Edição 214 | 02 Abril 2007

A Teologia da Libertação e a história do pensamento socialista cristão

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IHU Online

Crítico, o teólogo anglicano e teórico inglês John Milbank contribui na edição desta semana sobre o lugar da Teologia da Libertação na contemporaneidade. Nascido ao norte de Londres, e conhecido como um dos teólogos cristãos mais proeminentes e controversos do mundo, John Milbank é professor no Departamento de Teologia e Estudos Religiosos da Universidade de Nottingham, no Reino Unido. É autor de, entre outros, Theology and social theory: Beyond Secular reason (Blackwells, 1993), um estudo influente da relação entre a teologia cristã e a história da teoria social e política ocidental. Este livro foi traduzido e publicado no Brasil sob o título Teologia e teoria social: Para além da razão secular (São Paulo: Loyola, 1995).

A IHU On-Line, nº 24, de 01/07/2002, reproduziu a resenha desse livro feita por Henrique C. de Lima Vaz.

Além desse livro, Milbank também é autor de The world made strange: Theology language and culture. Blackwell, 1997; co-editor de Radical orthodoxy: A new theology (Routledge, 1999); e co-autor de Truth in Aquinas (Routledge, 2001); Being reconciled: Ontology and pardon (Routledge, 2003); Theological perspectives on God and beauty (Trinity Press International, 2003), escrito com Edith Wyschogrod e Graham Ward e Le milieu suspendu. Henri de Lubac et le débat sur le surnaturel. Paris: Cerf, 2006.

Milbank é autor do artigo “O conflito das faculdades: a Teologia e a economia das ciências”, publicado no livro Inácio Neutzling (org.). A teologia na universidade contemporânea. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2005. A IHU On-Line publicou uma entrevista com ele sobre Karl Rahner, edição número 102, de 24/05/2004.

A entrevista que segue foi concedida por e-mail:

IHU On-Line - A recente notificação da congregação para a Doutrina da Fé sobre os dois livros de Jon Sobrino põe novamente em discussão a Teologia da Libertação. Por que esta teologia, que muitas pessoas consideram superada, ainda provoca tão grande inquietação?
John Milbank -
Em certo sentido eu considero surpreendente que ela seja tão controversa, porque penso que os contextos originais desta teologia – movimentos de libertação nacional e a influência do marxismo ortodoxo – já não existem. As atuais lutas radicais contra a globalização são um tanto diferentes em seu caráter e o novo radicalismo na América Latina é eclético – com freqüência baseados em tradições não estatistas de cooperativismo e distributivismo, bem como de marxismo. Mas eu penso que talvez haja certa irritação no Vaticano por a Teologia da Libertação ser um movimento intelectual que desencaminha o povo – por exemplo, que ele obscurece o potencial radical no próprio ensinamento social papal que, em certos aspectos, está muito mais em sintonia com as novas correntes radicais. Eu penso, portanto, que a questão é simplesmente teológica – a saber, que a Teologia da Libertação torna situações seculares e teorias seculares demasiado normativas para a teologia e, conseqüentemente, chega a conclusões que são pouco ortodoxas.

IHU On-Line - Uma das maiores dificuldades da ortodoxia católica sobre a Teologia da Libertação é a afirmação de que uma “nova hermenêutica” envolve a ortopráxis. Jon Sobrino fala sobre uma “práxis hermenêutica”. Para ele, não há maneira de entender Jesus sem praticar suas atitudes. Qual é o objetivo desta reflexão teológica e de que modo ela provoca uma mudança no corrente pensamento cristológico?
John Milbank -
Eu penso que há uma enorme confusão aqui. O Papa Bento XVI está certo ao dizer que a ‘ortodoxia’ sempre inclui tanto a prática correta, como a teoria correta. As duas são inseparáveis e nenhuma tem prioridade sobre a outra. A idéia de uma prioridade da prática sobre a teoria é incoerente, já que toda prática contém uma teoria implícita e a projeção de um horizonte teórico. Por exemplo, nós devemos seguir o exemplo de Jesus – porém este exemplo é complexo e a dimensão hermenêutica sugere que nós só podemos ‘repetir Jesus diversamente’, em novas situações históricas, se lhe formos fiéis.

IHU On-Line - Ainda quanto à notificação sobre o livro de Jon Sobrino: há uma inquietação sobre a ênfase no Jesus histórico, além de seu relacionamento. No ponto de vista de Sobrino, torna-se problemática a “total absolutização de Cristo”, o que significa deixar de lado o duplo relacionamento de Jesus: “com o reino de Deus e o Deus do reino”. Há certo risco de um cristomonismo na corrente tendência da questão do “reinocentrismo” na Teologia da Libertação? E o que isto significa para a Igreja Latino-americana?
John Milbank -
Considerando a notificação, como anglicano eu me dou crescentemente conta de que as igrejas anglicana e ortodoxa sofrem porque carecem de um magistério. Eu penso que todos os cristãos precisam agora encontrar um caminho para reconhecer a liderança do papa, porque o Vaticano precisa ajudar a encontrar um caminho que possibilite isto. Nós necessitamos, talvez, de um novo balanceamento entre a autoridade do papa e do Concílio na conservação da melhor teologia antes de 1300. Às vezes, até essa época, o papado tem sido ‘demasiado moderno’ em agir como poder soberano. Mas eu suspeitaria que Bento XVI conhece e reconhece isto. Na instância presente, é claro que o laicato deve ser admoestado quando um docente católico trai a essência da mensagem cristã. Eu concordo com a notificação de que Sobrino está errado em ver a ‘igreja dos pobres’ como o primeiro contexto para a hermenêutica. Isso é limitar-se a um pseudo-radicalismo, que não permite o julgamento crítico que extrai sua plena força da tradição cristã. Enxergar o primeiro contexto como o desenvolvimento da tradição vai de fato permitir-nos mais, e não menos críticas drásticas da realidade corrente. Eu também concordo que Sobrino parece advogar por uma cristologia de ‘duas pessoas’ e rebaixa integralmente a divindade de Cristo. Não ver o sentido de que a pessoa divina é o único sujeito de uma vida completamente humana é atualmente não perceber a verdadeira dimensão revolucionária da cristologia! Aqui, como tantas outras vezes, os libertacionistas sucumbem com demasiada facilidade ao liberalismo europeu e acabam não vendo que isso absolutamente não se encontra na real tradição socialista cristã, que sempre foi inteiramente calcedoniana . Eu concordo, também, com o julgamento oficial de que Sobrino está errado ao rebaixar a autoridade dos concílios e o caráter salvífico da morte de Cristo. De outro lado, as observações oficiais sobre a identidade entre as determinações conciliares sobre a natureza de Cristo e passagens na Bíblia permitam talvez demasiado pouca visão sobre a importância da interpretação na igreja guiada pelo Espírito Santo. Em todo o caso, eu concordo com a notificação de que há passagens no Novo Testamento que afirmam com toda clareza a divindade de Cristo.

O problema do cristomonismo
Eu concordo de que há um problema com o cristomonismo. Cristo, tendo uma natureza humana, teve-a como histórica e socialmente relacionada. Penso, no entanto, que se pode lidar com isto em termos ortodoxos, ou construindo sobre a ortodoxia, antes do que retrocedendo em face disso. Pois Cristo tem origem no consentimento de Maria, que é o ápice da receptividade de Israel para com Deus. Este consentimento foi também obra do Espírito que procede intrinsecamente do Cristo, também no útero. Por exemplo, Jesus existe em parte em sua posterior recepção cultural – ele não está encerrado num presente fechado, como o próprio papa Bento acentuou contra certas críticas bíblicas. Mas a recepção é ela própria a descida do Espírito Santo sobre a Igreja. Finalmente, pois, se a pessoa do Filho é inteiramente sua relação ao Pai e ao Espírito, então este relacionamento também deve tornar-se presente no tempo. Em certo sentido, a origem de Jesus de Israel reflete retrospectivamente sua eterna e perfeita origem do Pai, enquanto sua relação com a Igreja reflete a processão, através dele, do Espírito, implicando, possivelmente, que a toda a Igreja seja escatologicamente personificada pelo Espírito.

IHU On-Line - Como podemos descrever a Teologia da Libertação em sua relação com a era da modernidade?
John Milbank -
Eu penso que a Teologia da Libertação é boa enquanto ela resiste à idéia de que a teologia não tem nada a dizer à esfera laica, mas se aplica ao todo da vida. Neste aspecto, ela é antimoderna. De fato, eu penso que foi infeliz ela ter aceito com demasiada facilidade a idéia de que a secularização, significando a autonomia sob a razão do mundo secular, é um desenvolvimento essencialmente cristão. Sob certos aspectos, ela deu uma versão esquerdista de um programa destinado a modernizar a América Latina. Hoje, no entanto, nós vemos muito mais interessantes resistências a uma ulterior ‘acumulação primária’ na América Latina, com um questionamento muito mais radical e pertinente de toda a economia liberal direcionada para as luzes do esclarecimento. Mas eu imagino que há muitas respostas teológicas a isso na América do Sul, que eu, para meu pesar, ignoro.

IHU On-Line - Quais são os pontos principais de sua crítica à Teologia da Libertação?
John Milbank -
1. Eu penso que a Teologia da Libertação ignora estranhamente toda a história anterior do pensamento socialista cristão, especialmente na França e Grã-Bretanha. Toda a tradição anterior foi muito mais antiesclarecimento, antiestatismo e de caráter não-violento. Ela destilou bem mais a sua crítica da sociedade diretamente da teologia e viu a própria Igreja como o projeto de uma sociedade perfeita. Isso me parece ser verdade, apesar do fato de que muitos teólogos seus tenham vivido uma vida heróica e se engajaram em lutas que eu aplaudo. Talvez esta circunstância se deva ao fato de que a cultura ibérica é curiosamente de orientação moderna no período barroco, mais do que numa memória mais longa, que recua até a alta Idade Média, como é mais o caso da França e da Grã-Bretanha.

2. Eu penso que ela tende a ter uma teologia da secularização e uma teologia da ação moral individual, porém, curiosamente, não muita eclesiologia e uma teologia real do político e do social! Isso é porque ela deriva sua análise e crítica da sociedade de fontes seculares, e não da teologia. Por isso, ela simplesmente tende a ‘batizar’ certos estilos seculares e não pergunta suficientemente que diferença o cristianismo faz em relação à crítica secular da esquerda ao capitalismo e outros fenômenos.

3. Ela dispensa com demasiada facilidade a doutrina social católica e, conseqüentemente, falha ao não absorver suas mensagens sobre associações intermediárias, sobre os princípios de subsidiariedade e setorização, a importância de corporações fora do Estado e a necessidade de suplementar a democracia a partir da doutrina e orientação da verdadeira sabedoria. No entanto, eu igualmente acredito que a divisão entre a doutrina e o socialismo cristão é artificial e se originou por causa do ateísmo do socialismo na Alemanha, após 1848. Eu sou a favor de uma tendência relativamente de ‘esquerda’ da doutrina social católica que poderia purgá-la de certos elementos por vezes excessivamente liberais lockeanos ou smithianos . Eu concordo que a cristandade deve rejeitar o capitalismo. No entanto, o socialismo estatal é igualmente inaceitável. Nós necessitamos de um pensamento mais positivo sobre uma nova ordem social compatível com o projeto de ‘Igreja’.

4. Ela tende a seguir Rahner mais do que Lubac e von Balthasar no referente ao natural desejo do sobrenatural. Por isso, ela segue uma linha menos radical que vê a natureza em demasia como formalmente complementável sem a graça – uma linha que em sua origem já é demasiado kantiana e da contra-reforma. Isso ocorre em parte porque ela tende a conceder demasiada autonomia à esfera secular.

IHU On-Line - Quais são as grandes discussões que a era contemporânea oferece hoje ao debate teológico?
John Milbank -
As grandes questões teológicas são em parte o que elas sempre foram: o mistério do cosmo e da humanidade e sua relação com a transcendência. Mas também hoje se levanta a questão de por que há uma nova prevalência do ateísmo. Os teólogos devem destacar que um humanismo meramente secular levará sempre ao niilismo. Acima de tudo, os teólogos devem mostrar que o abandono da idéia de participação da criação em Deus, inicialmente encorajada por uma teologia ruim, conduz à exaltação do poder e da vontade. Em conseqüência, temos hoje a falsa idéia da vontade livre como não ordenada teologicamente para Deus. Somente as igrejas cristãs estão denunciando toda a cadeia de conseqüências decorrente disso: destruição ecológica, economia egotista, o empobrecimento de um imenso número de pessoas através do globo, a banalização do amor humano, a remoção da criatividade humana do trabalho, o aborto e experimentação em embriões, a manipulação de genes humanos para produzir uma impossível nova humanidade e a legitimação da eutanásia. De outro lado, nós também precisamos ver que o triunfo da vontade vazia e indeterminada foi, em primeiro lugar, resultado de uma teologia perversa - escotista e ockhamista – do voluntarismo e nominalismo . Estes também têm seus defensores que precisam ser combatidos. De diversas formas, o deus recusado por Voltaire e por outros foi esse deus tirânico voluntarista – mas eles o substituíram pelo homem tirânico e voluntarista.

IHU On-Line - A cristandade ainda tem algo a dizer à era contemporânea, cada vez mais “pós-cristã”?
John Milbank -
Sim. Principalmente porque a pós-cristandade é um desastre, gerado pela rejeição de uma versão empobrecida da cristandade, como foi descrito acima. Devemos hoje realmente voltar a acreditar que a emergência de um cristianismo global não é impossível. Isso porque todas as ideologias seculares, incluindo o neoliberalismo, estão agora na bancarrota, e nenhuma das outras religiões tem uma fé tão verdadeiramente universalizante – somente a religião que declara que Deus apareceu em verdadeira humanidade, não num ritual local arcano, nem em princípios abstratos, é realmente uma religião para todos. Pois bem, as únicas forças genuinamente globais são, hoje, o cristianismo e a razão tecnológica ocidental. Esta última é filha bastarda do anterior e deve ser refreada para libertar seus genuínos benefícios. Cristandade é uma palavra que significa a mesma coisa que cristianismo, precisamente porque, enquanto a Igreja ultrapassa o espaço e o tempo, ela é uma realidade no espaço e no tempo. Porque a Igreja é a comunidade da colaboração e reconciliação além da mera tolerância e da força da lei, incorporando um ideal social além do meramente político. Isso ocorre porque, para São Paulo, o universo inteiro está destinado a se tornar ecclesia. É, pois, a própria Igreja que deve procurar unir todos dentro de uma grande diversidade, mas inter-comunicando a cultura global que pretende realizar todos os desejos e o potencial criativo de cada pessoa humana em harmonia com todas as outras. Isso, penso eu, só é possível se tivermos a fé de que o mundo foi criado e remido e, assim, de que isso é algo em princípio possível. Acreditar no florescimento humano significa acreditar que se pode continuar a descobrir a verdadeira forma de ser humano como participação na vida do Deus Uno e Trino.

 

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