Edição 497 | 14 Novembro 2016

A emergência de uma nova “arte de morrer”

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João Vitor Santos | Tradução Walter O. Schlupp

Peter Phan reflete sobre a necessidade de construir formas de encarar o fim da vida com honestidade e sobriedade, sem exageros, mas também sem banalizações

Para o teólogo Peter Phan, é mais do que necessário, nos dias de hoje, conferir um outro sentido à morte. Isso porque ela saiu de uma perspectiva densa e pesada para o que se vê hoje, não uma morte mais leve, e sim uma morte sequer pensada ou problematizada. “Mais do que nunca, precisamos de uma nova ars moriendi [arte de morrer]”, pontua. E ressalva: “Claro que não do tipo de fins da Idade Média, que procurava assustar os moribundos para se converterem no leito de morte para evitar o inferno eterno”. Phan destaca a necessidade de construir um entendimento sobre o fim da vida que “faça sentido para nós, cidadãos do mundo moderno, que com um clique de mouse dispomos de um vasto repositório de informações sobre a fisiologia e a psicologia de morrer”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, o teólogo aprofunda as reflexões sobre como a ciência de hoje interfere nas relações entre vida e morte. “A negação da morte também é promovida por tecnologias médicas modernas que conseguem prolongar a vida quase que indefinidamente”, dispara. E nesse exercício de construir uma outra “arte de morrer”, passa pelas concepções orientais da morte e suas distinções com a cultura do ocidente, essencialmente o cristianismo. E, seja em que cultura for, reforça a necessidade de uma perspectiva que entenda que, “além do aspecto biológico, a morte é também e principalmente um acontecimento humano, um ato que afeta não só o corpo, mas a pessoa inteira”.

Peter C. Phan detém a Cátedra Ignacio Ellacuría de Pensamento Social Católico na Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos. Nasceu no Vietnã e emigrou como refugiado para os Estados Unidos em 1975. Ele tem três doutorados e publicou mais de 30 livros e 350 ensaios sobre vários temas teológicos. Entre seus últimos livros, destacamos Living into Death, Dying into Life: A Christian Theology of Death and Life [Viver rumo à Morte, Morrer rumo à Vida: Uma Teologia Cristã da Morte e da Vida Eterna] (2014).

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - É difícil falar sobre a morte e o morrer em nossa cultura contemporânea?

Peter Phan - Sob vários aspectos, hoje em dia é muito difícil e incômodo falar sobre a morte e o morrer. Historiadores da cultura contemporâneos como Ernest Becker  observaram que nos tempos modernos têm ocorrido uma "negação da morte" generalizada, especialmente no Ocidente. Há muitas práticas que parecem confirmar esse ponto de vista. Considerando que em tempos pré-modernos as pessoas envelheciam, adoeciam e morriam em suas casas, cercadas por seus entes queridos, hoje as pessoas de idade são deslocadas para asilos, doentes terminais ficam confinados em hospitais, e os moribundos passam os últimos momentos de sua vida sozinhos e inconscientes, longe de suas famílias.

Assim, a velhice, doença fatal, a morte e o morrer são realidades ocultas para a maioria das pessoas, especialmente as jovens. A negação da morte também é promovida por tecnologias médicas modernas que conseguem prolongar a vida quase que indefinidamente. Pessoas falecidas devido a uma doença incurável podem ter seus corpos ultracongelados, na esperança de uma cura futura (criônica).

Após a morte de uma pessoa, os membros da família geralmente não assistem à preparação do cadáver para o enterro, o que lhes daria a oportunidade de encarar a morte face a face. Ao invés, o trabalho é terceirizado para profissionais da funerária. Muitas vezes, procura-se dar ao cadáver a aparência mais natural possível, por vezes até mais "viva" do que antes. Enquanto isso, como funerais se tornaram um negócio multibilionário, a morte e o morrer acabam marginalizados da vida cotidiana.

Rito fúnebre hoje

Rituais fúnebres, como velório, missa de corpo presente e o enterro no cemitério raramente são eventos comunitários. Na melhor das hipóteses, são frequentados apenas pelos membros da família e amigos. Cada vez mais, dá-se preferência à cremação em lugar do enterro. Embora legítima por muitas razões, não por último financeiras e ecológicas, ela priva os sobreviventes e os enlutados da experiência de testemunhar o desaparecimento definitivo e a ausência definitiva da pessoa falecida.

 

IHU On-Line - Admitindo-se esta "negação da morte" na cultura ocidental contemporânea, será que o progresso científico e médico nos permite falar sobre a morte com maior precisão do que antes? Será que não alcançamos uma definição mais precisa da morte?

Peter Phan - Talvez mais do que qualquer outro ato humano, a morte é um evento multidimensional, resistindo, por isso, a uma definição clara. Há, naturalmente, um aspecto biológico ou fisiológico. Neste ponto, ciência e medicina podem nos fornecer critérios verificáveis. O primeiro é a cessação da respiração e dos batimentos cardíacos, indicada por um eletrocardiograma plano, quando então se registra "morte clínica".

No entanto, o critério cardiopulmonar é insatisfatório, porque agora, graças às diversas tecnologias de reanimação e máquinas que realizam o trabalho do coração e dos pulmões, as pessoas "clinicamente mortas" podem ser buscadas de volta à vida. Assim, pessoas cujos cérebros deixaram de funcionar e não têm consciência – pessoas em estado vegetativo permanente, sem chance de recuperação – podem ser declaradas ainda vivas. Em consequência disso, propõe-se um segundo critério, qual seja, "a morte do cérebro inteiro", caracterizada pela ausência de resposta a estímulos externos, de movimento espontâneo, respiração, de reflexos cerebrais e espinhais, e de atividades cerebrais (representada por um eletroencefalograma plano).

Alguns cientistas argumentam, no entanto, em favor de um critério menos restritivo para a morte clínica. Propõem que não seja necessário haver "morte cerebral total", mas apenas a morte do neocórtex. No cérebro, o neocórtex é a sede da consciência, constituída de percepção sensorial, linguagem, memória e pensamento. O córtex pode estar morto, enquanto outras partes do cérebro podem continuar funcionando, muitas vezes por anos, como no famoso caso de Karen Ann Quinlan . Segundo este terceiro critério, a cessação da consciência, e não o funcionamento biológico, é que determina decisivamente a morte clínica.

Esta discussão sobre quando ocorre a morte clínica não é mera questão científica abstrata, mas de grande relevância para questões práticas, como a remoção de órgãos para doação. Em que ponto exatamente os órgãos podem ser legalmente removidos para transplante: a cessação da respiração e dos batimentos cardíacos, a morte do neocórtex, ou a morte do cérebro inteiro? A resposta a esta questão é de grande importância pragmática, uma vez que, quanto mais cedo os órgãos são removidos, melhor a chance de sucesso do transplante.

Um acontecimento humano

Além do aspecto biológico, a morte é também e principalmente um acontecimento humano, um ato que afeta não só o corpo, mas a pessoa inteira. Pode-se dizer efetivamente que a morte de uma pessoa humana é mais do que a de um cão. A morte humana apresenta significados que a medicina e outras ciências físicas não conseguem sondar. Para compreender esses significados é preciso recorrer a outras disciplinas, como psicologia, filosofia e teologia.

 

IHU On-Line - O senhor mencionou casos de pessoas que haviam sido declaradas clinicamente mortas e foram trazidas de volta à vida. Pode falar mais sobre esses casos?

Peter Phan - Muitas vezes esses casos são denominados "Experiências de Quase-Morte" - EQM. Em seu livro Vida após a Vida (1975) , o Dr. Raymond Moody , psiquiatra, apresentou uma centena de casos de pessoas que tinham estado "clinicamente mortas" e depois voltaram à vida. Desde então, tem havido numerosos estudos sobre EQM. Relata-se que, nos últimos 50 anos, mais de 25 milhões de pessoas no mundo tiveram algum tipo de EQM.

Existe um padrão geral de EQM, que inclui: ter uma experiência fora do corpo; estar num túnel; ver uma luz; encontrar parentes ou amigos falecidos, ou personagens religiosos; ter uma sensação de paz e bem-estar; lembrar-se da vida em retrospecto ou passar a vida em revista; relutar em voltar à vida; e mudar para uma vida melhor depois de voltar à vida. Nem todas as EQM são positivas. Entre 9 e 23% dos casos são descritos como desagradáveis, amedrontadores e ameaçadores.

Como um todo, a existência de EQM não é negada. Suas implicações, no entanto, são muito controversas. Muitos, especialmente pessoas religiosas, interpretam EQM como atividades mentais após a morte clínica e como provas de que há vida após a morte. Já outros, especialmente os cientistas, tendem a pensar que EQM não são eventos post-mortem e podem ser explicados inteiramente como processos biológicos e químicos no cérebro e no corpo.

 

IHU On-Line - Além das ciências, a teologia também estuda a morte e a vida após a morte?

Peter Phan - Havia um tratado de teologia conhecido em latim como De Novissimis , literalmente "Das últimas coisas." Era convenientemente ensinado no final do currículo teológico, depois de se ter estudado todas as outras doutrinas. As "últimas coisas" aí referidas são os últimos acontecimentos da vida humana, ou seja, a morte e o que ocorre após a morte, o juízo particular, o inferno, o purgatório, o céu, a ressurreição dos mortos, a volta de Cristo em glória e o Juízo Final. O foco principal do tratado De Novissimis é o destino eterno do indivíduo. Seu estilo é muito parecido com uma reportagem jornalística sobre o que vai acontecer na vida após a morte, especialmente em sua descrição dos aspectos terríveis da morte, com os demônios circulando o leito de morte para arrebatar as almas dos pecadores, e das torturas do inferno em incessantes chamas de fogo, na esperança de trazer cristãos insubmissos de volta para o estreito caminho que leva ao céu.

Mais recentemente, esse foco individualista foi amplamente expandido para incluir o destino de toda a humanidade e até mesmo do próprio cosmos. Muita atenção se tem dado atualmente à conexão entre nossa existência terrena e a vida eterna, nosso dever de proteger a Terra, à qual o Papa Francisco  dá a linda designação de "nossa casa comum"  , a transformação do cosmos no fim dos tempos e o cumprimento da própria história no reino de Deus. Quem estiver interessado em saber o que a Igreja Católica ensina sobre estes temas poderá consultar o Catecismo da Igreja Católica, n. 988-1050 . Felizmente, o Catecismo abandonou as tradicionais imagens escabrosas na descrição da vida após a morte.

 

IHU On-Line - O que ensina o Antigo Testamento sobre a morte e o morrer?

Peter Phan - A Escritura Hebraica, que os cristãos chamam de Antigo Testamento da sua Bíblia, apresenta dois pontos de vista opostos sobre a morte e o morrer. Num aspecto, considera a morte e o morrer como um processo natural da vida. O salmo 90 formula-o com uma visão muito clara:

Os dias da nossa vida contam setenta anos,

talvez oitenta, se formos fortes;

mesmo assim, toda sua extensão é de labuta e problemas;

eles logo terão passado, e nós nos iremos (v. 10).

A morte não é algo a ser temido, especialmente se ela vier no final de uma vida abençoada com longevidade, riqueza e descendência. Para a Bíblia, o que é aterrorizante sobre a morte não é o encerramento da vida, que é visto como uma necessidade biológica, mas a perda de comunhão com Deus. Os mortos, tanto justos quanto injustos, descem todos ao Xeol (Hades, em grego; tradução vernácula: inferno), habitam esse lugar tenebroso como "máscaras", separados de Deus. Ou como o autor do salmo 88 clama a Deus:

Porque minha alma está cheia de angústia,

E a minha vida se aproxima do Xeol.

Já me contam entre os que despencam no abismo ...

Como aqueles de quem não mais te lembras,

pois estão separados da tua mão (3-5).

Por outro lado, em contraste com essa visão naturalista da morte, há uma outra, de perspectiva teológica, que vê a morte como castigo pelo pecado. As páginas de abertura da Bíblia começam com a criação do mundo por Deus como uma coisa boa, seguindo-se a história da falta de confiança em Deus e, por parte da humanidade, da desobediência à ordem de Deus de não comer da árvore do conhecimento do bem e do mal, sob pena de morte (Gênesis 2,17). Se os primeiros pais foram criados imortais ou não, a Bíblia não diz explicitamente, mas fica claro que a morte agora é um castigo pelo pecado. Deus disse a Adão depois de sua transgressão:

Com o suor do teu rosto

comerás o pão

até que voltes à terra,

porque dela foste tomado;

tu és pó,

e ao pó tornarás (Gênesis 3,19).

 

IHU On-Line - O Novo Testamento sustenta o mesmo ensinamento sobre a morte e o morrer?

Peter Phan - Visto que a Escritura Hebraica é parte da Bíblia cristã, os cristãos também aceitam a doutrina sobre a morte e o morrer como fim natural da vida e também como punição pelo pecado de Adão e Eva. No entanto, destaque no Novo Testamento é o aspecto punitivo da morte, e por razões óbvias, uma vez que sua ênfase é sobre o ato de salvação da humanidade, por Deus, do pecado e da morte através da morte de Jesus.

Esta visão da morte como punição para o pecado é reiterada por Paulo: "Assim como o pecado entrou no mundo por um homem, e a morte veio através do pecado, assim a morte se espalhou a todos, porque todos têm pecado" (Romanos 5,12). Mais tarde, na mesma carta, ele diz laconicamente: "O salário do pecado é a morte" (Romanos 6,23). Deve salientar-se, de imediato, que, em contraste com as nossas preocupações contemporâneas, o enfoque da Bíblia, e de Paulo em particular, não é biológico. Seu interesse não está nos aspectos fisiológicos da morte, nem na questão se a morte como fim da vida é o castigo pelo pecado (pode-se pensar que não seja), e sim na morte como símbolo e resultado de nossa oposição a Deus e separação dele, que é Autor da vida (Atos 3,15). Como diz Paulo: "Visar a carne é morte" (Romanos 8, 6), onde carne (em grego: sarx) representa tudo que se opõe a Deus.

A Primeira Carta de João distingue entre "pecado que é mortal" e "pecado que não é mortal" (5, 16-17). Ela continua, dizendo: "Quem não ama permanece na morte" (3,14). O livro do Apocalipse fala da "segunda morte" (2,11; ver também Judas 12), isto é, da perdição eterna. A Bíblia trata é dessa "morte espiritual", da qual a morte física é um símbolo. A visão bíblica da morte é teológica e, mais precisamente, soteriológica , isto é, tem a ver com a nossa salvação. A Bíblia diz respeito apenas à morte como realidade ligada ao pecado, à redenção e ressurreição. É uma característica interessante do Novo Testamento que a palavra grega nekrós [morto] geralmente ocorre em conexão com a ressurreição dos mortos. A morte como tal é tratada apenas de passagem e indiretamente, como algo de que Cristo nos salvou por meio de sua própria morte e ressurreição.

 

IHU On-Line – O que a morte de Jesus tem a nos dizer sobre como devemos morrer?

Peter Phan - Um dos paradoxos da fé cristã é que a morte é vencida somente pela morte. E mais precisamente, pela mais vergonhosa das mortes, que é a morte do Jesus inocente na cruz. Este é o fio condutor do Novo Testamento, especialmente das cartas de Paulo. Naturalmente, o tema central é a ressurreição e glorificação de Jesus, mas sua morte é o meio de entrada, a porta para a vida. Uma convicção profunda da fé cristã é que, por meio de sua morte, Cristo destruiu o pecado e, portanto, sua consequência, a morte. Claro, ao longo de toda a história, os cristãos continuam a sofrer a morte física, mas por causa da morte de Cristo, a morte foi roubada de seu aguilhão, como uma cobra que ainda pode morder, mas que perdeu seu veneno. 

Paulo afirma que "Cristo, tendo sido ressuscitado dentre os mortos, jamais voltará a morrer. A morte deixou de ter domínio sobre ele" (Romanos 6: 9). Triunfante, Paulo escreve: "A morte foi tragada pela vitória" na morte e ressurreição de Cristo. E provoca: "Onde está, ó morte, a tua vitória?" (1 Coríntios 15,55).

Para Paulo, aqueles que foram batizados foram batizados na morte de Cristo e "com ele foram sepultados na morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida" (Romanos 6, 4). Os cristãos foram libertados de uma tripla escravidão: da lei, do pecado e da morte (Romanos 8, 2). A morte física não nos pode mais separar do amor de Deus em Cristo Jesus (Romanos 8, 38-39).

Morte e velhice

Muitas vezes temos inveja de quem morre depois de uma vida longa, mas sem experimentar os efeitos debilitantes e humilhantes da velhice e da doença. Claro, podemos orar por essa bênção. Mas talvez haja vantagens espirituais na idade avançada e em doenças terminais. Psicologicamente é difícil pensar na mortalidade em plena juventude e vigor. Mas quando a visão fica precária, ouvimos mal, os passos vacilam, quando o mero levantar-se da cama para um novo dia passa a ser uma provação física, quando depender dos outros para realizar as mais simples funções corporais, e especialmente quando somos informados de que nossos dias estão contados, é difícil – e bobagem – ignorar as batidas da morte na nossa porta.

Assim nos é dada a graça – e o tempo – para aprendermos a largar, a nos conformar, a prender-se a Deus, com paciência e confiança. Nos últimos dias de nossa vida, podemos lamentar em desespero, como Jesus fez na cruz: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Marcos 15,14) e dizer ao mesmo tempo, com total confiança, também como Jesus: "Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito" (Lucas 23,46). Em face da morte, nós pecadores devemos orar por essa superação do desespero com confiança, "agora e na hora de nossa morte", lindo fecho do "Ave Maria".

 

IHU On-Line - O que as religiões não cristãs ensinam sobre a morte e o morrer?

Peter Phan - Em geral, as religiões não cristãs não consideram a morte uma punição pelo pecado, mas como fim natural da vida, para o qual a pessoa precisa preparar-se. Por exemplo, o hinduísmo vê a vida humana como processo de quatro estágios: como estudante, como ecônomo (casamento), como morador da floresta (gradual abandono dos deveres familiares) e como monge itinerante (a se preparar para a morte mediante vida ascética e monástica). Sempre que possível, hindus devotos vão para a cidade sagrada de Benares ou Varanasi, onde passam seus últimos dias preparando-se para a morte.

No budismo, Siddartha Gautama , antes de se tornar o Buda (ou seja, o Iluminado ou Desperto), viu uma pessoa idosa, uma pessoa doente e uma pessoa morta e se deu conta de que viver é sofrer (sânscrito: dukkha). Posteriormente o Buda ensinou uma maneira de libertação do sofrimento (o Caminho Óctuplo). Tanto no hinduísmo quanto no budismo, o objetivo é ser livre (moksa) do ciclo de nascimento-morte-renascimento (samsara). Nas tradições religiosas chinesas, como confucionismo e taoísmo, a morte é vista como fim natural da vida para o qual não há medo, desde que se tenha filhos para realizar os rituais de veneração após a morte (culto aos antepassados).

Dentre todas as religiões, talvez o budismo tibetano ofereça a orientação mais detalhada para se morrer bem. Seu texto funerário, popularmente conhecido como Livro Tibetano dos Mortos (bardo thodol, cujo título completo é: Libertação pelo Ouvir durante o Estado Intermediário), é recitado pelos lamas sobre os moribundos ou os recém-falecidos para guiar a pessoa ao longo dos diferentes estágios intermediários de existência entre a morte e o renascimento para alcançar a libertação. Não há necessidade de aceitar todos os ensinamentos budistas desse livro para se dar conta da extrema importância de se "largar" todos os anseios, que o Buda chama de "desejo" ou "ganância" (tanha), considerada a raiz de todos os sofrimentos, para se viver bem e morrer bem.

 

IHU On-Line – Como se preparar para morrer hoje?

Peter Phan - Hoje em dia, talvez mais do que nunca, precisamos de uma nova ars moriendi [arte de morrer], claro que não do tipo de fins da Idade Média, que procurava assustar os moribundos para se converterem no leito de morte para evitar o inferno eterno. Mas uma arte de morrer que faça sentido para nós, cidadãos do mundo moderno, que com um clique de mouse dispomos de um vasto repositório de informações sobre a fisiologia e a psicologia de morrer e temos meios de prolongar ou encerrar nossa vida à vontade. Xilogravuras com bandos de demônios chifrudos, olhos vermelhos, presas, cascos e caudas a cercarem nossos leitos de morte, prontos para arrebatarem nossas almas e arrastá-las para o inferno, não mais nos aterrorizam. Nem as imagens do Dia do Juízo Final evocadas pela sequência latina Dies Irae [Dia da Ira], que se costumava cantar na Missa de Réquiem (agora chamada de Missa para o Sepultamento Cristão, ou a “missa de corpo presente”), nos fazem encolher de medo.

O que precisamos agora é de uma "arte de morrer bem" que nos ajude a encarar nossa mortalidade com honestidade e sobriedade e, acima de tudo, promova a "vida santa". A primeira tarefa ao aprender a morrer bem é encarar nossa própria morte de frente e honestamente. A tentação de usar os mais diversos expedientes para evitar encarar minha própria morte cara a cara é quase irresistível. Mas o preço dessa negação da morte é proibitivo. A menos que sejamos donos da nossa mortalidade, como argumentaram filósofos como Søren Kierkegaard  e Martin Heidegger , a menos que, como diz Heidegger, assumamos nosso "estar-a-caminho-da-morte" como nossa "mais própria possibilidade", reconhecendo que eu vou morrer, não conseguiremos viver uma vida autenticamente humana.

A morte dos seres humanos implica mais do que a morte de animais, e parte da diferença reside na nossa consciência de nossa mortalidade. Podemos, naturalmente, reprimir essa consciência banindo todos os pensamentos sobre ela, ou distraindo-nos com um sem-número de atividades frenéticas e banais, ou negando-nos obstinadamente a entrar suavemente naquela boa noite, tudo isso futilmente e em vão. E perderemos a singular oportunidade de nos prepararmos em verdadeira liberdade para o nosso ato de morrer e nosso destino final.

Reconhecimento sóbrio da morte

Este reconhecimento da mortalidade também precisa ser sóbrio, isto é, livre de exagero e morbidade. Não deveria levar ao cinismo ou desespero, acreditando que nada vale a pena ser feito, ou ser bem feito, já que a morte será o fim de tudo. Nem a morte deve ser romantizada e despojada de todos os seus horrores. Nem todos conseguirão louvar a Deus pela "Irmã Morte", como São Francisco de Assis, ou recebê-la como "amiga", como recomenda o padre holandês e teólogo pastoral Henri Nouwen .

Essas atitudes em relação à morte continuam sendo os ideais aos quais nós, pessoas comuns, aspiramos, mas nunca alcançamos. Enquanto isso, o mínimo que podemos fazer é chegar a uma conscientização cada vez mais completa da inevitabilidade e da proximidade da nossa morte, embora normalmente não saibamos seu momento exato. Essa consciência não precisa levar à tristeza e depressão. Pelo contrário, nos permitirá aproveitar ao máximo cada dia e momento, vivendo-o da forma mais plena possível.

 

IHU On-Line – Na prática dessa ars bene moriendi [arte de morrer bem], qual virtude considera mais necessária?

Peter Phan - No sentido mais estrito, os cristãos são um povo de esperança. Portanto sua vida deve ser um testemunho da esperança pela consumação final de todas as coisas em Deus. Em sua Carta aos Romanos, Paulo expressa sucintamente como a esperança deve moldar completamente a vida cristã: "Portanto, sendo justificados pela fé, temos paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por meio de quem obtivemos acesso a esta graça, na qual estamos firmes, e nos ufanamos em nossa esperança de compartilhar a glória de Deus. E não só isso, também nos ufanamos em nossos sofrimentos, sabendo que o sofrimento produz persistência, e a persistência produz caráter, e o caráter produz esperança, e a esperança não nos decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado" (5, 1-5).

Na concepção de esperança cristã em Paulo há duas dimensões inter-relacionadas: primeiro, uma convicção absoluta da nossa participação na paz, graça e glória de Deus, garantida pelo que Deus fez em Jesus e realizada pelo Espírito que foi derramado em nossos corações. Em nós, Cristo é "a esperança da glória" (Cl 1, 7). Em segundo lugar, nossa completa e perfeita participação nessas realidades divinas ainda está no futuro, razão pela qual a virtude que devemos cultivar é a esperança, que nasce do caráter, da persistência e do sofrimento, e que, sobretudo, não decepcionará, não por causa de nossas obras, mas de Deus.

Mais do que nunca, a esperança parece ser uma virtude muito necessária e difícil para o nosso tempo, tanto para os doentes quanto para os saudáveis, para os velhos tanto quanto para os jovens. Chavões verbosos e piegas de oferecer seus sofrimentos a Deus, carregando sua cruz em obediência à vontade de Deus e confiando na promessa de recompensas mais elevadas na vida após a morte, embora bem-intencionados, muitas vezes não são apenas inúteis, mas piores do que isso. Mais úteis são o reconhecimento honesto e sóbrio da crueldade de doenças incuráveis e da senilidade humilhante. Além disso, numa doença dolorosa e sem perspectiva e numa velhice debilitante não há mal algum em sentir-se angustiado ou sacrílego ao clamar a Deus, como Jesus: "Meu Deus, meu Deus, por que me desamparaste?" (Mc 15, 34).

Mas ao nos identificarmos com o clamor desesperado de Jesus, esperamos que o Deus que não abandonou seu Filho na Sexta-Feira Santa e misteriosamente permaneceu em silêncio no Sábado de Aleluia, nos leve a uma vida nova e transformada com ele no Domingo de Páscoa, como Ele fez com Jesus. É uma profunda ironia que o âmago da esperança cristã reside no mistério da Páscoa, na história de sofrimento, morte e ressurreição de Jesus, pois não há história mais absurda do que esta, da Inocência Divina condenada como Culpa Satânica. No entanto, do abismo das trevas e do ódio nascem a luz e o amor que inspiram esperança para a vida eterna em todo o mundo. ■

Leia mais

- As ideias e conceitos de um papa para a Ásia. Entrevista com Peter Phan, publicada na revista IHU On-Line, número 470, de 17-8-2015.

- “Ser religioso é ser inter-religioso”. Entrevista com Peter Phan, publicada na revista IHU On-Line, número 403, de 24-9-2012.

- Diálogo Inter-religioso: 50 anos após o Vaticano II. Artigo de Peter Phan, publicado em Cadernos Teologia Pública, número 86.

- O pluralismo religioso e a igreja como mistério: A eclesiologia na perspectiva inter-religiosa. Artigo de Peter Phan, publicado em Cadernos Teologia Pública, número 75. 

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