O futuro da autonomia, política e niilismo

“O sujeito individual não é responsável por tudo; a miséria atual de muitos povos tem causas múltiplas em relação às quais a culpabilidade sistemática conduz à passividade e ao desencorajamento. É preciso ‘seriar’ os problemas e, por exemplo, não exigir à democracia o que ela não pode realizar. Em numerosos países ela abre espaços de liberdade, mas ela não pretende ser a solução de todos os graves problemas que assolam em nossos dias nossa humanidade”. A afirmação é do filósofo francês Paul Valadier, SJ, em entrevista exclusiva que concedeu nesta semana à IHU On-Line, por e-mail.

Por: IHU Online

Valadier é um dos conferencistas e palestrantes de minicurso no Simpósio Internacional O futuro da autonomia. Uma sociedade de indivíduos?, que inicia nesta segunda-feira, dia 21-05-2007 e vai até 24-05-2007. Em 23-05-2007, Valadier falará sobre A moral após o individualismo, em um minicurso que acontece das 14h30min às 16h30min. Na tarde de 24-05-2007, profere a conferência de encerramento do Simpósio, às 14h30min, falando sobre O futuro da autonomia do indivíduo, política e niilismo.

Valadier é professor de filosofia moral e política nas Faculdades Jesuítas de Paris (Centre Sèvres). É licenciado em Filosofia pela Sorbonne, mestre e doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Lyon. Foi redator da revista Études e é autor de uma vasta bibliografia. Sobre Nietzsche escreveu, entre outros livros, Nietzsche et la critique du christianisme (Paris: Cerf, 1974); Essais sur la modernité, Nietzsche et Marx (Paris: Cerf, 1974); Nietzsche, l’athée de rigueur (Paris: DDB, 1989); e Nietzsche l'intempestif, Beauchesne (Paris, 2000). Entre seus outros livros, citamos La condition chrétienne, être du monde sans en être (Paris: Le Seuil, 2003) e L’anarchie des valeurs (Paris: Albin Michel, 1997). Entre suas obras publicadas em português, destacam-se: Elogio da consciência (São Leopoldo: Editora Unisinos, 2001); Um cristianismo de futuro: para uma nova aliança entre razão e fé (Lisboa: Instituto Piaget, 2001); e A moral em desordem: um discurso em defesa do ser humano (São Paulo: Loyola, 2003). Na edição 127, de 13-12-2004, concedeu a entrevista Investidas contra o Deus moral obsessivo, republicada nos Cadernos IHU Em Formação edição no. 15, de 2007 que tem com tema O pensamento de Friedrich Nietzsche.

IHU On-Line - Em linhas gerais, quais são as perspectivas para o futuro da autonomia do indivíduo e quais são suas relações com a política e com o niilismo contemporâneos?
Paul Valadier –
A tomada de consciência pelo indivíduo de sua importância e de sua autonomia responde a uma lógica antiga. Esta lógica fora bem analisada por Tocqueville, no início do século XIX, em ligação com a igualdade de condições que lhe parecia gerada pelo desenvolvimento das sociedades democráticas. Se esta lógica tem raízes históricas e antropológicas profundas, não se pode duvidar que ela também tenha um futuro diante dela. Ela tem numerosas conseqüências políticas: o interesse do indivíduo por si mesmo afasta-o do interesse pela coisa pública: ela o despolitiza, portanto, mas ela também corre o risco de chegar a uma passividade favorável à instalação de um despotismo doce e insensível, como novamente bem o viu Tocqueville. A passividade dos cidadãos favorece sistemas políticos autoritários, desde que estes tenham a habilidade de não perturbar a vida privada dos indivíduos, nem sua busca de êxito.

IHU On-Line - É correto afirmar que a política contemporânea tem como fio condutor uma lógica do individualismo? Até que ponto o niilismo está imbricado nessa situação?
Paul Valadier –
A pressão do individualismo sobre a política atual é forte, mas variável segundo os países. A responsabilidade dos políticos consiste em não promover o jogo do individualismo, mas em situar-se ao nível da cidade ou do país em sua totalidade (bem comum), sem esquecer o lugar deste país nas relações internacionais. Tarefa difícil que obriga a resistir a novas formas de demagogia.

IHU On-Line - Como podemos compreender a apatia política, ou em terminologia nietzschiana, o niilismo passivo, frente à autonomia do sujeito?
Paul Valadier –
Se o niilismo tem a ver com estes fenômenos, é porque o individualismo envolve o relativismo. Se tudo tem valor igual, ou se cada um pode fazer o que bem lhe parece, então nada tem mais importância do que alguma outra coisa. Tudo é justificado, e, se nada se justifica realmente, no final é somente o nada que vale. É onde o niilismo latente que arruína todo apelo a valores e a qualquer hierarquização entre eles. Isso supõe uma interpretação errônea da autonomia do sujeito: em termos kantianos, é autônomo quem se dá à lei ou que a torna sua; a falsa interpretação atual consiste em dizer que o indivíduo é reticente diante de toda lei (ou diante do interdito), e só quer reconhecer sua espontaneidade ou seus interesses imediatos. É, pois, preciso sempre interrogar-se: o que se propõe sob o termo autonomia?

IHU On-Line - Qual é o lugar que o cristianismo ocupa no debate entre autonomia, política e niilismo? Que saídas o cristianismo pode ajudar a encontrar para essa questão?
Paul Valadier –
O cristianismo pode lembrar oportunamente que o indivíduo, considerado como um átomo separado é apenas uma ilusão inconsistente. A pessoa humana nasce e se desenvolve nas relações, e somente nelas; se ela se crê “soberana” ou “autônoma”, ou seja, sem elo ou sem alteridade, ela se perde e se torna “escrava” de suas pulsões. O que Nietzsche designava sob o nome de “fraco”, “escravo”, “plebeu”, são qualificativos provocadores que designam uma vontade que não é capaz de um domínio de si (ou de nobreza). O cristianismo, professando que todo ser humano é amado por Deus (eleição divina), indica o valor da pessoa e nela suscita uma vontade criadora que não se abandona, mas procura responder positivamente à sua vocação. Há uma “nobreza”, para retomar a palavra de Nietzsche, em responder de maneira criadora à sua vocação pessoal e coletiva.

IHU On-Line - O que pensa sobre as aproximações da filosofia de Nietzsche com a  democracia, como a obra A nietzschean defense of democracy: an experiment in postmodern politics , de Lawrence Hatab? Como entender essa proposição frente ao radicalismo aristocrático de Nietzsche?
Paul Valadier –
Nietzsche viu muito bem o perigo das democracias igualitaristas, incapazes de suportar essas diferenças ou essas “distâncias” que são as condições de toda criatividade (condição de desenvolvimento da vida). Seu “aristocratismo” é sobretudo psicológico e antropológico: é preciso ser capaz de “domínio” de si em primeiro lugar, e capaz de aceitar as distâncias ou as diferenças para que um sistema político não soçobre no aluimento igualitário ou na insatisfação generalizada.

IHU On-Line - Nas tragédias gregas, o destino não invalidava a responsabilidade do sujeito. E, hoje, como podemos compreender a autonomia num mundo onde as pessoas morrem de fome, assassinato e guerras? Liberdade e autonomia estão destinadas apenas ao mundo numênico? Por quê?
Paul Valadier –
Será que o destino, tão presente nas tragédias gregas, não invalidava a responsabilidade do sujeito, apresentado como cego (Édipo) e joguete dos deuses? A amplitude dos problemas ligados à mundialização não deve chegar a reatar com uma filosofia do destino ou da fatalidade que desmobilizaria o sujeito e o aliviaria de sua responsabilidade. Isso seria fazer o jogo da passividade, da prostração, e então, finalmente do niilismo. O sujeito individual não é responsável por tudo; a miséria atual de muitos povos tem causas múltiplas em relação às quais a culpabilidade sistemática conduz à passividade e ao desencorajamento. É preciso “seriar” os problemas e, por exemplo, não exigir à democracia o que ela não pode realizar. Em numerosos países, ela abre espaços de liberdade, mas ela não pretende ser a solução de todos os graves problemas que assolam em nossos dias nossa humanidade. Para estes, é preciso enfrentar as questões de equilíbrios econômicos ou financeiros, interrogar-se sobre a esclerose de certas culturas, situar-se também ao nível do direito internacional e das possibilidades de ajuda mútua, onde a “comunidade internacional” pode e deve intervir segundo as regras do direito, e não pela guerra ou por intrusões militares (como no Iraque).

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