Edição 484 | 02 Maio 2016

O complexo Oriente Médio: um breve histórico para os dias atuais

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Carla Holand Mello

“Destaca-se também o papel histórico da ingerência externa das grandes potências ocidentais nestes países, fruto do imperialismo europeu dos séculos XIX e XX e de seu interesse econômico posterior – sobretudo energético em razão do petróleo e do gás e da chamada “geopolítica do petróleo” – conjuntamente com os Estados Unidos”, analisa Carla Holand Mello.

Carla A. R. Holand Mello possui graduação e mestrado em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e atualmente é doutoranda em Estudos Estratégicos Internacionais pela mesma instituição. É professora no curso de Relações Internacionais da Unisinos, tendo atuado também no curso de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM.

 

Eis o artigo.


O Oriente Médio é conhecido por ser uma região de alto grau de instabilidade política historicamente. Contudo, pouco se conhece sobre as matrizes civilizacionais, políticas e econômicas desta região, o que desperta, no mínimo, grande curiosidade e uma porção de dúvidas na opinião pública em geral. Os países árabes – monarquias e repúblicas – e demais países locais que não se enquadram nesta matriz étnica, a saber, Irã, Israel e Turquia, pertencem a um grupo que se convencionou chamar na literatura estrangeira de Oriente Médio e Norte da África - OMNA ou, conforme a sigla em inglês, MENA - Middle East and North Africa.

Pode-se observar que há uma trajetória histórica presente nos Estados da região, os quais contam com problemas estruturais internos, tanto de caráter político quanto econômico. Estes fatores, por sua vez, acabam por impactar sua estabilidade doméstica e, de igual forma, a regional. Destaca-se também o papel histórico da ingerência externa das grandes potências ocidentais nestes países, fruto do imperialismo europeu dos séculos XIX e XX e de seu interesse econômico posterior – sobretudo energético em razão do petróleo e do gás e da chamada “geopolítica do petróleo” – conjuntamente com os Estados Unidos. A própria configuração do Oriente Médio como o conhecemos atualmente se deve ao desmembramento do Império Otomano, sendo suas províncias basicamente reconfiguradas na forma de territórios quase autônomos e distribuídas sob mandato da Liga das Nações entre as potências europeias ocidentais ganhadoras da I Guerra Mundial, a saber, Inglaterra e França. Afora este sistema de mandatos, outros territórios da região foram incorporados por britânicos, franceses e também italianos sob forma de colônias, protetorados, tratados e, em um único caso, condomínio (o Sudão Egípcio-Inglês).

Há semelhanças e ao mesmo tempo diferenças entre os países pertencentes ao Oriente Médio. Basicamente existem quatro matrizes culturais principais na região: a árabe – representando a grande maioria dos Estados –, a persa, a turca e a hebraica/judaica. Pode-se destacar também o impacto da religião e de seus desdobramentos na matriz de valores dos indivíduos, o que acaba por influenciar questões de cunho político e social. Há três religiões monoteístas principais: o Islã, o Judaísmo e o Cristianismo – estas duas últimas presentes em menor escala, mas com peso político importante, tanto pela presença do Estado judaico de Israel na região desde 1948, quanto pelas minorias cristãs presentes em quase todos os Estados há séculos, as quais inspiraram inclusive pequenos movimentos nacionalistas ainda à época do Império Otomano, como os armênios na Anatólia e os cristãos maronitas no Monte Líbano.

Contudo, sem dúvida é o Islã que acaba por se sobressair na arena política do Oriente Médio, tanto pelo contingente populacional que professa esta religião, quanto principalmente pelos grupos fundamentalistas que historicamente se formaram com base em diferentes escolas islâmicas de interpretação do Corão, que por sua vez impactaram a formação de grupos e partidos políticos, como a Irmandade Muçulmana no Egito, no início do século XX, e outros grupos posteriores, como o Hamas, o Hezbollah, a Al Qaeda e o mais atual Estado Islâmico.

Ainda em termos históricos, o Oriente Médio é uma região de grande interação intrafronteiriça entre os Estados que o constituem. A região foi composta em sua maioria de Estados instáveis, firmados em fracas bases democráticas desde sua descolonização. Entretanto, com movimentos como o pan-arabismo e o pan-islamismo, houve a possibilidade de integrar estes Estados politicamente dentro de suas fronteiras, bem como houve o surgimento de uma diplomacia no que diz respeito às particularidades regionais.

No pós-Guerra Fria, porém, a integração árabe perdeu seu ímpeto por dificuldades enfrentadas pelos próprios países árabes e pela atuação mais intensa estadunidense na região. Forças sistêmicas internacionais, representadas pela supremacia militar norte-americana no Mundo Árabe, foram determinantes para a ausência de integração política intra-árabe naquele momento. Além disso, pode-se destacar que problemas como o conflito israelo-palestina persistiram e a modernização com base em participação social e crescimento econômico não foi desencadeada, além do desenvolvimento do fundamentalismo islâmico.

O que poderia ter sido um período de avanços e organização estatal, tornou-se, a partir dos anos 1990, uma lenta marcha rumo ao que ficou conhecido como Primavera Árabe, a qual, na realidade, tem se mostrado, desde então, mais um período de agonia e desestruturação do sistema de Estados no Oriente Médio, do que um movimento de avanços rumo ao desenvolvimento econômico e de instituições políticas com maior apelo social e participativo.

Houve um ensaio na década de 1990 para a instabilidade regional que ocorreu nos anos 2000. Grande parte dos países optou pela liberalização das economias e pela participação na globalização econômica. Ademais, ocorreram desafios econômicos internos e demandas sociais que impactaram os regimes então vigentes – como maior participação política – e a frustação final com a tentativa de uma integração árabe que já perdurava por cinco décadas.

Em outras palavras, o Oriente Médio vem se deparando há décadas com problemas estruturais sérios e que assolam não só países da região, mas outros que possuem histórico de autonomia recente no sistema internacional (ex-colônias) e, ao mesmo tempo, dependência ou subordinação política e econômica. 

Há também fatores internos referentes a estes Estados que devem ser mencionados, como o nível de patrimonialismo nas relações governo — burocracias — empresários, corrupção, transparência eleitoral e nível de accountability dos regimes, para citar alguns. Não há como interpretar a dinâmica regional sem o fator de ingerência externa presente historicamente, porém a composição governamental e demais estamentos sociais domésticos, bem como níveis de atividade econômica devem ser observados, sem esquecer questões intrarregionais que vêm impactando e transbordando as fronteiras dos Estados, como a influência política do fundamentalismo islâmico e de atores não-estatais de alcance regional e global. Assim, sem dúvida, este é um complexo Oriente Médio.■

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