Edição 366 | 20 Junho 2011

Uma religiosidade nômade

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Graziela Wolfart



IHU On-Line – Que tipo de espiritualidade é compatível com uma camada social que está motivada ao apelo do consumo?

Leonildo Silveira Campos – Nesse neopentecostalismo, os males da vida são encarados como presença dos demônios e do próprio diabo, os quais precisam ser exorcizados. Soluções sincreticamente misturadas com as da umbanda, candomblé, catolicismo popular e algumas pitadas de protestantismo são buscadas pelos candidatos à ascensão social, a qual estava sendo barrada por alguma manifestação demoníaca. As pessoas que frequentam tais centros religiosos têm boas chances de organizar a vida de acordo com novas regras, agora as que são ditadas pela sociedade de consumo. Não se trata mais de buscar as bênçãos no céu do pós-morte. O paraíso é aqui mesmo na terra (influência da pós-modernidade?) e é compatível com a busca da riqueza, com a realização de projetos individuais (mesmo que sejam considerados egoístas), com o culto do corpo belo, saudável, do hedonismo e do prazer. Nada mais de uma religião pentecostal ou protestante tradicional centrada numa ascese que prega o sofrimento corporal como forma de entrada no paraíso.
 
IHU On-Line – Como a Igreja Católica deve conduzir sua postura e seu discurso se pretende ampliar sua base de atuação nesse novo segmento social e econômico do país?

Leonildo Silveira Campos – A Igreja Católica cede, desde os anos 1980, aos encantos desse novo pentecostalismo. A renovação carismática católica oferece práticas e visões de mundo muito semelhantes as que têm sido pregadas pelos neopentecostais. Os programas televisivos, a mercantilização de produtos simbólicos, as promessas de cura, de solução mágica para problemas complicados, a eliminação do mal-estar provocado pelos trancos de uma ascensão ou de um descenso social é amenizado. “Deus está presente. Viva Jesus!” proclama a Legião da Boa Vontade  de igual modo, desde os anos 1950.

IHU On-Line – Quais os segmentos religiosos brasileiros que deverão sofrer mais mudanças a partir do surgimento da ““nova classe média””?

Leonildo Silveira Campos – Nessa mudança de cenário religioso, há um fator que poucos pesquisadores da religião têm dado conta. Há milhares de empregos que têm sido criados para o atendimento das demandas geradas pela passagem de milhões de pessoas de uma para outra classe social. Esses novos intermediários culturais são pastores, padres, missionários, apóstolos, videntes, e outros que se especializam em fazer da satisfação das carências sociais e econômicas o seu ganha-pão. Uma pesquisa feita por Marcelo Neri  (da Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro) sobre a Economia das religiões: mudanças recentes (2007) enfatizou que a percepção de acesso aos bens públicos, as mudanças de escolaridade, o capital empregado na obtenção de bens simbólicos, fez com que um grupo maior de pessoas, antes nas camadas mais baixas da sociedade, subisse na pirâmide social e passasse a ter acesso ao consumir mais. Assim, o carismatismo e o neopentecostalismo se mostram como uma força propulsora de uma mobilidade social ascendente para milhões de brasileiros. Possivelmente, esse cenário indique um crescimento ainda maior do neopentecostalismo e uma pressão para que os grupos pentecostais tradicionais, como Assembleia de Deus e Congregação Cristã no Brasil, assim como os protestantes tradicionais, também se neopentecostalizem caso queiram sobreviver. Em um determinado ponto de sua pesquisa, Neri registra que “enquanto o protestantismo tradicional liberou o cidadão comum da culpa de acumulação de capital privado, as novas seitas pentecostais liberaram a acumulação privada de capital através da igreja”.

IHU On-Line – Como definiria a vivência religiosa dessa camada social que, hoje, é chamada de ““nova classe média””?

Leonildo Silveira Campos – É interessante observar que os integrantes da possível nova classe social não mais se sentem à vontade com a religião tradicional, cristalizada em dogmas, ritos e instituições clássicas. Muitos deles preferem o dinamismo das novas comunidades religiosas, mesmo que sejam comunidades aninhadas dentro de velhas instituições sociais como a Igreja Católica (Canção Nova , etc.). Outros preferem uma religiosidade individual, voltada apenas para a intimidade, sem preocupação social ou sem sentir a necessidade de se associar a outros para a prática da religiosidade. Vai surgindo, nesse caso, um tipo de religiosidade nômade, de uma espiritualidade sem igreja, que mantenha com mais força o interesse e experiência individual.

Leia mais...

>> Leonildo Silveira Campos já concedeu outras entrevistas à IHU On-Line:

* Mídia e religião no Brasil, publicada nas Notícias do Dia do sítio do IHU, em 16-12-2009;

* A Reforma. 500 anos depois de Calvino, publicada nas Notícias do Dia do sítio do IHU, em 22-11-2009;

* IURD: teatro, templo e mercado, publicada na IHU On-Line número 329, de 17-05-2010;

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