Edição 348 | 25 Outubro 2010

A dinâmica das populações reducionais

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Patricia Fachin e Márcia Junges | Tradução Benno Dischinger

 

IHU On-Line - O que são as Cartas Ânuas? Como elas contribuem para as análises etnográficas, urbanísticas, ecológicas, políticas, econômicas em relação às reduções?

Ernesto Maeder - Estas cartas eram informes periódicos que os provinciais da Província Jesuítica do Paraguai enviavam aos seus superiores em Roma, referentes às atividades que desenvolviam os jesuítas neste distrito. No inicio, elas descrevem as condições do lugar onde os missionários operavam, os traços da população aborígene e os projetos que levavam a cabo em seu labor pastoral. Mais adiante, as Cartas Ânuas centram-se cada vez mais nas questões internas da Companhia de Jesus, em suas relações com a sociedade colonial à qual pertenciam e a vida religiosa e pastoral que desenvolviam. A leitura das mesmas proporciona um caudal de informações interessantes sobre a própria atividade, o mundo indígena que atendiam em suas missões e a vida de cada um dos colegas fundados nas cidades rio-platenses. Não se deve esquecer que as Cartas Ânuas também tinham a intenção de estimular o fervor missionário dos jesuítas europeus, sobretudo o dos jovens noviços, e de atraí-los para a evangelização dos povos americanos, de modo que sua leitura atual requer que também se tome em conta o aspecto edificante de seus textos.

IHU On-Line - Quais são as informações das Cartas Ânuas sobre o processo da conquista espanhola?

Ernesto Maeder - As Cartas Ânuas não se referem especificamente à conquista espanhola. Em vez disso, os jesuítas que escreveram história, como Nicolas del Techo, Pedro Lozano , Francisco X. de Chartevoix, José Guevara ou Domingo Muriel, o fizeram. Quem mais atenção prestou a este tema foi o padre Pedro Lozano, com sua monumental História da Conquista do Paraguai, Rio da Plata e Tucumán, escrita em 1745, em dois volumosos tomos. Precisamente no mês passado acaba de ser publicada em Buenos Aires, pela Academia Nacional da História, a edição completa desta obra que é pedra fundamental da historiografia colonial rioplatense.

IHU On-Line - Quais são as novidades históricas reveladas pelas Cartas Ânuas no período que compreende 1768, data de expulsão dos jesuítas?

Ernesto Maeder – O ano de 1768, data na qual os jesuítas foram expulsos de Misiones, também se acha referido nas Cartas Ânuas, embora algumas delas se tenham perdido e outras ainda não tenham sido difundidas. Porém, já para esta época a documentação é muito abundante, tanto para a vida da Companhia como para a história colonial. Neste sentido, merece especial interesse uma série de escritos dos próprios jesuítas, redigidos antes e depois da expulsão, que enriquecem o panorama da vida interna das missões, não só entre os guaranis, senão também entre outros povos. Tais são, entre outros, os de Francisco Xarque y Diego L. Altamirano  (1687), Antonio Sepp  (1700), José Cardiel  (1747 e 1772), Martín Dobrizhoffer  (1773) e tantos outros. A lista é muito extensa e sua qualidade informativa é muito apreciada em alguns casos, ou até indispensável, como a que se refere a abipones, mocobíes e outros povos.

IHU On-Line – O senhor pode nos falar a respeito dessa experiência de estudar a documentação histórica?

Ernesto Maeder – A experiência acumulada no exame desta documentação, quase inesgotável por sua quantidade e qualidade, é de grande interesse e muito atrativa. Não só pelo tema, como pela riqueza de matizes e impressões que deixam estes homens sobre seu labor e seus neófitos americanos, com os quais viveram muitos anos de labor pastoral e os quais sempre recordaram com afeto e, em certas ocasiões, até com nostalgia nos duros anos do exílio.

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