Edição 249 | 03 Março 2008

A ascensão da imagem feminina: um elo para o individualismo?

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IHU Online

Para o professor Larry Wieznievsky, O declínio do império americano, de Denys Arcand, utiliza recursos simples da produção cinematográfica para montar um quebra-cabeça que divide claramente o universo feminino e o universo masculino

“Acredito que existem problemas muito mais graves na sociedade contemporânea, como a paz mundial, a fome endêmica e o aquecimento global, do que a necessidade de investirmos numa espécie de partenogênese do feminino.” A afirmação é do professor e jornalista Larry Antônio Wieznievsky, da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí). A discussão gira em torno da temática do filme O declínio do império americano, de Denys Arcand, no qual “declínio” faz alusão à perda de poder dos homens, diante da figura feminina.

A discussão fomenta o debate sobre o individualismo, num tempo em que a ciência levanta a hipótese de as mulheres gerarem sozinhas os próprios filhos. Para Wieznievsky, a questão envolve uma diferença mais complexa entre individualismo e individuação, remetendo para possibilidades de uma vivência cultural mais integrada com os indivíduos, que articulam, em redes de comunicação, suas possibilidades e, principalmente, necessidades de relações humanas.

Larry Antônio Wieznievsky irá explanar a temática do filme O declínio do império americano durante o ciclo de debates Cinema e Saúde Coletiva III: Mulheres e seus múltiplos desafios. O evento, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU – será realizado no dia 04-03-2008, das 19h15 às 22h, na sala IG 119.

Confira, a seguir, a entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line:

IHU On-Line - A temática de O declínio do império americano gira em torno das relações entre homens e mulheres. No entanto, ao que se atribui a alusão ao império americano?
Larry Antônio Wieznievsky
- Devemos lembrar que o filme é de 1986, no auge do período Reagan e início do fim da Guerra Fria. É um título irônico, como tudo o que envolve a obra do diretor. Na verdade, o extraordinário sucesso deste filme no Brasil se deve ao fato de coincidir com o fim da ditadura, o fracasso de um possível governo de Tancredo Neves e a era Sarney, período que caracterizou o debate sobre os conceitos e efeitos de sentido da pós-modernidade. Não é à toa que o filme que deu seqüência a O declínio do império americano se chama As invasões bárbaras. É uma grande metáfora sobre o início da globalização e o cinismo da chamada era yuppie, que caracteriza o objeto de repúdio dos personagens do filme, todos orientados ideologicamente para os mitos do socialismo utópico e das bandeiras libertárias do maio de 68.

IHU On-Line - Hoje em dia, vivemos em uma sociedade em que a imagem feminina está cada vez mais em ascensão, principalmente no campo profissional, onde assume funções antes tidas como "de homem". Pode-se entender o declínio do império americano como a perda de poder masculino, diante desta situação?
Larry Antônio Wieznievsky
- Com certeza. O filme inteiro gira em torno da publicação de um livro chamado “Variações sobre a idéia de felicidade”, escrito por uma feminista. A partir deste mote, o diretor especula exatamente sobre este tema do declínio do masculino, lido e analisado sob o ponto de vista das questões de gênero que caracterizam os debates travados nos últimos 20 anos. A autora do livro assemelha-se muito a Camille Paglia que, exatamente no período de lançamento do filme, arremetia contra os dogmas do feminismo, a partir de seu livro-tese Personas sexuais. O filme utiliza-se de forma muito criativa de recursos simples da produção cinematográfica para montar um quebra-cabeça que divide claramente o universo feminino e o universo masculino, mostrando que o segundo percebe a dimensão do problema, mas prefere escamotear esta percepção com cinismo e auto-indulgência. Já as mulheres, ao contrário, assenhoram-se de seus lugares no mercado de trabalho e nas suas funções sociais, expondo com muito mais frieza e objetividade a confusão instaurada no universo masculino. Por esse viés, o filme ainda é extremamente atual e situa-se cronologicamente no início de um debate que ainda encontra-se em aberto no campo das representações sociais, bem como na questão relativa aos gêneros e seu lugar na sociedade contemporânea. O filme de Arcand é, com certeza, o arquétipo de filmes como Sexo, mentiras e videotape e Closer – Perto demais, bem como aproxima-se muito do modo narrativo da minissérie Queridos amigos, exibida atualmente pela TV Globo. Basta observar mais de perto o modelo narrativo adotado por Maria Adelaide Amaral para perceber o DNA de O declínio do império americano neste processo.

IHU On-Line - Em que medida a sociedade ganha ou perde, com a mulher à frente de múltiplos desafios, especificamente profissionais?
Larry Antônio Wieznievsky
- Não perde nada. Acredito que o espaço da mulher na sociedade e sua ocupação correspondem ao momento mais lúcido da luta da mulher, por reconhecimento e, principalmente, por garantias de um exercício profissional e social cada vez menos marcado pelo preconceito. Acredito que o lugar da mulher na sociedade contemporânea é cada vez mais fundamental, principalmente pelo modo como as questões ligadas ao gênero vêm sendo tratadas de um modo geral, agregadas a questões fundamentais da cidadania, como é o caso dos direitos humanos, para ficar apenas num exemplo genérico. O feminismo continua sendo uma das bandeiras mais importantes do período em que vivemos, por mais que a Camille Paglia não concorde.

IHU On-Line - Nos Estados Unidos, Hilary Clinton é uma das candidatas à Casa Branca. Para o senhor, qual é o reflexo desta realidade? É a hora de as mulheres mudarem a postura e almejarem a presidência de um país?
Larry Antônio Wieznievsky
- No caso de Hilary, não, pois ela persegue um projeto político muito anterior ao próprio Bill Clinton, de certa forma, forjado enquanto personagem por Hilary. Sua postura de mártir do silêncio por ocasião do affaire Mônica Lewinski invalida qualquer tentativa de se levar a sério sua plataforma como candidata à presidência dos Estados Unidos. Ela é o correlato objetivo da presença de Condoleeza Rice, no governo Bush. Fica difícil vislumbrar no atual cenário americano uma mulher verdadeiramente apta a esse exercício, sem que se perceba também um enorme e gigantesco processo de manipulação na trajetória da construção desta figura. Basta lembrar-se o caso de Geraldine Ferraro, cuja possibilidade de trânsito na política foi avaliada por um marido sem-vergonha. Pessoas como Susan Sontag e a roqueira Patti Smith configuram o melhor modelo da mulher americana atual. Hilary, infelizmente, acreditou demais na própria lenda e acabará envolvida no confronto com sua arrogância e prepotência. O caminho, no entanto, está aberto.

IHU On-Line - Recentemente, a ciência levantou a hipótese de as mulheres gerarem os filhos sozinhas, o que as concederia total autonomia nas relações conjugais. Como o senhor avalia esta questão? Estamos cada vez mais próximos de uma sociedade que ruma para o individualismo?
Larry Antônio Wieznievsky
- No livro Variações sobre a idéia da felicidade, que aparece no filme, a idéia defendida é de que todos os impérios culturais que a humanidade criou entram em colapso, quando a idéia de auto-realização é trocada pela idéia de sobrevivência. Acredito que existem problemas muito mais graves na sociedade contemporânea, como a paz mundial, a fome endêmica e o aquecimento global, do que a necessidade de investirmos numa espécie de partenogênese do feminino. Valerie Solanas , uma feminista radical dos anos 1960, defendia exatamente esta tese em seu famoso SCUM (Manifesto em que propunha esta possibilidade visando à eliminação do lixo masculino da face da terra). Quando suas teses foram ignoradas, reagiu atirando em Andy Warhol, artista plástico que defendia que no futuro todos teriam direito aos seus 15 minutos de fama. É impossível prever se a sociedade ruma para um individualismo maior do que aquele que já conhecemos. A questão envolve uma diferença mais complexa entre individualismo e individuação, remetendo para possibilidades de uma vivência cultural mais integrada e com os indivíduos articulando, em redes de comunicação, suas possibilidades e, principalmente, necessidades de relações humanas. O máximo do individualismo apresenta-se na sociedade do supérfluo, caracterizada por Gilles Lipovetsky como a sociedade hiper-moderna. Lixos como Britney Spears e Paris Hilton originam-se exatamente sobre este conceito de individualismo, que supera qualquer possibilidade de articulação concreta com o humano e seus problemas.

IHU On-Line - No filme, o diretor Denys Arcand causou impacto ao desvincular, parcialmente, o exercício da sexualidade e a manifestação da afetividade. Até que ponto as relações que esboçam este distanciamento são prejudiciais à saúde dos indivíduos?
Larry Antônio Wieznievsky
- O filme situa-se no início do surgimento da epidemia de Aids, que assolaria o mundo. A desvinculação das relações sexuais com os conteúdos do afeto e do compromisso remete à filosofia existencialista, base na qual Arcand busca os seus principais modelos. Os riscos para a saúde física e mental são evidentes. Basta ver a quantidade de drogas, álcool e outros formatos semelhantes que os sujeitos contemporâneos consomem no sentido de integrar ou desintegrar estas pontes destruídas na tentativa de desvincular sistematicamente sexualidade e afetividade. Assim como o LSD, substância fundamental para entendermos os anos 1960, surgiu de uma experiência em que se buscava uma aspirina com gosto menos amargo, o ectasy, droga essencial para entender-se o século XXI, deriva da busca de um antidepressivo de efeitos mais duradouros. O próprio Arcand fez um filme fabuloso sobre este tema chamado Amor e restos humanos. Quanto ao resto, mantém-se a mesma perspectiva conflitada dos anos 1950, quando as relações pessoais de Sartre e Simone de Beauvoir sustentavam obras filosóficas maravilhosas e barracos emocionais não menos interessantes. Nesse ponto, acredito que a situação não tenha mudado muito, Eros e Thanatos continuam sua parceria ancestral.

IHU On-Line - E a forma como a mídia trata as relações entre homens e mulheres? Os exemplos contribuem para que se aumentem os confrontos ideológicos entre ambos?
Larry Antônio Wieznievsky
- Depende. Todas as facetas das relações entre homens e mulheres estão hoje disponíveis no universo da mídia. Acredito que esta exposição não aumenta necessariamente o conflito, mas também permite às pessoas uma maior variedade de informação para pensarem suas problemáticas individuais. Este é o tema do filme Três efes, de Carlos Gerbase, que, como textos literários e, principalmente, cinema, preocupa-se em utilizar como elementos para ampliar a representação desses confrontos. A cultura contemporânea nunca foi tão rica em variedade e, principalmente, em quantidade de objetos estéticos que exemplifiquem inúmeros aspectos do confronto cultural e ideológico da relação homem-mulher.

IHU On-Line – E o qual é o grande diferencial na obra de Arcand, que consegue prender a atenção dos espectadores, transportando alguns deles para a sua própria realidade?
Larry Antônio Wieznievsky
– Utilizando um recurso muito inteligente de montagem intercalada e flashbacks estrategicamente colocados em partes fundamentais da narrativa, Arcand faz, em seu filme, uma verdadeira mágica no sentido de transformar o espectador na pessoa que mais conhece sobre a realidade exibida na tela. Isso desaloja os espectadores de uma função meramente de observação para colocá-los como árbitros de uma disputa que oscila entre o simbólico e o real. Esse processo não é feito de forma ostensiva como é o caso de alguns filmes contemporâneos, como, por exemplo, Desejo e reparação, filme excelente, mas que engana o espectador em relação àquilo que mostra. Utilizando-se de um critério hegeliano, Arcand faz um filme em que há uma tese, uma antítese e a possibilidade de síntese é repassada ao espectador, que tem um poder de conhecimento e informação superior a todos os personagens representados na tela. É um exercício de intelectualidade que não resulta numa manipulação vazia do ponto de vista de quem narra, muito ao contrário.

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