Edição 249 | 03 Março 2008

Claudia Roquette-Pinto

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André Dick

Editoria de Poesia

Nascida no Rio de Janeiro, em 1963, Claudia Roquette-Pinto graduou-se em Tradução Literária, pela PUC-Rio. Além disso, dirigiu, de 1985 a 1990, o jornal cultural Verve e tem cinco livros de poesia publicados. Em Os dias gagos (Rio de Janeiro: Ed. Da Autora, 1991), livro de estréia, Claudia lidava com o verso livre e com o verso metrificado e com rimas. Já em Saxífraga (Rio de Janeiro: Salamandra, 1993), ela escolhe o caminho das elipses e dos cortes abruptos, dialogando com obras de pintura (de Monet , Edward Munch  e Frida Kahlo , por exemplo) e trazendo imagens botânicas de grande desenvoltura – um dos poemas é, inclusive, dedicado a Manoel de Barros. Também se nota uma tendência a uma poesia com sensibilidade corporal, como se percebe no poema “ele:”: “ímã: rege o lapso dos planetas. enigma de camiseta. espelho de onde goteja o meu corpo. dia a dia. proscrito das nuances. náufrago da lua. comparsa de uma fuga, aqui a estrada bifurca: toma aquela onde um casal, surpreso, olha pra trás”.
Há uma mescla entre os ganhos desses dois livros em Zona de sombra (Rio de Janeiro: 7Letras, 1997), no qual Claudia opta por um equilíbrio entre as elipses e o encadeamento sintático, privilegiando, inclusive, a forma do poema em prosa em muitos momentos, num diálogo com os simbolistas. Volta a dar espaço para imagens calcadas na natureza e no corpo, evitando, por outro lado, a descrição realista, ou seja, Claudia lança um pouco de brumas sobre seus versos, a fim de que o leitor não consiga desvendá-los por completo, como na terceira parte de “cinco peças para silêncio”: “corpo deitado ao silêncio / sob o sol, exposto / ao incêndio de outro rosto / todo ele ateasse / surgindo, vertiginoso, / das cinzas do gozo, em nudez / assim a palavra retorna / à sua íntima forma”. A sintaxe continua ganhando cada vez mais espaço na construção de poemas do livro seguinte, Corola (São Paulo: Ateliê Editorial, 2001 – Prêmio Jabuti de Poesia/2002), evidenciando uma atração pelas imagens de flores de um “hipotético jardim”, como em Drummond. No entanto, essas escolhas aguardam algo mais de interno. Claudia parece partidária, assim, da “rosa nas trevas” de Mallarmé, e suas plantas organizam um mundo que pode está entre a sensibilidade e o caos, definidos por meio da musicalidade.

Antes voltada às imagens mais abstratas, Claudia, em Margem de manobra (Rio de Janeiro: Aeroplano, 2005 – finalista do Prêmio Portugal/Telecom/2006), opta por uma poética longe de óbvia, mas mais interessada em analisar a violência e o isolamento social. Estes elementos, no entanto, como nos demais livros, são cercados pelo embate do sujeito com a solidão, o que inclui a tensão poética e amorosa. Um poema representativo dessa nova etapa em sua trajetória é “Morro”, focalizando uma espécie de estado de sítio no Rio de Janeiro: “Os carros, no viaduto, engatam sua centopéia: / olhos acesos, suor de diesel, / ruído motor, desespero surdo. / O sol devia estar se pondo, agora / - mas como confirmar sua trajetória / debaixo desta cúpula de pó, / este céu invertido? / Olhar o mar não traz nenhum consolo”. No poema “Em Saravejo”, por sua vez, escreve, retratando a violência: “Quando a vi, ali, distraída, / na escada do ônibus escolar, / nada me preparou para suas pernas abertas, / no meio a flor dilacerada / repetindo, entre as coxas, / o buraco da bala no peito: / um dois pontos insólito”. E em “Granada” parece sintetizar a violência dos dias atuais: “Quando as palavras finalmente se apresentam / (ruídos, balbucios), / estremunhadas em meio ao motim, / sob impacto de granada (sua fala), /o sonho explode”. Ao mesmo tempo, Claudia continua sob influência do diálogo com a pintura, na seção “No agora da tela”.

Claudia teve poemas traduzidos para o inglês, o espanhol, o francês e o alemão, e incluídos em diversas antologias e publicações nacionais e internacionais. No momento, está trabalhando em um livro de prosa infanto-juvenil, preparando um próximo livro, de poemas em prosa, e pesquisando a linguagem do grafite e suas relações com a poesia. Mora no Rio de Janeiro, com seus filhos Pedro, Bruno e Luisa. O poema inédito que ela enviou especialmente à IHU On-Line é “Parada de Lucas”.


Parada de Lucas

De volta ao mundo das idéias claras
onde uma amendoeira é outra vez um incêndio 
vizinho de outro incêndio
na vertigem da estrada.
Do viaduto as casas se esfumam 
na poeira solar em que flutua
o descaso ou o torpor
de mais uma tarde de subúrbio.
Os pára-choques dos caminhões
ensaiam previsões em aberto:

Nova União       Faísca        Mercúrio

enquanto num outdoor veloz
um pedaço de barriga
anuncia o Caldeirão do Funk
- onde todos os desejos se misturam,
a sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca,
salão de sangues misturados,
tão Brasil!
E ela volta em pensamento
ao velho terreiro aberto,
ao chão de lodo e metal,
repleto de negros      
jovens belos
de calça jeans e peito nu
(os das moças tremem luzindo,
escapulindo pelo decote,
bundas  levitam, sacodem
num frenesi de candomblé).
O negro que passa num bonde,
pensando que ela é gringa
grita, fazendo bico, pra loura dançando ali sozinha:
“You’re beautifuuuuul!!!”
E a menina séria, olhos doídos,
reencontra essa mulher desabrida
- ela mesma, 30 anos depois -
rolando, descalça,
entre os braços dos crioulos
no meio do batidão.
As caixas de som ensurdecem,
a percussão inebria,
às vezes são rajadas de metralhadora
(se rolar tiroteio lá fora
ninguém vai saber qual é qual).
Os corpos se encostam, aproximam,
ninguém precisa dizer nada.
Um rapaz lindo, quase nu,
 rosto escuro, gorro escarlate,
sobe no palco e improvisa
seu torom dom dom.
De repente, lá da pista, um sujeito grita:
“Aí, Saci!”
e a mulher sorri, ao lado do antropólogo tímido
que segura bolsa e sandálias,
e não deixa que os outros homens cheguem perto demais.
Os jornalistas de São Paulo
parecem meio desanimados
mas a atriz de porcelana e arminho,
essa até que rebola bem...
A mulher, vertiginosa,
dança para esquecer o próprio nome,
dança para chegar ao que importa
- liquefazer na multidão.
A menina, a essa altura,
já está até achando graça.
“É que ela tomou alegria!”,
grita, do fundo da sala,
o poeta dentuço que não sabia dançar.
Nesta terra pensamento não se cria
- aqui, nesta festa da carne,
o sangue urgente,
todo pulsação.

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