Edição 247 | 10 Dezembro 2007

Editorial

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IHU Online

O pampa e o monocultivo do eucalipto

Pampa. Silencioso e desconhecido foi o tema de capa da revista IHU On-Line, nº 190, publicada no dia 7-08-2006 (a edição está disponível nesta página, em word e pdf, para download)  Mais de um ano depois, voltamos ao tema. A opção pelo Pampa para a implantação de um mega-empreendimento, capitaneado por três grandes empresas, de plantação de eucalipto, fez com que o próprio Rio Grande do Sul se debruçasse sobre este importante bioma que é o pampa, para melhor conhecê-lo.

Marcelo Madeira, chefe da Divisão Técnica (DITEC) da Superintendência do IBAMAS/RS, onde atua como coordenador do Grupo de Trabalho do Bioma Pampa, constata que 60% da vegetação nativa do bioma já foi suprimida. Para proteger, minimamente, o restante do pampa, foi feito o Zoneamento Ambiental para a Silvicultura – ZAS -, que, considerando “a área do pampa “strictu sensu”, localizada principalmente na metade sul do estado e a oeste da Lagoa dos Patos até os limites com a Argentina e o Uruguai”, não atinge “nem 7.000 hectares, ou cerca de 0,04% do Bioma”. “Entretanto – constata o técnico - estamos chegando no final de mais um ano e as autorizações e licenças continuam a ser expedidas sem a aplicação do Zoneamento.” Isso porque o ZAS não agradou às empresas de celulose e de sivlivicultura. Por quê? “Certamente por questões econômicas”, responde, Antonio Eduardo Lanna, mestre em Hidrologia, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e PhD em Gestão de Recursos Hídricos, pela Colorado State University - USA. Segundo ele, “muitas se anteciparam e adquiriram vastas extensões de terra baratas no pampa com a perspectiva de implantação de florestas de eucalipto. Correram um risco, pois na época não havia o ZAS,  e não querem perder com suas apostas. Estão comprometendo ambientes de expressivo valor ambiental e cultural, e com grande potencial econômico, apenas levando em consideração o aumento de seus lucros imediatos”.

Já para a engenheira florestal Maurem Alves, indicada pela Aracruz Celulose para ser entrevistada pela IHU On-Line, “os projetos de silvicultura previstos para o estado e, em especial, o projeto da Aracruz Celulose, não vão transformar o cenário do pampa gaúcho, constituindo-se em mais uma alternativa econômica para a região”. Segundo ela, “considerando-se a conclusão da expansão de plantios prevista, a taxa de ocupação deste bioma pela Aracruz não atingirá sequer 1% do seu território. O eucalipto é proveniente da Austrália, mas não podemos esquecer que muitas outras culturas agrícolas praticadas no estado há muitos anos estão baseadas em espécies também exóticas: o gado, por exemplo, é de origem européia; a soja foi trazida da China; o arroz da Índia e o trigo da Ásia Central. Leonardo Melgarejo, engenheiro agrônomo, não concorda, pois acredita que "não é possível manter a produtividade, conservar ou recuperar o ambiente e, ao mesmo tempo, implantar estas mega-lavouras de eucalipto para exportação de pasta de celulose”. Ele defende que a agricultura familiar, que se relaciona de modo quase simbiótico com o ambiente, é a que melhor preserva o pampa.

Agradecemos de maneira especial a preciosa contribuição da bióloga Luíza Chomenko na elaboração da pauta desta edição.

A Stora Enso e a Votorantim Celulose - VCP foram contatadas mas não responderam ao pedido de esclarecimentos. A Fepam, por sua vez, igualmente procurada, optou por não se manifestar.

Lady Chatterley, de Pascale Ferran é o filme da semana. Dois poemas de Thiago Ponce de Moraes e a entrevista com Tânia Dutra, professora de Paleoecologia e Paleobotânica no  PPG em Geologia da Unisinos, completam esta penúltima edição do ano.

A todas e todos uma ótima leitura e uma excelente semana!

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