Edição 498 | 28 Novembro 2016

"O brasileiro é cordial" compõe imaginário dentro e fora do Brasil

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João Vitor Santos | Edição: Vitor Necchi

Lucia Serrano Pereira e Robson de Freitas Pereira avaliam a importância de Raízes do Brasil para subsidiar a escuta psicanalítica

Raízes do Brasil é uma obra importante para a psicanálise por vários motivos, destacam os psicanalistas Lucia Serrano Pereira e Robson de Freitas Pereira em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Um deles é “porque se trata de um ensaio que busca analisar, compreender a formação da nossa condição (brasileiros), abrangendo aspectos históricos, sociológicos, literários, filosóficos e psicológicos”. O profissional que se “dispõe a escutar o sofrimento do outro tem que estar imerso em sua cultura, ou seja, estar familiarizado com as condições de produção da subjetividade de seu tempo”. Neste sentido, a obra de Sérgio Buarque de Holanda é estratégica para subsidiar a escuta. Ela “é vastíssima, e sua ambição intelectual e de análise não se resumiu a uma tentativa de construir uma identidade nacional; ele foi além disso”.

Lucia e Robson citam Antonio Candido que, no prefácio de Raízes do Brasil, “afirma que estudar o passado, longe de ser uma atitude nostálgica, é uma maneira de compreender o presente e olhar para o futuro”, pois “a investigação do passado e de seus determinantes inconscientes possibilita um reposicionamento do sujeito na vida”.

Os entrevistados afirmam que, para se ter um conceito de nação, é preciso “nos posicionarmos com relação às diversas narrativas que compõem a nossa formação”. Neste sentido, é importante compreender a afirmação “o brasileiro é cordial” que, conforme Lucia e Robson, “passou a compor o imaginário dentro e fora do Brasil”.

Lucia Serrano Pereira é psicanalista, bacharel em Psicologia e mestra e doutora em Letras - Literatura pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Membro da Association Lacanienne International. Robson de Freitas Pereira é psicanalista. Ambos são membros da Associação Psicanalítica de Porto Alegre - APPOA.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Por que Raízes do Brasil é importante para o campo da Psicologia, essencialmente para a psicanálise?

Lucia Serrano Pereira e Robson de Freitas Pereira - Raízes do Brasil é importante para a psicanálise por vários motivos, entre eles porque se trata de um ensaio que busca analisar, compreender a formação da nossa condição (brasileiros), abrangendo aspectos históricos, sociológicos, literários, filosóficos e psicológicos. Lembremo-nos de que o texto que deu origem ao livro tinha como subtítulo "ensaio de psicologia social". Isto aponta a importância do texto para a própria formação dos psicanalistas, uma vez que todo aquele que se dispõe a escutar o sofrimento do outro tem que estar imerso em sua cultura, ou seja, estar familiarizado com as condições de produção da subjetividade de seu tempo.

 

IHU On-Line - Como a obra de Sérgio Buarque de Holanda trabalha a ideia de identidade nacional? No que a sua obra se difere dos demais “Brasis” que vinham sendo construídos pela literatura até então?

Lucia Serrano Pereira e Robson de Freitas Pereira - A obra de Sérgio Buarque de Holanda é vastíssima, e sua ambição intelectual e de análise não se resumiu a uma tentativa de construir uma identidade nacional; ele foi além disso. No projeto de Raízes do Brasil, por exemplo, sua ideia inicial era escrever uma História da América, tamanha a diversidade e erudição de seu conhecimento. Do ponto de vista histórico-político, podemos considerar que junto com outros livros como, por exemplo, o Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre , Sérgio Buarque de Holanda faz um corte epistemológico com a produção nacional anterior. Utilizando-se das áreas de conhecimento citadas anteriormente, ele tem a preocupação de desvendar a nossa formação, mais do que constituir uma identidade. Tanto é assim que no próprio título Sérgio utiliza-se de uma metáfora — raízes. Até a década de 30 do século passado, a produção intelectual nacional ainda animava uma ideia de eugenia, ou seja, de que o brasileiro era fruto impuro de condição inferior aos seus colonizadores.

 

IHU On-Line - Antonio Candido , no prefácio que escreveu para Raízes do Brasil, destaca que Holanda fez movimentos que passam pela Psicologia e pela História Social para compreender a formação do Brasil. Como apreender esses movimentos na obra e qual a importância de trilhar esses caminhos para compreender a constituição de uma nação?

Lucia Serrano Pereira e Robson de Freitas Pereira - Neste famoso prefácio, Antonio Candido afirma que estudar o passado, longe de ser uma atitude nostálgica, é uma maneira de compreender o presente e olhar para o futuro. Além disso, mostra que o método utilizado em Raízes do Brasil, colocando pares antitéticos (o semeador e o ladrilhador, o aventureiro e o trabalhador, a cordialidade e a polidez...) para melhor analisar, possibilita uma dialética do esclarecimento. Ora, essas duas premissas são extremamente caras à própria psicanálise, pois desde Freud  sabemos que a investigação do passado e de seus determinantes inconscientes possibilita um reposicionamento do sujeito na vida. Desta maneira, para que possamos ter um conceito de nação, teremos que nos posicionar com relação às diversas narrativas que compõem a nossa formação, bem entendido que não se trata de propor uma unificação, mas que se trata de lidar com a própria fragmentação e suas diversas formas narrativas — forma oral, escrita, documental e outros restos.

 

IHU On-Line - Qual sua leitura sobre o conceito de homem cordial? E ele ainda vive?

Lucia Serrano Pereira e Robson de Freitas Pereira - O homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda assumiu um protagonismo surpreendente ao longo da trajetória do livro com seus leitores. Fantasma pairando sobre o brasileiro, como se constituísse seu retrato, uma marca ou um destino compartilhado. "O brasileiro é cordial" passou a compor o imaginário dentro e fora do Brasil. Ética de fundo emotivo, buscando sempre a intimidade, antes amigo do que no exercício de função no laço social, o que chama pelo primeiro nome, faz a intimidade até com os santos, se relaciona com o outro como se dentro da família. Temos traços apontados, estes entre outros, mas isso requer o contexto do debate, pois, do contrário, o homem cordial passa a ser empurrado a uma dimensão  essencialista, e não histórica — esta que é como o autor propõe. 

No texto, vemos a cordialidade com muitas nuances e complexidades. Como um conceito em construção e temporário. O homem cordial vem na herança do aventureiro (português, espanhol e inglês) em que vale mais "a eminência própria do que a herdada", diferente do "polido", do trabalhador estável predominante nos demais países da Europa, que privilegiaria "a dificuldade a vencer, e não o triunfo a alcançar". Cordialidade que, de outro lado, pode também funcionar maquiando as relações de domínio e submetimento históricas que compõem nosso tecido social, em que, por exemplo, o empregado pode funcionar quase como que em regime escravo, mas é tratado como "da família". O brasileiro, o autor aponta, e ele escreve isso na década de 1930, tenta carregar para a dimensão da estrutura e das funções públicas uma ética familiar, sem conseguir fazer o corte que permitiria exercícios efetivamente diferentes; pois o Estado não é uma continuidade da família. Assim a ética dos privilégios para os seus, os protecionismos, o espírito de corpo, a corrupção do público pelo privado, tudo isto navega na complexidade das relações que incluem os traços "cordiais". E claro, os ecos estão presentes, basta acompanharmos os desdobramentos nas relações da política em nosso país.

Neste sentido, a atualidade da obra pode ser atestada, por exemplo, nos recentes acontecimentos políticos da vida brasileira; vide a votação do impedimento da presidente Dilma Rousseff  na Câmara dos Deputados, onde os argumentos eram quase todos de ordem pessoal, familiar e religiosa. Os argumentos de estadistas, se houve, foram abafados pelo tratamento familiar da coisa pública. Da mesma forma, as  antecipações ficcionais e ensaísticas de um Machado de Assis  ou Nelson Rodrigues  tomam atualidade quando constatamos a persistência de uma corrupção enraizada na estrutura sociocultural, funcionando independentemente dos partidos ou das ideologias. Sem falar no retorno de um desencanto com o país que parece reeditar o "complexo de viralatas" de Nelson Rodrigues, agora voltado não somente para o indivíduo, mas englobando a própria nação com expressões do tipo "este país não tem jeito mesmo".

Enfim, retomar a leitura de um clássico pode nos ajudar a compreender os impasses históricos de nossa formação. Não para canonizar o livro, ou para essencializar seus conceitos, mas para nos fornecer condições de fazer uma leitura crítica e sustentar um desejo mesmo nas condições mais paradoxais e sombrias.

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