Edição 249 | 03 Março 2008

Igualdade de gênero para fortalecer socialmente a ciência e a tecnologia

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Graziela Wolfart

Para a pesquisadora argentina Maria Elina Estébanez, ainda não se avançou tão claramente no acionar político e na definição de políticas específicas para o sucesso da eqüidade de gênero

“A igualdade de gênero é, em si mesma, um objetivo de desenvolvimento social e uma via muito eficaz para enfocar o sistema científico e tecnológico para a atenção dos problemas que afetam a sociedade”, afirma Maria Elina Estébanez, pesquisadora e coordenadora do Centro de Estudos sobre Ciência, Desenvolvimento e Educação Superior, de Buenos Aires, Argentina. Pós-graduada em Sociologia e especialista em Sociologia e Ciência, e Ciência e Tecnologia, a argentina é também professora no Programa de Pós-Graduação em Ciência, Tecnologia Inovação Organizacional, da Universidade Nacional de General Sarmiento. A seguir, na íntegra, a entrevista concedida pela pesquisadora, por e-mail, à IHU On-Line.

IHU On-Line - Qual a situação da mulher no campo da ciência hoje?
Maria Elina Estébanez
- Se observarmos o que tem ocorrido nas últimas décadas, a situação da mulher em escala mundial tem evoluído favoravelmente no acesso à educação superior e no mundo laboral da ciência e da tecnologia. Sua presença é cada vez mais relevante nos estudos universitários de graduação e pós-graduação e entre os grupos de pesquisadores e bolsistas de diferentes países.
Mas, se estes dados indicam uma situação favorável para o equilíbrio de gênero na atividade científica, existem dois focos de desigualdade que afetam a grande potencialidade da presença feminina. Em primeiro lugar, existem “vieses” disciplinares: na pesquisa em ciências exatas e de engenharias predominam os homens, e nas ciências sociais, humanas e da saúde, predominam as mulheres. Este fenômeno mostra tanto a existência de diferentes vocações profissionais quanto a masculinização e a feminilização da produção de conhecimento em determinados temas, o que afeta a orientação do trabalho científico, a escolha de temas e a produção de resultados, que logo se voltarão à sociedade. A persistência de estereótipos culturais, durante os processos de socialização e educação, incidem nas preferências lúdicas de meninos e meninas e, posteriormente, nas escolhas de estudo durante a adolescência. Estes fenômenos persistem durante as etapas mais avançadas de socialização secundária, segmentando as preferências profissionais.

Quanto maior a hierarquia do posto de trabalho, menor é a presença feminina

Em segundo lugar, existem importantes barreiras para o acesso de mulheres a postos de maior decisão ou maiores ingressos dentro do campo laboral da ciência e da tecnologia, mesmo naqueles campos do conhecimento “feminilizados”. Quanto maior a hierarquia do posto de trabalho, menor é a presença feminina. A possibilidade de ter acesso a instâncias de poder e de tomada de decisões tem estado historicamente restringida para as mulheres e, nesse sentido, o âmbito científico e tecnológico não constitui uma exceção à regra. Se bem que é certo que durante o século XX se produziu um importante avanço em matéria de abertura para as mulheres por parte de muitas instituições, por exemplo, as universidades. Então, a situação se torna um tanto diferente ao analisarmos as posições que estas ocupam dentro de tais instituições e, mais ainda, ao analisar outros âmbitos institucionais. Existem padrões culturais muito arraigados nos ambientes educativos e laborais, que associam determinadas características da “masculinidade” (como a competitividade, a força, a racionalidade, a objetividade) a um exercício mais eficaz de poder. A partir disso, se torna muito comum escutar que os homens são mais aptos para ocupar cargos desta natureza. Estes estereótipos incidem na escolha das pessoas que integrarão posições estratégicas na ciência, como a direção de institutos, a integração de comitês avaliadores ou as reitorias universitárias.

A ascensão na carreira profissional científica implica no acesso a categorias de maior prestígio e reconhecimento científico e acadêmico. Esta ascensão depende dos resultados de uma avaliação realizada por um comitê específico, o qual parece estar composto  majoritariamente por homens. Nesta instância, podem operar diversos mecanismos de exclusão, como por exemplo, respeito à valorização de certas atitudes e a avaliação que se realiza da produtividade científica e sua associação com os ciclos vitais e situações familiares. O trânsito pela experiência da maternidade ou paternidade não tem a mesma repercussão em mulheres e homens, o que pode incidir em sua produtividade, embora não necessariamente na qualidade dos trabalhos que publicam. Também pode incidir em sua mobilidade internacional e na disponibilidade estendida de tempo laboral. Todos estes fatores são considerados positivamente no momento de avaliar seu desempenho profissional.

IHU On-Line - Os estudos e pesquisas na academia sobre esse tema estão aumentando?
Maria Elina Estébanez
- Um balanço preliminar sobre o aporte dos estudos sobre ciência e gênero mostra um importante acúmulo de conhecimento e evidências sobre os problemas para um sucesso na eqüidade de gênero, e uma importante representação desta problemática na reflexão acadêmica de distintas regiões do mundo. Assim mesmo, a questão tem tido repercussão em ofícios, cartas e recomendações de organismos internacionais. No entanto, ainda não se avançou tão claramente no acionar político e na definição de políticas específicas para o sucesso da eqüidade de gênero, particularmente no que se refere à região latino-americana. Medidas elementares, como uma generalização da desagregação do sexo nas estatísticas nacionais vinculadas à educação superior, à ciência e à tecnologia, ainda tem escassa aceitação. 

IHU On-Line - O que a ciência, a tecnologia e o mercado de trabalho, em geral, ganham com a presença feminina?
Maria Elina Estébanez
- A igualdade de gênero é, em si mesma, um objetivo de desenvolvimento social e uma via muito eficaz para enfocar o sistema científico e tecnológico para a atenção dos problemas que afetam a sociedade. O acesso a uma situação igualitária de gênero na ciência e na tecnologia é um sucesso ético que reafirma o valor da igualdade de direitos para homens e mulheres no desenvolvimento de seus interesses e atitudes. Por outro lado, a sociedade se enriquece com a participação igualitária dos sexos, com a diversidade de seus olhares e seus modos de produzir conhecimento. A partir desta perspectiva, a eqüidade de gênero é uma estratégia apropriada para fortalecer socialmente a ciência e a tecnologia.

IHU On-Line - O olhar feminino sobre o mundo pode instigar descobrimentos revolucionários nas áreas da ciência e da tecnologia por parte das mulheres?
Maria Elina Estébanez
– Com certeza. Para descobrir o mundo e sua diversidade são necessários “olhares diversos”, o feminino e o masculino, o branco e o negro, e muitas outras diversidades que atravessam bandeiras, sociedades e culturas. Historicamente, têm predominado somente algumas perspectivas e outras têm estado subordinadas e menosprezadas, apresentando tanto um problema ético como epistemológico. Com isso, se têm desperdiçado capacidades para a ciência e a tecnologia.
  
IHU On-Line - Qual é a especificidade da mulher latino-americana com relação à ciência, à tecnologia e ao trabalho?
Maria Elina Estébanez
– Percebe-se uma tendência positiva no crescimento de sua participação. Por exemplo, a presença das mulheres nos estudos universitários tem passado nas últimas décadas de uma participação menor de 10% para 30, 40 ou 50%, conforme alguns países. Também se observa um aumento em sua participação nas atividades científicas e tecnológicas, mas com um posto um pouco mais baixo, sobretudo no exercício de disciplinas de base tecnológica ou físico-matemática. Como ocorre em outras regiões, também aqui se produzem processos de segmentação, particularmente os que obedecem a fatores “disciplinares” (como a masculinização ou a feminilização de determinados campos do conhecimento) e os que se relacionam com a estratificação vertical (como o acesso aos postos de poder). Como especificidade, encontramos na região a associação destas modalidades de exclusão com outras, como a exclusão étnica. Por exemplo, em países com população afrodescendente, é duplamente difícil para a mulher desta origem ascender aos estudos superiores e à carreira científica. Isto também se observa em países centro-americanos multi-étnicos.

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