Edição 226 | 02 Julho 2007

Second Life: uma nova forma de expressão da subjetividade humana

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IHU Online

“O Second Life pode ser um painel bastante interessante para compreendermos a subjetividade das pessoas que jogam. Mas elas estão lá. Se não estivessem no Second Life, estariam fazendo outras coisas nas quais expressariam essa mesma vida interior”, afirma o professor Benilton Bezerra Jr., da UERJ, em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line.

Benilton possui graduação em Ciências Jurídicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, graduação em Medicina pela Escola de Medicina da Fundação Técnico Educacional Souza Marques, especialização em Psiquiatria, mestrado em Medicina Social e doutorado em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Atualmente, é professor adjunto da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Tem experiência na área de Psicologia, com ênfase em Psicanálise. Durante o Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos? promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, no último mês de maio, o professor Benilton Bezerra Jr., da UERJ, fez uma leitura psicanalítica do tema de fundo do evento. Na ocasião, concedeu uma entrevista à IHU On-Line, publicada no site do IHU, nas Notícias do Dia de 25-05-2007.

IHU On-Line - Por que as pessoas estão migrando com tanto entusiasmo para o Second Life? Quais são as vantagens que esse jogo proporciona que a vida real não traz?
Benilton Bezerra -
Retiradas todas as ressalvas que o uso excessivo do Second Life pode ter, o fato é que a internet está viabilizando a construção de outros ambientes de interação e de experimentação subjetiva. É de se esperar que o Second Life seja somente o primeiro passo nessa direção. As pessoas utilizam essas tecnologias, nas quais os recursos de virtualidade emulam a vida normal, e buscam, cada vez mais, um espaço de experimentação, no qual elas podem construir fantasias e viver, de alguma maneira, sonhos que na vida real elas não poderiam realizar. Em princípio, é um movimento natural.

IHU On-Line – Quais são os riscos de as pessoas projetarem para o mundo virtual os sonhos e desejos da vida real?
Benilton Bezerra -
É possível que muita gente acabe fazendo do Second Life uma espécie de prótese na qual experimentem e vivenciem o máximo de realização que elas têm, por alguma razão, dificuldade de tentar realizar na vida normal. Mas esse risco existe com qualquer tipo de acesso ao mundo da fantasia. Você pode dizer também que a literatura, quando surgiu, poderia ter sido alvo de preocupações do mesmo tipo. Ou o cinema, que também, muitas vezes, foi pensado como uma válvula de escape. Se considerarmos que o Second Life é uma espécie de válvula de escape para as frustrações na vida, o mesmo pode ser dito dentro do cinema, da literatura, da religião e de muitas outras coisas. Temos que ter cuidado de não rotular o fenômeno em si de uma maneira muito fechada. O risco existe, mas há muitas outras coisas em relação a isso que não são negativas nem preocupantes.

IHU On-Line - Lembrando os debates levantados no Simpósio Internacional O Futuro da Autonomia. Uma sociedade de indivíduos, na Unisinos, sobre o sujeito autônomo e individualizado de nossos dias, podemos dizer que o interesse das pessoas pelo Second Life é um reflexo dessa sociedade marcada pelo individualismo, pelo medo diante da violência das ruas?
Benilton Bezerra -
É possível que isso aconteça para uma parcela das pessoas que usa o Second Life. Para falar de maneira mais concreta, teríamos que ter um quadro que traçasse o perfil das pessoas que participam desse jogo. Se for o perfil de pessoas que não têm uma vida normal, que não estudam, não têm projetos pessoais, não trabalham, vivem reclusas e usam o Second Life como uma válvula de escape, essa afirmação da pergunta tem toda a razão. Eu desconfio que se isso é válido, é apenas para uma parcela das pessoas que entram no jogo. A maioria das pessoas fica por um tempo no Second Life durante a semana e no restante do tempo tem os seus trabalhos, estuda, tem seus compromissos sociais. Precisamos ter cuidado para não simplificar o que deve ser um universo muito complexo de uso do Second Life. Há 15 anos atrás, alguém também podia me perguntar a mesma coisa sobre a internet, se ela não iria isolar as pessoas, se elas iriam viver num mundo dentro do seu quarto, sem sair na rua, se iria afastar as pessoas de contatos pessoais etc. E, na verdade, a internet, para algumas pessoas, pode ter sido esse caminho. Mas, como fenômeno social, aconteceu o contrário: criou outros espaços de encontro virtual e novas redes de interação social, antes inexistentes. Toda tecnologia traz novidades, aberturas e tem esses riscos. O mesmo vale para o Second Life. É apenas o primeiro passo de uma quantidade enorme de recursos tecnológicos que as pessoas terão cada vez mais para poder vivenciar e fazer experiências, brincadeiras, num mundo que é paralelo.

IHU On-Line - As pessoas utilizam o mundo virtual para obter novas experiências?
Benilton Bezerra -
Acho que as pessoas utilizam sim as tecnologias virtuais para viveram facetas subjetivas que não correspondem ao seu sexo biológico, a sua posição social real, ou ao perfil psicológico com o qual vivem normalmente.

IHU On-Line - Como fica a subjetividade humana dentro de uma sociedade virtual? O que muda em relação à vida real?
Benilton Bezerra -
A subjetividade humana não muda. Por trás de cada avatar, existe uma pessoa de carne e osso, que está expressando as suas fantasias. Ao invés de estar escrevendo contos, fazendo filmes ou inventando histórias, ela está criando personagens com enredos e psicologias próprias, utilizando a tecnologia disponível para isso. Ela está projetando seu mundo fantasmático, sua criatividade. O Second Life não vive independente das pessoas que o criam. Ele apresenta algo parecido com bonecos de marionete, com a diferença de que com uma tecnologia fantasticamente superior. Isso pode ser nada mais do que uma nova forma de expressão da subjetividade humana. Creio que o jogo em si não muda em nada o que se passa por trás dele. E os dramas subjetivos, os conflitos e enredos, que se passam no próprio jogo, nada mais são do que a expressão das projeções, fantasias e ideais, dilemas e conflitos que as pessoas de carne e osso têm ao entrarem e criarem no jogo. O Second Life pode ser um painel bastante interessante para compreendermos a subjetividade das pessoas que jogam. Mas elas estão lá. Se não estivessem no Second Life, estariam fazendo outras coisas nas quais expressariam essa mesma vida interior.    

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