Edição 212 | 19 Março 2007

Hans Staden: um tupinambá?

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IHU Online

A historiadora Eliane Cristina Deckmann Fleck, docente da Unisinos na Gradução e no PPG de História e autora de Intérpretes do Brasil: Cultura e Identidade , vai comentar e debater no dia 24-03-2007 o evento História do Brasil e Cinema II: Índios e Negros - Leitura e imagens no cinema brasileiro. O pano de fundo para a discussão será o filme Hans Staden (2000), de Luiz Alberto Pereira. O filme conta a história do soldado e marinheiro alemão Hans Staden, que, no início do século XVI, foi capturado por uma tribo indígena brasileira, inimiga dos colonizadores portugueses.

IHU On-Line - De que maneira o cinema brasileiro fala em índios? Como eles são representados?
Eliane Fleck
- Segundo Edgar Teodoro da Cunha , desde o começo do século XX, filmes sobre a temática indígena vêm sendo produzidos no Brasil e mesmo no exterior, o que se traduziu numa expressiva filmografia que focaliza o índio brasileiro de formas muito variadas, as quais reafirmam, sobretudo, um imaginário social já consagrado sobre ele. Nesta filmografia, encontramos tanto os grupos reais contatados por Rondon  na primeira década do século XX quanto os índios tomados de empréstimo da literatura romântica, que continuam alcançando mais facilmente o imaginário do espectador. A grande novidade neste processo, especialmente a partir da década de 1990, é a produção de documentários feitos pelos próprios indígenas – que recorrem à memória da comunidade para contar suas experiências –, o que tem permitido uma modificação considerável da visibilidade dos índios na sociedade nacional. Neste sentido, é interessante referir que o Brasil participou em dezembro de 2006 do Festival de Cinema Indígena em Nova Iorque, juntamente com representantes indígenas de países como Bolívia, Canadá, Chile, Colômbia, Equador, Estados Unidos, Guatemala, Havaí, México e Peru.

IHU On-Line - Tem algum filme específico que faça uma boa reflexão sobre índios no cinema?
Eliane Fleck
- Em princípio, todos os filmes de reconstituição histórica ou não que abordem direta ou indiretamente a temática indígena – desde que abordados a partir de uma proposta crítica de análise – podem contribuir para a reflexão sobre as visões e estereótipos consagrados e sobre a situação atual dos indígenas em nossa sociedade. Eu recomendaria – enfaticamente – que os interessados em discutir a imagem do índio no cinema brasileiro procurassem ler os artigos do Prof. Robert Stam , da Universidade de Nova Iorque, ou assistissem à vídeo-conferência que ele proferiu, em 2002, na Universidade Federal da Bahia, na qual ele reconstitui a trajetória do cinema brasileiro a partir das diferentes visões que o índio brasileiro recebeu ou vem recebendo.

IHU On-Line - Sobre o filme Hans Staden, quais suas observações?
Eliane Fleck
- O filme Hans Staden, de 2000, conta a história do aventureiro e artilheiro alemão de mesmo nome que naufragou no litoral de Santa Catarina em 1550 e que, feito prisioneiro por nove meses, quase foi devorado pelos índios tupinambás. O filme do cineasta paulista Luiz Alberto Pereira se inseriu no contexto de comemorações dos 500 Anos do Descobrimento do Brasil e contou com a assessoria de dois lingüistas ligados à USP – que se empenharam em resgatar a língua falada pelos tupinambás à época do Descobrimento –, mostrando uma impecável reconstituição histórica de uma vila e de uma aldeia indígena, bem como do figurino do século XVI. Ao contrário do filme Como era gostoso o meu francês (1971), de Nelson Pereira dos Santos, que se vale de informações de outro viajante da mesma época, o francês Jean de Léry, a produção de Luiz Alberto Pereira segue literalmente o diário do viajante alemão sobre sua estadia no Brasil e seu aprisionamento até a sua ardilosa fuga. O livro Duas viagens ao Brasil, de Hans Staden, foi publicado no século XVI, reeditado em fins do século XIX na Alemanha e traduzido no início do século XX no Brasil, e contribuiu significativamente para difundir a polêmica em torno do tema da antropofagia. A antropofagia no filme Hans Staden é vista de maneira semelhante à descrita pelo livro do viajante europeu e traz a imagem de terror e de medo que caracterizavam o imaginário do civilizado em relação ao nativo e que justificativa plenamente a conquista e a catequização. Na produção de Luís Alberto, o alemão exerce um poder tão grande sobre os índios que é capaz de garantir não só a sua fuga como a de outros prisioneiros, enquanto que na de Nelson Pereira dos Santos o prisioneiro será executado em um ritual de antropofagia. Uma análise comparativa entre as propostas dos dois autores, inseridos em contextos políticos tão distintos e influenciados por perspectivas historiográficas igualmente tão diversas, pode nos ajudar a desvendar quais as imagens de índios e de colonizadores que procuraram difundir.
 

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