Edição 249 | 03 Março 2008

A masculinidade ainda valorizada e assumida

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Graziela Wolfart

Autor do livro A construção social da masculinidade, Pedro Paulo de Oliveira não acredita na crise do homem contemporâneo, mas reconhece a irrelevância dos homens para a concepção de seres humanos

Ao analisar as transformações no mundo do trabalho hoje e as implicações para o universo feminino, o professor Pedro Paulo de Oliveira reconhece: “A posição da mulher na sociedade contemporânea tende a ser cada vez mais aproximada da posição masculina”. No entanto, ele acredita que “não há um tipo único de mulher que emerge desta forma de sociabilidade, ou seja, cada vez mais veremos a possibilidade de se ter agentes femininos de tipos variados”, destacando ainda que “não podemos nunca esquecer que a lógica do social tende a reproduzir um modelo de feminilidade em que a idéia de fragilidade e de objeto no mercado matrimonial continuam a orientar os comportamentos hegemônicos, permitindo que o paradigma da feminilidade centrado em características como a delicadeza, vaidade e emotividade, entre outras, continue a imperar, mesmo que contestado por outros modelos diferentes que não se enquadrarão neste molde”.
Pedro Paulo possui graduação em Ciências Sociais e doutorado em Sociologia, pela Universidade de São Paulo (USP). Atualmente, é professor de Sociologia na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É autor de A construção social da masculinidade (Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2004). A entrevista a seguir foi realizada por e-mail.

IHU On-Line - Como o senhor define o papel da mulher na sociedade contemporânea hoje? Que tipo de mulher emerge das grandes transformações sociais dos últimos tempos?
Pedro Paulo de Oliveira
– A posição da mulher na sociedade contemporânea tende a ser cada vez mais aproximada da posição masculina. Isto porque as atividades laborais, por exemplo, cada vez menos requerem especificidades vinculadas ao sexo biológico e podemos perceber uma crescente inserção de mulheres em atividades antes destinadas apenas aos homens. Um problema é o fato, já constatado, de que agora, além de produtivas no mercado de trabalho, elas continuam a exercer boa parte das funções domésticas, o que algumas feministas chamam de dupla jornada. Não há um tipo único de mulher que emerge desta forma de sociabilidade, ou seja, cada vez mais veremos a possibilidade de se ter agentes femininos de tipos variados. No entanto, não podemos nunca esquecer que a lógica do social tende a reproduzir um modelo de feminilidade em que a idéia de fragilidade e de objeto no mercado matrimonial continuam a orientar os comportamentos hegemônicos, permitindo que o paradigma da feminilidade, centrado em características como a delicadeza, vaidade e emotividade, entre outras, continue a imperar, mesmo que contestado por outros modelos diferentes que não se enquadrarão neste molde. 
 
IHU On-Line - Como o homem se sente e se posiciona em relação a uma possível crise da masculinidade e do patriarcado em função das mudanças nas atitudes das mulheres contemporâneas, principalmente no mercado de trabalho?
Pedro Paulo de Oliveira
- A idéia de crise da masculinidade é, na minha opinião, uma bobagem. Os homens, ou pelo menos a maior parte deles, não estão em crise. Basta ouvir a letra de alguns funks, por exemplo, para se perceber como alguns jovens se enxergam frente às mulheres. Recentemente, trabalhei numa pesquisa com jovens favelados e pude perceber que a masculinidade centrada em características típicas do machismo é ainda extremamente valorizada e assumida sem nenhum problema. A idéia de crise da masculinidade ficou vinculada principalmente a alguns autores, não raro aqueles formados nas diversas disciplinas “psi”, que recortam os dilemas de alguns homens de classe média, muitos dos quais freqüentadores de divãs de psicanálise, como sendo típica da masculinidade contemporânea. Tal crise só pôde ser ventilada porque a mídia, impressa e eletrônica, adora esse tipo de abordagem em que se destaca a idéia de que há um novo homem, de que o antigo está ultrapassado etc., com o beneplácito da indústria da moda, de cosméticos e do fitness. O fato novo é que hoje em dia muitas mulheres já não dependem economicamente dos homens. Isto gera uma mudança na assimétrica relação entre homens e mulheres, desfavorecendo os primeiros. Dessa forma, a hegemonia masculina, que se centrava, entre outras coisas, no mandato social da provisão familiar, perde parte de sua legitimidade. Por outro lado, voltando aos jovens, percebemos que as meninas estão cada vez menos dispostas a serem meras presas nas interações amorosas, o que gera um tipo de “desregulação interacional”, pois agora os meninos precisam lidar também com o fato de que são abordados e de que não são os únicos predadores neste regime interacional. Mas isso é apenas parte de todo um conjunto de mudanças que têm ritmos diferenciados, dependendo de variáveis, como faixa etária, posição econômica e social, origem geográfica, adesão religiosa, entre muitas outras.       
 
IHU On-Line - Recentemente, a ciência levantou a hipótese de as mulheres gerarem os filhos sozinhas, o que as concederia total autonomia nas relações conjugais. Como o senhor avalia esta questão?
Pedro Paulo de Oliveira
- Vejo de forma bastante positiva, pois muitas das prescrições sociais e modelos de comportamentos de gênero baseiam-se na falaciosa idéia de que as diferenças anatômicas e biológicas são a base natural para as assimetrias de gênero. Com o advento destas técnicas de reprodução biológica, ficará explícito o fato de que os comportamentos de gênero estão baseados, em última análise, em idiossincrasias socioculturais. Para as mulheres, isto é bastante positivo, pois explicita a irrelevância dos homens para a concepção de seres humanos, o que deve fazer a balança do poder pender um pouco mais para elas (espero), que viveram e ainda vivem subjugadas por uma injustificada, do ponto de vista ético, hegemonia de valores simbólicos masculinos.  
 
IHU On-Line - Em que elementos o senhor se baseia para falar sobre a construção social da masculinidade? Esse processo também se passa com mulheres?
Pedro Paulo de Oliveira
- Bem, eu escrevi um livro inteiro sobre isso e não vou tentar resumi-lo aqui, pois me sinto completamente desconfortável nesse papel. Diria apenas que a construção social da masculinidade tem, sim, como correlato o seu “outro”, ou seja, a feminilidade. Minha preocupação centrou-se nas questões masculinas, mas não é difícil entender que a construção de um tipo simbólico tem efeitos e implicações para o seu antípoda, notadamente ainda quando se refere à dicotomia centrada na polarização masculino-feminino.

IHU On-Line - Que tipos de símbolos fazia parte do masculino no Medievo e na modernidade e que hoje podem ser associados à mulher? Quais são as conseqüências sociais e culturais dessa mudança?
Pedro Paulo de Oliveira
- Sobre o período medieval não posso falar, pois abordei de modo bastante sucinto a passagem do nobre de espada para o soldado laborioso da modernidade. Não sei se podemos pensar nestes termos, isto é, pensar em símbolos antes preso à idéia de masculinidade e hoje relacionados à feminilidade. O que se pode dizer é que algumas das idéias e símbolos associados ao poder, como a racionalidade, a capacidade de empreendimento, a moderação e equilíbrio das pulsões, entre outros, já não são mais vistos como indiscutivelmente masculinos em si. Embora eu não pense que estejam completamente dissociados da idéia de masculinidade. É só refletir sobre o fato de que, quando uma mulher ocupa uma posição de poder, ela logo é revestida de símbolos masculinizados. Pensemos na idéia de “dama de ferro” de Margaret Thatcher ou nos tailleurs ou “terninhos” femininos, usados como vestimenta por mulheres em cargos de poder corporativos, institucionais etc. A vida social muda, mas a inércia da história deve ser levada em conta para não pensarmos em revoluções totais que não guardam relação com o passado. E, com relação às questões de gênero, o peso histórico da hegemonia masculina ainda é bastante considerável.    

IHU On-Line - Em que sentido essas mudanças no papel do homem e da mulher na sociedade implica em alterações nos modelos de família?
Pedro Paulo de Oliveira
- A questão da família mereceria por si toda uma análise em especial. Na pesquisa que fiz com jovens favelados, percebi que o modelo de família adotado como ideal é aquele que apenas os setores de classe média podem sustentar. Isto provoca uma série de problemas para estes jovens. Por outro lado, é nos núcleos menos favorecidos que uma idéia de família estendida surge quase como uma estratégia de sobrevivência, embora não seja esta a própria concepção que estes agentes têm da mesma. A família passa por transformações específicas, que têm relação com uma série de fatores outros, como, por exemplo, a presença da mídia eletrônica nos lares e mais recentemente dos computadores, bem como com a acirrada luta para inserção dos agentes no mercado de trabalho e de consumo. Não vincularia, assim, a mudança da posição social do homem e da mulher como os fatores decisivos que afetam as atuais mudanças no ideal de família, pois preferiria analisá-los em conjunto, vendo imbricações que devem levar em conta outros fatores.

IHU On-Line - Como ocorre a incorporação da feminilidade entre os homens gays? A mulher contemporânea inspira mais o homem gay do século XXI?
Pedro Paulo de Oliveira
- A questão gay é por si só de uma complexidade imensa. Durante a minha pesquisa, percebi, no entanto, que alguns fatores podem ser importantes para que alguns gays assumam comportamentos femininos. Dois são fundamentais: o período em que o agente passa a se reconhecer como gay e sua condição social. Há uma tendência (mas não obrigatoriedade) de se ter gays mais femininos, quanto mais jovens, portanto, eles se reconhecerem como gays. As “conversões” mais tardias tendem a seguir um padrão menos alinhado com um comportamento feminino. Isto, no entanto, é apenas uma tendência mais geral e nunca uma regra seguida por todos. Com relação à posição socioecônomica, os agentes menos favorecidos tendem a oscilar entre uma polaridade: ou são gays bem feminilizados ou então machões, conhecidos como “enrustidos”, que só assumem práticas sexuais em que eles sodomizam, mas que negam a prática de serem sodomizados, reiterando a velha dicotomia ativo e passivo. Um indício desta asserção é constatado, por exemplo, com pesquisas feitas com travestis, em que boa parte deles são originários de classes sociais desfavorecidas. Para explicar melhor a razão disso, eu precisaria lançar mão da idéia de profecia que se auto-cumpre, muito utilizada por alguns sociólogos para tratar das questões de identidade pessoal, o que é impossível neste espaço.
Do ponto de vista das lutas sociais, gays e feministas têm muitas bandeiras em comum, porém também muitas divergências, especialmente quando se pensa nas bandeiras do movimento gay masculino.
Não penso que a mulher contemporânea inspire mais o homem gay atual. Afinal de contas, quem é esse homem gay atual? Posso afirmar, com toda certeza, que significativos contingentes gays reprovam e buscam se afastar de qualquer associação com a feminilidade. Evidentemente, isso não é algo que possamos generalizar, mas dá a idéia de que, ao fazermos referência aos gays de modo genérico, estamos passando por cima de uma miríade de diferenças, que não são de forma nenhuma passíveis de serem reduzidas a um mínimo denominador comum. Qualquer pesquisa séria deve levar em conta o contingente de pessoas que fazem sexo com parceiro(a)s do mesmo sexo, de acordo com as variáveis sociológicas já aludidas na resposta à segunda questão.

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