Edição 482 | 04 Abril 2016

Lógica, o estado puro da realidade

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Márcia Junges | Edição Ricardo Machado

Konrad Christoph Utz analisa o pensamento de Hegel em perspectiva com o desenvolvimento que ele propôs de sua própria lógica

Da dialética clássica, por exemplo, a ideia da Caverna de Platão — mundo sensível e mundo das ideias —, à dialética hegeliana não há somente um hiato de dezenas de séculos, senão uma progressão dessa racionalidade, que no pensamento do filósofo alemão ainda vai se dividir em três etapas. “As três partes da Lógica hegeliana também se distinguem pelo modo como o progresso dialético se realiza em cada um. Na Lógica do Ser, este progresso tem a forma do transitar de um a seu outro. Na Lógica da Essência, ele tem a forma do regredir ou da reflexão a partir do exterior, imediato a seu interior, sua mediação-em-si, sua essência. Na Lógica do Conceito, por fim, o progresso não é mais exterior, de um ao outro, nem mais mera interiorização, do exterior para o interior, mas desenvolvimento”, explica Konrad Christoph Utz, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Para Konrad, a lógica de Hegel não tem pretensão de pressuposições, entretanto opera a partir dos próprios mecanismos. “A Lógica hegeliana não é apenas uma lógica formal como a lógica silogística de Aristóteles e a lógica que foi desenvolvida a partir de Frege que, hoje em dia, faz pretensão exclusiva a este título. Contra isso, Hegel argumenta que os conceitos lógicos já têm, em si mesmos, realidade. Essa realidade é realidade ideal, ela é realidade lógica”, pontua o entrevistado. 

Konrad Christoph Utz possui mestrado em Teologia e doutorado em Filosofia pela Universität Tübingen. Atualmente é professor efetivo da Universidade Federal do Ceará. Com experiência em Filosofia, com ênfase no Idealismo Alemão, atua principalmente com dialética, ciência da lógica hegeliana e com o conceito proposto por ele de necessidade e acaso. É autor, entre outros livros, de Die Notwendigkeit des Zufalls. Hegels spekulative Dialektik in der Wissenschaft der Logik (Paderborn: Schöningh, 2001), Philosophie des Zufalls (Paderborn: Schöning, 2005) e Freundschaft. Eine philosophische Theorie (Paderborn: Schöningh, 2012).

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Quais são os nexos entre Metafísica, Lógica e Acaso no sistema de Hegel?

Konrad Christoph Utz - Em Hegel, a Lógica toma o lugar da Metafísica tradicional. Essa última partiu da realidade como ela é dada e da linguagem como ela existe. A partir destes, ela tentou desenvolver uma teoria das estruturas mais fundamentais da realidade — o que chamamos de “ontologia” — como também dos princípios primeiros ou das “realidades fundamentais”, que são Deus, o Cosmo como um todo, e também a alma humana, pois essa pode, a princípio, conhecer o real em toda sua abrangência, como também agir na realidade de modo livre, espontâneo. Mas, com isso, ela é capaz de pôr, no real, um início de eventos que é independente e, neste sentido, absoluto. Essas três últimas investigações são chamadas de “Teologia racional (ou filosófica)”, “Cosmologia (racional)” e “Psicologia racional”. 

A Lógica de Hegel tem a pretensão de não pressupor nada. Com isso, ela não pode fazer referência a nenhum dado da realidade ou da linguagem, como fez a antiga Metafísica. Ao mesmo tempo, a Lógica hegeliana não é apenas uma lógica formal como a lógica silogística de Aristóteles  e a lógica que foi desenvolvida a partir de Frege  que, hoje em dia, faz pretensão exclusiva a este título. Como a Lógica transcendental de Kant,  a Lógica de Hegel faz pretensão a conteúdo. Este seu conteúdo, evidentemente, é puramente abstrato, é puramente lógico, conceitual — nada tem a ver, por si só, com realidades específicas ou com uma linguagem específica. A diferença com relação a Kant é que, neste, essa lógica permaneceu puramente formal — não no sentido da lógica forma de nossos dias, mas no sentido que os conceitos lógicos que a lógica transcendental identifica não apresentam nem servem, por si só, para um conhecimento, não servem para a identificação de algo real e a constatação de existência. 

Conceitos

Os conceitos transcendentais em Kant só podem fornecer conhecimento quando a intuição contribui a eles, enquanto puras formas. Elas são formas para um possível conhecimento. Mas a Lógica, o puro pensar, em abstração da intuição, não fornece conhecimento algum. Contra isso, Hegel argumenta que os conceitos lógicos já têm, em si mesmos, realidade. Essa realidade é realidade ideal, ela é realidade lógica. Mas, não obstante disso, ela é realidade. A lógica pode formular proposições existenciais. O exemplo mais fácil disso é o conceito do conceito. Este conceito não é apenas um conceito para uma possível aplicação. De imediato, por si só, ele aplica-se a si mesmo. Ele mesmo é uma daquelas realidades que instanciam o conceito do conceito. O conceito do conceito evidencia que há, que existe conceito — que este conceito não é vazio, como Kant dizia sobre os conceitos lógico-transcendentais. 

Portanto, para Hegel, a Lógica não é apenas uma Disciplina formal (como em Aristóteles e depois a partir de Frege) ou um empreendimento crítico como em Kant. Ela é ciência no sentido pleno, no sentido de fornecer informações sobre a realidade — mesmo que essa não seja a realidade em espaço e tempo, mas a realidade do próprio âmbito lógico, uma realidade ideal. Os conceitos que a Ciência da Lógica estabelece, são, grosso modo, aqueles dos quais tanto a Metafísica tradicional como também a Lógica e a Dialética transcendental de Kant tratavam. São as determinações das estruturas mais fundamentais do real, bem como do Cosmo, do Sujeito e do Absoluto. 

Lógica Hegeliana

Mas a Lógica hegeliana trata destes conceitos sem qualquer referência à realidade fora da lógica, diferente de como fez a Metafísica tradicional. Pelo outro lado, Hegel defende, contra Kant, que estes conceitos não são apenas formas vazias do entendimento ou ideias da razão, inaplicáveis a qualquer realidade que pode ser conhecida por nós. Estes conceitos têm “realidade lógica” ou efetividade. E este tipo de efetividade, a efetividade lógica, é o mais fundamental, aquele que possibilita, em seguida, a realidade espaço-temporal. Mas uma investigação verdadeiramente científica dessa efetividade fundamental, da efetividade do lógico, precisa proceder de maneira puramente lógica, no pensar puro, em abstração de qualquer referência à realidade espaço-temporal. Este é, então, o projeto da Ciência da Lógica (CdL) em Hegel.

Acaso

O conceito do acaso é um dos conceitos que aparecem dentro da CdL, ele é um conceito lógico. Basicamente, ele é o conceito no qual se juntam atualidade e (mera) possibilidade. O acaso é aquilo que não é apenas possível, mas atual ou “efetivo”. Ao mesmo tempo, ele não é necessário, mas meramente possível ou contingente. É importante compreender que o conceito da mera possibilidade ou da contingência não implica a atualidade. Isso é evidente: o meramente possível pode ou ser ou não ser. Mas, justamente por isso, a existência, a atualidade, de algo contingente vai além da mera contingência. 

Quando digo que algo é um acaso, não digo apenas que ele é contingente, mas que é uma atualidade contingente. Mas exatamente isso é a importância fundamental do acaso: ele torna algo que é contingente, algo que pode ser ou não ser, em algo que, de fato, é, que tem atualidade. Essa compreensão já se encontra em Hegel. Contudo, Hegel acha que, embora o acaso seja um conceito da lógica, a lógica, em si mesma, não tem nada de ocasional, ela é puramente necessária. No sistema de Hegel, o acaso acontece, de fato, apenas na realidade espaço-temporal, justamente naquela realidade com a qual a Lógica, por si só, não tem alguma relação. Na realidade, conforme Hegel, o acaso de fato acontece. Isso distingue Hegel de Kant e de um grande número de outros filósofos que não admitem o acaso nem na realidade espaço-temporal. Mas não há acaso na Lógica hegeliana. E o acaso real jamais ameaça a necessidade imanente do lógico e do espiritual.

 

IHU On-Line - Em que aspectos esses conceitos são expressão da dialética desse pensador?

Konrad Christoph Utz - A dialética é o método geral do desenvolvimento dinâmico da Ciência da Lógica de Hegel, bem como de seu Sistema como um todo. Neste sentido, a dialética é expressa pela Lógica, mas ela permeia e articula a Lógica enquanto essa é um sistema dinâmico que se evolve. O acaso é apenas um dos muitos conceitos dentro da Lógica de Hegel. A dialética como Hegel a concebe é estritamente necessária, seu caminho é sem alternativas, completamente determinado. Não há, nela, espaço para o acaso. O acaso acontece, de fato, nos eventos e desenvolvimentos em espaço e tempo, principalmente nos desenvolvimentos históricos. Contudo, a dialética que governa estes desenvolvimentos apresenta exatamente aspecto seu não-ocasional, aquilo que, neste evoluir histórico, não é contingente e arbitrário, mas necessário e racional. Aquilo que é contingente na natureza e na história é justamente isso que não é determinado pela dialética.

 

IHU On-Line - Em que medida se pode falar em Lógicas, no plural, na filosofia hegeliana?

Konrad Christoph Utz - Em Hegel, não há lógicas alternativas, pois o âmbito da Lógica é o âmbito da pura necessidade. Na Lógica, tudo é como é, tudo é como precisa ser, não há espaço para variações. A única questão seria se Hegel admite outros tipos de lógica além da Ciência da lógica. O único candidato pensável para isso seria a lógica formal, a lógica no sentido da tradição aristotélica, como também da lógica contemporânea. Dessa lógica formal, Hegel fala muito mal. Ele mal quer conceder a ela o título de “lógica”, prefere chamá-la de pura “silogística” ou “cálculo”. Mesmo enquanto tal, ela é derivada da Ciência da Lógica, mais precisamente de uma pequena parte específica dessa, do capítulo sobre o conceito do silogismo.

 

IHU On-Line - Como é possível compreendermos que a pura ciência ou Lógica se divida em três partes: lógica do Ser, lógica da essência e lógica do conceito?

Konrad Christoph Utz - São esses os três âmbitos de determinações lógicas. A “Lógica do Ser” é aquela parte da lógica especulativa que, por primeiro, contém o conceito do ser e, por segundo, todos aqueles conceitos lógicos pelas quais o ser é articulado e diferenciado de maneira mais específica, tais como a qualidade, a quantidade e a medida. 

O mesmo vale, de forma análoga, para a Lógica da Essência e a Lógica do Conceito. Os conceitos da Lógica do Ser correspondem ao que, na ontologia tradicional, foi chamado de “categorias”; aqueles da Lógica da Essência apresentam os assim chamados conceitos da reflexão; os conceitos da Lógica do Conceito, em sua primeira seção, são os conceitos fundamentais da Lógica Formal (conceito, juízo, silogismo, junto com seus respectivos conceitos subordinados), em sua segunda seção correspondem aos conceitos fundamentais da Filosofia da Natureza e, em sua terceira seção, apresentam os conceitos básicos da Filosofia do Sujeito. 

Progresso dialético

As três partes da Lógica hegeliana também se distinguem pelo modo como o progresso dialético se realiza em cada um. Na Lógica do Ser, este progresso tem a forma do transitar de um a seu outro. Na Lógica da Essência, ele tem a forma do regredir ou da reflexão a partir do exterior, imediato a seu interior, sua mediação-em-si, sua essência. Na Lógica do Conceito, por fim, o progresso não é mais exterior, de um ao outro, nem mais mera interiorização, do exterior para o interior, mas desenvolvimento. Este termo, para Hegel, significa que o processo agora se realiza na própria coisa dada, por essa mesma coisa — assim como uma semente se desenvolve na forma da árvore, permanecendo a mesma coisa e seguindo a dinâmica inerente a ela mesma. Assim, diz Hegel, o procedimento dialético a partir do conceito tem a forma de um desenvolvimento deste próprio conceito por este próprio conceito — até este conceito atingir sua forma plena, perfeita, na assim chamada Ideia absoluta.

 

IHU On-Line - Fala-se na transformação da metafísica em lógica no idealismo alemão. Como esse processo se apresenta em Hegel?

Konrad Christoph Utz - Já falei sobre a relação de lógica e metafísica em Hegel em cima. Para o Hegel maduro, a Lógica toma o lugar da antiga Metafísica, não há mais metafísica, a não ser na forma da Ciência da Lógica. Mas isso era apenas o resultado de um longo processo. Inicialmente, Hegel defendeu, contra Kant, que precisamos, sim, de uma metafísica ao lado da lógica, ou, mais exatamente, no desenvolvimento sistemático da filosofia, depois da lógica. Contudo, infelizmente, não foi conservado nenhum documento que mostre como, exatamente, Hegel concebeu dessa metafísica. Temos apenas algumas indicações vagas que indicam respostas não muito satisfatórias. Seja como for, o Hegel maduro chegou à conclusão que, afinal das contas, Kant estava certo e a lógica, de fato, assume completamente o lugar e todas as funções da antiga metafísica. Por certo, a concepção específica que Hegel tinha dessa lógica era bem diferente da kantiana. Mas Hegel acabou reconhecendo que, com respeito à questão fundamental, Kant estava certo.

 

IHU On-Line - Como pode ser compreendido adequadamente o Acaso no pensamento hegeliano?

Konrad Christoph Utz - Já expliquei o conceito do acaso como ele aparece na Ciência da Lógica de Hegel. O assim definido acaso torna-se real em espaço e tempo. Estes últimos formam o início da Filosofia da Natureza, daquela parte do Sistema de Hegel que segue à Ciência da Lógica. Isso quer dizer: a Lógica ainda não tem a ver com espaço e tempo, estes não pertencem às determinações lógicas. Em espaço e tempo, conceitos (lógicos e outros) podem ser instanciados em diferentes lugares em tempos diferentes. Em alguns lugares, existem objetos, em outros não, em alguns há relação de causa e efeito, em outros não — e assim por diante. Isso é acaso no sentido explicado em cima: são realidades atuais, não meras possibilidades, mas que são contingentes a não necessárias. Contudo, Hegel defende que, por primeiro, este acaso real em espaço e tempo não ameaça a ordem fundamental necessária da realidade que é lógica. O acaso afeta apenas a instanciação dos conceitos em espaço e tempo, nunca afeta os próprios conceitos. Por segundo, a razão com sua necessidade se faz valer também no âmbito da realidade espaço-temporal. No âmbito da natureza, essa ordem racional ainda é fraca, ela deixa muito espaço ainda para a contingência. Mas quando se faz do passo decisivo da natureza ao espírito, abre-se novamente o âmbito da racionalidade explícita, que compreende a si mesma e se desenvolve por si mesma. Este desenvolvimento, em sua estrutura fundamental, é necessário como era o desenvolvimento da Ciência da Lógica — embora sua manifestação na história da humanidade esteja cheia de contingências. Mas justamente essas contingências são o efêmero, o não essencial, aquilo que não afeta o desenvolvimento dialético da história em seu fundamento. Outra vez, Hegel defende uma necessidade subjacente a todo processo e um fim necessário deste processo: a realização plena da liberdade, na forma da Ideia absoluta no Espírito absoluto. É essa a concepção final na qual culmina o Sistema filosófico de Hegel. 

Eu pessoalmente defendo que isso não funciona. Defendo que a própria racionalidade, a própria lógica seja incompletamente determinada e insuficientemente autônoma. Defendo que o acaso seja um aspecto imprescindível e intransponível não apenas da realidade empírica, em espaço e tempo, mas também da lógica, do âmbito da abstração e das determinações puras. Com isso, chego a uma filosofia que é fundamentalmente diferente daquela de Hegel, mesmo que ela guarde várias das compreensões de Hegel, principalmente sobre a dialética que, a meu ver, são importantíssimas.

 

IHU On-Line - Em que aspectos se pode falar numa Necessidade do Acaso?

Konrad Christoph Utz - Em Hegel, a necessidade do acaso seria a necessidade do conceito do acaso surgir no desenvolvimento dos conceitos lógicos. Necessariamente, o pensar puro chega a este conceito; necessariamente ele supera (suprassume) este conceito pelo conceito da Necessidade Verdadeira; necessariamente, o conceito do acaso será instanciado na natureza, na realidade em espaço e tempo; necessariamente, o acaso será superado (suprassumido) em espaço e tempo pela racionalidade do desenvolvimento da história da humanidade que culmina no Espírito Absoluto — que é perfeitamente racional, sem contingência alguma.

Na minha própria visão, a necessidade do acaso é muito mais fundamental: sempre quando há ordem, sempre quando há determinação, sempre quando há necessidade, sempre quando há algo, precisa também haver acaso. A própria necessidade exige que haja acaso, não pode haver necessidade absoluta, sem relação a acaso qualquer. Tal necessidade total anular-se-ia. O acaso é mais fundamental que a necessidade, a própria necessidade depende dele, ela só pode estabelecer-se, só pode fazer-se valer onde já tiver acaso.

 

IHU On-Line - A partir disso, o que é a dialética especulativa de Hegel na Ciência da Lógica?

Konrad Christoph Utz - A Ciência da Lógica é a teoria das formas puras do pensar, de formas que existem em e por si mesmas, em suas puras determinações, nas determinações do pensar. Disso surge a questão: Como pode haver determinação? Parece evidente que há uma condição mínima da determinação: ela precisa fazer alguma diferença. Uma determinação que não faz diferença alguma, não é determinação. Espinosa  formulou isso na famosa frase: “Toda determinação é negação”. 

Contudo, isso implica que a determinação seja inerentemente relacional. Nada é determinado em isolação, por si mesmo, mas apenas em relação negativa com outro. O problema é que isso parece levar a um relativismo total: nada é determinado por si e tudo é determinado apenas em virtude de outro — e esse, por sua vez, por outro e assim por diante. Mas se tudo é determinado apenas em virtude de outro e nada por si mesmo, nada é determinado em virtude de nada. O relativismo total implode. Precisa haver, portanto, o irrelacional, o imediato. Entretanto, conforme a sentença de Espinoza, este teria que ser completamente indeterminado. Mas o completamente indeterminado não pode servir como ponto de partida da determinação. 

A solução que Hegel propõe é: O irrelacional que solve o problema da determinação precisa ser um relacional de forma autorreferencial. Desta forma, ele é irrelacional com relação a seu exterior, ele não precisa de uma relação externa. Ao mesmo tempo, ele é diferenciado internamente, ele contém negação e, com isso, determinação. Só que essa determinação não o rompe em partes, mas a diferenciação é apenas dinâmica, ela existe no processo pelo qual ele efetua a referência a si mesmo. Essa estrutura de uma identidade que se autodiferencia e, ao mesmo tempo, compreende a si mesma como una nessa diferenciação é a estrutura do sujeito. 

Sujeito

O sujeito é o princípio fundamental de toda determinação. Mas, como expliquei, o sujeito só pode cumprir essa tarefa quando for compreendido como processual, e quando este processo, por sua vez, for compreendido como um processo de diferenciação, de negação e da consequente compreensão da unidade da diferenciação como um todo. Este processo é a dialética. Ela parte, necessariamente, por um imediato. Essa necessidade é, por primeiro, prática, pois justamente em virtude de tomar algo como começo, ele é tomado como imediato — senão seria preciso tratar de algo diferente antes dele e, consequentemente, ele não seria mais o começo. Mas essa necessidade também é teórica, pois, como expliquei, o relativismo total implode. Precisamos ancorar o processo relacional de determinação em algo que não é relacional por sua vez. Contudo, como este primeiro, este ponto de partida do processo dialético é um imediato simples, ele é deficiente, ele não pode ser determinado em e por si mesmo, justamente porque falta a ele a relação negativa que é imprescindível para qualquer determinação. Em virtude dessa defeituosidade, ele é negado. Para dar o exemplo mais famoso: A Ciência da Lógica começa com o Ser puro, porque ela precisa começar, e no começo não se pode pressupor nada — senão não seria começo propriamente dito. O Ser puro é justamente aquele pensamento que não contém determinação nenhuma, que não se diferencia por nada. Mas justamente por isso, o Ser puro é defeituoso: ele não se distingue do Nada (puro). Com isso, o pensar já efeitua, de fato, a negação: o Nada é a negação do ser. Mas essa própria negação, a relação negativa mostra-se deficiente, assim como o primeiro irrelacional, o Ser puro mostrou-se deficiente. 

Relação negativa

A relação negativa entre Ser e nada não consegue sustentar-se por si mesma: Ser puro e Nada puro não se distinguem em nada. Eles são a mesma coisa. Isso, evidentemente, é uma contradição: a identidade de incompatíveis. Como o pensar não pode permanecer na contradição, ele precisa negar outra vez. Mas essa vez, ele nega não um lado ou outro da relação negativa entre o Ser e o Nada, mas ele nega essa relação como um todo — pois a contradição consiste justamente nessa relação como um todo, e é a contradição que tem de ser negada. O resultado da relação exclusiva entre Ser e Nada é, naturalmente, a relação inclusiva de Ser e Nada, o conceito de uma unidade dentro da qual Ser e nada estão em união harmônica e, ao mesmo tempo, continuam diferenciados. Este conceito o “devir” (o “vir-a-ser”), pois neste Nada transita em Ser e Ser transita em Nada. Nessa unidade dinâmica do transitar, Ser e Nada coexistem em harmonia, sem perder sua diferença. Mas com isso, Ser e Nada não são mais conceitos independentes, mas meros momentos do Devir, momentos da realização do Devir. O próprio Devir diferencia-se em Ser e Nada e, ao mesmo tempo, compreende-se como a unidade dinâmica, diferenciante destes dois. O tri-passo Ser-Nada-Devir é apenas o primeiro de uma longa cadeia de tais passos dialéticos na Ciência da Lógica que culminam na Ideia absoluta que é a forma plena e mais alta da autoefetivação da autodiferenciação e, com isso da autodeterminação. E, como tal, a Ideia absoluta é sujeito, como já expliquei. Mas ela só pode ser sujeito e, com isso, cumprir sua tarefa de resolver o problema da determinação quando ela for, em si mesma, dialética. A dialética é o princípio dinâmico, metodológico, da determinação, de toda determinação, pois, em última instância, qualquer determinação precisa remeter-se àquilo que nem é puramente irrelacional nem plenamente relativo, mas “irrelacional-relativo” ou “irrelacional-relacionante”.

Defesa à dialética

Eu pessoalmente acho que Hegel estava certo quando defendeu que apenas a dialética pode resolver o problema da determinação, que apenas a dialética pode garantir que haja determinação qualquer. Contudo, acho que ele estava errado quando pensou que essa dialética possa resultar numa pura autorreferência, que ela possa suprassumir a diferença e, com isso, a contradição numa unidade autorreferencial. Penso que, assim como relacionalidade e irrelacionalidade são inseparáveis e irredutíveis uma à outra, também autorreferencialidade e allorreferencialidade (referência a outro) sejam inseparáveis. Como expressão dessa inseparabilidade num processo dinâmico, dialético uso o termo “acaso”, porque me parece o mais adequado entre todos os conceitos de nossa linguagem comum que temos. O acaso está numa relação incompleta com seus antecedentes, ele é incompletamente condicionado — assim como ele é incompletamente irrelativo, incompletamente incondicionado. Ao mesmo tempo, sua relacionalidade e sua irrelacionalidade, seu ser-condicionado e seu ser-incondicionado não podem ser divididos em partes ou aspectos nitidamente separados um do outro. Apenas desta forma, apenas a partir do acaso, do originar dialético, incompletamente condicionado, é possível que haja determinação, que haja algo, que haja realidade.■

 

Leia mais...

- Ser Liberdade – O sujeito livre na filosofia hegeliana. Entrevista com Konrad Christoph Utz publicada na revista IHU On-Line, nº 430, de 21-10-2013. 

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