Edição 249 | 03 Março 2008

O posicionamento feminino no contexto da cibercultura

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Bruna Quadros

Para a pesquisadora Adriana Braga, as mudanças socioculturais conseqüentes do avanço tecnológico são inevitáveis

“Não acredito que a possibilidade de mudança na representação feminina esteja na tecnologia, mas na cultura que utiliza esta tecnologia para se expressar”, afirma a Prof.ª Dr.ª Adriana Braga, em entrevista concedida, por e-mail, à revista IHU On-Line. Neste sentido, ela também aponta para o conceito de maternidade eletrônica, uma relação de controle sobre os filhos que não implica diretamente em confiança. “Se, por um lado, os aparatos tecnológicos podem auxiliar pais e mães no monitoramento, por outro lado, podem auxiliar filhos e filhas em suas estratégias para burlar este controle”, enfatiza Adriana.
Esta temática será amplamente debatida no dia 06-03-2008, quando Adriana Braga proferirá a palestra Maternidade Eletrônica: a perspectiva feminina na cibercultura, que integra o evento IHU Idéias, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Adriana Braga é doutora em Ciências da Comunicação, pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), e professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da PUC-Rio. É autora do livro Personas Materno-Eletrônicas: uma análise do blog Mothern (Editora Sulina, 2008) e organizadora do livro CMC, Identidades e Gênero: teoria e método (Editora UBI, Portugal, 2005). Nas Notícias do Dia 5-10-2006, do sítio do IHU, foi publicada uma nota intitulada “Feminilidade mediada pelo computador”, a qual se refere à tese de Adriana. Adriana já contribuiu com a edição número 40 dos Cadernos IHU Idéias, de 07-10-2005, sob o título Corpo e agenda na revista feminina. A seguir, a entrevista:

IHU On-Line - O aumento das tecnologias na vida cotidiana não sinaliza parar. Quais são as vantagens e desvantagens de permitir que estes meios se insiram cada vez mais nas relações sociais?
Adriana Braga
- As mudanças socioculturais conseqüentes do avanço tecnológico são fenômenos que não pedem permissão para ocorrer, ou seja, são inevitáveis. Os avanços são impulsionados pela própria demanda do mercado consumidor. A única maneira de controlar a inserção de uma tecnologia na cultura é através de políticas que regulamentem sua implementação. Uma vez implementada uma tecnologia – seja de comunicação ou outra –, é impossível prever os modos de apropriação e usos pelos diversos grupos ou indivíduos que tiverem acesso a ela. Sendo assim, questões relativas à redistribuição do poder e a grupos que se beneficiam ou prejudicam com a inserção da tecnologia devem ser avaliadas antes da autorização de seu funcionamento. Depois, o fenômeno segue seu curso. Sobre vantagens e desvantagens, somos beneficiários e vítimas desses meios, experimentamos cotidianamente os embaraços de poder encontrados em qualquer parte e a qualquer momento, por meio do celular ou nos livrarmos de sérios apuros com o mesmo aparelho.

IHU On-Line - O que se pode esperar de uma sociedade cada vez mais tecnológica, especificamente no que diz respeito à imagem feminina?
Adriana Braga
- A imagem feminina tem sido representada nas mais diversas sociedades de todos os períodos históricos, em tecnologias também diversas. Não acredito que a possibilidade de mudança na representação feminina esteja na tecnologia, mas na cultura que utiliza esta tecnologia para se expressar. Assim, a solução da exploração da imagem feminina, sob uma perspectiva sexista, é política, e depende de iniciativas igualmente políticas. De certa forma, o YouTube é a pintura rupestre do nosso tempo, um registro imagético da nossa cultura.

IHU On-Line - Mesmo que os homens estejam cada vez mais participativos das tarefas domésticas, são as mulheres que ainda têm este domínio. Entre estes gêneros, há quem seja mais favorecido com o surgimento e ascensão da cibercultura?
Adriana Braga
- As mudanças ocorrem na cultura. A tecnologia, no caso da Internet, forneceu um novo ambiente para as trocas sociais, mais um espaço de expressão para a cultura já estabelecida. Por exemplo, ainda são os homens que se destacam no domínio tecnológico, ocupando quantitativa e qualitativamente os lugares promovidos por esta atividade. A Internet participa como um complemento da sociedade, reproduzindo seus problemas.

IHU On-Line - São inúmeras as tecnologias que prometem facilitar a vida em sociedade. No entanto, algumas remetem à idéia de monitoramento, como pagers e telefones celulares. De que forma a cibercultura contribui para que os pais tenham cada vez mais controle sobre os filhos?
Adriana Braga
- Tenho dúvidas de que o objetivo dos pais e mães seja controlar cada vez mais os filhos. Se, por um lado, os aparatos tecnológicos podem auxiliar pais e mães no monitoramento, por outro lado, podem auxiliar filhos e filhas em suas estratégias para burlar este controle. Ou seja, as relações de confiança estabelecidas entre familiares não são determinadas pelo suporte técnico em que ocorrem. 

IHU On-Line - Esse tipo de relação (controle) interfere na privacidade e nos direitos dos filhos? Até que ponto a cibercultura pode ser positiva?
Adriana Braga
- Esse tipo de relação não é novidade alguma. Pai e mãe sempre procuraram monitorar os movimentos dos filhos, seja pela troca de informações entre a vizinhança, pela inscrição em colégios internos ou pelos celulares. A cibercultura é um território amplo, que inclui ambientes diferentes. As pessoas usam cada uma dessas estruturas conforme a conveniência de cada situação específica. 

IHU On-Line - Diante da cibercultura, a imagem feminina, no papel de mãe, não tende a perder valor?
Adriana Braga
- É interessante notar que o ambiente midiático-tecnológico da cibercultura parece oferecer um espaço renovado para a recuperação de uma prática tradicional feminina de troca de saberes entre mulheres, envelhecida nos contextos sociais tradicionais. Enquanto a conversação entre mulheres sobre filhos, vida conjugal e doméstica tem sido desvalorizada socialmente, enquadrada como conversa fútil e desinteressante, nos ambientes sociais da Internet, essa mesma temática se estabelece sem a conotação pejorativa e, ao contrário, é entendida positivamente, como prática de mulheres modernas pelo engajamento tecnológico.

IHU On-Line - E qual é o reflexo nas crianças que crescem inseridas no contexto da cibercultura?
Adriana Braga
- As gerações mais recentes estão cada vez mais familiarizadas com os ambientes proporcionados pela tecnologia de comunicação. Vivemos uma fase de transição, na qual as gerações mais velhas ainda não dominam os códigos da cibercultura, que são corriqueiros para a geração mais jovem. Entretanto, em pouco tempo mesmo os mais velhos estarão aculturados e o domínio dos jovens neste âmbito será relativizado. A influência do contato com a cibercultura na formação de uma criança é e sempre será impossível de discernir ou mensurar. Qualquer característica que a criança apresente será motivada por múltiplos fatores, sendo equivocada uma redução a apenas um deles. Mas uma coisa é certa: como qualquer outra influência a que a criança esteja exposta, a atividade on-line deve ser orientada e acompanhada pelos responsáveis. A mediação familiar no consumo desses meios muitas vezes é mais importante do que o próprio conteúdo.

IHU On-Line – Qual é a contribuição das nanotecnologias para este novo conceito de sociedade que está se moldando, o qual imerge na cibercultura?
Adriana Braga
- As nanotecnologias possibilitam levar os aparatos comunicativos no bolso, estendendo e modificando a natureza e os locais de ocorrência das interações comunicativas. As alterações decorrentes configuram o “novo conceito de sociedade”, mas apenas para uma parcela social dominante, conectada às redes sociais de relacionamento da rede. Cabe ressaltar que, mesmo com a queda dos preços dos equipamentos, o acesso a essas tecnologias continua a ser muito restrito, principalmente em países periféricos como o Brasil. Se no mundo há mais de um bilhão de pessoas usuárias destas tecnologias, há quase seis bilhões de excluídos deste grupo privilegiado.

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