Edição 213 | 26 Março 2007

Uma América Latina com quatro poderes

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

IHU Online

O sociólogo e professor da Universidade de Binghamton, em Nova Iorque, James Petras, conversou com a IHU On-Line por telefone sobre as configurações de uma atual América Latina. Falou em quatro poderes, de uma economia brasileira cada dia mais privatizadora, da integração energética e de um líder chamado Hugo Chávez.

Petras é autor de diversos livros como Brasil e Lula: Ano Zero. Blumenau: Edifurb: 2005. O professor já concedeu entrevista à IHU On-Line na edição número 180, de 15-05-2006. As Notícias Diárias do site do IHU também já publicaram diversas de suas contribuições, como o artigo As razões da luta dos imigrantes nos EUA, veiculado em 5-5-2006. Confira a íntegra da entrevista.

IHU On-Line – Hoje, qual seria uma perfeita radiografia da América Latina?
James Petras –
A radiografia da América Latina deve ser compreendida a partir de uma distinção entre quatro poderes. Primeiro, existe uma esquerda radical revolucionária que se encontra em diferentes movimentos sociais. Por exemplo, o grupo Farc  na Colômbia, os setores de movimentos indígenas e sindicais na Bolívia e Equador, os setores de esquerda radical no Brasil, como o PSTU  , e os setores extraparlamentares na Argentina e Uruguai, que são grupos pequenos. Além deles, podemos citar Oaxaca , no México. Este é um setor que tem um programa anticapitalista e uma perspectiva de luta que vai além de uma simples eleição.

Depois, temos uma esquerda pragmática que inclui, por exemplo, o governo de Hugo Chávez (Venezuela), Raúl Castro, em Cuba. Podemos considerar também o grupo de oposição de esquerda na Argentina, a esquerda sindical na Bolívia, os movimentos populares no Peru e o governo de Evo Morales na Bolívia. Este é questionável, na minha opinião, porque na prática política é um governo que chamo de pragmático neoliberal, que é o que domina a América Latina, os pragmáticos neoliberais, como Néstor Kirchner (Argentina), Tabaré Vázquez (Uruguai) e Lula.

O último grupo que temos são os neoliberais ortodoxos, como Michelle Bachelet, no Chile, Alan Garcia, no Peru, e Felipe Calderón, no México.

Essas são as quatro forças em jogo na América Latina atual. Os presidentes ortodoxos neoliberais da América Latina, que estão sendo muito questionados, são Alan Garcia e Felipe Calderón, por estarem em posição muito precária.

É uma situação que pode mudar porque há muito terreno para conflitos. Grupos como o MST, do Brasil, estão em grande crise, pois o apoio que prestaram a Lula, durante cinco anos, tem tido um efeito bumerangue: Lula como um grande amigo de Bush significa a integração do Brasil com a política norte-americana.

IHU On-Line – Como o senhor percebe a integração energética da América Latina?
James Petras –
A integração energética é um projeto do presidente Chávez. Chávez tem tomado todas as iniciativas e investido milhões de dólares neste projeto. Mas existem dois problemas: primeiro, a Petrobrás, que é formalmente estatal, mas suas ações na Bolsa de Nova Iorque estão em maioria nas mãos do capital estrangeiro. Então, a Petrobras está transformada em uma empresa privada, que tem aspirações imperialistas. Na Argentina, temos a Repsol, uma companhia espanhola, que domina o petróleo. Então, uma integração com capitais estrangeiros é uma contradição. Como se pode compatibilizar com as políticas de capitais estrangeiros em um projeto nacionalista como o de Chávez? A integração, como um fator de complementaridade, não está na agenda da América Latina. Mas podemos falar sobre um tipo de integração, que são os planos de Chávez, de supervisionar as construções de refinarias no Caribe, na América Central, dentro de um projeto de empresas e refinarias públicas. A América Latina e, particularmente, o Brasil, com a privatização de todos os setores energéticos, estão dentro da visão pró-imperialista de Lula, que não creio ter muita profundidade. Temos que esperar uma nova política no Brasil e na Argentina que tenha uma visão nacional e latino-americanista para realizar uma verdadeira integração energética. Chávez sozinho não pode fazê-la.

A economia brasileira
A economia brasileira está cada dia mais privatizadora. Os incentivos dados por Lula, que, agora, vão fortalecer a extensão da produção de etanol são um enorme estímulo a todas as grandes agromultinacionais e agrooligarquias. Isso me parece que vai afetar grande parte das terras indígenas e os pequenos produtores: fomentar a produção de etanol e baixar a produção de alimentos para o Brasil. Isso significa aumentar a desigualdade e fortalecer o País como um grande número de agroexportadores de etanol. Sempre lembrando que isso tudo é feito em associação com o país mais imperialista do mundo. Os norte-americanos não fazem nenhuma concessão ao Lula, apesar de este abraçar o Bush, um assassino condenado por todo mundo. Então, se o Brasil vai exportar em posição menos competitiva não vai beneficiar o povo em geral. Creio que a integração está voltada, sobretudo, aos mercados norte-americanos.

Mas qual é o Brasil?
Quando falamos de projetos de energia no Brasil, devemos identificar de qual Brasil estamos falando. Os grandes agroprodutores de etanol e os grandes acionistas da Petrobras estão orientados por uma política americana e não têm relação de associar-se com as empresas estatais da América Latina.
A economia brasileira está dominada pelo capital estrangeiro. Os grandes setores financeiros são os mais beneficiados. As privatizações ocorridas no Brasil caracterizam o país como profundamente neoliberal.  

IHU On-Line – Como o senhor percebe as grandes manifestações dos imigrantes nos Estados Unidos?
James Petras –
É uma grande força que segue ganhando mais força, inclusive com muitos apoiadores na Guatemala, México e América Central. Estas manifestações surgem porque, em primeira instância, os Estados Unidos queriam expulsar 11 milhões de imigrantes. Graças às grandes mobilizações, esta medida extremista agora foi reconsiderada, mas poderia voltar a surgir por causa desta política repressiva, quase fascista, de imigração dos Estados Unidos. A tendência dos democratas e republicanos é dividir os imigrantes entre os que estão no país há mais de cinco anos e os que estão há menos tempo. Esta divisão debilita o movimento. Os imigrantes são forçados a sair de seu país por causa da exploração dos países imperialistas pela mão-de-obra barata e agora são perseguidos pelos setores mais direitistas do império. Na há justiça para os imigrantes expulsos de sua casa!

Últimas edições

  • Edição 537

    A fagocitose do capital e as possibilidades de uma economia que faz viver e não mata

    Ver edição
  • Edição 536

    Juventudes. Protagonismos, transformações e futuro

    Ver edição
  • Edição 535

    No Brasil das reformas, retrocessos no mundo do trabalho

    Ver edição