Edição 492 | 05 Setembro 2016

Finança digitalizada: interação entre tecnologia e economia está reestruturando o sistema financeiro

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

João Vitor Santos e Patricia Fachin

Edemilson Paraná analisa as transformações e as consequências geradas pela interação entre as tecnologias e o mercado financeiro

No contexto da quarta revolução industrial, a presença das tecnologias também está modificando o modo de atuação do sistema financeiro e já deu origem ao que tem sido denominado de “finança digitalizada”, “uma nova forma de gestão e funcionamento dos mercados financeiros em todo mundo”, resume Edemilson Paraná à IHU On-Line. Segundo ele, esse conceito também pode ser compreendido como um “complexo técnico-operacional de gestão da circulação, acumulação e valorização do capital financeiro por meio de recursos tecnológicos automatizados de ponta”. 

Autor do livro A Finança Digitalizada: Capitalismo Financeiro e Revolução Informacional (Florianópolis: Insular, 2016), o pesquisador analisa o modo como o mercado financeiro tem atuado a partir do uso dessas tecnologias e destaca que hoje ele funciona “de modo quase ininterrupto, com alta velocidade de movimentação de capitais de um lugar para outro”. Apenas no Brasil, exemplifica, 40% das operações de compra e venda de ações já são realizadas por robôs, enquanto nos Estados Unidos esse percentual chega a 70%. A maioria dos investidores e usuários dessas tecnologias, como bancos, empresas e instituições financeiras em geral, “paga caro, inclusive, para ter acesso a dados de mercados restritos e para conectar seus computadores diretamente aos servidores das bolsas”, informa. 

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Paraná frisa que a interação entre o mercado financeiro e as tecnologias “inaugura um conjunto de novos acontecimentos, riscos e problemas, muitos dos quais, inclusive, ainda não conhecemos”. Entre eles, destaca, há uma “aceleração de processos, aumento substancial no número e velocidade de negócios realizados, concentração em diferentes níveis, aumento da proeminência de investidores e corretores estrangeiros e diminuição da participação de pequenos investidores no mercado, e desemprego entre os operadores”. Além disso, adverte, cresce o poder político dos operadores financeiros que podem “definir os rumos sociais e políticos de nossas sociedades”. 

Edemilson Paraná é graduado em Comunicação Social pela Universidade de Brasília - UnB, mestre e doutorando em Sociologia pela mesma Universidade. Atualmente é pesquisador no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA no projeto Sistema Monetário e Financeiro Internacional.

Entrevista publicada nas Notícias do Dia de 29-08-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.


Confira a entrevista. 


IHU On-Line - O que significa falar em “finança digitalizada”, em ciclo de operação da finança digitalizada e em “eletronificação” do mercado de capitais?

Edemilson Paraná - De modo geral, defino como finança digitalizada uma nova forma de gestão e funcionamento dos mercados financeiros em todo mundo. Mercados em que, graças ao auxílio de tecnologias de ponta, funcionam de modo quase ininterrupto, com alta velocidade de movimentação de capitais de um lugar para outro. 

Esse novo arranjo sociotécnico, portador, inclusive, de novas configurações institucionais, é produto, entre outras coisas, do amplo processo de penetração das Tecnologias de Informação e Comunicação (as TICs), nos ambientes de negociação — algo que remonta à década de 1970 e 1980, mas que avança com especial intensidade a partir dos anos 2000, quando se acelera a chamada digitalização ou “eletronificação” dos mercados. 

O arranjo entre tecnologias e finanças 

Naturalmente, esse novo sistema de funcionamento dos mercados globais não passa a existir apenas ou centralmente por conta da penetração do avanço tecnológico, mas, sim, valendo-se de tais desenvolvimentos em um cenário de reestruturação das economias em geral, e da ampla desregulamentação e liberação dos mercados, em particular. Se é verdade que o novo arranjo não se dá unicamente por conta da penetração de tais tecnologias nos mercados, é igualmente correto dizer que o sistema financeiro tal qual conhecemos hoje simplesmente não poderia funcionar sem o auxílio destes mecanismos, sistemas e artefatos. O que a conceituação da finança digitalizada busca destacar, então, é uma afinidade mútua entre o processo de desenvolvimento das TICs, de um lado, o que tem sido chamado também de revolução informacional, e o processo mais amplo de financeirização da economia mundial.

Finança digitalizada

Nesse sentido, e tentando ser ainda mais preciso conceitualmente, defino a finança digitalizada como o complexo técnico-operacional de gestão da circulação, acumulação e valorização do capital financeiro por meio de recursos tecnológicos automatizados de ponta. Recursos esses que atuam centralmente — e isso é especialmente importante — na aceleração do tempo e na compressão do espaço para exploração de ganhos financeiros em operações de especulação e arbitragem de papéis, moedas e demais ativos.

Buscando explicar as principais tendências de funcionamento desta finança digitalizada diante do aprofundamento e consolidação do processo de financeirização das economias, defendo que o desenvolvimento das TICs nos mercados opera fundamentalmente em três dimensões que, juntas, conformam o que passei a chamar de ciclo de operação da finança digitalizada. Trata-se de um processo em que: i) o encurtamento dos fluxos espaço-tempo, ao pressionar o aumento do número e do volume de operações e negócios, acaba ensejando ii) dificuldades adicionais nos âmbitos técnicos e políticos para a fiscalização e regulação desses mercados e seus agentes; situação essa que reforça, por fim, iii) a concentração e centralização de capitais nos mercados — num ciclo que tende a se retroalimentar continuadamente.


IHU On-Line - Como o Brasil tem atuado nesse processo de “finança digitalizada”?

Edemilson Paraná - O Brasil foi personagem da história da financeirização do capitalismo desde seu início. Primeiro, na crise das dívidas latino-americanas — que ocorre logo depois da demanda por crédito que acabaria produzindo uma das primeiras bolhas globais de ativos financeiros do novo capitalismo financeirizado. A partir da década de 1990, depois de seguir à risca todo um conjunto de reformas liberalizantes, o país se transforma, como chama a professora Leda Paulani, numa espécie de “plataforma de valorização financeira”, ou seja, num mercado emergente em que o investimento internacional pode obter elevados ganhos de curto prazo em moeda forte. A partir dos anos 2000, o fortalecimento acentuado da moeda (produto também de especulação cambial) e a sustentação de uma enorme taxa de juros consolidam uma inserção internacional da economia brasileira em que os grandes vencedores são basicamente os setores rentistas. Assim, a lógica financeira acaba prevalecendo no processo de acumulação de nossa economia como um todo. Para termos uma ideia do que isso significa, a relação entre o estoque de ativos financeiros e o estoque de ativos produtivos, por exemplo, passa de 15% em 1992 para cerca de 75% em 2008.

Mercado de capitais

No que se refere especificamente ao mercado de capitais, onde me detive na pesquisa que resultou no livro, é bastante interessante observar essa mudança. Nosso modelo de negociação passa a se configurar basicamente em consonância com os parâmetros internacionais, de modo a atender as exigências de conectividade e rapidez desse novo capital especulativo que chega com mais peso a partir da década de 1990. 

Conforme demonstro no livro, e recorrendo a inúmeros dados, a lógica geral da finança digitalizada — da qual falei há pouco — pode ser observada sem grandes ressalvas também aqui no Brasil, ainda que em intensidade reduzida e respeitando as nada desprezíveis particularidades próprias ao mercado brasileiro. A eletronificação e a automatização crescentes do nosso mercado de capitais são nitidamente acompanhadas por aceleração de processos, aumento substancial no número e velocidade de negócios realizados, concentração em diferentes níveis (investidores, empresas listadas em bolsa, corretores), aumento da proeminência de investidores e corretores estrangeiros e diminuição da participação de pequenos investidores no mercado, desemprego entre os operadores, entre outras mudanças. 

Para ficarmos apenas com um exemplo, atualmente mais de 40% de todas as operações de compra e venda de papéis na bolsa brasileira são realizadas por mecanismos automatizados de negociação, também chamados "robôs" investidores.


IHU On-Line - Como as perspectivas da financeirização e da finança digital atualizam o desenvolvimento do capitalismo e de que maneira essas novas perspectivas se diferenciam do capitalismo da Revolução Industrial do século XVIII?

Edemilson Paraná - Esse é um assunto que enseja um longo debate. De várias maneiras nos deparamos com realidades distintas das observadas no século XVIII e XIX, quando podemos dizer que as primeiras sociedades por ações, bolsas e mercados de capitais ainda engatinhavam tendo em vista o que são hoje. O mesmo podemos dizer das novas formas e expressões que assume o desenvolvimento tecnológico. Penso que a investigação e definição do que chamo de finança digitalizada é um exemplo importante de algumas dessas diferenças.

Ela é, como eu disse, uma forma bastante nova de gerir tecnicamente a operação dos mercados financeiros. Uma forma que aposta crescentemente em operações automatizadas, com baixa latência, conectividade de alta intensidade e computação de alta performance. Trata-se de algo que colocou na casa dos mili e até nanossegundos os movimentos de arbitragem e de especulação executados por “robôs” — softwares que atuam por meio de padrões e modelos matemáticos sofisticados. Assim, esse novo modelo abandona, cada vez mais, avaliações qualitativas relativas à "saúde" das empresas, do ambiente de mercado e da economia como um todo, para combinar ordens de compra e venda utilizando basicamente duas variáveis: tempo e preço. Se essa é uma realidade crescente, conforme se aprofunda o quadro de dominância financeira na economia mundial, o uso intensivo de tecnologia torna ainda mais imperativa essa lógica, sobretudo para os grandes investidores.

A natureza financeirizada do capitalismo

Esse é um cenário que inaugura todo um conjunto de novos acontecimentos, riscos e problemas, muitos dos quais, inclusive, ainda não conhecemos. Mais amplamente, a própria natureza financeirizada do capitalismo e, no interior desta, a importância do dinheiro e das distintas formas que o capital assume, trazem novidades sobre as quais muitos pesquisadores e pesquisadoras competentes têm se debruçado ultimamente.

Mas se é verdade que há novos aspectos e realidades a serem devidamente entendidas e explicadas, é igualmente correto dizer que isso também fez aprofundar muitas das tendências do desenvolvimento do capitalismo observadas e compreendidas já no século XIX e XX. Autores como Karl Marx , por exemplo, já apontavam as tendências de destruição das barreiras espaciais opostas ao intercâmbio, de expansão do capital por todo o planeta e, no bojo desse movimento, de “anulação do espaço por meio do tempo”. Com isso, ele queria dizer que é da natureza do capitalismo reduzir a um mínimo o tempo tomado de um lugar ao outro, algo que tende a se aprofundar tanto quanto mais desenvolvido o capital estiver. De alguma forma, talvez seja possível dizer que estamos nos deparando com uma nova e radicalizada versão desse prospecto. 


IHU On-Line - Como as tecnologias da informação e comunicação têm apoiado o surgimento de novas formas de espoliação das pessoas? De que forma elas também contribuem para o aprofundamento e fortalecimento do processo de financeirização da economia mundial?

Edemilson Paraná - Para além do que já mencionei, cabe adicionar, mais especificamente, que ao encurtar o tempo como forma de ampliar o número e o volume de operações nos mercados, ampliando seus ganhos de curto prazo, o desenvolvimento das TICs aponta para um cenário ainda mais favorável à manutenção e aprisionamento de capitais na esfera financeira, aprofundando sua dimensão rentista e curto-prazista. Esse crescimento reforça a tendência à concentração dos capitais e, desse modo, ao aumento das desigualdades. 

A riqueza concentrada na esfera financeira, e gozando de ampla liberdade para os capitais, garantida institucional e tecnicamente, termina, por fim, ampliando as tendências de descolamento entre economia real e fictícia (ou, mais apropriadamente, a dominância desta em relação àquela), num quadro de produção crescente de instabilidade financeira e crise. Naturalmente, a dimensão espoliativa — seja via exploração redobrada do trabalho, seja pelo aprofundamento dos processos de obtenção de novos recursos e produtos naturais, terras, etc. — é que alimenta essa ciranda de valorização financeira crescente.  


IHU On-Line - O senhor chama atenção para o fato de que em 2014 cerca 40% das operações de compra e venda de ações e demais papéis no mercado brasileiro eram realizadas por robôs. Como essas operações são realizadas e que problemas evidencia nesse tipo de prática? Como se dá a programação desse serviço e qual é o perfil das pessoas ou empresas que o utilizam?

Edemilson Paraná - Essas operações são realizadas basicamente por meio de mecanismos de negociação automatizada, que combinam uma robusta estrutura de rede a potentes hardwares e, o mais importante, a softwares altamente sofisticados. Uma vez que tais softwares estão estruturados em modelos matemáticos complexos, convencionou-se chamá-los negociação algorítmica, em inglês Algorithmic Trading/Trader, AlgoTrader ou simplesmente ATs. Alguns desses AlgoTraders, no entanto, realizam seus movimentos e estratégias de negociação em altíssima velocidade, na casa dos milissegundos. Esses são chamados High Frequency Trading/Trader ou HFTs, em português: negociação em alta frequência ou de alta velocidade. A programação desses serviços exige, além de uma boa estrutura de acesso, hardwares potentes e softwares complexos. Geralmente são produtos e soluções tecnológicas de nicho, customizadas diretamente com base nas necessidades dos investidores, que, em grande parte dos casos, são grandes fundos, empresas, bancos e instituições financeiras que transacionam enormes volumes diários. A maior parte desses investidores paga caro, inclusive, para ter acesso a dados de mercados restritos e para conectar seus computadores diretamente aos servidores das bolsas. 

Muitos dos programadores desses "robôs" de negociação são físicos, astrofísicos e matemáticos, profissionais com familiaridade e capacidade para lidar com modelos matemáticos complexos. Na bolsa de valores brasileira, 40% do total de compras e vendas de papéis ocorrem por meio desses mecanismos, mas no mercado estadunidense já passa de 70% do total. De qualquer forma, para além disso, quase tudo o que ocorre hoje em um mercado de capitais ou bolsa de valores se dá de forma automatizada. Aquela imagem clássica, e consagrada no jornalismo e no cinema, de operadores gritando e acenando uns com os outros simplesmente não existe mais. 


IHU On-Line - Em que medida se pode comparar as operações de compra e venda das ações e dos demais papéis no mercado realizadas por robôs, mecanismos de negociação automática, com o velho princípio das máquinas caça-níqueis?

Edemilson Paraná - Talvez seja, de fato, uma comparação oportuna do ponto de vista econômico, mesmo que não muito precisa do ponto de vista técnico. Isso pode variar em cada caso. É que ainda que alguns dos mais rudimentares entre esses bots operem exatamente nesta chave, eu diria que, em geral, eles são mais sofisticados que os caça-níqueis convencionais. Isso porque são mecanismos que operam em um ambiente complexo e relativamente imprevisível e, portanto, precisam de ação rápida e flexível, com alta capacidade de processamento de novas informações e, se possível, alguma predição dos movimentos de seus concorrentes, bem como do mercado como um todo. Alguns desses mecanismos, por exemplo, valem-se de aprendizado e inteligência de máquina, Big Data, e estratégicas que contam com operações em altíssima velocidade. Trata-se, então, de um jogo mais complexo. Talvez possamos pensar alternativamente em algo como um híbrido entre uma máquina caça-níquel e um xadrez high tech. 


IHU On-Line - Quais as consequências políticas e sociais para uma civilidade que se alicerça nos princípios de financeirização e na velocidade das tecnologias da informação e comunicação?

Edemilson Paraná - As consequências, algumas das quais já mencionei, são muitas. O aumento substancial dos ganhos na esfera financeira não pode ser lido isoladamente, como um dado meramente contábil. Inter-relacionados com o funcionamento dos mercados financeiros estão, além da produção industrial e agropecuária, as dívidas soberanas dos países, sistemas de pensões e aposentadorias, investimentos pessoais e até o suprimento de alimentos na economia mundial. 

Um estudo da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento - UNCTAD, publicado em 2012, demonstra, por exemplo, que o grande envolvimento de investidores em inversões crescentes em commodities, negociadas como ativos financeiros, tem alterado o funcionamento do mercado de alimentos global. Ainda de acordo com o trabalho, o avanço na utilização de mecanismos de negociação automatizada de alta frequência nesse setor desenha um novo passo na financeirização do mercado de alimentos e produtos primários, afetando, especialmente, os países mais pobres, que acabam tendo sua segurança alimentar condicionada à volatilidade dos movimentos de preços nos mercados da finança digitalizada. Os exemplos são muitos.

Tudo somado, a função “teórica” conferida aos mercados financeiros como alocadores de necessidades econômicas, ao possibilitarem o encontro de compradores e vendedores, tomadores e emprestadores de recursos para viabilizar negócios e a produção econômica como um todo — aquela que gera consumo, renda e emprego, e assim, ganhos sociais — perde cada vez mais relevância em detrimento de uma lógica crescentemente especulativa, que drena e concentra os excedentes da produção social na esfera financeira. Excedentes estes que passam a ser retroexplorados, como eu disse, por meio de arbitragem na escala de milissegundos, viabilizada por avanços tecnológicos de ponta. Quando falamos de financeirização, em geral, e da finança digitalizada, em particular, é preciso entendermos que estamos falando da vida das pessoas, de como reproduzem materialmente os aspectos mais básicos e urgentes de suas existências.


IHU On-Line - Quais as implicações éticas que vislumbra nesse modelo de “finança digitalizada”? Quais são as implicações reais que esse tipo de prática gera, especialmente quando se trata das desigualdades sociais?

Edemilson Paraná - Para além dos muitos outros desdobramentos que citei anteriormente — das dificuldades adicionais para a regulação e regulamentação, do aumento da complexidade operacional e do risco sistêmico, da concentração em praticamente todos os níveis —, está relacionado a esse processo, ainda, além de outras distorções, o crescente poder político dos operadores financeiros em definir os rumos sociais e políticos de nossas sociedades. Trago no livro, em caráter de ilustração, alguns dados sobre a enorme dimensão do lobby e doações de campanha dos chamados fundos quant e grandes operadores da finança digitalizada na política americana. Isso acontece também no Brasil, especialmente por meio dos grandes bancos, que têm um peso enorme em nossa política.

É intrigante observar como, na medida em que busca ganhos especulativos instantâneos, a finança praticamente expressa seu apoio ou rejeição a cada iniciativa política em tempo real. Percebemos isso, por exemplo, diante das subidas e descidas do mercado durante as etapas do processo de impeachment. Assim, e atuando abertamente como um agente político, ela acaba determinando, também, os limites do bem-estar social a cada momento — o que pode ou não pode ser realizado no quadro de nossa democracia limitada. Para citar o professor Alfredo Saad, é como se não pudesse existir atividade social e política, hoje, à parte das finanças e de seu impacto, ou ignorando a reconfiguração das estruturas econômicas e ideológicas dominadas pelo setor financeiro globalizado.


IHU On-Line - Como superar uma ideia de sociabilidade que não funcione a partir do paradigma do cálculo (mais e menos)?

Edemilson Paraná - Bem ou mal, essa é uma questão sobre a qual a tradição crítica no pensamento social tem, direta ou indiretamente, se debruçado há pelo menos um século. Avançamos muito na elaboração dessa crítica, certamente, mas há ainda um longo caminho pela frente, não só porque a realidade é um processo em contínuo movimento e mudança, mas porque temos, adicionalmente, a árdua e contraditória tarefa de operacionalizar essa crítica em termos de uma política transformadora crível, realizável e que seja capaz de mobilizar de fato, e cotidianamente, as pessoas em torno de novos horizontes e formas de sociabilidade. 

É verdade que novas práticas políticas, novas formas de agir, se relacionar e simbolizar o mundo, bem como inovações sociais e comportamentais devem ser vistas como pontes para a realização desse ideário. Mas o transcorrer das últimas quatro décadas — período que, de algum modo, a discussão do livro cobre — nos demonstra que não podemos abrir mão da dimensão sistêmica, estrutural e macrossocial de análise e crítica. Nessa chave, a ação contra-hegemônica e a busca por esferas mais amplas de interconexão radical de toda essa multiplicidade e pluralidade de lutas tornam-se fundamentais. A finança digitalizada é um processo sistêmico e global. Perder de vista a necessidade de superar o capitalismo como modo de produção, organização e gestão da vida social significa, de certa forma, consciente ou inconscientemente, capitular a um certo imediatismo ansioso, angustiante e fragmentário, que tem apresentado baixíssima capacidade e efetividade transformadora.  

Impasses no e diante do capitalismo

Nesse intento, nos deparamos, então, com pelo menos dois grandes impasses que precisam ser equacionados e coordenados de algum modo. O primeiro significa pensar o que fazer no capitalismo, ou seja, quais as margens para a transformação política e social necessárias e imediatamente visíveis no interior do atual sistema social. Sabemos que há uma agenda de importantes tarefas nesse particular: distribuir a riqueza social, garantir uma condição digna de vida para todos — com acesso universal à saúde, educação, transporte, lazer, seguridade social, e direitos que impeçam uma exploração desmedida do trabalho —, integrar no gozo desses mesmos direitos as minorias políticas e sociais que estão historicamente à margem, combatendo as inúmeras formas de opressão existentes, adotar medidas de sustentabilidade e preservação ambiental, e, naturalmente, empurrar as margens de alcance de nosso falho e limitado arranjo democrático, aumentando a participação direta, a transparência, a liberdade social e o poder de decisão coletiva. 

Mas para além dessa agenda de lutas, há ainda um segundo — e quiçá mais importante — impasse: que é o que fazer face ou diante do capitalismo. Isso porque a história nos prova que, mesmo regulado e relativamente organizado para o atendimento eventual de algumas necessidades sociais, o capitalismo não pode deixar de ser um sistema inerentemente explorador e, por isso, instável, produtor de crises e catástrofes. Dado que não podemos alcançar a garantia, permanência e plenitude dos avanços sociais e políticos mencionados senão a partir de uma forma distinta de organização global da sociedade, é preciso nos mobilizarmos de modo a superar o atual estado de coisas naquilo que ele tem de mais fundamental. E, diante da grave crise ambiental, econômica, e civilizacional, em suma, com a qual nos deparamos atualmente, esse é um imperativo que se torna cada vez mais urgente. Lutar, ao mesmo tempo e coordenadamente, no e, sobretudo, contra o capitalismo é, então o desafio histórico a que somos chamados.                                                                                                


IHU On-Line - Como está compreendendo a realidade brasileira hoje nesse contexto de exploração do capital especulativo? Essa lógica tem ameaçado as políticas públicas e sociais e a política em si de algum modo?

Edemilson Paraná - Certamente, o cenário que descrevo no livro está, por várias razões, vinculado à crise econômica e política que vivemos atualmente no Brasil. O desmonte das tímidas políticas públicas que, graças a um longo processo de lutas sociais, surgiram nos últimos anos, o ataque aberto aos direitos trabalhistas e previdenciários e a sanha privatista dirigida às empresas públicas e aos aparelhos públicos de saúde e educação estão diretamente relacionados à agenda de manutenção, fortalecimento e ampliação da dimensão rentista e curto-prazista do financismo brasileiro. Sabemos que toda vez que isso acontece, os senhores da finança se ouriçam. Isso porque, enquanto fazem padecer as maiorias sociais, momentos de crise significam para eles também grandes oportunidades de ganhos. Então, uma vez que apenas um dos lados está sendo chamado aos sacrifícios de sempre, essa é uma agenda de retrocessos contra a qual a cidadania ativa deve se mobilizar com veemência.  

Para citar apenas de passagem um dado, é sabido que temos uma dívida pública jamais auditada, cujo serviço anual consome mais da metade do orçamento da União — dívida essa, aliás, que é remunerada à mais alta taxa de juros do planeta, para deleite de poucas famílias proprietárias. É o orçamento público, os impostos e, dessa maneira, o produto de nosso trabalho que estão, assim, em disputa. A dimensão espoliativa do capital especulativo brasileiro se torna ainda mais sonora quando, em um cenário de recessão geral, os bancos que operam no país acumulam lucros recordes. Some-se a isso a injusta e regressiva estrutura tributária, a concentração de renda e outras desigualdades sociais históricas que sustentam o atual estado de coisas, e está dado assim o quadro desfavorável em que teremos de desenvolver a luta política e social no Brasil nos próximos anos. Os desafios são enormes.  


IHU On-Line - Vislumbra linhas de fuga para a finança digitalizada?

Edemilson Paraná - Como disse, a finança digitalizada é, na verdade, parte de um cenário mais amplo vinculado às transformações estruturais observadas no capitalismo nas últimas décadas, nomeadamente a tendência da acumulação capitalista contemporaneamente se dar sob a dominância da valorização financeira. Encarar a finança digitalizada como problema é, portanto, encarar o capitalismo contemporâneo como problema. Para tanto, há um grande conjunto de tarefas e lutas possíveis de serem empreendidas objetivando transformações. Há muitas dúvidas sobre para onde caminha o capitalismo mundial na atual conjuntura e, junto destas, como devemos empreender lutas políticas e sociais em busca de sua necessária superação. Em todos os casos, penso que um diagnóstico o mais preciso possível da realidade concreta é um dos primeiros passos que devemos dar. É, de certo modo, uma contribuição adicional a esse esforço de leitura da realidade social, em um aspecto restrito dela, a que tenho me dedicado neste e em outros trabalhos que espero produzir.


IHU On-Line - De que forma analisa o papel da mídia no atual momento político e econômico brasileiro?

Edemilson Paraná - É patente o fato de que a imprensa, em geral, opera a serviço da lógica que descrevo, inclusive reforçando e apoiando, em muitos casos, as medidas de desmonte dos direitos políticos e sociais que mencionei. Sua agenda quanto aos direitos previdenciários e trabalhistas é especialmente elucidativa nesse particular, mas poderíamos falar ainda de outros aspectos problemáticos, como a cobertura de ações de movimentos sociais e da política em geral, bem como das relações internacionais, da economia e da política econômica, em especial. 

No entanto, gostaria de ressaltar um aspecto no que se detém à sua relação com finança digitalizada. É digno de nota o fato de que a colonização do mundo social pela dominância financeira atinge também, claro, a produção de conhecimento e informação. É o caso das grandes agências de notícias nacionais e internacionais, que se voltam cada vez mais para atender às necessidades de produção de informações em volumes e velocidades altíssimas para consumo dos mercados, financeirizando, dessa forma, até mesmo suas coberturas jornalísticas. A jornalista e pesquisadora Paula Puliti escreveu um livro interessante sobre o assunto — O Juro da Notícia (Ed. Insular, 2013), mostrando como o jornalismo econômico é pautado pelo capital financeiro. 

Para se ter uma dimensão do que isso significa, um dado que obtive em campo apontou que em 2014, dos 150 jornalistas que trabalhavam em uma grande agência de notícias no Brasil, 120 estavam dedicados apenas à produção de informações em tempo real para o mercado de capitais. A razão de tal fato não poderia ser outra: um de seus representantes nos relatou que o segmento de informações em tempo real para investidores é altamente lucrativo, com margem de retorno acima dos 30% de ganho, e já é responsável, inclusive, por quatro quintos de todo o faturamento da agência. Dado que a imprensa porta a contradição de ser, ao mesmo tempo, instituição pública e empresa privada, e que, portanto, visa primariamente ao lucro, penso que dados dessa natureza servem para demonstrar meu argumento.

Últimas edições

  • Edição 503

    A ‘uberização’ e as encruzilhadas do mundo do trabalho

    Ver edição
  • Edição 502

    Sociabilidade 2.0 Relações humanas nas redes digitais

    Ver edição
  • Edição 501

    O Holocausto no cinema. Algumas aproximações

    Ver edição