Edição 496 | 31 Outubro 2016

Música, o Youtube de Lutero em 1500

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Ricardo Machado

Professor de música Bernhard Sydow debate os dons da reforma protestante a partir da inserção da música e a importância da música na cultura luterana

Imagine a Europa do século XVI. Martinho Lutero, ao propagar as ideias e dons da Reforma Protestante, precisava de um meio ágil, rápido e que tivesse capilaridade entre as comunidades. E foi por meio da música que esse caminho foi encontrado. “A música foi o Youtube de 1500. A intenção de Lutero era que suas canções evangélicas fossem cantadas nas ruas, nas casas, de lugar em lugar, como faziam os menestréis, os cantores itinerantes”, explica o professor de música e organista Bernhard Sydow, em entrevista por e-mail à IHU On-Line

Do ócio sagrado solene e ritualizado do catolicismo romano, a Reforma transformou os papéis dos sacerdotes, promovendo, em alguma medida, um projeto de educação integral a todos. “A partir da Reforma Protestante, tanto eu, quanto você, podemos rezar pelo povo, transmitir as súplicas e as angústias daqueles que estão ao nosso redor. Eu ou você, protestante ou não, podemos manifestar isso através de uma grafitagem, um rap, um post”, frisa. Sobre a aproximação das Igrejas Católica e Protestante, o professor é enfático. “Junto com os queridos gestos de aproximação [do Papa] precisam vir atitudes concretas de criar grupos de estudos e ação missionária que trabalhem as questões que causam tanto sofrimento a nós e a nossos vizinhos. Que nos reúnam a fé, a esperança e o amor. O amor!”

Bernhard Sydow, bacharel em Música e mestre em Educação, é organista há 40 anos nas igrejas da Comunidade Martin Luther de Porto Alegre. Durante quatro semestres ensaiou canto gregoriano com frei Emílio Scheid OFM e órgão com Léo Schneider (UFRGS). Em 1984 lecionou introdução à Música e Hinologia na Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, em São Leopoldo, e foi diretor do Departamento de Música Sacra da mesma Igreja. Desde 1978 ensina flauta doce para crianças, jovens e adultos e atualmente atua no Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia – Campus Porto Alegre, onde também rege a Orquestra Infantil do Prelúdio e é responsável pela componente curricular Ensino e Aprendizagem do Instrumento Musical.

 

Confira a entrevista. 


IHU On-Line – Quais são os dons da Reforma Protestante?

Bernhard Sydow – Vejo a Reforma Protestante como um incêndio de proporções gigantescas. A Reforma aglutinou e potenciou ideias e tensões geopolíticas que já estavam estralando feito curto-circuito desde a Alta Idade Média. Quando se examinam as revoluções mais a fundo, acabam vindo à tona questões de poder, de propriedade da terra e de impostos. Onde já se viu pecado pagar imposto? Onde já se viu monges, padres ou bispos habitarem palácios suntuosos e administrarem latifúndios enormes? Isso vale tanto para padres quanto para pastores, pregadores, imperadores, ditadores, presidentes e senadores. 

Nós luteranos aprendemos desde criancinha que Lutero foi um monge agostiniano que levou um susto porque quase foi atingido por um raio e então resolveu abandonar a carreira de jurista para virar monge, contrariando os sonhos de ascensão social de seu pai. O que precisamos lembrar também é que Lutero foi de uma ordem dos Agostinhos denominada Observantes, influenciados pelo pensamento de Guilherme de Occam.  Este teólogo, filósofo e matemático inglês teve a coragem de advertir que o papa João XXII defendia uma heresia quanto à pobreza evangélica. Então temos aí um franciscano que chama o papa de herege! E temos, em 1328, um professor franciscano fugindo para Pisa, depois para Munique. Mais ainda: Occam afirma que um cristão não contraria os ensinamentos evangélicos ao se colocar ao lado do poder temporal em disputa com o poder papal. Lutero não foi assim tão original quanto pensam alguns luteranos entusiasmados.

Também devemos contar às criancinhas protestantes que, em Magdeburg, Lutero estudou numa escola orientada pelos Irmãos da Vida Comum. Esta parte da biografia de Lutero é sumamente importante para compreender suas ações posteriores. Alô, alô, luteranos: Vale a pena estudar os Irmãos da Vida Comum que influenciaram tanto o Lutero da Reforma quanto o Comenius da Didática. 

 

Preconceito religioso

A Reforma também trouxe coisas terríveis, como a Guerra dos Trinta Anos,  a intensificação do preconceito religioso, a associação errônea da pobreza e do atraso com a preguiça e o catolicismo. Um bom protestante seria trabalhador, honesto, próspero, científico e tecnologicamente informado. “Vorsprung durch Technik. Machts mit Qualität. Genau!” são expressões que resultam desse pensamento.

 

Capitalismo

O capitalismo vinha substituindo o feudalismo desde a região de Toscana. Isso foi bom? Foi para melhor? Foi ainda pior que o feudalismo? A Reforma Protestante acelerou o progresso do capitalismo. Os protestantes acusavam os católicos de dupla moral — mas o que é o escândalo mundial VW-BOSCH senão a simples falta de honestidade? 

A Reforma Protestante autorizou e incentivou o acesso das pessoas comuns, de toda a população às escrituras e com isso veio a alfabetização cada vez mais acessível — Comenius (autor da Didática Magna — todos podem aprender tudo) é um dos dons da reforma protestante que depois gera a linha Rousseau -Pestalozzi -Piaget -Paulo Freire.  Ela reafirmou o sacerdócio universal dos que têm fé. Ela autorizou, empoderou o homem comum a dizer a sua palavra. Sacerdote é aquele que reza pelo povo, não é? Pois então, a partir da Reforma Protestante, tanto eu, quanto você, podemos rezar pelo povo, transmitir as súplicas e as angústias daqueles que estão ao nosso redor. Eu ou você, protestante ou não, podemos manifestar isso através de uma grafitagem, um rap, um post. Se teu post ‘viraliza’, se propaga, ou não, é outra questão. A Reforma Protestante coloca o ser humano no lugar de intérprete da escritura: agora você e eu podemos ler qualquer texto, qualquer forma de comunicação sem intermediação obrigatória de um sábio, de um filósofo, de um astrólogo. A Reforma Protestante propõe a Educação Integral para todos, para que todos possam fruir e criar cultura, construir e fruir civilização.

 

IHU On-Line – Qual foi o impacto da Reforma Protestante na música?

Bernhard Sydow – A música popular, a língua materna e as vozes femininas começaram a se fazer presentes na liturgia e nos lugares sagrados. A questão da mulher pastora, da música popular na liturgia são polêmicas que vêm crescendo com resultados bem interessantes e favoráveis ao sacerdócio de todos.

 A polifonia foi levada ao máximo por Bach,  Telemann  e Händel  a partir de seus precursores Schein, Scheid, Schütz  e Johann Walter.  Mas não é exclusividade dos luteranos — a contrarreforma investiu muito forte na Educação Musical. Sabemos, por exemplo, da presença de Zipoli  nas Missões Jesuíticas em Santo Ângelo, São Miguel e assim por diante. Quem, como eu, não cai de joelhos ao atravessar as ruínas de São Miguel e imaginar coros e orquestra ressoando naquele espaço sagrado?  

 

IHU On-Line – Qual foi a importância da música para a Reforma?

Bernhard Sydow – A música teve a mesma importância que a imprensa (técnica e aparato de reprodução de textos) na difusão das ideias da Reforma. A música foi o Youtube de 1500. A intenção de Lutero era que suas canções evangélicas fossem cantadas nas ruas, nas casas, de lugar em lugar, como faziam os menestréis, os cantores itinerantes. Além disso ela deu identidade a um movimento e muitas vezes se tornou ícone de resistência. As comunidades faziam uma espécie de sit in — repetiam o canto de certos hinos confessionais tantas vezes até que o pregador malquisto fosse trocado por outro que estivesse de acordo com o pensamento da população. 

Da mesma forma, no clima bélico da guerra dos 30 anos, os hinos luteranos se transformaram em hinos de guerra, em hinos para comemorar a vitória sobre o inimigo. Isso não soa muito ecumênico, não é? Não é muito apropriado para se publicar numa revista jesuíta. Mas é verdade histórica e precisa ser desconstruída. Com ajuda dos jesuítas.

 

IHU On-Line – Particularmente, qual o significado das composições de Bach para o luteranismo? 

Bernhard Sydow – A obra de Bach é motivo de muito orgulho para os luteranos. Eles podem dizer: sim, Bach é nosso filho. Nas comunidades mais ricas, as igrejas sustentavam ou ostentavam orquestras, coros e órgãos de tubos cada vez mais sofisticados. O órgão de tubos foi a máquina mais complexa e sofisticada produzida ao redor de 1700. E para tocá-lo era necessário um profissional habilitado através de longos anos de estudo, ensaio, investimento em instrumentos e professores. Neste sentido Bach favoreceu a profissionalização do Kantor — músico de igreja.

Bach também foi chamado de quinto evangelista. Já em 1929 o bispo sueco Nathan Söderblom  denominou as Cantatas de Bach  como quinto evangelho, por causa da riqueza de sua interpretação do evangelho e por causa da propagação que sua obra tem em todas as culturas.

 

Estudos de Bach

Por outro lado, Bach escreveu álbuns de músicas para seus filhos estudarem. Hoje seus estudos, minuetos e invenções constam na maioria dos livros de iniciação musical através da flauta, do violino ou do teclado. Através desse caminho, Bach pôde despertar a curiosidade de seus estudiosos sobre suas Missas, Cantatas e Motetos.

Mas nem tudo é doce ao redor de Bach. Ele próprio enfrentou sérias dificuldades em Leipzig e precisava sempre de novo enfrentar queixas sobre seu excesso de inventividade. Até hoje é acusado por certos estudiosos do canto litúrgico por haver tornado os hinos muito difíceis e pesados. Então surgem os movimentos carismáticos e os movimentos de retorno às origens. Precisamos cuidar para não levarmos a igreja para a caverna. Quem sabe ao Cavern Club?

 

IHU On-Line – Como a música ajuda a entender ou ampliar os sentidos teológicos do luteranismo?

Bernhard Sydow – No momento em que se permitiu a entrada da música popular, da língua materna e da voz feminina na igreja, começaram também a surgir compositores e poetas que, inspirados nos salmos e nos evangelhos, ressignificaram a mensagem cristã e a trouxeram junto ao coração dos fiéis. Bach e outros compositores, como Telemann, desenvolveram uma linguagem, quase um vocabulário e estruturas harmônicas e musicais muito apropriadas para enfatizar os significados bíblicos amplos, bem como os pequenos movimentos e gestos como, por exemplo, os das cenas de crucificação, ressurreição, libertação dos pecados. 

Mais do que isso, numa perspectiva hegeliana, os grandes compositores da história da música sacra se tornaram portadores das novas correntes de pensamento que se sobrepõem nos grandes períodos da história da filosofia, atravessando o humanismo renascentista, o iluminismo, o materialismo e o existencialismo. Hoje convivemos com o multiculturalismo dentro das igrejas — e já não é exclusividade dos luteranos.

 

IHU On-Line – Como o senhor interpreta os gestos de reaproximação entre a Igreja católica e a Igreja Protestante? Como o pontificado de Francisco contribui para esse processo?

Bernhard Sydow – Quando criança ia com meu pai (pastor luterano) nas festas da comunidade católica de Restinga Seca, no interior do Rio Grande do Sul, então sob os cuidados do padre Giuliani, que era muito querido e afável.  Mais tarde descobri na estante de livros dos meus pais os romances de Giovannino Guareschi intitulados Don Camillo e Peppone.  Estas histórias do diálogo entre um padre e um comunista são muito deliciosas, como a literatura italiana em geral.

Nos anos 1970 vieram à tona os casamentos ecumênicos — muitas vezes consequência de jovens separados de casamentos anteriores que queriam fazer uma nova tentativa, mas o Vaticano criava dificuldades. Apesar dessas dificuldades, padres e pastores às vezes eram mais compreensivos que os bispos entre si.

Por falar em compreensão, toquei e cantei inúmeras vezes nas igrejas luteranas a canção sobre a Oração de São Francisco — composta por um padre jesuíta paraguaio, Casimiro Abdon Irala Arguello , que estudou teologia aqui, por São Leopoldo, não é verdade? Eis um padre que vale estudar mais a fundo.

 

Transformações 

Certos teólogos, pastores e catequistas luteranos leram Leonardo Boff  e foram estudar e trabalhar com os jesuítas no esforço de livrar os operários e a população brasileira da opressão da ditadura, do latifúndio, da escravidão e da exploração. Eu mesmo estudei a obra de Maria Nilde Mascelani — e os colégios que fundou em São Paulo, inspirada pelo padre e filósofo Lima Vaz S.J.  Tenho muitas amigas e colegas formadas pela Juventude Universitária Católica com as quais é possível manter diálogos críticos sobre as diferenças entre Luteranos e Católicos e sempre me pergunto — por que não são luteranas? Por outro lado, após assistir ao filme Irmão Sol, irmã Lua, de Zefirelli, nos anos 1970, eu mesmo me perguntei — por que não ser um monge franciscano?

Nos anos 1970 muitos de nós gostávamos de um frade. Trata-se de um dos personagens criados pelo cartunista Henrique de Souza Filho (Henfil) que, além do bode Orellana, da Graúna e do Ubaldo, o Paranoico, inventou os frades Cumprido e Baixim e nos fazia ver com simpatia e humor a dramática da fé num país dividido entre Casa Grande e Senzala.

 

Novo Papa

Quando soubemos que um jesuíta seria o dirigente da Igreja católica, respiramos aliviados. Não gostávamos das iniciativas do Ratzinger.  O cale-se sofrido por Boff representava para nós o retorno da Inquisição. A eleição de Jorge Mario Bergoglio  em março de 2013 e seus primeiros passos nos sinalizaram que haveria mais paz, amor, perdão, união, fé, verdade, esperança, luz, consolo, compreensão, doação e entrega irradiando de Roma. 

 

Desafios

Temos muitos problemas internos nas igrejas: as questões da homofobia, do aborto, do assédio, do estupro, do machismo, do alcoolismo, da competitividade, da ganância, da injustiça salarial, da saúde, da ecologia, da exploração dos recursos naturais, nos preocupam tanto nos confessionários, nas sacristias, quanto nos lares, às vezes nada doces lares. A corrupção, a hipocrisia das deputadas e dos deputados, sejam eles evangélicos, católicos, comunistas ou neoliberais — a corrupção e a hipocrisia são doenças genéticas difíceis de curar, impregnam o DNA de todos os partidos. 

Os grandes líderes das Igrejas — sejam Católica romana ou Luterana, ou Adventista, Metodista ou Assembleia de Deus — precisam se unir, encontrar afinidades para estudar e se posicionar sobre estas questões. Precisamos de mais amor fraterno. Junto com os queridos gestos de aproximação precisam vir atitudes concretas de criar grupos de estudos e ação missionária que trabalhem as questões que causam tanto sofrimento a nós e a nossos vizinhos. Que nos reúnam a fé, a esperança e o amor. O amor! ■

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