Edição 484 | 02 Maio 2016

O trabalho e suas dimensões estruturadora e opressora: faces da mesma moeda

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Leslie Chaves

Para Marcelo Afonso Ribeiro, o trabalho confere sentido à vida, mas ao mesmo tempo também pode gerar sofrimento psicológico se o lucro for seu objetivo único

O mundo do trabalho é composto por múltiplos aspectos que vão além das questões somente econômicas e do fazer técnico de cada área. Em verdade, tais elementos não podem ser dissociados dos contextos social e psicológico das relações laborais em um esforço de interpretação dos sentidos e práticas geradas pela experiência do trabalho. Para o psicólogo e professor doutor em Psicologia Social e do Trabalho Marcelo Afonso Ribeiro, a reflexão das relações laborais é importante porque, a despeito de “todas as mudanças geradas ao longo das últimas décadas e consolidadas neste início de século XXI, a atividade de trabalho segue sendo um dos estruturadores sociais agora concorrendo com o consumo”, explica.

Em entrevista por e-mail à IHU On-Line, o professor aponta que, apesar de hoje o ato de consumir tenha assumido um papel relevante na estruturação da sociedade, “o trabalho segue sendo a única atividade capaz de gerar sentido à vida das pessoas pela sua capacidade de transformação dessas pessoas e dos contextos gerados por ela mesma, o que o consumo não parece conseguir alcançar”. Entretanto, quando a perspectiva humana do trabalho é relegada e o objetivo principal da atividade laboral passa a ser exclusivamente o acúmulo financeiro, os danos psicossociais ao trabalhador e, consequentemente, à sociedade são evidentes. 

Marcelo Afonso Ribeiro é graduado em Psicologia, mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano, doutor em Psicologia Social e do Trabalho e tem Livre Docência em Psicologia do Trabalho e das Organizações, todos os títulos pela Universidade de São Paulo - USP. Atualmente é docente e pesquisador do Instituto de Psicologia da USP, onde é coordenador do Centro de Psicologia Aplicada ao Trabalho - CPAT. Também é professor visitante na Universidad Del Valle, na Colômbia, na Université de Savoie e no Conservatoire des Arts et Métiers, ambos localizados na França.

 

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Em que consiste o campo da Psicologia Social do Trabalho? De que modo essa área trabalha as relações e conflitos dos trabalhadores com e no mundo do trabalho?

Marcelo Afonso Ribeiro - A Psicologia Social do Trabalho é um campo da psicologia que tem seu foco não numa concepção abstrata ou uniformizada de trabalho, mas antes nas pessoas que realizam atividades de trabalho e de suas relações com estas atividades através da compreensão e atuação com os trabalhadores nas suas vivências cotidianas de trabalho. Não é uma psicologia que pensa sobre e atua sobre os trabalhadores e os contextos de trabalho, mas sim uma psicologia construída com os trabalhadores visando entender e intervir sobre seus cotidianos de trabalho. Neste sentido preconiza uma indissociabilidade entre pesquisa e intervenção, pois não há teorias e instrumentos predeterminados a serem aplicados em dado contexto, mas sim princípios, diretrizes e estratégias que norteiam a coconstrução dos saberes e fazeres necessários e contextualizados, em conjunto com todos os agentes envolvidos na situação. 

Propõe a análise e intervenção no mundo do trabalho como um todo, se constituindo numa psicologia do trabalho e das organizações do trabalho, não somente numa psicologia do emprego e das empresas, como aponta Leny Sato , pois considera todas as relações de trabalho possíveis, sejam elas formais, informais, não reguladas, remuneradas ou não remuneradas. Estuda, assim, desde o emprego tradicional numa empresa ou instituição pública até o trabalho de um camelô ou de uma dona de casa. Tem como princípio geral a ideia de que toda ação da psicologia é uma ação política e deve ser coconstruída em relação visando mudanças psicossociais, ou seja, não há mudança pessoal possível sem mudanças estruturais. 

 

Visão integral

Por exemplo, no caso do desemprego, o auxílio individualizado à pessoa em situação de desemprego é importante, mas insuficiente, se não for acompanhado de mudanças contextuais, como políticas públicas de geração de emprego, trabalho e renda. Ou, então, no caso do assédio moral em uma empresa, não adianta somente cuidar da pessoa assediada e punir o assediador, esta é uma ação importante, se for acompanhada de mudanças na lógica da organização do trabalho e das relações de trabalho e de poder nesta empresa. 

Por último, entende que conflito não é algo a ser eliminado através de estratégias psicológicas, mas algo a ser compreendido como decorrente das contradições e tensões dos contextos e relações de trabalho, principalmente pelas assimetrias de poder e sobrecarga de trabalho, e ser enfrentado através de negociação e diálogo entre as partes envolvidas, estas as únicas capazes de gerar conhecimentos e estratégias para lidar com estes conflitos. Em suma, conflito não é uma questão pessoal, mas sim relacional, o que inclui não somente os envolvidos no conflito, mas toda a estrutura e a dinâmica da organização e do contexto de trabalho. 

A Psicologia Social do Trabalho, então, é um projeto de auxílio na compreensão do fazer humano no cotidiano de trabalho e de melhoria das condições e organização do trabalho, bem como construção de alternativas organizativas de trabalho, sempre numa ação de coconstrução com todos os envolvidos na situação, na qual pesquisa e intervenção são indissociáveis para criação de estratégias de enfrentamento das tensões, contradições e conflitos do cotidiano de trabalhadores em contextos de trabalho.


IHU On-Line – Qual o papel do mundo do trabalho enquanto estruturador da vida de cada indivíduo e da sociedade?

Marcelo Afonso Ribeiro - O trabalho, principalmente a partir do século XX, se configurou como central para a existência humana, organizando a sociedade, as relações sociais e a vida cotidiana das pessoas. Apesar de todas as mudanças geradas ao longo das últimas décadas e consolidadas neste início de século XXI, a atividade de trabalho segue sendo um dos estruturadores sociais agora concorrendo com o consumo, ou seja, para alguns autores a atividade de trabalho seria a única capaz de conferir sentido e lugar social às pessoas por conta de suas características, entretanto outros autores colocam que o trabalho tem dividido o papel de organizador social com o consumo, principalmente entre os mais jovens. Desta forma, tradicionalmente, o consumo seria consequência do trabalho, mas, agora, o trabalho poderia ser apenas um meio para o consumo, restando uma dúvida sobre qual ação (trabalho ou consumo) teria potência para dar sentido à vida das pessoas. Além disso, o lazer e a possibilidade do tempo livre sempre foram relegados a um segundo plano numa sociedade capitalista pautada pela produtividade. 

Penso que o trabalho segue sendo a única atividade capaz de gerar sentido à vida das pessoas pela sua capacidade de transformação dessas pessoas e dos contextos gerados por ela mesma, o que o consumo não parece conseguir alcançar. Faz-se necessário marcar que concebo trabalho aqui em sua visão ampliada, ou seja, trabalho não é sinônimo de emprego, nem de trabalho formal, nem de trabalho remunerado, inclui todas estas expressões do trabalho, mas soma-se a elas o trabalho não remunerado, o trabalho informal, o trabalho voluntário, o trabalho doméstico, entre outras modalidades de trabalho. 

Trabalhar ainda é a ação primordial que estrutura a sociedade, tanto de forma direta (quando a própria pessoa trabalha, incluindo, aqui, todas as formas descritas de trabalho), quanto de forma indireta (quando a pessoa está se preparando para o trabalho através de uma formação ou se encontra aposentada ou apoia o trabalho de membro da família).


IHU On-Line – De que modo são tratadas as dimensões psicossociais do trabalho nas discussões sobre os diferentes aspectos que envolvem o mundo do trabalho? Os fatores psicossociais recebem a atenção necessária nesse campo?

Marcelo Afonso Ribeiro - Primeiramente, seria importante definir “psicossocial”, pois há várias formas de compreender este conceito. Podemos pensar no “psico-social”, partindo da pessoa ou da dimensão psicológica como base explicativa e concebendo pessoa e sociedade como coisas separadas. Igualmente, podemos pensar no “sócio-psicológico”, partindo da sociedade ou da dimensão social como base explicativa e concebendo, também, pessoa e sociedade como coisas separadas. E podemos, finalmente, pensar o “psicossocial” como uma impossibilidade de separar pessoa e sociedade, sendo necessário pensar sempre na relação entre as dimensões psicológicas e sociais para compreender, por exemplo, as atividades de trabalho e os conflitos nos contextos de trabalho. 

Em geral, os fatores psicológicos e sociais são tomados de forma separada privilegiando um dos aspectos da relação. No caso do desemprego, em geral, se pensam ações para auxiliar pessoas em situação de desemprego a lidar com o sofrimento gerado por esta situação ou a conseguir um novo emprego, atribuindo à própria pessoa a culpa por sua situação de desemprego, ou então se planejam ações de qualificação genéricas e nacionais, que não levam em conta a singularidade dos contextos de trabalho. Uma ação foca no pessoal e a outra ação no geral, sem integrá-las, muitas vezes. Penso que não há como conceber ações singulares, mas não acho que ações genéricas consigam atingir seus objetivos. 

 

Pensar o geral e considerar o específico

Gosto da ideia da concepção de diretrizes gerais, de preferência construídas em diálogo com os agentes envolvidos, que devem gerar ações contextualizadas através da elaboração de estratégias pertinentes ao contexto no qual serão realizadas com base nas diretrizes gerais, principalmente num país tão enorme como o Brasil. Será que podemos falar em mercado de trabalho brasileiro ou mesmo trabalhador brasileiro no singular? Ou teríamos que pensar em mercados de trabalho brasileiros ou mesmo trabalhadores brasileiros no plural? Gosto mais da segunda opção, pois tem mais potencial de compreender e atender as demandas dos contextos e dos trabalhadores. Em suma, pensar no psicossocial é pensar que nenhuma análise ou intervenção pode reduzir pessoas e contextos a apenas uma de suas dimensões (psicológica ou social), sob pena de não conseguir nem compreender, nem auxiliar trabalhadores e contextos e cotidianos de trabalho.


IHU On-Line - Há estimativas de que até o final de 2016 haja 12 milhões de desempregados no Brasil. De que modo esse dado pode impactar a saúde psicológica do trabalhador, tanto dos que estão trabalhando quanto dos que estão sem emprego?

Marcelo Afonso Ribeiro - Partindo do pressuposto de que o trabalho é central para a vida humana, estar sem trabalho é estar sem um componente central para a vida e afeta a vida de todos psicossocialmente. É importante marcar que estar desempregado no Brasil não significa, necessariamente, estar sem trabalho, e lembrar que, historicamente, em torno de 30% dos trabalhadores brasileiros não têm um emprego, mas trabalharam a vida toda, principalmente na informalidade, que é parte integrante do mundo do trabalho no Brasil. Assim, temos que distinguir o que é estar desempregado, ou seja, estar sem emprego, estar sem trabalho e estar sem renda, e analisar a pluridimensionalidade da questão em termos psicológicos, sociais e materiais, de forma psicossocial e sem separação possível. 

 

Múltiplas dimensões do trabalho e do desemprego

Para alguns estar sem emprego, mas com renda instável, é estar desempregado, enquanto para outros, ter uma renda, seja ela qual for, não lhe deixa na condição de desempregado. Somente a análise das múltiplas possibilidades de vínculo e realização do trabalho permitiria a compreensão dos impactos psicossociais da situação de desemprego ou não-trabalho, no caso de pessoas que não têm emprego, e da situação daqueles que trabalham informalmente, mas que estão sem geração de renda no momento. Em suma, qualquer leitura genérica da questão dos impactos psicossociais da situação de desemprego ou não-trabalho, irá analisar bem parte das pessoas nesta condição e irá criar análises equivocadas de outra parte. 

Muitas vezes, compreensões genéricas do desemprego aplicadas indiscriminadamente para todos podem causar igualmente sofrimento, às vezes não necessário. Por exemplo, dizer que todo trabalhador que está desempregado é desqualificado, sem conhecer a situação singular de cada um, é, muitas vezes, gerar um sofrimento desnecessário quando a questão da desqualificação não é o principal motivo da situação de desemprego. É importante salientar que desqualificação, no discurso do mercado de trabalho, tem sido tomada como uma máxima inquestionável (“O trabalhador brasileiro é desqualificado”), mas que, muitas vezes, em função da redução dos postos de trabalho e da superexigência de qualificação, o trabalhador não seria, em si, desqualificado, mas sim teria falta de qualificação necessária exigida por dado contexto de trabalho em dado momento, que, muitas vezes, é excessiva e exagerada. Neste exemplo, não seria o trabalhador desqualificado, mas o contexto superqualificado.


IHU On-Line – De que modo o cenário de precarização do trabalho, acentuado pela crise econômica, por medidas governamentais, como o PL 4330, entre outras, e pelos altos índices de desemprego, pode afetar a saúde psicológica do trabalhador?

Marcelo Afonso Ribeiro - Penso ser importante diferenciar ideologicamente precarização de flexibilização, pois são palavras distintas para explicar o mesmo fenômeno atual do mundo do trabalho. De um lado, o mercado fala em flexibilização do trabalho, como única maneira para o capitalismo seguir se desenvolvendo pela ruptura da rigidez anteriormente fixada pela Consolidação das Leis do Trabalho - CLT no Brasil (entenda-se rigidez como excesso de direitos aos trabalhadores). De outro lado, os trabalhadores e sindicatos falam em precarização, pois a flexibilização dos vínculos de trabalho, por exemplo, a terceirização, tornaria as condições de trabalho piores para os trabalhadores em nome do desenvolvimento do capital, como aponto em livro  de minha autoria.

Feita esta pontuação, toda e qualquer situação que torne a vida dos trabalhadores mais instável, com menos direitos e mais insegura, em termos psicossociais, impactará em suas condições psicológicas, seja pela terceirização, seja pelo desemprego. Na questão da terceirização, especificamente, estão em jogo lógicas de configuração social distintas, numa disputa entre socialdemocracia, neoliberalismo e socialismo, com uma larga vantagem atual do neoliberalismo e o foco na meritocracia e no esforço individual para o sucesso, sem a preocupação com as condições de desigualdade que sempre viveu o Brasil ao longo de sua história. A equação entre desenvolvimento econômico e desenvolvimento social parece de difícil solução, principalmente em momentos de crise, mas vale lembrar que, atualmente, desenvolvimento econômico não tem significado melhorias de condição aos trabalhadores, como é o exemplo da terceirização, que é claramente prejudicial aos trabalhadores.


IHU On-Line – De que modo as pressões psicológicas por resultados e sobre a autoestima dos trabalhadores também podem se configurar como fatores de precarização imaterial do trabalho?

Marcelo Afonso Ribeiro - O estabelecimento de metas e a busca de status no trabalho, a priori, não configuram pressões psicossociais impossíveis de se aguentar. O problema é estipular metas irrealizáveis e padrões de sucesso e de ascensão genéricos e restritos a um grupo seleto de trabalhadores que a maioria não irá alcançar nunca na vida, em nome de uma pretensa produtividade necessária para a empresa se manter e manter os empregos que ela disponibiliza. Além disso, estimular a competição como regra de convivência seria um fator de precarização imaterial do trabalho. A nossa sociedade precisa parar para repensar suas prioridades: será que aumentar a produção a todo custo, inclusive da saúde dos trabalhadores e da destruição do meio ambiente, seria o melhor caminho? Este é o caminho que temos adotado há muito tempo e, mais intensamente, nos últimos 40 anos, e que parece não gerar bons frutos nem para a saúde e o sentido do trabalho para as pessoas, nem para o meio ambiente em que vivemos e é necessário para a manutenção da vida.

 

Leia mais...

- Você está demitido! Os impactos psicológicos do desemprego. Entrevista especial com Marcelo Afonso Ribeiro publicada na revista IHU On-Line, nº 291, de 04-05-2009.

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