Edição 213 | 26 Março 2007

Memórias de uma aberração

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IHU Online

A professora da Unisinos Stela Meneghel, Profa. Dra. em Medicina, docente do PPG em Saúde Coletiva da Unisinos, assídua colaborada de Revista IHU On-Line vai debater no dia 27-03-2007 o filme O homem elefante, de David Lynch (1980).

A exibição do filmes faz parte do evento Cinema e Saúde Coletiva II - Cuidado e Cuidador: os vários sentidos dessa relação.
Entrevista com Stela Meneghel

IHU On-Line - De que maneira o cinema vem tratando o tema saúde? Especificamente, como o filme de David Lynch, O homem elefante, trata esta questão?
Stela Meneghel -
Existem vários recortes que podem ser feitos sobre a questão saúde no cinema. Por exemplo, no ano passado, quando propusemos a série Cinema e Saúde Coletiva I, optamos em compor uma linha de tempo e utilizar filmes que mostrassem diferentes olhares sobre a saúde/doença em vários momentos históricos. Os filmes selecionados buscavam estimular a reflexão acerca de aspectos polêmicos em saúde coletiva, como o fenômeno epidêmico, as diferentes concepções de saúde/doença, o movimento higienista, as políticas eugênicas, as práticas de monitoramento e controle das populações, os impasses éticos de experimentos com drogas que estão sendo executados atualmente em países subdesenvolvidos. Nesta linha, iniciamos com o filme O sétimo selo , e a idéia, ao escolher o filme, era discutir o processo epidêmico da peste na Europa medieval e relacioná-lo com as práticas sanitárias estruturadas em função da peste, quando já não se excluía o doente do âmbito comunitário, mas mantinham-se os doentes em suas casas rigidamente escrutinados pelos sistemas de polícia médica.

Ciclo 2007

No ciclo que estamos propondo para 2007, o fio condutor é o cuidado, quer seja individual, quer seja em relação a grupos, quer seja em relação ao ambiente.  Cuidado entendido não apenas como um procedimento técnico, mas como uma ação integral, que compreende a saúde como direito pleno. Neste sentido, inclui o tratar, o respeitar, o acolher, o atender às pessoas em sofrimento, que não resulta só do adoecimento, mas da vulnerabilidade social.

David Lynch
O filme de David Lynch conta a história de John Merrick, um inglês que viveu na Inglaterra vitoriana, portador de uma doença rara, que produzia uma série de alterações corporais, ocasionando o aspecto bizarro que gerou a denominação de “homem elefante”. Esta doença foi considerada por muito tempo uma neurofibromatose múltipla e só recentemente descobriu-se que se trata de uma doença genética. Esse paciente vivia em condições precárias sob os maus tratos de um agenciador que o exibia em uma espécie de freak how circense. O filme foi baseado nas memórias de um médico londrino que atendeu e cuidou do paciente no Royal London Hospital.

David Lynch fez uma parábola sobre o preconceito social diante do estranho, da doença vista como uma anomalia. Além disso, questionou o voyeurismo tanto das camadas populares quanto da aristocracia londrina em relação ao “aberrante”, voyeurismo que se mantêm nos dias atuais, exposto nos freak shows modernos, abastecidos pelas fragilidades humanas.

IHU On-Line - Como o cinema pode ajudar nesta questão?
Stela Meneghel -
A linguagem cinematográfica agrega uma outra perspectiva aos temas da saúde individual e coletiva, ajudando a ampliar o enfoque, a mostrar outros cenários e a usar outras lentes, de uma forma dinâmica, atual e interdisciplinar. Sociólogos como Daniel Berteaux perguntam, ironicamente, se romances como os de Dashiell Hammett não estão mais próximos da realidade do que grande parte da literatura das ciências sociais, e se os cineastas não têm sido os que mais contribuíram para a compreensão da sociedade contemporânea. Estas considerações certamente se aplicam às ciências da saúde. 

Há o depoimento de um psiquiatra - James Hilmann  -, em um livro chamado Entre vistas: conversas com Laura Pozzo (Summus, 1989), sobre psicoterapia, biografia, amor, alma, sonhos, trabalho, imaginação e o estado da cultura, em que se afirma que “precisamos olhar nossos pacientes como Visconti ou Fellini  o fariam. Nossa linguagem é previsão estatística, não se encontra mais o olho descritivo individual, o olho clínico, o olho de Flaubert. Essa supressão de linguagem faz com que a maioria dos livros de psicologia pareça morta”.

Entendo que esta pode ser uma das grandes contribuições do cinema para as ciências da saúde, ou seja, agregar o olho imagético e a voz do contador de histórias que ajudam a pensar relações de cuidado, a aprimorar diagnósticos, a construir redes “entre-pessoas”, como diz Roseni Pinheiro, a nos tornarmos mais críticos e reflexivos.

IHU On-Line - Quais as principais obras cinematográficas que retrataram bem o tema
saúde? Que filmes você cita e por quê?
Stela Meneghel -
Dentre a ampla gama de filmes que tratam direta ou indiretamente temas pertinentes ao campo da saúde, destaco alguns filmes que focalizam a doença, e, principalmente, aqueles que tratam a doença como metáfora. Metáfora de uma condição humana de vulnerabilidade, de um sistema político ou de uma sociedade.

Alguns deste filmes fazem parte da nossa mostra Cinema e Saúde Coletiva II, como O rio , dirigido por Tsai Ming Liang  (1997), um drama que faz um paralelo entre a vida e as águas de um rio, no caso o Tamsui, em Taipei. "A vida é como um rio: sempre existe algum canto escuro, profundo e pantanoso", diz o diretor. Nesta história, a doença – nem se sabe ao certo que doença é; na realidade, não importa qual seja - irrompe após o protagonista cometer a infração de entrar nas águas pretas e poluídas do rio Tamsui.

Inúmeros outros poderiam ser citados, como, por exemplo, Morte em Veneza, um filme de Visconti baseado em um conto de Thomas Mann . Podemos lembrar, também, de A montanha mágica, de Mann, uma alegoria à sociedade atual, cuja metáfora é a tuberculose, da qual nenhum de nós está imune, bastando submeter-se ao exame para encontrar uma “mancha”.  Também A peste, baseado na obra de Camus , em que a “peste” representa um regime político ditatorial e as medidas sanitárias de isolamento e quarentena servem como dispositivos de controle políticos.

Essas narrativas literárias ou fílmicas, por meio da doença -  não importa se tuberculose, cólera, câncer ou aids -  apresentam esta dupla conotação:  por um lado, a enfermidade  é agente de dor, sofrimento e limitação, e, por outro, permite ao doente um maior entendimento do significado da própria vida.  Desse modo, a experiência da doença faz parte do processo de cada um tornar-se aquilo que realmente é.

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