Edição 221 | 28 Maio 2007

“A esquerda francesa está perdida”

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IHU Online

Após a eleição do candidato de direita Nicolas Sarkozy, não são muitas as perspectivas para a esquerda francesa: “A esquerda está perdida, sem rumo, e continua dominada pela extrema-esquerda, trotskista, muito inteligente e preparada, mas cujo excesso de radicalidade é prejudicial”. A afirmação é do filósofo francês Paul Valadier, SJ, em entrevista exclusiva, concedida pessoalmente à equipe da IHU On-Line, por ocasião de sua vinda à Unisinos como um dos conferencistas do Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos?, ocorrido de 21 a 24-05-2207.

Na conversa com a IHU On-Line, Valadier falou sobre o papado de Bento XVI, os desafios da Companhia de Jesus para os próximos anos e também sobre Friedrich Nietzsche, filósofo sobre o qual é especialista: “O cristão deve entender a crítica de Nietzsche ao cristianismo. O que o filósofo critica no cristianismo é que ele humanizou Deus de tal maneira, tornando tão misericordioso e paternal prometendo a salvação, que acabou matando-o. Assim, Nietzsche quer dizer que o cristianismo desdivinizou Deus em sua dimensão transcendental, e quer alertar para o perigo, o risco, em uma fé demasiado paternalista. Isso não quer dizer que Nietzsche tenha razão na sua crítica, mas ele denuncia os riscos graves de uma visão exacerbada do cristianismo”.

Valadier leciona filosofia moral e política nas Faculdades Jesuítas de Paris (Centre Sèvres). É licenciado em Filosofia pela Sorbonne, mestre e doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Lyon. Foi redator da revista Études e é autor de uma vasta bibliografia. Atualmente é diretor da revista Archives de Philosophie. Sobre Nietzsche escreveu, entre outros livros, Nietzsche et la critique du christianisme (Paris: Cerf, 1974); Essais sur la modernité, Nietzsche et Marx (Paris: Cerf, 1974); Nietzsche, l’athée de rigueur (Paris: DDB, 1989); e Nietzsche l'intempestif, Beauchesne (Paris, 2000). Entre seus outros livros, citamos La condition chrétienne, être du monde sans en être (Paris: Le Seuil, 2003) e L’anarchie des valeurs (Paris: Albin Michel, 1997). Entre suas obras publicadas em português, destacam-se: Elogio da consciência (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2001); Um cristianismo de futuro: para uma nova aliança entre razão e fé (Lisboa: Instituto Piaget, 2001); e A moral em desordem: um discurso em defesa do ser humano (São Paulo: Loyola, 2003). Na edição 127, de 13-12-2004, concedeu a entrevista Investidas contra o Deus moral obsessivo, também publicada nos Cadernos IHU Em Formação edição nº. 15, de 2007, que tem com tema O pensamento de Friedrich Nietzsche. Na edição 220 da IHU On-Line, sobre o Simpósio Internacional O Futuro da Autonomia. Uma sociedade de indivíduos?, concedeu a entrevista O futuro da autonomia, política e niilismo. Na tarde de 23-05-2007 ofereceu o minicurso A moral após o individualismo e, na tarde de 24-05-2007, proferiu a conferência de encerramento O futuro da autonomia do indivíduo, política e niilismo. Confira os principais trechos da conversa. 

IHU On-Line - Como o senhor descreveria a atual conjuntura eclesial católica? Poderia dar um panorama do papado de Bento XVI e sua influência junto à Igreja?
Paul Valadier -
O papado de Bento XVI não pode ser avaliado de forma unitária, em bloco, pois é muito diferente de país para país e entre os continentes. A Igreja Católica está passando por um declínio na Europa, de onde vem Joseph Ratzinger, mas em plena florescência na Ásia e na África.

O centro de irradiação da Igreja Católica não será mais a Europa, como antigamente, mas será, cada vez mais, a Ásia, a África e a América Latina. Um exemplo é o Concílio Vaticano II, cujo predomínio era o dos grandes teólogos europeus. Entretanto, essa visão teológica está em declínio. Espero que surjam teólogos nesses países emergentes para suprir essa falta. Isso tem muito significado porque há toda uma mentalidade que não é mais européia, e sim do Terceiro Mundo, e que afirmará pontos de vista novos, diferentes, o que gerará uma transformação muito profunda no catolicismo.

Além disso, Bento XVI já tem 80 anos e não se pode esperar muita coisa de seu pontificado. É um pontificado de transição. Ele é um homem tímido, não é do tipo que tomará medidas para uma reforma, uma renovação da Igreja. Some-se a isso que ele está imbuído da “vestimenta” vaticana há 25 anos. Então, não é de se esperar grandes intervenções suas na Igreja. Ele é um homem inteligente, e muito mais teólogo do que pastor.

IHU On-Line - A partir dessa constatação de crescimento da Igreja Católica na América Latina, como o senhor vê a censura do Vaticano a Jon Sobrino ?
Paul Valadier -
É uma decisão totalmente infeliz. Penso que é errado que, numa situação de um país distante da Europa, latino-americano, com seus problemas específicos, uma secularidade vaticana decida sobre o ponto de vista da doutrina que deveria ser analisada por especialistas locais e discutida primeiramente, antes de se fazer um julgamento condenatório. Mas, no futuro, o Vaticano deverá deixar de ser o juiz único de todo o pensamento católico. O magistério romano provoca muita injustiça com seus posicionamentos. Exemplo disso é o que ocorreu com Teilhard de Chardin, um grande teólogo, filósofo, cientista, injustamente marginalizado por um posicionamento que não correspondia com os princípios que ele trazia, inovadores. Isso sem falar em de Lubac e, no momento, Jon Sobrino.

IHU On-Line - Frente à próxima congregação geral, quais são os desafios e os rumos que a Companhia de Jesus tomará?
Paul Valadier -
Penso que o Padre Kolvenbach, nosso superior-geral, é muito bom, competente e dinâmico em sua atividade, assim como foi o seu predecessor, Pe. Arrupe. No entanto, Kolvenbach já ocupa essa função há 25 anos e está um pouco esgotado. A Companhia de Jesus necessita de uma força nova, pois está expandida pelo mundo. Há posições divergentes e precisamos de uma força mais dinâmica que possa abrir novas perspectivas. Os jesuítas como um todo são muito dinâmicos, mas há lugares onde essa característica é ainda mais forte. De qualquer modo, é preciso de um impulso geral para dar fôlego à Companhia. No mundo todo, há a proporção de um jesuíta jovem para quatro mais velhos. Então, é preciso que haja uma revitalização da ordem. E, no futuro, será justamente esse um quarto dos jesuítas que terá que decidir os rumos da Companhia.

IHU On-Line – Após a eleição de Sarkozy, quais são as perspectivas da esquerda francesa?
Paul Valadier -
Não são muitas as perspectivas da esquerda francesa, infelizmente. Então, não há um rumo que se possa apontar. A esquerda está perdida, sem rumo, e continua dominada pela extrema-esquerda, trotskista, muito inteligente e preparada, mas cujo excesso de radicalidade é prejudicial. A esquerda moderada não tem coragem e condições de se afirmar como social-democrata, o que seria necessário para uma França composta por tantas nuances.

IHU On-Line - Em linhas gerais, poderia nos traçar um panorama do pensamento filosófico, teológico e social na França?
Paul Valadier -
A sociologia e a psicanálise na França atravessam uma profunda crise, pois não há mais as grandes figuras do passado, como Lévi-Strauss, Bourdieu  e Lacan. A filosofia, igualmente, não tem grandes nomes como Sartre e Merleau-Ponty, mas na revista Archives de Philosophie, que dirijo, despontam grandes nomes de jovens pensadores muito esclarecidos e dinâmicos que, acredito, irão revitalizar a filosofia. Entre esses nomes eu citaria Jean-Claude Monod, um dos conferencistas do Simpósio Internacional O Futuro da Autonomia. Uma sociedade de indivíduos e Marcel Gauchet, entre outros. Eles são grandes pensadores, ponderados e sérios.

No campo da teologia, sob o papado de João Paulo II, o clima para a pesquisa não era muito favorável a inovações. Os pesquisadores tinham medo de falar francamente para evitar casos como o que Sobrino vive hoje. Isso não quer dizer que não haja bons teólogos, mas eles não ousam falar muito. Sobre a exegese, a interpretação da sagrada escritura, e a patrística, há boas pesquisas em andamento. A teologia não está morta, mas dá passos cuidadosos. A teologia moral, sobretudo, está muito ativa.

IHU On-Line - Como surgiu seu interesse por estudar Nietzsche ?
Paul Valadier -
Na minha juventude, quando entrei para a Companhia de Jesus, na França, havia uma formação forte em escolástica e Hegel . Em minha formação, jamais estudei Nietzsche. Quando iniciei meu doutorado, em 1968, Nietzsche estava muito difundido entre os pesquisadores. Assim, dentro da Companhia de Jesus, percebeu-se a importância de que alguém conhecesse melhor o pensamento desse filósofo. Quando iniciei minha pesquisa, percebi a atualidade e a pertinência inegáveis da filosofia nietzschiana. Evidentemente que Nietzsche é um autor muito agressivo, até violento em sua linguagem, mas possui uma profundidade que se mostra para além dessa primeira impressão. Com a decadência marxista, e mesmo hegeliana, resta Nietzsche, de onde pode se tirar uma riqueza para uma complexidade do mundo que ele já apontava no século XIX. Hoje não se pensa mais tão globalmente quanto Hegel o fazia em seu sistema, e Nietzsche, com seus aforismos certeiros, pode trazer uma pertinência grande ao pensamento contemporâneo. Entretanto, essa característica aforismática também possui seus inconvenientes, pois pode ser interpretada em inúmeros sentidos. É um pensamento um pouco perigoso, que precisa ser feito com comedimento. Seguindo um próprio conselho de Nietzsche, dado no prefácio de A genealogia da moral, sua filosofia deve ser “ruminada”.

IHU On-Line - Recuperando essa idéia que o senhor fala sobre a pertinência e atualidade do pensamento nietzschiano, qual é seu ponto de vista sobre a afirmação do filósofo de que a democracia é a secularização política do cristianismo? Como o senhor interpreta essa idéia com a questão do igualitarismo que ele denunciava na democracia?
Paul Valadier -
Não se pode dizer que Nietzsche está totalmente errado. De certa forma, o cristianismo contribuiu para a consolidação da democracia. Nietzsche critica o igualitarismo democrático que destrói posicionamentos pessoais. Então, ao mesmo tempo em que ele aceita a democracia, critica-a duramente. O que me impressiona é sua posição em relação a Deus. Fala-se muito na morte de Deus que Nietzsche constata. Para a Filosofia das Luzes, a negação de Deus é uma espécie de autoconsciência em assumir a autonomia, em se emancipar. Para Nietzsche, a morte de Deus é uma perda, e o filósofo a lastima. A morte de Deus trouxe consigo a perda de valores, e o homem ficou à deriva após esse “evento”. Não há mais valores positivos, e o resultado é que se buscam ídolos, como o Estado, a ciência, o progresso. Para Nietzsche, o mundo continua tendo uma dimensão divina. Ele se desvinculou do Deus “pessoa”, indivíduo, mas admite uma certa dimensão divina no mundo, algo superior aqui. Esse divino nietzschiano não tem a ver com o homem. Somos seres condenados à morte e esse divino não nos promete nada. Devemos assumir nosso destino, diz ele.

IHU On-Line - Qual é a sua posição quanto à crítica que Nietzsche endereça ao cristianismo?  Em que medida ela é válida e até que ponto ela carece de fundamentação teológica?
Paul Valadier -
O cristão deve entender a crítica de Nietzsche. O que o filósofo critica no cristianismo é que ele humanizou Deus de tal maneira, tornando-o tão misericordioso e paternal prometendo a salvação, que acabou matando-o. Assim, Nietzsche quer dizer que o cristianismo desdivinizou Deus em sua dimensão transcendental, e quer alertar para o perigo, o risco, em uma fé demasiado paternalista. Isso não quer dizer que Nietzsche tenha razão na sua crítica, mas ele denuncia os riscos graves de uma visão exacerbada do cristianismo.

IHU On-Line - Como você compreende o conceito de grande política de Nietzsche? Que elementos dessa concepção podem ser pensados à luz da política contemporânea, sobretudo nos quesitos que dizem respeito à corrupção e à apatia eleitoral, forma do niilismo passivo?
Paul Valadier -
Tecnicamente, o conceito de grande política só aparece nos textos póstumos de Nietzsche. Vale lembrar que Nietzsche, no último período de sua produção intelectual, escrevia tudo o que se passava em sua cabeça. Cientificamente, penso que deveria ser dada ênfase, privilégio, aos textos publicados em vida, analisando os póstumos em função destes. O perigo seria propor um novo sistema político a partir das idéias de Nietzsche. Penso que não se deve extrair de Nietzsche proposições para a política. O que vejo como positivo é a crítica do filósofo à democracia, que no final das contas atribui ao estado a responsabilidade de garantir a vida das pessoas enquanto elas vivem como querem. Isso atribui uma força quase despótica ao estado. Penso, ainda, que ele tinha razão ao denunciar o desinteresse do cidadão pela política, idéia que Tocqueville já desenvolvera em A democracia na América.

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