Edição 207 | 04 Dezembro 2006

A alma como centro do filosofar de Platão

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IHU Online

Sala de Leitura


O livro recém-lançado A Alma como centro do filosofar de Platão. São Paulo: Loyola, 2006, do filósofo Delmar Cardoso, SJ, será apresentado pelo próprio autor nesta quinta-feira, 07-12-2006, às 17h30min, na sala 1G119 do IHU. Graduado em Filosofia pelo Instituto Santo Inácio, do Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus, em Belo Horizonte, e em Teologia pela Pontifícia Università Gregoriana (PUG), na Itália, Cardoso cursou aperfeiçoamento em Estudos Humanísticos pelo Instituto Padre Gabriel Malagrida e especialização em Grego Clássico pela PUG. É mestre e doutor em Filosofia. O mestrado foi realizado na PUG e o doutorado na Pontifícia Università San Tommaso D’Aquino (PUST), também na Itália. De sua tese A alma como centro do filosofar de Platão: uma leitura concêntrica do Fedro à luz da interpretação de Franco Trabattoni, surgiu o gérmen do livro que Cardoso apresenta no Sala de Leitura.

Na entrevista que segue, concedida pelo pesquisador à IHU On-Line, ele revela que, ao referir-se ao termo alma, em Platão, o significado deve ser compreendido como “ser humano”. Entre os legados platônicos à Filosofia, Cardoso enfatiza que o maior deles é a sua própria filosofia. Outra contribuição deixada pelo filósofo ateniense a esse ramo do saber é a “incindível relação entre ser humano e cidade (polis) e vice-e-versa, a qual nunca conheceu boa harmonia em tempos recentes”.
Delmar Cardoso

IHU On-Line - Por que o senhor afirma que a alma é o centro do filosofar de Platão?

Delmar Cardoso
- Em primeiro lugar, gostaria de esclarecer que minha afirmação é feita num contexto acadêmico, num contexto de uma tese de doutorado em filosofia. Nessa tese, minha investigação com base no texto do Fedro platônico me levou a enunciar assim o título do meu estudo. Sou consciente de que se trata de um enunciado, no mínimo, corajoso, pois não é comum que se fale muito de alma, mesmo em filosofia contemporânea. Porém, o termo "alma", em Platão, significa "ser humano". Portanto, o título de meu estudo sobre o Fedro bem que poderia ter sido enunciado: "O ser humano como centro do filosofar de Platão". Contudo, quis ser fiel ao termo que Platão, qual maior e melhor discípulo de Sócrates, utiliza para dizer o ser humano. Platão, num dos seus diálogos, põe na boca de Sócrates a afirmação que me fez insistir em utilizar o termo alma (psukhé): "o ser humano é a sua alma" (Alcebíades primeiro, 130c). A alma, tal qual entendemos hoje em dia como a interioridade do homem, é um conceito que devemos a Sócrates. Nossa compreensão de alma supõe aquela parte do homem que não conhece destruição, supõe o interior que identifica cada ser humano, a partir do qual o ser humano pode afirmar "Eu sou".

IHU On-Line - Como aparece essa preponderância da alma no Fedro, em específico?

Delmar Cardoso
-  Há no Fedro um emaranhado dos principais temas tratados por Platão na sua vasta obra escrita. Nisso consiste justamente a riqueza e a dificuldade para quem quiser se debruçar sobre esse texto de Platão. Classicamente se divide o Fedro em duas partes. E a própria configuração do texto autoriza tal divisão. A primeira parte é composta por três discursos. Do ponto de vista literário, cada um desses discursos é obra à parte. Neles se vê a capacidade criativa de Platão que foi capaz de compor três discursos que podem ser atribuídos a três autores diferentes. O primeiro discurso é o do famoso orador Lísias. É um discurso escrito que trata do amor e é lido por Fedro. Sócrates reage a esse discurso, fazendo um outro discurso ao amor. Mas ambos os discursos (um oral e outro escrito) não são suficientes para enaltecer o amor. Daí que, na narrativa de Platão, Sócrates se vê obrigado a fazer um segundo discurso que extrapola a temática amor para falar justamente da alma ou, se quisermos, do ser humano. Aqui temos o gancho para falarmos da segunda parte do Fedro, que aprofunda a relação entre amor (éros) e discurso (lógos), postulando a exigência de que a filosofia esteja ligada à retórica. E isso é uma novidade, pois, apressadamente, temos a tendência a considerar Platão um simples adversário dos retores. No Fedro, Platão quer uma filosofia ligada à retórica, porque, segundo sua concepção antropológica, o ser humano não é feito só de razão, mas possui uma parte que, como Lima Vaz, podemos chamar de transracional. O segundo discurso de Sócrates no Fedro mostra isso com muita clareza.

IHU On-Line - O senhor vê relação entre a importância dada por Platão à alma com filosofias como a hegeliana, por exemplo? Como a filosofia atual dialoga com o legado platônico?

Delmar Cardoso
- A pergunta é muito pertinente, mas falta-me mais conhecimento sobre Hegel  para respondê-la de um modo mais completo. No entanto, como não ver uma relação entre aquilo que Platão chama de "alma" e aquilo que Hegel chama de consciência? A filosofia atual tem aprendido a voltar aos antigos, e essa é uma herança que o Iluminismo nos deixou, apesar de que essa volta tinha começado no Renascimento. Queiramos ou não, nosso atual modo de pensar e agir deve muito a Platão e a Aristóteles , só para citar dois nomes na Antigüidade. Admitamos ou não, Kant  e Hegel – também só para citar dois nomes da filosofia moderna – nos fornecem os modos como fazemos filosofia atualmente. O prefixo "pós", tão em moda em nossos dias, se aplica muito bem à filosofia contemporânea: pós-kantiana e pós-hegeliana. Com isso tudo quero dizer que o prefixo "pós" neste caso não significa necessariamente superação. É que a volta a Platão e a outros filósofos antigos pode proporcionar a construção de novos paradigmas. Entretanto, não há dúvida de que fica a dívida para com a filosofia moderna que permitiu o ser humano dizer, com todas as letras, "Eu sou".

IHU On-Line - E qual o maior legado de Platão à filosofia?

Delmar Cardoso
- Há vários legados, mas vou falar somente de três. Um primeiro conjuga o aspecto material com o cultural: os textos escritos de Platão. Com os textos de Platão acontece algo inusitado na história do pensamento antigo. Conservamos hoje as obras que a própria Antigüidade identificava como sendo de Platão. Pode parecer que esse dado não dependa diretamente de Platão, mas estou convencido de que ele revela o modo como Platão fez filosofia. Contudo, o maior legado de Platão à filosofia é a sua filosofia. Uma filosofia que nos habituamos a ver como forte e inabalável. Mas isso não está muito claro se nos detivermos com atenção nos textos de Platão. A afirmação do sujeito feita pela Modernidade quer ser a afirmação de um sujeito forte e inabalável, o que significa também querer afirmar uma razão forte e inabalável. Sem dúvida que existem raízes disso na filosofia de Platão. No entanto, Platão, sem renunciar à exigência de que o filósofo dê razões de seu pensar e agir, também constata um elemento frágil no ser humano. Esse elemento frágil no ser humano exige a adaptabilidade da razão, em vista de uma constante busca da verdade por parte do ser humano. Um outro legado de Platão à filosofia é a incindível relação entre ser humano e cidade (polis) e vice-versa, a qual nunca conheceu boa harmonia em tempos recentes.

IHU On-Line - Qual é seu ponto de vista sobre a interpretação do conceito de alma do platonismo pelo cristianismo, tomando em consideração que, a partir do século XII, houve um ressurgimento das obras de Aristóteles? Como se dá essa relação hoje, no século XXI?

Delmar Cardoso
- Fiquemos simplesmente na concepção platônica de alma que, como disse acima, tem sua origem em Sócrates: a alma é o que confere o ser ao homem. De acordo com essa concepção a origem do homem não tem sua explicação cabal no existir intraterreno. Parece-me que isso é bastante diferente em Aristóteles. Em Aristóteles, a alma tem um aspecto que ficará consagrado com o termo "tavola rasa". Daí que o conceito bíblico-cristão que define o ser humano como imago Dei pode também estar relacionado com concepção platônica de alma. Lembro que as pesquisas de Bruno Snell nos informam de que os gregos antigos tinham os deuses – e não os animais – como ponto de comparação dos seres humanos. Coube a Aristóteles formular a definição de homem em que o ponto de comparação para definir o homem são os animais e não mais os deuses, quando afirma ser o homem "um animal possuidor de palavra". A relação entre os dois maiores pensadores da Antigüidade grega foi muito bem trabalhada pelo Cristianismo, e forneceu a ele parte do cimento que solidificou sua construção. Penso que é preciso continuar a pesquisar sobre esses dois filósofos para que se entenda o que nós hoje ainda podemos chamar de Ocidente e – como Ocidente – nos dispormos a aprender mais do que ensinar.

 

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