Edição 216 | 23 Abril 2007

A bioprodução. “O capitalismo cognitivo produz conhecimentos por meio de conhecimento e vida por meio de vida”

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IHU Online

Yann Moulier-Boutang é economista e político francês. Participou ativamente do movimento de 1968. Em 1973, encontrou Antonio Negri, de quem permanece parceiro intelectual. Em 1974, criou a revista Camaradas, que sucede a Materiais e desenvolve os temas da autonomia operária, conceito adotado então na Itália por militantes procedentes do operariado (Autonomia Operária).

Camaradas é um dos primeiros grupos do movimento autônomo na França.

Após a autodissolução da revista Camaradas, Boutang participa, de 1979 a 1981, do Centro Internacional para Novos Espaços de Liberdade (CINEL), uma iniciativa de Félix Guattari. Atualmente é redator chefe da revista Multitudes. Por e-mail, Boutang fez à IHU On-Line uma reflexão sobre as transformações no mundo do trabalho.

De sua vasta produção intelectual, destacamos: Des entreprises pas comme les autres: Benetton en Italie, le Sentier à Paris. Paris: Publisud, 1993 (escrito com Maurizio Lazzarato e Antonio Negri); De l’esclavage au salariat. Économie historique du salariat bridé. Paris: PUF, 1998; Le droit dans la mondialisation: une perspective critique. Paris: PUF, 2002 e Le capitalisme cognitif. La nouvelle grande transformation. Editions Amsterdam, 2007. Ele concedeu uma entrevista para a IHU On-Line na edição número 177, de 24-04-2006, sob o título Trabalho. As mudaças depois de 120 anos do 1º de maio.

IHU On-Line - Provocativamente, o senhor afirma que estamos vivendo uma transição não para o socialismo, mas para um novo tipo de capitalismo. O que o faz pensar dessa maneira, uma vez que outros pensadores são capazes de detectar nessa mudança traços socialistas? Gorz, por exemplo, fala em “comunismo do saber”...
Yann Moulier-Boutang -
A transição ao capitalismo me parece evidente: 1) o socialismo real foi completamente desfeito na Rússia, depois na China. Para Cuba e a Coréia do Norte, é agora questão de pouco tempo. Isso não quer dizer que o socialismo tenha sido inútil; como método de realização de um tipo de acumulação industrial do capital, ele pôde sustentar a comparação com os países liberais. Na verdade, o socialismo real realizou nos países em vias de desenvolvimento, onde ele conquistou seu lugar político, o equivalente a um regime de economia mista que se encontra na França, na Suécia, na Alemanha. Mas, em troca, quando apareceu uma nova modalidade de acumulação do capital, o socialismo real se revelou totalmente inadequado. Para mim, há um elo entre o capitalismo cognitivo, apoiado sobre os NTIC em rede e um desenvolvimento democrático da sociedade, como não era possível fazer funcionar o mercado do trabalho industrial dependente numa sociedade escravista. O desmoronamento do socialismo real (1989-1991) é totalmente contemporâneo da revolução informática, da Internet, da descentralização. Para fazer foguetes, locomotivas, centrais hidrelétricas, armas nucleares, o socialismo podia fazer o negócio, não para a informática, a eletrônica, as nanotecnologias, a mídia. Meu amigo André Gorz fala de um comunismo do saber, de uma dissidência numérica. Eu também, mas é uma perspectiva de libertação, de êxodo, de dissidência no seio deste capitalismo cognitivo. É a contradição entre uma sociedade do conhecimento (ele diz “do saber”) e um capitalismo cognitivo.

IHU On-Line – O senhor sustenta que o aumento da importância que o conhecimento vem tendo hoje não é simplesmente um estágio a mais do capitalismo industrial, mas implica uma “grande transformação”, uma alusão a Polanyi. Quais são as características da economia do imaterial?   
Yann Moulier-Boutang –
Até o mês de junho, eu vou publicar nas edições Amsterdã um pequeno livro (Le capitalisme cognitif. La nouvelle grande transformation. Editions Amsterdam, 2007) sobre o capitalismo cognitivo que fará a ponte nesta questão. Há 13 características, a meu ver, desta nova modalidade da acumulação capitalista:

a) A virtualização da economia, ou seja, o papel do imaterial e dos serviços ligados à produção deste imaterial é certamente uma das características mais evidentes. O volume do investimento referente ao imaterial ultrapassou, desde 1985, o dos equipamentos materiais.

O peso do imaterial se apóia nas NTIC (Novas tecnologias da informação e da comunicação), portanto, na numerização dos dados. Ele exige a captação da informação, seu tratamento, sua estocagem sob forma numerizada na produção de conhecimento e na produção como tal.

Entre estes imateriais, um é promovido a um papel decisivo no crescimento econômico. Trata-se do processo de captação da inovação presente nos processos cognitivos interativos de cooperação social, dos saberes tácitos, tanto para a empresa como para o mercado e o poder público. O conhecimento e a ciência, que tinham sido incorporados na valorização do capital industrial, porém permanecendo distintos (E. Rullani), tornam-se um lugar estratégico, eles assumem a liderança do processo do sistema. São duplamente hegemônicos: a) ciência e conhecimento condicionam as possibilidades de inovação; eles são a condição necessária (do lado do valor de uso); b) ambos cristalizam nos produtos e serviços a parte essencial do valor de troca. Eles comandam o elo decisivo da valorização capitalista. O trabalho material não desaparece, mas ele perde seu papel central de ativo estratégico.

Disso decorre que o progresso técnico não é mais uma fonte exógena que a empresa pode procurar num mercado spot (instantâneo) dos produtos ou dos serviços, como o supunham apressadamente os economistas do desenvolvimento. Ele toma a forma de um sistema sociotécnico caracterizado pelas NTIC. A apropriação dos conhecimentos (um fenômeno infinitamente mais complexo do que a aquisição de informação) e o uso das técnicas são variáveis determinantes do progresso técnico e da inovação. É a contribuição da teoria evolucionista.

O modelo da divisão do trabalho que servira de base à economia política na célebre descrição feita por Adam Smith da manufatura de alfinetes e que fora aperfeiçoado pelo taylorismo foi novamente posto em questão, em três pontos maiores: a) a redução do trabalho complexo ao trabalho simples; b) a separação da execução manual junto com a concepção intelectual concebida para diminuir o tempo de aprendizagem; c) a especialização em função da dimensão do mercado perde sua pertinência num universo de produção de pequena série, de uma “economia de variedade”. 

A crescente complexidade dos mercados não é mais controlável somente com a utilização das economias de escala, que continuam sendo procuradas por razões ligadas à busca de produção de valor econômico pelo e para o mercado. Ela exige um crescente recurso às economias de aprendizagem que permitem fazer a diferença nos mercados e numa concorrência intercapitalista agudizada pela abertura neoliberal de todos os mercados (com exceção do mercado de trabalhão muito mais fortemente segmentado).

Assiste-se a uma subversão das seqüências produtivas, ou seja, da divisão do trabalho e de seus componentes. A seqüência clássica concepção / produção / comercialização é invertida. É a inovação profunda que comporta a “produção flexível” e o just in time. Observa-se esta transformação nas indústrias que pertencem ao coração do fordismo , como a indústria automobilística com os princípios de organização do toyotismo desenvolvidos a partir das concepções do engenheiro japonês Ohno . Mas, a produção flexível, tal como pode ser descrita a partir do “ciclo curto” da confecção e do prêt à porter ou das indústrias culturais fazem aparecer ainda mais claramente o caráter produtivo do consumo como produzindo informação e regulação em tempos reais de produção. Enfim, os dispositivos do numérico permitem que o usuário de dispositivos técnicos numéricos se torne co-produtor da inovação.

Quando a mercantilização parece ser a regra universal, sua escala de medida a partir do capital ou do trabalho perde a escala e é posta em questão em vista da pluralidade irredutível dos inputs (recursos que contribuem para a produção). Assiste-se a uma dissolução das linhas de partilha tradicionais entre capital e trabalho e entre trabalho qualificado e trabalho não-qualificado. O fato de que as expressões de capital humano ou capital intelectual se tenham tornado de uso corrente é disso um sintoma. A inscrição da utilização técnica do numérico está no ponto forte em que a corrente evolucionista em economia chega a propor uma nova distinção, para todo bem ou serviço, de três tipos de inputs: o hardware (a camada material), o software (a camada lógica ou logística) e o wetware (a camada cerebral ou do vivente).

Mas, a esta característica se deve acrescentar igualmente o irresistível aumento dos modelos de cooperação social e produtiva de um quarto componente, o netware ou rede. A sociedade de redes é possibilitada pela informática, isto é, a combinação num conjunto coerente da numerização, da programação informatizada, da eletrônica pela difusão do computador pessoal a partir de 1986 e, enfim, pela constituição da Internet, que se torna o novo bem comum planetário da inteligência coletiva. Voltaremos a este papel da rede numérica que representa uma novidade radical.

Este aumento da “cooperação entre os cérebros” comporta um declínio do paradigma energético e entrópico da força de trabalho, bem como da transformação das mercadorias materiais na produção de riquezas. Ela se produz em ponto fixo, isto é, no momento em que o dispêndio energético por dissipação de energia consubstancial no modelo mecânico do capitalismo industrial chega aos limites da biosfera terrestre e do ecossistema planetário.

Mas, o capitalismo cognitivo não se contenta em fazer mais apelo ao trabalho vivo do que ao trabalho morto (cristalizado nas máquinas, para retomar a terminologia de Marx). O reino da ciência tinha sido amplamente antecipado por Marx nos Grundrisse  (1857-1858). Segundo ele, viria o tempo em que o poder do capital acumulado e detido pelos capitalistas se apresentaria sob a forma do caráter necessário e indiscutível da ciência. No entanto, a novidade à qual nós assistimos, é o caráter central do trabalho vivo não-consumido e não-reduzido a trabalho morto no maquinismo. Esta importância da atividade viva que co-produz o trabalho como atividade viva vai a par com aquelas dos saberes implícitos irredutíveis a maquinismos, mas a capital humano padronizado e codificado. Nas sociedades cuja forma se aproxima do capitalismo cognitivo, o trabalho vivo e a consumação “viva” ocupam ambas um lugar central [21]. Este é o aspecto “bioprodutivo” da força inventiva [22] a sobrepor-se à força de trabalho e, portanto, à captação, e, como veremos, define a forma específica de exploração e de mais-valia extraída pelo capitalismo cognitivo.

Tal transformação vai ao ar com o declínio dos conceitos de performance individual no seio da empresa, que se baseava nas balizas da produtividade elaboradas durante o capitalismo industrial. Ela desclassifica igualmente a performance fatorial: os indicadores mais pertinentes se tornam os do excedente de uma produtividade global, o que corresponde, do lado contábil, à questão do valor que não aparece nos livros contáveis e que é, portanto, avaliado pelo fair value, isto é, a cotação em bolsa [23]. Enfim, a avaliação da performance global se estende aos territórios produtivos, diversamente nomeados de excelência territorial: é assim que toda a literatura sobre os clusters  ou sistemas de produção locais gira em torno do fora da empresa que gera a inovação produtiva. A inovação não está mais somente na empresa, ela está toda onde o território faz território ou rede produtiva [24].

O caráter imaterial dos bens produzidos no capitalismo cognitivo induz uma forte especificidade dos bens “informação” ou dos bens “conhecimento” quanto à sua aprendizagem, ao seu uso, à sua amortização, a seu enriquecimento e às condições de sua apropriação exclusiva. Estas características repercutem, por sua vez, sobre a maneira pela qual a informação e os conhecimentos circulam na empresa e na sociedade (prevalece uma horizontalização muito mais forte, que origina um requestionamento muito radical das formas hierárquicas aceitáveis), mas também em tensões crescentes sobre a questão dos direitos de propriedade intelectual. Essa característica, que faz emergir, no próprio seio das relações de mercado, o conhecimento como bem público ou bem “livre”, isto é, o livre acesso não é separável da revolução das NTIC.

No capitalismo cognitivo, o que nós definimos como as externalidades (ou efeitos externos) deixam de ser marginais e ligadas a simples fenômenos parciais de indivisibilidade de bens públicos. Se o coração do valor a extrair conduz ao trabalho inteligente, inventivo e inovador e que este último mobilize a cooperação em rede dos cérebros, a captação de externalidades positivas constitui o problema número um do valor. É o trabalho fora do tempo de trabalho, é o conhecimento implícito, a capacidade de contextualização que se trata de revelar e de tratar. Este deslocamento da economia política e da administração da cadeia do valor é tanto mais facilitado do que a dívida que dois séculos frenéticos de capitalismo industrial (incluindo a vertente do “socialismo realizado”) deixada na cesta de herança é constituída pelas externalidades negativas a controlar e a saldar. A economia política é condenada a regrar esta relação com seu lado externo. E tudo o que não serve para tal em sua caixa de ferramentas nos é mais ou menos tão útil como a escolástica pôde servir à Renascença.
Se o capitalismo industrial podia ser caracterizado pela produção de mercadorias, o capitalismo cognitivo produz conhecimentos por meio de conhecimento e vida por meio de vida. Há simultaneamente uma produção de vida e, portanto, uma bioprodução. A produção de novos conhecimentos só se pode obter na base de uma acumulação de conhecimentos que não se reduza aos meios técnicos materiais. Mas ela só pode, então, se operar com a atividade cerebral coletiva mobilizada em redes numéricas interconectadas. Tal tipo de capitalismo corresponde a um desenvolvimento da sociedade que se chamará de sociedade do conhecimento. Na medida em que é a força de invenção muito mais do que a força de trabalho que se encontra mobilizada especificamente pelo capitalismo cognitivo, ele é conduzido a produzir o conhecimento e a vida através da produção da população. Esta produção da vida pode ser chamada de bioprodução. E o poder que tem por função o controle desta bioprodução será chamado de biopoder [26].

[20] Eu desenvolvi esta tese em 2001 no texto apresentado ao terceiro Colóquio Marx Internacional “Marx em Californie: le troisieme catialisme et la vieille économie politique”, publicado em alemão “Marx in Kalifornien: Der dritte Kapitalismus und die alte politiseche Ökonomie”, in Aus Politik und Zeitgeschichte, B, 52-53, 29-37.
[21] Nenhum problema se Y. Benker cita em destaque de seu livro fundamental, The Wealth of Networks (2006) , Yale, University Press, @ http://en.wikpedia.org/wiki/The _Wealth_of_Networks esta passagem de J. S. Mill: “Human nature is not a machine to be built after a model, and set to do exactly the work prescribed for it, but a tree, which requires to grow and develop itself on all sides, according to the tendency of the inward forces which make it a living thing [ A natureza humana não é uma máquina a ser construída segundo um modelo, e destinada a realizar exatamente o trabalho para ela descrito, mas uma árvore que requer poder crescer e desenvolver-se sob todos os aspectos, de acordo com a tendência das forças intrínsecas que a tornam uma coisa viva](sublinhado por nós)”. (Em Liberty, 1859).
[22] Lazzarato, M., (1997), Lavoro Immateriale, Forme di vita e produzione di suggetività, Ombre Corte edizionim, Verona. Em português confira a versão Trabalho Imaterial – formas de vida e produção de subjetividade. Rio de Janeiro: UFRJ, 1998.
[23] Rébiscoul, Antoine (2005), Le problème du goodwill, “La firme fluide: Montée de l’immatériel, délocalisation et nouvelle territorialisation des savioirs », Séminaire international Inter-semestriel, Université de Technologie de Compiègne, 27-28, janvier 2005.
[24] P. Vetz (1994), Des territoires pour apprendre et innover, Editions de l’Aube, Paris. Ibid., (1996), Mondialisation, Villes et Territoires – L’économie de l’Archipel, PUF, Paris.
[25] J. Boyle (2002) op.cit. ; Y. Moulier-Boutang (2005) “Les nouvelles clôtures, technologies de l’information et de la communication ou la révolution rampante des droits de propriété », Cahiers marxistes, Université Libre de Bruxelles, avril-mai, 230, pp. 21-50.
[26] Além das referências a M.Foucault já indicas, M. Lazzarato (2000), “Du biopouvoir à la biopolitique”, in: Multitudes, Editions Exils, nº 1, Paris, pp. 45-57, On line no site da revista.
 
IHU On-Line - Quais são os grandes limites da economia política que nasce com Smith?
Yann Moulier-Boutang -
A economia política de Adam Smith e de todos os clássicos (igualmente Marx) e neoclássicos subseqüentes se situam num mundo em que é o capital que é raro, como o trabalho. Ela só chega a raciocinar com rendimentos decrescentes. No mundo da sociedade do conhecimento, a raridade está no tempo, na atenção e no capital intelectual. A economia política clássica não chega a pensar as interações múltiplas e, portanto, as externalidades só ocupam um lugar marginal. Ela não compreende a rede que ela restringe ao mercado ou à hierarquia (a empresa e o Estado). Ela se obstina em raciocinar nos termos da permuta do equivalente. Ela só compreende muito mal a questão crucial da formação dos públicos e de sua captação. Finalmente, ela de uma grosseria vulgar por trás do refinamento de seus modelos matemáticos e sua escolástica em face dos fenômenos complexos, em face da atividade cerebral, da vida e da cooperação dos cérebros em rede. O mais grave é que ela propõe, além disso, soluções essencialmente retrógradas e reacionárias de eficácia. A grave crise de proposições que enfrenta a esquerda contemporânea em suas proposições, é que ela não chega a sair do horizonte da economia de mercado, porque ela situa um programa político repleto de boas intenções sobre a velha economia política.

IHU On-Line - O capitalismo cognitivo impacta também a natureza do território produtivo. Quais são as principais alterações?
Yann Moulier-Boutang -
Dois impactos:

O papel fundamental da questão das externalidades negativas e positivas (estas últimas são em geral esquecidas) é o primeiro ponto.

O papel crucial da ordem espontânea produzido pela cooperação das multidões em rede faz atualmente a inovação estar ela própria no coração da riqueza e, por conseguinte, de sua captação em valor pelos dispositivos do capitalismo cognitivo. O consumidor é produtor de informação, mas também de contextualização, de usos inovadores e, da mesma forma, os atores produtivos são diretamente os territórios. É uma chance incrível para reabilitar políticas públicas e empregos públicos sobre uma base totalmente diferente daquela pela qual existiram e foram devastadas pela contra-revolução neoliberal.

IHU On-Line - Que impactos essas mudanças todas têm sobre o trabalhador, sua maneira de organizar a vida e sua subjetividade?
Yann Moulier-Boutang -
O trabalhador como instituição e convenção de emprego (o produto de difíceis compromissos que fizeram os Trinta Anos Gloriosos) sofre uma verdadeira desconstrução. Ele é demolido, decomposto. Mas no coração desta desconstrução aparecem múltiplas novas formas de atividade e de trabalho produtivo que ainda não encontrou meios de expressão política. A classe operária perdeu seu papel hegemônico e o cognitivismo se defronta com uma incrível desenvoltura da esquerda institucional. Diversos exemplos o mostram: 1) a questão do tempo de trabalho contínuo (as 35 horas) como se a duração do trabalho cognitivo fosse mensurável por outro critério além daquele da vida – ora, a vida não é um relógio; 2) a competência, a qualificação, o emprego contínuo sendo mensurado segundo critérios hierárquicos de outra época; 3) a precariedade e a atividade do trabalho cognitivo sendo tratados como seres inferiores; a metade de empregos que se trataria de transformar em bons empregos; portanto, retornar ao emprego assalariado sob a autoridade do contra-mestre ou de seu equivalente. Convém reverter a ótica: partir da realidade atual da cooperação produtiva, das necessidades dos intermitentes, dos intermediários, dos precários e reconstruir a convenção ou o pacto de emprego sobre a base de um direito à vida e à remuneração como pedestal de proteção ao mesmo tempo eficaz, decisivo, igualitário e democrático.

IHU On-Line - O capitalismo cognitivo erosiona o estatuto do assalariamento canônico que definia os empregos. Tornou-se impossível remunerar hoje a produtividade individual do trabalho. Ao mesmo tempo, o sistema de proteção social vigente foi concebido com base numa sociedade do pleno emprego. De que maneira uma sociedade pode produzir a riqueza socialmente produzida com cada vez menos trabalho, ao menos assalariado? 
Yann Moulier-Boutang -
Respondi na questão precedente à primeira parte da questão. Para a segunda parte, eis a resposta: O problema que você propõe é tipicamente a ilustração da maneira de raciocinar da velha economia política. Não há senão as pessoas empregadas na produção nas empresas que produzem riqueza. Eu diria mesmo, que um ponto de vista ecológico radical poderia fazer-nos considerar que uma boa parte da produção industrial é radicalmente nociva e que, conseqüentemente, em vez de produzir riqueza, ela a destrói e distribui renda. Em troca, uma parte crescente da atividade que ainda não tem o estatuto de emprego é a fonte de uma grande parte da riqueza: ela fornece externalidades positivas sem as quais a biosfera, como a noosfera, nem sequer poderiam ser reproduzidas. Se a produtividade é global e coletiva, que ela realce cada vez mais o que Pierre Lévy chama de inteligência coletiva, devendo esta ser retribuída e não redistribuída, sob a forma de uma remuneração universal ou social garantida, que também se pode chamar de “bio-renda” ou “bio-remuneração”. Os Pobres o chamaram de “direito à vida”, a legislação de Speenhamland , a última lei sobre os Pobres criada na Inglaterra em 1795 (o governo inglês tinha muito medo da contaminação pela Revolução Francesa).  Isso correspondeu (veja meu livro De l’esclavage au salariat  (tradução espanhola Akales Ediciones 2006 Madri) a 3% do PIB britânico e permitiu à Inglaterra vencer Napoleão.

IHU On-Line – O senhor afirma que as transformações simultâneas na natureza do trabalho, da substância e da forma do valor levam a uma instabilidade de proporções tais que fazem o capitalismo voltar em seu conjunto a uma situação pré-keynesiana. Qual é a contradição fundamental posta pela emergência do regime de capitalismo cognitivo?
Yann Moulier-Boutang -
A instabilidade intrínseca do capitalismo cognitivo faz este último ainda não ter encontrado um “regime” regular. Por enquanto se “regula” através de minicrises financeiras e de exigências vertiginosas de taxas de lucro. A que se deve sua instabilidade?

1º) Em primeiro lugar, ao fato de que o coração da exploração do capitalismo cognitivo repousa sobre a exploração do 2º degrau da força de invenção do trabalho vivo cooperando em rede e que ela só pode se desenvolver pela produção de bens de conhecimento; ora, esses bens são bens quase públicos. Eles são indivisíveis, não rivais nem excluíveis. Da mesma forma, sua mercantilização levanta bem mais problemas do que a dos bens de mercado materiais.

2º) A segunda contradição, que vem exasperar a primeira, é que a apropriação das NTIC pelo maior número, que é uma condição sine qua non da produção de bens cognitivos, em vez de reforçar a mercantilização, torna cada vez mais difícil e ilegítima a execução dos direitos de propriedade privativos. Processos para telecarregamentos, na gigantesca batalha dos medicamentos genéricos no quadro de um ciclo de Doha , passando pela batalha dos DRM (Digital Rights Mangement ), o mundo global está de cheio na batalha das “new enclosures” 

3º) A terceira contradição é uma crise de medida: do tempo, da atenção, da hierarquia, do que se chamava de valor no sentido dos marginalistas . O tempo de produção de um produto não se mensura mais pelo tempo de trabalho consagrado à sua produção industrial. A reprodução de um bem cognitivo e de um bem informacional não é seu valor, que ele deriva do incremento de inovação e de conhecimento em direção e no aval do estreito feixe da produção de produto. Ela se situa no processo e no halo de intangíveis, que não é sequer o conhecimento codificado.

4º) O preço de uma informação ou de um bem cognitivo oscila, então, do incomensurável, do infinito, ao nada, ao gratuito. As empresas confrontadas com este problema só podem reagir procurando, ainda mais do que no capitalismo industrial, adquirir uma posição monopolista que permita praticar preços astronômicos.

Imediatamente, o setor da distribuição de bens materiais, da circulação financeira, da circulação de informação (a mídia) são igualmente levados a praticar preços muito elevados e estabelecer taxas de lucro que a economia material é incapaz de produzir, salvo explorando ferozmente, segundo os esquemas mais badalados do capitalismo industrial que reinava em Manchester, a força de trabalho do Terceiro Mundo e dos países gigantescos como o Brasil, a China, a Índia, a Nigéria.
Após vinte anos, com a queda do segundo mundo socialista, a rentabilidade financeira exigida das empresas se regula pela rentabilidade do setor de ponta do capitalismo cognitivo. O rendimento sobre o investimento de 14 a 15% produz uma incoerência muito forte entre o capitalismo industrial submetido sem cessar a novas reestruturações, ao desemprego crescente dos assalariados da velha economia e o capitalismo cognitivo que nem sempre produz um modelo de recomposição.

IHU On-Line - Que perspectivas se abrem para o movimento dos trabalhadores no contexto de relações de trabalho cada vez mais fluidas, flexíveis e descentralizadas?
Yann Moulier-Boutang -
Este desequilíbrio está a ponto de provocar uma reação de retorno nacionalista, “industrial” e corporativista. Ele só poderá ser superado por aquilo que eu chamo de um New Deal que consistirá em reconstruir um compromisso, e este compromisso consistirá em enfraquecer o assalariado pela construção de um novo Estado-providência que assegurará uma renda incondicional e a proteção do novo trabalho produtivo precário.

Toda a estratégia de recomposição do assalariado sobre a base do emprego fixo (de matriz industrial), do tempo de trabalho regulamentado sobre a base de 40 ou 35 horas, é votada ao fracasso. Somente impondo a garantia de uma bio-renda de mobilidade que o “cognitariado” (F. Bérardi), o Pronetariado  (Joël de Rasnay) ou o “Netariado” poderão encontrar os instrumentos de agrupamento dos assalariados. Não é sobre a empresa, mas sobre a rede e o território que esta recomposição poderá produzir-se.

 

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