Edição 211 | 12 Março 2007

Jean Baudrillard (1929-2007)

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Morre o crítico da sociedade de consumo

Morre um dos principais críticos da sociedade de consumo: Jean Baudrillard. O pensador nascido em Reims tinha 77 anos e vivia em Paris. A notícia foi destaque dos principais jornais do mundo. Aqui nos baseamos nas notícias do jornal Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo em 7-03-2007.

Autor de "A Sociedade de Consumo" e "O Sistema dos Objetos", acadêmico via Guerra do Iraque como um "não-acontecimento"

O sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard morreu, em sua casa, em Paris, aos 77 anos, depois de uma "longa doença" – essa expressão é comumente usada pela imprensa da França para se referir ao câncer.

Conhecido mundialmente por sua abordagem ácida da mídia e da sociedade de consumo -cuja insignificância ele denunciava, ao mesmo tempo em que profetizava seu declínio-, Baudrillard foi um intelectual intempestivo e autor de cerca de 50 livros, além de fotógrafo renomado. Ora tachado de reacionário moralista, ora de niilista, ele se considerava um resistente e criticava a suposta covardia intelectual de seus contemporâneos.

Nascido em Reims, em 20 de julho de 1929, numa família de origem camponesa, Baudrillard era germanista e tradutor de Marx e Brecht. Em 1968, lançou seu primeiro livro de sociologia, "O Sistema dos Objetos", sucedido por "A Sociedade de Consumo", em 1970. Três anos depois, ao assinar "O Espelho da Produção", rompeu com o marxismo.

A partir daí, tornou difícil o trabalho daqueles que buscavam associá-lo a quaisquer ideologias. Baudrillard se via como um franco-atirador, que desagrava a direita e a esquerda. Esta última, aliás, o encarava com ressalvas desde que revalorizara o pensamento do filósofo conservador Joseph de Maistre no livro "A Transparência do Mal", de 1990.

Em 1986, ao regressar dos Estados Unidos e escrever "América", já levantara "suspeitas" por trechos como: "Os Estados Unidos são a versão original da modernidade, nós somos a versão dublada e com legendas. Os Estados Unidos são a utopia realizada".

Tido como um dos principais teóricos do pós-modernismo, ele voltou seu alvo para a crítica do pensamento científico tradicional e desenvolveu seus estudos a partir do conceito de virtualidade do mundo aparente, lançando o termo "desaparecimento da realidade".

11 de Setembro

Quando os terroristas atacaram o World Trade Center, em 2001, Baudrillard fez conferências e escreveu artigos sobre o tema. Em 2003, durante uma de suas passagens pelo Brasil, disse à Folha que "a guerra [do Iraque] é o não-acontecimento, algo que foi feito para eliminar o primeiro [os atentados]". À época, descreveu o terrorismo como "agente e metáfora da desintegração interna de uma superpotência mundial sem inimigos visíveis no front de combate".

O filósofo que começou sua carreira como professor de sociologia da Universidade de Nanterre se anunciava provocador desde os primeiros ensaios: "O que escreverei terá cada vez menos chance de ser compreendido. Mas isso é meu problema. Estou numa lógica de desafio".

Segundo ele, o terrorismo também seguia a sua própria lógica. Em fevereiro de 2003, ao discutir a iminente "guerra ao terror" comandada pelos EUA, em um encontro com o também filósofo Jacques Derrida, em Paris, ele observou: "A guerra acontecer ou não é um detalhe, já que ela é um acontecimento fantoche que só existe como efeito de substituição. Os americanos substituíram Bin Laden por um objetivo fantoche. Bin Laden não morreu, desapareceu", afirmou.

"Ao contrário do 11 de Setembro, a guerra contra o Iraque foi de tal forma pensada e discutida que, quando ela acontecer, não haverá mais a necessidade de acontecer", concluiu.
A última obra publicada por Baudrillard foi "Cool Memories 5", quinto volume de suas memórias. O livro saiu em 2005, encerrando a série iniciada em 1987.

Repercussões

“Baudrillard foi um grande sociólogo, uma das pessoas que com mais argúcia analisou a sociedade capitalista contemporânea. Toda a sua análise dos simulacros, da sociedade do espetáculo é já um patrimônio da sociologia." Boaventura de Sousa Santos, sociólogo português. Folha de S. Paulo, 7-3-2007

“Baudrillard teve uma primeira fase perfeitamente acadêmica, para em seguida se tornar um provocador público. Ele se notabilizou por discutir as quentes questões de extrema atualidade, e tinha "insights" perfeitos-mesmo que depois tivesse dificuldade para desenvolvê-los e defendê-los. Acho importante esse papel corajoso de provocador. Algo bastante diferente do que se vê no cenário brasileiro, em que os intelectuais parecem só ter bons sentimentos e nunca se mostrarem dispostos a provocar." Teixeira Coelho, professor titular da Escola de Comunicações e Artes da USP.

“Baudrillard foi um dos grandes cronistas do século 20 -muito midiático, tinha essa qualidade como uma característica ao mesmo tempo boa e duvidosa de seu pensamento. Sempre escrevendo sobre o que tinha acabado de acontecer. Sempre conseguiu responder de forma muito rápida ao que acontecia, mas sempre também desde um ponto de vista catastrófico. É um pessimismo bastante sedutor, que ao mesmo tempo cria uma certa impotência. Esse fatalismo de uma sociedade das simulações, em que tudo é falso.” Ivana Bentes, professora da Escola de Comunicação da UFRJ.

“Era um dos últimos maîtres-à-penser ainda lúcidos e ativos da geração intelectual pós-sartreana, sempre pronto a intervir nas questões mais desafiadoras da atualidade. Na presença de um fenômeno novo a interpretar, quando estourava um caso, se acontecesse algo novo, extraordinário, um fato ou um evento que a inteligibilidade assegurada tinha dificuldade de interpretar, Baudrillard era entre os primeiros a tomar a palavra e a arriscar uma leitura, uma hipótese, uma interpretação”. Franco Volpi, intelectual italiano.  La Repubblica, 7-03-2007.

“Moralista ou niilista? “É preciso viver na inteligência com o sistema e em revolta contra as suas conseqüências. É preciso viver com a idéia de que temos sobrevivido a tudo”. Assim pensava Jean Baudrillard, o crítico por excelência da sociedade de consumo e de seus mecanismos, assim como dos meios de comunicação de massa”. J. M. Martí Font. El País, 7-03-2007.

“Foi dito que, no seu profundo niilismo e pessimismo, a filosofia de Baudrillard não pensa nenhum acontecimento. Somente banaliza, transformando-o num fato estético. Como torna tudo virtual, nada tem sentido e pensando assim nos libertamos do horror do mundo. “Livres de toda a culpa ou responsabilidade, já não sentimos necessidade de tomar partido”, afirmava um dos seus críticos, Enrique Lynch, em 2004, questionando Baudrillard desde a moral. Clarín, 7-03-2007.

“A concepção de Baudrillard está localizada completamente na corrente pós-moderna. De fato, ele elimina praticamente a realidade. Isto é, a realidade está sintetizada no simulacro. Nesse sentido, suas análises são profundas. São análises que captam tudo o que é o espaço virtual. Praticamente substitui a realidade e nos leva a um mundo que é completamente fictício. Então, pode ler-se toda a sua referência como uma reflexão crítica. Há diversas maneiras de lê-lo. Este pensamento francês tem uma análise muito profunda sobre quais são os becos sem saída a que nos levaram este fenômeno denominado, geralmente, como pós-modernidade”. Rubén Dri, sociólogo e teólogo argentino. Página/12, 7-03-2007.

“Jean Baudrillard foi o maior iconoclasta de nossa época, o supremo especialista em rasgar máscaras e desmascarar fetiches... Diferentemente de outros, ele se recusou a proclamar o "fim" de qualquer coisa (da ideologia, utopia, filosofia, história ou o que seja), tentando, em vez disso, demonstrar a impossibilidade de resolver as questões de sua validade”. Zygmunt Bauman, sociólogo. Folha de S. Paulo, 11-03-2007.

“Soube unir estilo e originalidade de idéias. Homens de fórmulas precisas e de frases perfeitas, investiu na forma como uma maneira de provocar choques na percepção dos leitores de maneira a romper o conformismo dos sentidos e a banalidade moralista da crítica política. Baudrillard sempre defendeu um pensamento radical e desmontou boa parte das ilusões de uma filosofia da verdade. Embora nunca tenha se reclamado da pós-modernidade, foi um feroz desconstrutor das mitologias modernas. Power Inferno ( Porto Alegre, Sulina, 2003) é o que de melhor se escreveu depois do 11 de setembro. Baudrillard escancarou as portas da hiper-realidade em que nos encontramos por obra dos simulacros e das simulações que proliferam como metástases matando o social por excesso, proliferação, disseminação”. Juremir Machado da Silva, coordenador do programa de pós-graduação em Comunicação da PUC (RS) . O Estado de S. Paulo, 11-03-2007.

“Uma grande parcela da intelligentsia considera que o que importa são apenas os eventos políticos, econômicos, culturais. Toda análise que não se enquadra neste pensamento é sempre alvo desses críticos. Cabe lembrar que Baudrillard não morreu como professor na universidade, mas apenas como “mestre de conferências”, algo de fato menos valorizado, para quem está em fim de carreira. Este é um dado importante de sua biografia e está relacionado à sua avaliação dos acontecimentos cotidianos, e não daquilo que seus críticos consideravam o mais relevante”. Michel Maffesoli, sociólogo. O Estado de S. Paulo, 11-03-2007.

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