Edição 250 | 10 Março 2008

Uma nova democracia: ainda é possível superar a apatia política?

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Márcia Junges e Patricia Fachin

Para o filósofo Miroslav Milovic, o fracasso do movimento de 68 serviu para articular uma nova democracia

“As guerras são sempre a negação dos Outros. Os Outros quase sempre eram os inimigos. Os inimigos assim justificam a política do Estado”, comenta o filósofo Miroslav Milovic. Para o pesquisador, eles se tornaram personagens “insubstituíveis” no cenário político. E, agora, ficar sem adversários “significa para alguns Estados ficar sem política”.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, embasado nas teorias de Chantal Mouffe e Ernesto Laclau, o filósofo destaca as manifestações de 1968 como uma possibilidade de pensar a “politica não-representativa”. Só assim, garante, será possível construir uma nova democracia. Além de uma apatia política criada nos últimos 40 anos, Milovic chama a atenção para a disseminação da indiferença em áreas como a cultura e história. Essa insensibilidade silencia os indivíduos e assegura “padrões e fundamentos inquestionáveis”.

Miroslav Milovic é graduado em Filosofia, pela Faculdade de Filosofia de Belgrado, e doutor na mesma área, pela Université de Paris IV e pela Universität Frankfurt. Atualmente, é docente da Universidade de Brasília (UnB).

IHU On-Line - Qual é o maior legado político do Maio de 1968?
Miroslav Milovic
- Respondendo, numa entrevista, às perguntas de Sartre,  Daniel Cohn-Bendit,  um dos líderes do movimento, fala: “A força do nosso movimento reside justamente na espontaneidade incontrolável em que se apóia (...). Para isso é necessário evitar, de imediato, o surgimento de uma organização, a definição de um programa que seriam inevitavelmente paralisantes. A única chance do movimento é justamente esta desordem...” (em: Gomes, F. A. A rebelião dos jovens. Porto Alegre: Ed. Globo, 1968). Penso que o legado importante do maio de 1968 está nessa possibilidade de pensar a política não-representativa, além dos partidos. Os partidos criam só a condição da retificação da política. E, como se sabe, o partido comunista francês não apoiou o movimento estudantil.

IHU On-Line - Qual é a influência do Maio de 68 sobre a Nova Esquerda? Que propostas e desafios persistem e que outros se descortinam com o avanço da pós-modernidade?
Miroslav Milovic
- Parece que toda a história da filosofia comete uma injustiça profunda, tematizando as várias formas do Mesmo e esquecendo o Outro. As guerras são sempre a negação dos outros. Os Outros quase sempre eram os inimigos. Os inimigos assim justificam a política do Estado. Ficar hoje sem os inimigos significa para alguns Estados ficar sem a política. Desse modo, vejo as perguntas e perspectivas para uma elaboração pós-moderna. Poucos utilizam essa palavra, e é melhor entendê-la no sentido da confrontação com a modernidade e não no sentido de uma continuação parasitária. A influência de Maio de 68 sobre a nova Esquerda poderia ser essa confrontação com as formas tradicionais da política da identidade. Mas, por outro lado, o movimento fracassou. Isso renova as questões anteriores. Anarquismo ou movimento operário organizado? O fracasso do movimento fala, assim parece, em favor de uma organização marxista. Mas, separando-se do anarquismo, parece que Marx também perdeu em muito o dinamismo da ação.

IHU On-Line - Por que razão Chantal Mouffe afirma que a modernidade só consegue chegar até uma democracia representativa, e não a uma democracia participativa?
Miroslav Milovic
- A condição humana na Modernidade, para Mouffe,  é mais individual e econômica do que política e coletiva. Por isso, a modernidade chega só até a uma democracia representativa e não até a uma democracia participativa. O mundo liberal não é necessariamente ligado à democracia. Esse é o ponto onde Mouffe, procurando a inspiração em Carl Schmitt , irá se confrontar com autores como Rawls,  Rorty  e Habermas.  Precisamos, então, repensar a política para articular as condições de uma nova democracia que Mouffe, junto com Laclau , vai chamar a democracia radical ou agonística.

IHU On-Line - A que se deve a apatia política, um dos elementos que impedem que a democracia participativa se consolide?
Miroslav Milovic
- Apatia é a palavra adequada. Significa a falta de vida, ou a vida ausente na política. E isso é o fato cultural, que não se encontra só na política. A apatia é da cultura e da história, silenciando as pessoas e afirmando os padrões e fundamentos inquestionáveis. Alternativa não são os partidos. Mesmo os da esquerda, quando no governo, criam equívocos, porque o interesse da esquerda obviamente não é de governar e estabelecer as novas hierarquias em lugar das tradicionais e modernas. Agamben  acredita que a democracia moderna seja incapaz de pensar uma política não estatal. Criar alternativas, afirmar a sociedade civil, a desobediência civil, quando precisar, são os sinais de uma outra possibilidade da democracia.

IHU On-Line - Nesse contexto, a democracia radical poderia surgir como um elemento substitutivo às democracias representativas e participativas? Como? Em que consiste, especificamente, essa proposta de democracia radical?
Miroslav Milovic
- Chantal Mouffe deseja elaborar uma concepção antifundamentalista da política. A inspiração é, por um lado, derridiana, pensando o conceito da diferença, e, por outro, psicanalítica, pensando o caráter conflitivo da natureza humana. Neste sentido, Mouffe fala inclusive sobre os perigos de uma teoria que procura as soluções consensuais e assim marginaliza os verdadeiros conflitos. Penso, neste contexto, em meu país, ex-Iugoslávia, cujo conflito também pode melhor ser entendido dentro dessa reconstrução de Chantal Mouffe. O comunismo postulou um certo consenso, a solidariedade ou irmandade dos povos dentro do universal projeto da sua realização. Assim, os verdadeiros conflitos entre os povos nunca chegaram à articulação política. Depois da morte de Tito , o conflito aberto apareceu. O governo dele não conseguiu, nas palavras de Mouffe, transformar o antagonismo em agonismo, nem o conflito numa competição política. O conflito iugoslavo mostra o perigo das soluções consensuais que excluem a política. O consenso esconde conflitos. Na ex-Iugoslávia, mostrou-se que crer em consenso pode ser uma grande ilusão. Isso é o momento que me interessa particularmente.

Creio que Mouffe quer renovar a questão da democracia depois de Marx. Marx não é um pensador da democracia. Pelo contrário, pensa que a democracia é o contexto da emancipação política limitada. A pesquisadora também quer ampliar a questão da democracia, que precisaria chegar até a nossa casa.

IHU On-Line - A abertura ao Outro, proposta pela democracia radical de Mouffe e Laclau, seria a consecução do real objetivo da democracia, isto é, ser um governo da maioria, ao contrário do que se percebe hoje, quando a democracia se converteu em sinônimo de governo das minorias?
Miroslav Milovic
- A teoria de Mouffe e Laclau é bastante inspiradora. Penso, por exemplo, que a busca de uma implícita ou explícita intersubjetividade, em que o caso iugoslavo também poderia, de uma certa maneira, ser colocado, cria os problemas para a política. A Iugoslávia podia, eventualmente, sobreviver baseada nos conflitos e não no consenso ou na intersubjetividade comunista.
Mas, na teoria de Mouffe, mesmo falando sobre a democracia radical, a afirmação do caráter conflitivo da diferença não se tematiza de um jeito radical. Falando, por exemplo, sobre o pluralismo político, Mouffe simplesmente o postula. O pluralismo não é uma afirmação ontológica, mas um fato histórico. É o próprio início da Modernidade liberal. Tenho muitas dúvidas com essa ligação entre o liberalismo e o pluralismo. Liberalismo é apenas uma forma da identidade social capitalista e não a afirmação do indivíduo e da diferença. Outro problema é que Mouffe, e isso o aproxima de Habermas, deseja ainda seguir o projeto Moderno, europeu. Parece-me difícil imaginar a possibilidade da diferença e do pluralismo dentro desse explícito eurocentrismo.

IHU On-Line - É possível que as sociedades contemporâneas, e em específico as latino-americanas, possam transformar o conflito político em competição política, no autêntico agonismo que leva em consideração o conceito da diferença e o caráter conflitivo da natureza humana?
Miroslav Milovic
- Espero que sim. Cheguei ao Brasil com muito otimismo sobre os movimentos. Eles são sinais da vida na terra, que se transforma cada vez mais no deserto político. A política brasileira poderia aprender muito dos movimentos. O futuro do Brasil não é seguir os caminhos estabelecidos e metafísicos da globalização. Isso seria muito estranho, ou seja, um país tão grande ficar como uma pequena nota de rodapé na história.

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