Edição 368 | 04 Julho 2011

Bolsas universitárias: um processo de inclusão ilusório

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Patricia Fachin e Márcia Junges



IHU On-Line – Que foco as políticas públicas poderiam ter para incluir os jovens na universidade?

Maria Aparecida Marques da Rocha – O sistema de educação de um modo geral, e especificamente o ensino superior, necessita da criação e gerenciamento de políticas públicas socioeducacionais consistentes, em que sejam levadas em conta não apenas as necessidades reais destes jovens que buscam na formação superior a possibilidade de ascensão social, mas também a garantia de seu direito ao desenvolvimento como ser humano mais completo, que busca conhecimento e realizações mediante a continuidade dos estudos. O fato de uma considerável parcela da população brasileira ter baixo poder aquisitivo faz com que os jovens, provenientes destes extratos da população, não tenham como escapar de tal situação, necessitando de bolsas de estudos, bem como de auxílio para locomoção e alimentação. Ainda assim para muitos, estas condições não seriam as mais favoráveis. Provavelmente, se uma parcela deste segmento jovem da população estivesse estudando em universidades públicas, permaneceria com algumas destas dificuldades, devido à pauperização da população.

IHU On-Line – Como avalia o processo de inclusão nas universidades brasileiras? Desde a formação das universidades no país, percebe avanços?

Maria Aparecida Marques da Rocha – A democratização do ensino superior, nos últimos anos, tem apresentado alguns avanços. Entretanto, as formas de acesso e permanência do jovem neste nível de ensino apresentam inúmeras limitações, principalmente daqueles oriundos das classes populares. Mesmo com iniciativas do MEC como o ProUni, Reuni , ações afirmativas entre outros, ainda assim é desalentador o tamanho da exclusão universitária. A permanência na universidade e sua conclusão com sucesso, tanto na universidade pública como privada, apresenta exigências de custeio que vão além do pagamento de matrícula e mensalidades, ficando, então, mais acessível àqueles que provêm das classes média e alta da sociedade. Cabe aos demais, devido à insuficiência de recursos financeiros, buscarem apoios nos sistemas de benefícios aos estudos superiores oferecidos pelo governo federal, estadual e municipal, ou mesmo às próprias instituições superiores de cunho privado, convertidos em programas de financiamentos ou bolsas de estudos parciais ou integrais. Nota-se que os recursos existentes são insuficientes para o grande contingente de estudantes dos cursos de graduação que buscam esses recursos.

IHU On-Line – Quais os desafios da educação universitária no Brasil?

Maria Aparecida Marques da Rocha – Os desafios da educação universitária são muitos e merecem ser analisados com a devida atenção. Verifica-se uma explosão de demanda pelo ensino superior no Brasil, consequência do aumento no número de alunos matriculados e concluintes no ensino médio. Essa elevação da demanda provoca uma violenta pressão na sociedade pelo aumento de vagas na educação superior. Mesmo com uma grande expansão do ensino superior brasileiro, principalmente entre os anos de 1989 e 2002, não foi possível cumprir a meta prevista no Plano Nacional de Educação – PNE, que é de ter 30% dos jovens com idade entre 18 e 24 anos matriculados na educação superior. Enfim, a necessidade de incremento substancial de recursos financeiros em políticas socioeducacionais mais bem definidas e comprometidas é o caminho possível para a reversão do quadro a médio e longo prazo. Fato que só poderá ocorrer com decisões políticas realmente comprometidas com o desenvolvimento do país e que visem à concretização de justiça social.

IHU On-Line – Em que consistiria, na sua avaliação, uma universidade inclusiva?

Maria Aparecida Marques da Rocha – Quando ela trata a educação como um direito, levando em conta a emancipação do sujeito. No Brasil do século XXI ainda somos carentes quanto ao respeito das necessidades básicas, como saúde, segurança, moradia, educação, embora – mesmo que se constituam em direitos – ainda estejam no patamar de serem minimamente cumpridos. Portanto, são desrespeitados, apesar de toda a legislação social vigente que ampara, justifica e preconiza-os num Estado democrático.
É necessário que se estabeleçam metas para haver maior acesso e permanência com sucesso das populações de menor poder aquisitivo, como ocorre em outros países em desenvolvimento e desenvolvidos, sob pena de avançarmos muito lentamente, num mundo que se transforma rapidamente. O governo reconhece que a tarefa é árdua, uma vez que está condicionada à conjuntura social e econômica, além da vontade política.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Maria Aparecida Marques da Rocha – O estudo realizado resultou no livro Processo de Inclusão Ilusória: o jovem bolsista universitário, e trabalhou com o conhecimento gerado pela existência de dois conceitos de moratória juvenil, vital e social. Entendo que estes conceitos podem transformar-se em importante aliado quanto ao uso de critérios para pesquisas futuras sobre juventude, bem como para a organização de políticas sociais voltadas à juventude, uma vez que se torna mais presente e clara a ideologia que permeia a produção sobre juventude. Por fim, o livro compartilha um conhecimento específico sobre aqueles jovens que têm bolsa de estudos e que, ao olhar de muitos, se mostram como sujeitos tidos por “terem muita sorte”, devido à bolsa de estudos. Calcadas na pesquisa realizada, entendo que ela não nega isso, mas nos remete a ir além, quando possibilita a discussão de qual é a real qualidade desta inclusão, atenta aos condicionamentos pertinentes à condição de juventude no Brasil, uma vez que leva o jovem bolsista das classes de menor poder aquisitivo a ingressar mais rapidamente no mundo adulto.

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