Edição 379 | 07 Novembro 2011

Filosofia não é, necessariamente, sistema

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Márcia Junges



IHU On-Line – Dentro da tradição filosófica, quais são os autores e obras fundamentais, que prosseguem instigantes e atuais para a pós-modernidade?

Roberto Romano – Depois de Platão (e suas notas ao pé de página, em dois mil anos)? Os mestres da suspeita, Nietzsche, Freud e Marx, e suas respectivas notas ao pé de página...

IHU On-Line – Como percebe o ensino de filosofia no Brasil? Quais são as principais diferenças de ensino hoje em relação ao passado e quais são os limites que permanecem?

Roberto Romano – Saímos, felizmente, da época em que a filosofia era ensinada sobretudo por sacerdotes (padres ou pastores), juízes, advogados e promotores. Claro, no ensino médio. Após os anos ditatoriais, quando a sociologia e a filosofia foram consideradas disciplinas diabólicas e subversivas, graças aos programas universitários e à vida política nacional elas adquiriram certa “respeitabilidade”. Alguns cursos se dedicaram mais à história da filosofia, outros à estética ou à ética. O trato interdisciplinar ainda é um mito, pois os estudantes e professores de filosofia que entram em terrenos limítrofes dificilmente são valorizados pelos pares. Ainda a carteira corporativa determina quem é quem nas áreas acadêmicas. Existe ainda a tolice corporativa de se procurar o que seja “propriamente filosófico”. Mas surgem trabalhos de filosofia que utilizam elementos das várias ciências humanas, biológicas, médicas, ou físicas e matemáticas. No campo da estética, aparecem colaborações com setores artísticos e, no terreno religioso, diálogos são encetados entre filosofia e teologia.

Filosofia “detergente”
Um equívoco grave, cuja base é em parte a ideologia e, em parte, o lucro de editoras, ocorre com o ensino da filosofia no segundo grau. Sou absolutamente contrário a tal coisa. Se a filosofia é usada como propedêutica ao pensar, é um desastre impor aos jovens manuais dogmáticos que ensinam, com algumas fórmulas e seletas de trechos dos filósofos, a não pesquisar, não duvidar, não refletir. Se ela for praticada como propedêutica para a “conscientização” política ou social, não passa de um detergente para lavagem das mentes. Se usada para inculcar bons costumes, não vai além da moral e cívica, tão acarinhada pelos conservadores de todos os quilates. Se, o que é pior, for movida pelo desejo de doutrinar religiosamente, é substituto inferior e perigoso do catecismo. Sempre digo que se tome cuidado com aulas de religião, porque elas podem gerar efeitos contrários aos esperados, ou seja, podem fabricar ateus. O mesmo com a filosofia. Decorar enunciados ou trechos de filósofos causa misologia. A ninguém, salvo os pervertidos, pode ser aconselhável a ideia de passar aos estudantes apenas trechos de, por exemplo, um filme de Kubrick, como 2001 ou Laranja mecânica.
Como então justificar a prática de impingir trechos de Platão (esquartejando ainda mais O Banquete, A República, as Leis), Maquiavel , Platão, Marx? Existe perversidade maior do que, sob capa de filosofia, passar ao estudante programas de partidos políticos, seitas ou movimentos? A filosofia, no secundário, deve ser preparada pelo estudo rigoroso da literatura (sem as famosas seleções, porque elas estupram os textos), da poesia, da história, das línguas, da geografia, da história, das matemáticas. Sérgio Rouanet , em artigo antigo para a revista Humanidades, da UnB, critica a eliminação do latim no segundo grau, algo feito pela ditadura de 1964. Ele argumenta que o latim ajuda o estudante a pensar com rigor, sendo por tal motivo uma iniciação relevante para as humanidades, a filosofia e demais ciências. Talvez ocorra exagero no seu juízo, mas ele tem razão com o treino da mente trazido pelo latim. Eu diria também: pela poesia, pelas matemáticas. Lembro a recomendação de Fichte  para o bom ensino dirigido aos jovens: usar línguas as mais distantes do cotidiano, para aguçar a imaginação e o espírito. Propor lemas das mais variadas procedências, mesmo que travestidos de filosofia, é vacinar os jovens contra as dificuldades do pensamento, estiolando seu gosto e sua imaginação.

IHU On-Line – Tem crescido o número de cursos de filosofia no Brasil, em termos de graduação e pós-graduação, além da pesquisa acadêmica. Nesse sentido, qual é a importância da consolidação de uma filosofia brasileira? Podemos falar nesses termos? Por quê?

Roberto Romano – Desconheço uma filosofia brasileira, grega ou egípcia. No pensamento filosófico questões relativas à humanidade, para além de todas as fronteiras culturais, podem ser verificadas na China, em Roma, na Grécia, até mesmo no Brasil. Estamos longe da época, etnocêntrica, na qual a filosofia era dita grega e, depois, alemã, francesa, inglesa, italiana. O livro de Luciano Canfora, Ideologie del Classicismo  fornece elementos para compreender o vezo ocidentalizante e pró-europeu de tal noção de filosofia. No meu sentimento, importa consolidar a filosofia no Brasil sem cair na perspectiva, em meu entender equivocada, de uma filosofia nacional.

IHU On-Line – Qual é a sua percepção a respeito da filosofia que não se edifica mais sobre grandes sistemas, como Kant e Hegel, por exemplo? O que essa filosofia aponta a respeito da pós-modernidade?

Roberto Romano – O desejo de produzir um sistema é recente na filosofia. Identifico o seu maior vigor nos anos românticos que espalharam esquemas sobre o pensamento pretérito (atribuindo algo como um sistema a Kant, quando sua filosofia notoriamente apresenta lacunas e descontinuidades) e sobre o que veio depois de Hegel, Schelling  e outros. Heidegger vai ao ponto dolorido ao dizer que o sistema corresponde ao cartesianismo, mas que nem Platão nem Tomás de Aquino foram sistemáticos, o que não significa que não foram rigorosos. Nas próprias Luzes o sistema já era algo considerado prejudicial ao pensamento filosófico. Digamos assim: a sinfonia romântica responde, na música, ao desejo de sistema na filosofia. Podemos ouvir uma sinfonia romântica com interesse e gosto. Mas hoje nossas vias seguem o caminho de Boulez, Cage, Berio, Ligeti, Carter, Stockhausen e outros, ainda mais distantes do formulário romântico. Algo similar ocorre na filosofia.

IHU On-Line – O que é ser filósofo nos dias de hoje?

Roberto Romano - Não sei. E duvido que alguém possa responder, sem grandes doses de sofisma.

Leia mais...

Roberto Romano já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line. Confira.

* “O governo do Brasil retoma a ética conservadora e contrária à democracia, o que exige da Igreja o papel vicário”. Publicado nas Notícias do Dia 14-01-2008;
* Niilismo e mercadejo ético brasileiro. Edição 354 da IHU On-Line, de 20-12-2010.

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