Edição 249 | 03 Março 2008

O alto preço que as mulheres pagam para ascender no campo profissional

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Graziela Wolfart

Darli de Fátima Sampaio analisa as transformações da mulher no mundo do trabalho e afirma que não há limites para a capacidade criadora, transformadora e de trabalho das mulheres

“As mulheres se superam cotidianamente no mundo do trabalho com a mesma disposição, garra, perspectivas, com que tocam tudo ao seu redor. São capazes de seguir sempre adiante, sem descuidar dos aspectos, sejam eles estéticos, emocionais, afetivos de todos que estão à sua volta, não se esquecendo delas mesmas. Elas criam resistências domésticas e profissionais, burlam normas. Assumem um papel integrador, unindo o que está separado.” Essa afirmação é de Darli de Fátima Sampaio, pesquisadora do Centro de Pesquisa e Apoio ao Trabalhador (Cepat), de Curitiba-PR, em entrevista exclusiva concedida por e-mail para a IHU On-Line.
Darli é graduada em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Realizou aperfeiçoamento em diversas áreas, tais como orçamento público, história da filosofia e fé e política. É também especialista em Economia Solidária, pela Universidade Federal do Paraná. Em seu mestrado, também realizado na UFPR, produziu a dissertação “Relações de gênero na indústria automotiva: um estudo de caso na Renault Paraná”. Sobre essa pesquisa, concedeu uma entrevista publicada nas Noticias do Dia do sítio do Instituto Humanitas Unisinos- IHU, em 10-02-2008.

IHU On-Line - Quais são as principais marcas/características que as mulheres carregam hoje no mundo do trabalho, no seu dia-a-dia?
Darli de Fátima Sampaio
- Eu diria que a presença da mulher no mundo do trabalho está sendo marcada por um certo estilo de atuação particular. Este estilo está presente não só no que diz respeito ao exercício de liderança, na maturidade com relação à aprendizagem, à destreza, ao cuidado, à minúcia, ao compromisso e responsabilidade profissional, mas também no que diz respeito à sua forma de relacionar-se no trabalho. A mulher dialoga e é mais perceptiva, contribui e investe para obter um bom ambiente de trabalho, na medida em foi treinada para estar sempre mais atenta ao seu entorno e dar conta de várias responsabilidades ao mesmo tempo. Ela percebe as dificuldades e trabalha melhor com as frustrações presentes. Atua no sentido de resolver as pelejas e conflitos humanos que costumam aparecer em grupos plurais.

Este estilo está ganhando cada vez mais importância num ambiente marcado por um ritmo muito intenso de trabalho e por profissionais altamente estressados. É de grande utilidade funcional. É manipulável e regulável em vista de maiores e melhores resultados corporativos.

Este estilo tem demonstrado um desempenho tão bom que algumas empresas procuram caracterizar as “habilidades” femininas a partir de uma visão essencializada de gênero. Busca-se naturalizá-las enquanto qualidades presentes nas mulheres e não enquanto resultado de um longo treinamento ao qual foram submetidas, desde muito jovens. Com isso, evita-se uma remuneração à altura, significando um grande prejuízo em todos os sentidos para a mulher trabalhadora. Portanto, é importante rejeitar essa visão de uma natureza feminina.

IHU On-Line - Nesse sentido, quais são as diferenças entre as mulheres operárias e aquelas que exercem cargos administrativos?
Darli de Fátima Sampaio
- Com relação às diferenças entre mulheres da produção e administração, observa-se uma preocupação constante com a qualificação profissional nos dois setores. É a exigência do mercado. Requisito fundamental para a decantada empregabilidade. Mas as diferenças são gritantes e vão desde o desnível salarial até preconceitos estimulados entre trabalhadoras da produção e do setor administrativo. Portanto, não é possível fazer uma análise homogeneizadora sobre as mulheres no mundo do trabalho, pois há vivências, experiências, histórias, formação, entre outros aspectos, bastante diferenciados. É preciso pensar e repensar sobre esse sentimento de que todas as mulheres são iguais. Das mulheres da produção, espera-se também o cumprimento das metas, porém sem reclamações. Espera-se absoluta concentração, paciência, destreza e toda a espécie de cuidado com relação ao produto e à rotina de trabalho. Cada vez mais é valorizada e estimulada a necessidade de elaboração de propostas e solução para os problemas que surgem no ambiente de trabalho. As mulheres da produção estão confinadas a um pequeno espaço, ao seu posto de trabalho e precisam de autorização para qualquer espécie de ausência. Em algumas empresas, ciclos menstruais, hemorragias e incontinência urinária precisam ser revelados para justificar várias idas ao banheiro. A força física não é uma exclusividade masculina. Na linha de montagem, é preciso ter um padrão físico combatível para suportar a intensidade e as dificuldades no posto de trabalho. Não é necessário ter visibilidade, apenas desempenho, e literalmente “somem” dentro do uniforme de trabalho padronizado e desconfortável.

É no setor administrativo que se concentram mulheres com maior qualificação. Muitas são poliglotas, com largas experiências profissionais e bem remuneradas. Os cuidados com a aparência são visíveis e uma exigência da empresa acaba por categorizar a profissional e depondo favoravelmente à empresa. Algumas profissionais desempenham funções de chefia, outras atuam diretamente com o público, levando a imagem da empresa e “aparando” e eliminando tensões estabelecidas, antes que cheguem às instâncias superiores. São competitivas e cobradas sistematicamente nos desempenhos. O cargo exige dedicação quase exclusiva. Há um reconhecimento que no processo de ascensão profissional, projetos pessoais devem ser deixados de lado. É o preço que muitas pagam ou já pagaram.

IHU On-Line - A mulher, no mercado de trabalho, assume características de postura masculina, ou ela acaba transformando o ambiente com um toque mais feminino, marcando sua presença social e cultural?
Darli de Fátima Sampaio
- O mercado de trabalho é marcado pela desigualdade de gênero, por relações assimétricas de poder, entre homens e mulheres, apresentando um perfil predominantemente masculino. E, embora as mulheres tenham conquistado espaços importantes no trabalho, comparativamente é muito mais difícil culturalmente para elas se imporem no trabalho. Esta situação desfavorável está mais associada a uma formação direcionada para o ambiente privado. Sabe-se que, muitas vezes, as mulheres são obrigadas a assumirem posturas tipicamente masculinas, tais como agressividade, firmeza, falar alto, o tal falar “grosso” para simplesmente serem ouvidas e/ou consideradas. Há carência de reconhecimento e valorização. Esta problemática não está resolvida. Muitas se vêem obrigadas a assumirem posturas masculinas no mundo competitivo do trabalho. E depois, como já disse Alexandra Bocchetti, “um corpo de mulher não assegura um pensamento de mulher” , pois este pensamento nasce, somente, segundo essa autora, da consciência das outras mulheres. Este pensamento é produto de relações.

Agora, no mercado de trabalho, as mulheres trazem um diferencial que vem sendo muito aproveitado nas empresas. A divisão sexual do trabalho, que sobrecarrega a mulher, continua interagindo na produção dos bens e na reprodução da vida e dos valores marcados pela desigualdade dos processos de inserção de homens e mulheres no mercado de trabalho. São obrigadas a dar conta de várias demandas e ainda acrescentar: cor, cheiro, bom gosto, senso estético, organização etc. no seu ambiente de trabalho, além, é claro, de toda a contribuição afetiva que colocam à disposição em seu ambiente profissional, em resumo, o trabalho imaterial.
 
IHU On-Line - Como entender o aumento do interesse de cada vez mais mulheres na área da tecnologia? Como está a aceitação do massivo público masculino ao receber as "colegas" do sexo oposto?
Darli de Fátima Sampaio
- Uma discussão interessante é aquela que aborda o conceito de tecnologia do ponto de vista sócio-antropológico. Um processo conectado na realidade social, que o cria e o transforma. Que vai além dos artefatos que caracterizam a vida moderna ou que aumentam a produtividade das empresas. A tecnologia é um fenômeno que faz parte da vida social. Historicamente, os seres humanos sempre se organizaram para produzir bens e serviços necessários tanto para a sobrevivência física, como também voltados para as necessidades sociais e culturais.  As relações de gênero, fruto de construções culturais, são atualizadas na dinâmica da vida social e representam, segundo estudos, um elemento-chave de compreensão da imbricação da tecnologia com a sociedade.

Estudos realizados nessa área, tradicionalmente constituída como um domínio masculino, mas que vem sendo ocupada por mulheres, tanto com relação aos cursos quanto em relação às profissões que exigem conhecimentos técnicos, mostram que, no processo de socialização e obtenção de habilidades técnica, os padrões de gênero desempenham forte influência na formação dos estudantes. Os meninos são orientados, inicialmente, pelas suas respectivas famílias, para interesses que os aproximam das habilidades técnicas. Eles são estimulados à curiosidade e à investigação, ao passo que, com relação às meninas, ocorre exatamente o contrário, na medida em que são desestimuladas e distanciadas dessa área, sendo motivadas para interesses ligados ao cuidado (casa, bonecas etc.). O resultado é que os meninos, em se tratando da área técnica, sempre se superestimam e as meninas se subestimam. Talvez isso explique um pouco da predominância masculina em setores altamente técnicos, como o da automotiva, por exemplo, no qual é preciso ter habilidade para manusear vários equipamentos eletrônicos. É uma área bastante robotizada.

Mas hoje estamos também envoltos e dependentes de toda sorte de parafernália eletrônica com a qual, com maior ou menor intensidade, somos obrigados a conviver. E as mulheres têm gradativamente se arriscado nessa área em franco crescimento e também atraente do ponto de vista financeiro.

As estudantes que conseguiram quebrar antigos paradigmas e entraram para áreas técnicas, segundo estudos, têm apresentado um bom desempenho, quando não superior ao desempenho dos estudantes masculinos. Mas, com relação à convivência, sabe-se que se trata de uma área que mantém conceitos binários de gênero. O público masculino julga que as mulheres são mais disciplinadas, estudiosas e aplicadas, mas com habilidades diferenciadas, voltadas para o senso estético, mais emotivas, sentimentais, sensíveis, delicadas, enfim, com menos visão lógica e menos aptas para programações etc. Visões essencializadas.
Segundo apontam alguns estudos, para que haja uma verdadeira mudança na direção da equidade de gênero, é necessário mudar também o processo de socialização de meninos e meninas para que ambos cheguem aos cursos técnicos com as mesmas habilidades e oportunidades. Aí então teremos um franco crescimento do número de mulheres nessa área.

IHU On-Line - Quais são os principais desafios que as mulheres ainda têm pela frente? Em que elas podem contribuir para melhorar o mundo do trabalho e a sociedade em que vivem?
Darli de Fátima Sampaio
- São vários os desafios e de toda ordem, envolvendo discriminação social, racial ou de gênero. É preciso lutar por reconhecimento e valorização profissional, por equiparação salarial, por modificações na legislação, obtenção de vitórias jurídicas, direitos no campo da saúde, pelo fim da violência contra as mulheres em todas as dimensões da vida humana. Enfim, temos muito que andar nesse campo de gênero em constante transformação. As mulheres estão exercendo um papel determinante nesse campo da transformação cultural. O feminismo foi capaz de conduzir lutas importantes e garantir direitos fundamentais e de transformar a situação e a consciência das mulheres. Mas hoje elas estão dando grande importância aos problemas que mexem com a vida pessoal, com as relações interpessoais, com a sexualidade, com a vida no sentido amplo, enfim com os problemas culturais, bem apontados por Alain Touraine , no livro O mundo das mulheres . Há uma preocupação com a construção de um novo modelo de cultura que pode ser vivido por todos, homens e mulheres, que elimine essa oposição entre os sexos, criado pela ordem masculina, que prejudicou terrivelmente a mulher, mas também a todos. E, nesse sentido, está colocada a preocupação e a necessidade de recomposição do mundo, superando-se os dualismos históricos e atuando no sentido do estabelecimento de uma aliança que garanta a nossa existência social, especialmente sem opressões de gênero. Que possamos compreender as mudanças que estão ocorrendo, em todos os aspectos, e nos renovar e se sensibilizar, preparando-nos para os riscos e desilusões que elas podem gerar, mas também para compreender a potencialidade que uma mudança supõe.

IHU On-Line - O que sua pesquisa com as mulheres de uma fábrica automotiva mais lhe ensinou em relação ao avanço das mulheres no trabalho e na sociedade?
Darli de Fátima Sampaio
- Primeiro, como são fortes e terríveis os limites que se impõem às mulheres em benefício da continuidade do poder masculino como, por exemplo, a transferência para a fábrica da dinâmica da divisão sexual do trabalho, que oprime e exaure a mulher. Mas, positivamente, também se evidencia cada vez mais que não há limites para a capacidade criadora, transformadora e de trabalho das mulheres. Elas se superam cotidianamente no mundo do trabalho com a mesma disposição, garra, perspectivas, com que tocam tudo ao seu redor. São capazes de seguir sempre adiante, sem descuidar dos aspectos, sejam eles estéticos, emocionais, afetivos de todos que estão à sua volta, não se esquecendo delas mesmas. Elas criam resistências domésticas e profissionais, burlam normas. Assumem um papel integrador, unindo o que está separado. Se a dominação masculina foi abalada pela ação das feministas, a ação das mulheres no mundo do trabalho poderá ser capaz de fazer prevalecer outros tipos de relacionamentos, resistências e alterações no seu ambiente de trabalho. Os avanços com o trabalho feminino são tão significativos que as empresas, no caso das automotivas, não podem mais se dar ao luxo de desperdiçar esse potencial humano e muitas revelaram o objetivo de ampliar as contratações de mulheres. A qualificação profissional da mulher, aliada a um estilo diferente de trabalhar e de se relacionar, é avaliada como positiva e principalmente lucrativa no esquema organizacional das empresas.
 
IHU On-Line - A mulher sabe lidar melhor com o "fantasma" do desemprego? Como a simbologia do medo e dos obstáculos aparece para homens e mulheres?
Darli de Fátima Sampaio
- Simbolicamente, o desemprego é terrível para homens e mulheres. Trata-se do sustento, do “ganha-pão”. No entanto, os seus efeitos são mais danosos entre os homens, lançados numa situação de insegurança tremenda numa sociedade com uma cultura do trabalho que se ancora na empregabilidade. Existe a questão cultural, que faz com que a grande maioria dos trabalhadores masculinos entenda que o seu trabalho é o principal para a manutenção da família. Mesmo que a mulher continue trabalhando e ganhe até mais, a sua renda é entendida como uma renda complementar ao orçamento familiar. Para os homens, estar desempregado representa o inferno, fonte de tensões e de desorganização. Provoca danos emocionais profundos, baixa estima e marginalização. As mulheres que conhecem esses “efeitos” ou sintomas historicamente acabam tendo uma postura diferenciada, mais propositiva frente ao desemprego. Elas se ocupam com o cuidado dos filhos e das tarefas domésticas. E vão à luta. Não ficam de braços cruzados, imobilizadas, abatidas. Buscam alternativas. Mas tanto os trabalhadores masculinos como os femininos têm plena consciência dos desafios colocados para a empregabilidade na complexa sociedade de hoje, que vão desde a falta de habilidade e qualificação necessárias - não ter a escolaridade necessária -, até outros tantos, como a ausência de faixa etária exigida pelo mercado. Além disso, faltam também recursos para que se possa abrir um negócio próprio, numa possível alternativa de sobrevivência.

IHU On-Line - O que muda no imaginário e nas expectativas e sonhos das mulheres do século XXI, que muitas vezes se dedicam tanto ao trabalho e são obrigadas a abdicar de outras instâncias na vida que eram igualmente importantes? 
Darli de Fátima Sampaio
- Influi na própria percepção de mundo. O mercado de trabalho altamente competitivo e excludente submete os trabalhadores a uma intensidade de trabalho absurda e potencialmente estressante. Para as mulheres, há ainda uma carga maior, que é a divisão sexual do trabalho não resolvida e que pesa sobre os ombros femininos. A presença de mulheres no mercado de trabalho já forçou pequenas mudanças no ambiente doméstico, mas não alterou a relação de poder. Trata-se de contribuições pontuais recebidas e não de tarefas igualmente distribuídas. Então, conciliar de forma humanamente satisfatória casa, marido, filhos, espaços pessoais, lúdicos, é desgastante para as mulheres e muitas optam por adiar ou mesmo colocar num segundo plano expectativas e sonhos pessoais. As mulheres que ascendem no campo profissional têm consciência do preço que pagam. E ele é alto.

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