Edição 247 | 10 Dezembro 2007

Tânia Dutra

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IHU Online

Literatura e Geologia são áreas distintas que não esboçam qualquer tipo de relação. Mas para Tânia Dutra, integrante do corpo docente da Unisinos, a arte literária, da qual ela sempre gostou, foi decisiva para a sua escolha profissional. Através de uma obra de Monteiro Lobato, dedicada à campanha “O Petróleo é Nosso”, o gosto pela Geologia se intensificou. Sua primeira experiência como professora foi na Unisinos, universidade à qual ela dedica 30 dos seus 60 anos de vida. Mãe de três filhos já independentes, Tânia compensa a falta deles com os alunos da graduação que ela orienta na iniciação científica e em trabalhos de mestrado. Em entrevista concedida à revista IHU On-Line, Tânia afirmou ser uma pessoa feliz e realizada, por ter feito o que gostava. Confira, abaixo, a entrevista:

Origens – Eu nasci em Santiago, no Rio Grande do Sul. Minha mãe era de origem alemã, e meu pai, brasileiro. A educação foi muito rígida. Meu pai era promotor de Justiça, e muito exigente com as filhas mulheres. Somos duas irmãs, eu a mais velha, e um irmão; ela é psicóloga, e ele, médico. Nossa relação foi sempre muito boa, mas cercada de grande respeito aos desejos do pai (o chefe de família, naquela época). Na tentativa de obter os direitos que as mulheres estavam conquistando, como o de fazer uma faculdade, havia muitas discussões com o meu pai. Principalmente, a Geologia e a Biologia, que exigiam muitas saídas de campo. Isso, para uma filha mulher, da década de 1960, era bastante complicado. Mas, no momento que me formei na universidade, ele passou a compreender melhor.

Infância – A minha infância se passou em Alegrete. Meu pai havia sido transferido para lá, por causa do seu trabalho na Promotoria Pública. Com cinco anos, vim para Porto Alegre, morar no bairro Bom Fim. Lembro que a gente brincava muito na rua, o que ainda era possível naquela época. Foi muito interessante crescer em um bairro onde estava a Universidade Federal e havia a agitação estudantil. Lembro de o pai nos trancar em casa, porque os militares e os estudantes estavam nas ruas e algo poderia nos acontecer. No dia seguinte, no entanto, eu podia ouvir os relatos sobre o que havia se passado, o que me deixava extasiada e com inveja daqueles que haviam podido participar.

Leitura - Eu gostava muito de ler. Passei a adolescência toda lendo. Este gosto, em parte, veio do meu pai, que gostava muito das obras do Machado de Assis. Então, eu li toda a coleção do autor. Um pouco antes, mais criança, havia o Monteiro Lobato, que tinha histórias muito interessantes e de onde, como disse, deve ter nascido este gosto pela Geologia. O autor defendia a autonomia do país na pesquisa de petróleo e serviu de base para a campanha “O Petróleo é Nosso”.

Estudos – Por causa da leitura, me tornei também bastante estudiosa, mas lembro de gostar mais da leitura, do que do estudo. Naquele tempo, as mães, que não trabalhavam fora e acompanhavam os estudos, o que era um incentivo. Mas eu gostava muito de festa também e tinha o sonho de acampar, mas isso, com o pai que acabei de descrever, era praticamente impossível. Ironicamente, acabei acampando pela primeira vez na Antártica, muitos anos depois, em condições muito mais duras do que as que teria enfrentado no Brasil.

Graduação – Fiz toda a minha carreira científica na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul). Estudei História Natural, que hoje é a Biologia, um curso muito interessante e que abria muitos leques de especialização. Na graduação, tinha duas áreas que me interessavam: Genética e Paleontologia. Como a Genética tinha muita procura de alunos naquele tempo, eu resolvi ir para o lado da Paleontologia, conciliando com o espírito de aventura que a Geologia também possuía e que também me encantava. A vida dos pesquisadores que se dedicavam ao trabalho em áreas ao ar ao livre me fascinava. Foi então que, após formada, eu direcionei minha pós-graduação para esta área. E a Universidade Federal era a única na época, com boa qualidade nesta área, na região Sul. Foi desta primeira leva de formandos na pós-graduação que vieram os professores que acabaram por vir dar aula na Unisinos e depois aqui também organizar a pós-graduação, o que acabou acontecendo em 1996.

Trabalho – A partir do segundo ano da Faculdade, eu já tinha uma bolsa de iniciação científica na Geologia. Os alunos da UFRGS tinham dificuldade de trabalhar, porque os horários eram são muito dispersos, o que em parte, ainda ocorre. Assim, tínhamos muito tempo para estar na universidade. E tudo, como eu disse há pouco, estava em ebulição na universidade. Convivi muito com o Centro Acadêmico, com o próprio bar, que ficava no fundo do lugar onde eu trabalhava na iniciação científica. E eu podia acompanhar.

Unisinos – Construí minha carreira aqui dentro. Montei um Museu, que era um dos meus sonhos. A gente foi buscar amostras em saídas de campo com alunos. Quando incendiou a universidade, em 1981, nós perdemos tudo. Tínhamos um museu de fósseis belíssimo, mas à custa de amostras buscadas no estrangeiro, quando o curso foi inaugurado. Então, fomos em busca de fósseis brasileiros. Aí, a universidade nos deu todo o apoio. Um grupo de alunos foi para a Bahia, onde trabalharam sozinhos, porque eu já estava para ganhar a minha terceira filha. Até hoje esses alunos falam que foi uma experiência muito boa. Depois, saímos pelo Rio Grande do Sul para coletar, e hoje a gente já tem mais de quatro mil amostras no Museu de Paleontologia e no repositório. Foi o que fez com que, ao montar a exposição, que pode ser vista no Centro 6 (NITGeo), a voltássemos para contar a História Geológica do Rio Grande do Sul. Outro fator para isto foi a constatação de que não existiam no Estado outras exposições com este caráter.

 Visão da universidade – Se eu não tivesse o melhor conceito, talvez não estivesse mais por aqui. No meio acadêmico, sempre surgem muitas oportunidades. E é preciso considerar que a Unisinos é a única universidade privada que tem curso de Geologia no país. Assim, nossa competição é com as universidades federais, que contam com excelentes condições de trabalho. Muitos de meus colegas que lá haviam permanecido encaravam a universidade privada como um lugar onde o ensino podia ser menos qualificado. Isso, de certo modo, foi uma dificuldade. Mas, por outro lado, foi um desafio mostrar que nós podíamos fazer uma pesquisa de qualidade. E, para isso, sempre tivemos teve o apoio da Instituição. Se queríamos pesquisar na Antártica, no Nordeste do Brasil ou com material da Argentina, nossas propostas eram recebidas e acolhidas com entusiasmo. E provamos que éramos capazes, recebendo apoio igualmente dos órgãos de fomento, como o Conselho Nacional de Pesquisas, em grande parte igualmente, por causa do respeito que a Instituição também obteve ao longo dos anos.

Retorno – Atualmente, na graduação da Unisinos, eu ministro a disciplina de Paleontologia e Geologia Histórica. E, na pós-graduação, Paleoecologia e Paleobotânica. O meu trabalho é um atendimento a uma coisa que eu sonhava. Eu realmente sou uma pessoa muito feliz e realizada, porque fiz aquilo que gostava. Consegui chegar até aqui ao fazendo o que gosto, e num ambiente de conhecimento, que me permite estar sempre lendo e em contato com os jovens.

Marcas – Talvez, o que mais tenha me marcado, é que a universidade nunca quis interferir em nada do que eu quis fazer. A maior qualidade da Unisinos é a liberdade de trabalho. Houve sempre uma confiança muito grande da Instituição na competência do seu profissional. A Unisinos tem condições de trabalho excelentes, o que é o desejável, mas o que o ser humano mais quer é que confiem nele e em sua competência.

Família – Fui casada durante muito tempo e tenho três filhos. Casei tarde para aquela época, com 27 anos. Eu estava fazendo o mestrado e conheci o meu marido na universidade. Logo já tivemos os filhos. Tenho um filho de 31 anos, que mora em Porto Alegre, e que de certo modo, ao tornar-se um escritor, talvez tenha atendido a uma vocação que surgiu dele e do que via em casa, já que o pai também se dedicava à literatura; o outro é casado, está com 29 anos, mora em São Paulo, e já me deu a primeira neta; e a filha mais nova, já vai fazer 27. Mora na Espanha, onde faz pós-graduação em Educação Física. No momento, a casa está, portanto, praticamente vazia. Na verdade, quando é preciso conciliar a vida profissional com os filhos pequenos, a gente pensa: “um dia eles vão crescer e eu vou poder me dedicar totalmente àquilo que eu quero”. Mas hoje vejo que esse é um sonho dispensável. Sinto muito a falta deles, embora tenha consciência de que devem ir um dia.

Compensação - Gosto muito de estar comigo mesma e lendo ou atendendo aos alunos. Na verdade, os alunos de orientação e iniciação científica acabam tomando um pouco o lugar dos filhos. Como adoto cada aluno como filho, eu não sinto uma solidão, no sentido físico. Mas sinto falta da relação afetiva que há entre mãe e filho.

Neta – Vim de uma geração em que a mulher tinha que conquistar o seu espaço e, portanto, os vínculos familiares não eram priorizados. Então, criei meus filhos com certa rigidez, sempre os incentivei ao estudo, e tive pouco tempo para me dedicar a eles. Agora, embora eu ainda continue trabalhando, eu estou me desconhecendo pelo encantamento que tenho pela minha neta, Alice, de onze meses.

Política brasileira – Para aqueles que eram jovens nos anos 1960 e 70, a decepção é muito grande. Toda a luta por novos ideais foi posta no lixo. A esquerda atingiu o poder e não está usando nenhum método diferente do que a direita usava. Parecia que, finalmente, tudo ia melhorar. Mas se percebe que nem sempre os processos políticos acompanham o sonho da população. Temos que manter a luta, mas os mecanismos estão muito limitados. O jovem está trabalhando demais, pois já entra na carreira com o desespero da falta de emprego. Então, sobra pouco espaço para o pensamento político.

Sonho – Continuar fazendo o meu trabalho, e que os alunos sigam a carreira científica. Já tenho várias experiências boas de alunos meus que hoje são muito elogiados em congressos. E isto é mais uma razão para me considerar uma pessoa feliz. Talvez eu ainda alimente um último sonho, o de ter um pouco mais de tempo livre, que me permitisse voltar a me dedicar à leitura de temas gerais e aos livros que não sejam do tema de especialização, algo quase impossível para quem se dedica à pesquisa e ao ensino nos dias de hoje. E mais tempo para o lazer, que é pouco, em razão de diversas tarefas acadêmicas. 

Lazer – Como sempre, a leitura, mas agora muito misturada com o que fazemos na universidade. Estou lendo um livro muito interessante, intitulado Infinitas formas de grande beleza – Como a evolução forjou a grande quantidade de criaturas que habitam nosso planeta (Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005. 303p.), de Sean B. Carroll.

Filmes – Gostei muito de assistir Cidade de Deus, dirigido por Fernando Meirelles, e de O ano em que meus pais saíram de férias, do diretor Cao Hamburger, na cinematografia brasileira. Em nível internacional, gostei de Closer – Perto demais, de Mike Nichols.

Instituto Humanitas Unisinos – A universidade é, antes de tudo, o lugar do debate. E o Humanitas é um espaço de discussão, especialmente importante para os alunos. Quando entramos no mercado de trabalho, após formados, e como é possível concluir do que disse antes, as solicitações são muitas. A Universidade é o espaço para o debate, para a troca de idéias, para ampliar os horizontes. E o IHU cumpre esta função na Unisinos.

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