas perto necessariamente para voltar. Além disso, era o país mais importante naquele momento, que sustentava o Império. Então, havia muito mais razão em vir para cá do que ficar lá e esperar para ser destituído e desonrado. D. João fez aquilo que naquele momento era o mais válido. Tanto é que Napoleão, nas suas memórias, escreve: “Foi o único que me enganou”. E, realmente, D. João não deixou que a dinastia desaparecesse. É uma pena que Napoleão tenha morrido em 1821. Podia ter esperado mais um ano, então chegaria à conclusão de que aquela dinastia que considerava extinta estava com duas coroas: a de Portugal, com D. João VI, e a do Brasil independente, na figura de D. Pedro.

IHU On-Line – Quem perdeu com a saída da Corte de Lisboa e quem ganhou com a sua instalação no Rio de Janeiro?

Beatriz Vasconcelos Franzen – Quem perdeu com a saída da Corte foi o povo. Aqueles que não puderam sair de Lisboa vivenciaram um período muito difícil. Portugal foi invadido três vezes pelos franceses, e nas três vezes os portugueses os expulsaram, com o apoio da Inglaterra. Mas, em 1811, Portugal já estava livre dos franceses. Mas a verdade é que D. João não queria mais voltar a Portugal. Ele sentiu-se maravilhosamente bem aqui. Ele conseguiu na colônia uma segurança que não tinha em Portugal. Os ares eram muito bons, fizeram bem até para sua saúde. A esposa, que vivia incomodando, ficou num lugar, e ele noutro. Aqui, ela não contava com o apoio de ninguém. Ele chamou novamente, para junto de si, Rodrigo de Souza Coutinho,  que se transformou no ministro dos negócios estrangeiros e da guerra. Além de tudo, Rodrigo não deixava Carlota se aproximar muito de D. João, ou seja, não permitia que ela exercesse influência junto à Corte.

Benefícios para o Brasil

A presença de D. João na colônia só trouxe vantagens para o Brasil, a começar pelos comerciantes da Bahia. Sempre se diz que a abertura dos portos favoreceu a Inglaterra. Mas favoreceu também os comerciantes brasileiros, e muito. Tanto é que, quando D. João chegou à Bahia, José da Silva Lisboa , futuro visconde de Cairu, apresentou um memorial dos comerciantes baianos ao rei pedindo a abertura dos portos. Isso representou o fim do pacto colonial e a liberdade econômica para o comércio brasileiro, até então restringido pelo pacto. Portugal queria que o príncipe voltasse à Lisboa, para que o Brasil retornasse à sua condição de colônia. Enquanto isso, ele montou toda uma estrutura de um país independente e trouxe para cá a estrutura que tinha lá.

IHU On-Line – Nas comemorações em torno de 1808, destaca-se muito as melhorias tomadas por D. João, como a criação da Impressão Régia, a abertura dos portos e a fundação do Banco do Brasil. Junto com isso, houve também um aumento da importação de escravos africanos e o massacre de povos indígenas que habitavam capitanias vizinhas ao Rio. Qual foi o impacto das mudanças implantadas por D. João para o Brasil colônia?

Beatriz Vasconcelos Franzen – Em 1807, o parlamento inglês proibiu o tráfico negreiro. E, logicamente, como potência poderosa que dominava os mares, ela queria impor essa proibição a todos os países. Os Estados Unidos, já independentes, e a Dinamarca proibiram o tráfico negreiro. Quando D. João chegou no Brasil, estava em discussão tal questão, trazida como uma das exigências da Inglaterra para o Brasil. Lógico, não interessava para a Inglaterra que o Brasil continuasse a usar mão-de-obra escrava, na medida em que ela vivia a primeira fase da Revolução Industrial e precisava de trabalhadores remunerados. O que fez D. João? Ele sabia que não podia fazer isso. Toda a economia brasileira dependia dessa mão-de-obra. Ele não podia ir contra os mercadores, os grandes comerciantes, os traficantes, contra toda uma estrutura econômica que dependia dos escravos. Ao mesmo tempo, não podia abolir o tráfico negreiro e nem contrariar a Inglaterra. Então, D. João (que não era tão ingênuo quanto parece nem tão tolo; era, aliás, bastante astucioso) determinou a seu ministro que tomasse as medidas necessárias para fazer uma gradual abolição do tráfico negreiro em todas as áreas da África fora dos domínios portugueses. As colônias portuguesas respeitariam uma gradual abolição do tráfico negreiro, mas desde que fosse fora delas. Naquele momento, o tráfico negreiro e a escravidão no Brasil eram fundamentais para a economia, e ele não podia desestruturar a economia. Naquele momento, ele não podia tomar outras medidas.

IHU On-Line – O que a chegada da Corte transformou na vida, nos costumes e nos hábitos dos moradores e da sociedade em geral da colônia Brasil?

Beatriz Vasconcelos Franzen – A mudança foi efetivamente muito grande. Em primeiro lugar, eles foram desalojados das suas casas para dar lugar à população que estava chegando. Não se sabe ao certo, até hoje, quantos vieram. Alguns historiadores falam em 10 mil, outros em 15 mil pessoas. Esses novos moradores precisavam de casas, então começou a se desalojar os integrantes da colônia. Colocavam nas portas das casas um “P.R.”, que significava “Príncipe Regente”. E os brasileiros, já na época muito irônicos, chamavam de “Propriedade Roubada” (risos). Quando D. Carlota Joaquina chegou, acompanhada das damas da Corte, o navio tinha sofrido um ataque de piolhos, e todo mundo foi obrigado a raspar as cabeças. E ela, para desembarcar, arrumou uma espécie de turbante na cabeça. E, no Rio de Janeiro, as senhoras ficaram encantadíssimas com a nova moda, a moda dos turbantes (risos). Então, todo mundo passou usá-los, porque a rainha usava. Os costumes e hábitos mudaram consideravelmente. Imagine a presença do príncipe-regente numa colônia. Era algo completamente novo, absolutamente diferente. Tudo isso mudou os hábitos e os costumes, que foram, conseqüentemente, reformulados, de acordo com as necessidades. Mesmo a Corte sofreu muito com as mudanças: o clima, a alimentação, o problema do calor que eles não estavam habituados. Tudo isso causou problemas graves para que essa população pudesse se adaptar.

IHU On-Line – Em 1821, 13 anos após a chegada ao Brasil, a família real retorna a Portugal. Que mudanças esse retorno implica para a então colônia à beira da Independência e para o império?

Beatriz Vasconcelos Franzen – É precisamente o período pré-independência. Na medida em que D. João se vê na contingência de voltar para Portugal, as cortes impõem e começam a tomar uma série de medidas, visando fazer o Brasil retornar à sua condição de colônia. Foram essas atitudes por parte das cortes portuguesas – e cortes liberais, não cortes absolutistas – que obrigaram D. João a retornar, em razão da revolta liberal, a Revolta do Porto. Ele chegou a Portugal e jurou uma constituição liberal. Eram as cortes liberais que estavam tentando restabelecer a colônia no Brasil. Justamente contra isso, no Brasil, existiu uma revolta. É preciso levar em consideração também que aqui havia portugueses, e estes eram favoráveis à situação de antes. É lógico que o liberalismo ainda estava apenas no começo. E os príncipes, mesmo quando liberais, bastante versados nos autores liberais, tendo lido Rousseau  e mais outros, são príncipes. D. Pedro, por exemplo, sempre dizia o seguinte: “Liberdade é um presente e não um direito dos povos”. Essa é a idéia da liberdade. Daí as cartas outorgadas: “Posso dar a liberdade, mas é um presente do rei, não é um direito do povo”. Na verdade, o país estava pronto, com toda uma estrutura. O Brasil era um reino efetivamente e bastava se separar. Se é verdade ou não aquilo que D. João teria dito a D. Pedro, sobre colocar a coroa na cabeça antes que qualquer outro o fizesse, a verdade é que a própria presença do príncipe aqui e as atitudes das cortes de Lisboa, exigindo que ele voltasse a Portugal, tratando-o como se fosse uma criança, fizeram com que ele fosse trabalhar pela Independência.

IHU On-Line – Dois séculos depois, como podemos pensar nos efeitos do governo de D. João na realidade atual? O que temos no Brasil de hoje que é conseqüência da presença de D. João no Brasil colônia? Há razões para se comemorar a data?

Beatriz Vasconcelos Franzen – Sob meu ponto de vista, temos muitas razões para comemorar, não no sentido de festas, mas no sentido de se fazer toda uma análise, uma reflexão, a respeito desse período. A pesquisa histórica, nos dias de hoje, tem condições, graças à tecnologia e aos novos estudos, de chegar o mais próximo possível daquilo que realmente aconteceu, sem estarmos vinculados a ideologias, idéias preconcebidas, ou coisas da imaginação popular. Hoje, podemos pensar o Brasil não mais como uma colônia que se libertou, mas como um país soberano, que tratou Portugal de igual para igual, sabendo-se que ambos os países poderiam aprender um com o outro. É importante comemorar, porque, nessas oportunidades, há condições para se começar a fazer trabalhos, estudos, pesquisas. Isso é muito importante. A meu ver, por exemplo, foi um erro imenso não se ter feito isso em relação à descoberta do Brasil, em 2000. A pesquisa histórica re-analisa, dentro de novos parâmetros, novos princípios, novos valores, o que efetivamente aconteceu. A comemoração é um momento para refletir, pensar, trabalhar sobre esse tema, e não para fazer festinhas.

IHU On-Line – Um livro que se tornou popular nos últimos tempos é o escrito pelo jornalista Laurentino Gomes, intitulado 1808 - Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil. Qual é a sua análise desse estereótipo sugerido pelo autor a respeito dos principais personagens da época?

Beatriz Vasconcelos Franzen – Na realidade, eles representam um momento da história do Brasil, que, depois, os próprios historiadores brasileiros queriam renegar no período da colônia. Então, precisavam mostrar aqueles príncipes e aqueles reis como figuras negativas. Mas não há por que fazer isso. Quanto à rainha louca, realmente, ela já apresentava sinais de demência. Em 1792, fazia quatro anos que D. João se tornara o príncipe herdeiro, aos 21 anos de idade. Ele não era o príncipe herdeiro, porque tinha um irmão seis anos mais velho, que morreu aos 27 anos, de varíola. Então, o segundo filho geralmente não tinha a mesma educação do herdeiro do trono, que tinha uma educação cuidada, já que era o futuro rei. O livro D. João VI: Um príncipe entre dois continentes (São Paulo: Companhia das Letras, 2008), de Jorge Pedreira e Fernando Dores Costa, diz que D. João representava a reserva biológica da família real portuguesa. As famílias reinantes geralmente tinham uma reserva biológica para fazer os filhos se casarem com outras coroas, outros países, porque possibilitava alianças. D. João era o filho segundo e estava sendo preparado para casar com alguma princesa e com isso fazer alguma aliança, como realmente aconteceu. Ele, com 18 anos, casou com Carlota Joaquina, filha mais velha de Carlos IV,  da Espanha, que tinha dez anos de idade, em 1785, ano do casamento. No ano seguinte, o pai de D. João morre. E, três anos depois, morre seu irmão, o herdeiro do trono. Ele não estava preparado para assumir a condição de príncipe herdeiro. Mas o pior é que, em 1792, a rainha já apresentava sinais de insanidade. Ela ficou totalmente desesperada quando morreu o marido e depois o filho. E o Conselho de Estado sugeriu a D. João que ele assumisse a regência. Nesse ano, na França, Luís XVI  estava sendo aprisionado, e a República, sendo instaurada. Em janeiro de 1793, Luís XVI foi guilhotinado. O mundo, com isso, parece ter vindo abaixo. D. João, sem maior preparo, seria regente de janeiro de 1792 até 1816, quando morreu a mãe. Pouco antes de ele decidir vir para a colônia, os ministros chegaram a sugerir a vinda de D. Pedro, na época com nove anos, então herdeiro do trono, para proteger a dinastia. E D. João foi conversar com a mãe, que tinha às vezes uns lapsos de lucidez. E ela, louca, disse para ele uma coisa importantíssima: “Ou vão todos, ou não vai ninguém”. Quer dizer, louca é meio relativo.

IHU On-Line – Carlota Joaquina ficou conhecida como alguém que odiava o Brasil, a ponto de não querer levar nem o pó daqui em seus sapatos. Também é vista como uma defensora dos domínios espanhóis na América, uma esposa infeliz, uma mulher que não se dobrava diante de ninguém, uma amante enlouquecida. Qual a importância e a influência dela no contexto político e social daquela época?

Beatriz Vasconcelos Franzen – Carlota é, talvez, nesse período, a personagem mais mitificada. Ela é maquiavélica, ambiciosa, insuportável, adúltera. No entanto, não existe nenhuma prova disso. Patrick Wilcken, no seu livro O Império à deriva,  comenta a respeito do tema do adultério e das traições conjugais e diz o seguinte: “Esse tema ficou ligado à mitologia de Carlota, mas, no cômputo final, são poucos os indícios sólidos capazes de comprovar suas escapadas, num ou noutro sentido”. Não existem dúvidas de que alguns dos filhos de D. João não seriam dele, os três últimos principalmente. Porque, em 1802, ele teria confessado que não tinha mais relações com a esposa. Desde 1805, eles viviam separados. O rompimento foi definitivo depois da tentativa de ela derrubá-lo, a fim de assumir a regência. E eles tiveram três filhos, que são dessa época. D. Miguel  nasceu em 1802. Se eles já estavam separados em 1802, talvez D. Miguel não fosse filho deles. Agora, as duas últimas princesas, a Maria da Assunção e a Ana de Jesus Maria, não são filhas dele. Porque, se tiveram um rompimento definitivo em 1805, e todas as duas nasceram depois de 1805, é claro que não são filhas dele.

Ela, ainda em Portugal, antes da vinda para o Brasil, se achava muito acima dos nobres portugueses ou mesmo da realeza portuguesa, porque era uma Bourbon. Os Bourbon eram os mais importantes de todas as famílias reinantes na Europa: descendiam de Luís XIV, Luís XV etc. E ela é Bourbon pelos dois lados. Seu pai, Carlos IV descende diretamente do neto de Luís XIV, que foi Filipe V da Espanha.  Pelo lado da mãe, Margarida de Parma,  a avó dela era filha de Luís XV. É possível imaginar o que é uma pessoa nascer numa corte que descende diretamente dos Bourbon franceses? E Carlota foi bem preparada, em termos de princesa da época: sabia dançar, cantar, pintar, tinha adoração por equitação, por caça, inclusive sofrendo um acidente que a fez ficar com uma perna mais curta. Isso dará um problema muito sério, porque a coitada não era bonita, de forma nenhuma (risos). Ela era uma absolutista. Os liberais não podiam gostar dela, é evidente. Entretanto, os absolutistas a colocavam nos altares, porque defendia aquilo que acreditava. Então, como queriam que ela fosse? Que de um dia para o outro mudasse tudo? Não, defendeu e lutou até o fim, inclusive contra o marido, para o absolutismo se reestabelecer em Portugal. Depois de sua volta, ela fez duas revoluções junto com o filho D. Miguel, para que D. João renegasse o liberalismo que ele havia votado na Constituição de 1822, em Portugal. Ela também achava que tinha o apoio da Corte Espanhola, mas na verdade não tinha. Porque, quando pediu o apoio do pai, ao conspirar contra D. João em 1805, ele negou-lhe total apoio. Mas ela era sempre “a” princesa, a infanta espanhola. No entanto, quando veio para o Brasil, Carlota não contava com mais ninguém. Logo depois que ela chega ao Brasil, em maio de 1808, Napoleão chamou o rei Carlos IV, que tinha abdicado por causa de uma revolta dentro da Espanha em favor do próprio filho, e Fernando VII,  irmão de Carlota, para uma reunião em Bayon. Lá, Napoleão obrigou Carlos, o pai, a anular a abdicação que tinha feito em favor do filho e a abdicar em favor do irmão de Napoleão, José Bonaparte.  Napoleão tirou José Bonaparte do trono de Nápoles e trouxe para o trono da Espanha. Foi a total desmoralização dos reis espanhóis. E mais: Napoleão aprisionou Carlos IV, Fernando VII,  Maria Luísa  e todos os demais irmãos de Carlota Joaquina na França. Carlota era a única da família real que estava livre, porque veio para o Brasil com D. João. É por esse motivo que, a partir desse momento, ela passou a defender as colônias espanholas. Ela quis assumir a regência das colônias espanholas, porque era a única representante da família. Acabou se envolvendo com as questões da América Espanhola e com a questão do trono espanhol, na tentativa de fazer com que os seus direitos fossem reconhecidos. E precisava lutar contra os portugueses que queriam aproveitar-se da situação dela para dominar o Rio da Prata. No livro Carlota Joaquina na corte do Brasil (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003), Francisca Nogueira de Azevedo trabalhou só a correspondência da princesa. Ela conseguiu reunir cerca de 1.500 cartas e mostrou a correspondência de Carlota com as lideranças aqui na América, os vice-reis. Ela chegou ao ponto de, para auxiliar os espanhóis aqui na América, dar todas as jóias que tinha para ajudar a comprar armamentos e todo o necessário para a luta pela preservação dos direitos espanhóis nas colônias espanholas. Só que, na América, em pouco tempo, o movimento evoluiu para o movimento de independência, e o sonho de ela de se tornar regente da América Espanhola desapareceu.

Antes de morrer, D. João tinha feito um testamento. Ele deixava o trono para D. Pedro, e a filha Isabel Maria, mais moça que D. Pedro, ficaria como regente, até que D. Pedro definisse o que faria. De modo que a D. Carlota não pôde fazer nada. D. Pedro abdicou em favor da filha da D. Maria da Glória, que era a princesa mais velha. A menininha seria a rainha de Portugal, tinha nove anos de idade. D. Pedro ofereceu a mão de D. Maria da Glória a D. Miguel, tio da menina. Em 1828, D. Miguel fez juras de fidelidade a D. Pedro. Então, este disse a D. Miguel que voltasse  para Portugal, porque lhe daria a regência do trono enquanto a rainha fosse de menor idade. Enquanto a menina estava viajando para Portugal, D. Miguel chegou em Portugal, depois de ter jurado obediência a D. Pedro e a D. Maria da Glória, e deu um golpe de Estado, assumindo o trono e restabelecendo o absolutismo nos moldes antigos. E Carlota tinha planejado tudo: havia planejado uma verdadeira conspiração. De modo que, em 1830, quando Carlota Joaquina morreu, ela ainda viu D. Miguel no trono de Portugal, como rei absoluto.

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