Edição 482 | 04 Abril 2016

A metafísica revista como lógica

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Márcia Junges| Edição João Vitor Santos

Joãosinho Beckenkamp analisa a metafísica transmutada em lógica, como o que chama de lógica hegeliana, uma nova perspectiva que tomou o lugar da metafísica tradicional

 

Em Hegel, pensar metafísica é se despir de proposições fundamentais que orientam um pensamento sistemático. É algo mais complexo, com inúmeras interconexões concebidas organicamente. É nessa perspectiva que o professor Joãosinho Beckenkamp analisa a “metafísica transformada em lógica” ou, como chama, a “lógica hegeliana”. “É preciso que fique claro que, se continuamos a falar de uma metafísica hegeliana, trata-se sempre de uma metafísica transformada em lógica, ou seja, da lógica hegeliana, que tomou o lugar da metafísica, não se devendo confundi-la com a velha metafísica”, completa. Significa pensar numa nova forma de metafísica, em que “o absoluto tem de ser compreendido tanto como substância quanto como sujeito”. 

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Joãosinho destaca que toda a geração de Hegel supera a ideia de “um sistema que reduzia tudo a uma única substância impessoal e destituída de entendimento e vontade, sendo qualquer subjetividade mera modificação em seus atributos”. Isso porque, segundo ele, é uma mesma geração que cresceu também “sob a influência marcante da filosofia de Kant, cujo núcleo subjetivo foi desenvolvido por Fichte”. “Hegel optou pela via fichtiana, expondo a completa subjetivação da substância, o que para ele significa, no entanto, que o absoluto se realiza completamente através dos sujeitos num processo histórico em que educação e formação individuais, herança cultural e emulação dos povos constituem a verdadeira efetividade do espírito”, completa o professor.

Joãosinho Beckenkamp é professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, possui mestrado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e doutorado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp. Em 2003-2004 realizou estágio pós-doutoral junto ao Arquivo Hegel, em Bochum, na Alemanha. Sua experiência é centrada na área de História da Filosofia, com ênfase no Idealismo Alemão. Entre suas publicações, destaca-se Immanuel Kant, Princípios metafísicos da doutrina do direito (São Paulo: WMF Martins Fontes), O jovem Hegel: Formação de um sistema pós-kantiano (São Paulo: Loyola, 2009) e Entre Kant e Hegel (Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004).

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Por que ocorre a transformação da metafísica em lógica no idealismo alemão?

Joãosinho Beckenkamp - Para entender o sentido e o alcance da transformação da metafísica em lógica no idealismo alemão é preciso lembrar o estado da questão herdado por Kant  e sua geração. Em meados do século XVIII, David Hume  havia feito tábula rasa da metafísica tradicional, reativando um ceticismo que deixara de ser praticado com pleno vigor desde os tempos de Sexto Empírico . Colocando radicalmente em questão os conceitos metafísicos de substância e causalidade, Hume colocou em xeque também a crença numa identidade pessoal substancial, que marcava a ideia de alma, e a crença na existência de uma unidade substancial causadora de tudo e todos, presente na ideia de Deus.

Ademais, com suas dúvidas céticas radicais acerca da possibilidade de sequer demonstrar a existência de objetos externos, Hume havia colocado em xeque a pomposa ciência do ser enquanto ser, que desde Aristóteles  nutriu a metafísica com suas elucubrações ontológicas. Com isto estava lançado um desafio radical à metafísica, cuja simples existência como disciplina filosófica séria estaria doravante em questão.

Filosofia do senso comum

O desafio de Hume à metafísica foi muito bem entendido, a ponto de ter ocasionado o surgimento de dois programas filosóficos distintos como resposta. O primeiro foi ensaiado por seus conterrâneos escoceses, com a criação por Thomas Reid  de uma filosofia do senso comum, cuja estratégia consistiu em atacar a própria filosofia que levou a um ceticismo tão radical, propondo como resposta última o refúgio na fé cristã e nas convicções do senso comum. A metafísica como disciplina filosófica propriamente dita não foi, contudo, reabilitada com isso, ficando agora sob duplo ataque, o cético humiano , que lhe nega qualquer fundamento cognitivo, e o suspicaz reidiano, que a denuncia como desdobramento consequente de uma razão abstrata que já não dialoga com a fé e as convicções do homem comum.

Filosofia transcendental kantiana

O segundo programa a responder ao desafio humiano é a filosofia transcendental kantiana. Kant reconhece, por volta de 1771, que o ataque de Hume à metafísica é o mais sério já feito desde que existe a disciplina, chegando a admitir nos Prolegômenos a toda metafísica futura que foi Hume quem o teria despertado de seu sono dogmático. A estratégia de Kant não consiste numa reabilitação da metafísica tradicional, pois concorda com Hume que ela carece de qualquer fundamento cognitivo; sua estratégia consiste em transformar a metafísica em lógica, cunhando para tanto a expressão “lógica transcendental”.

As quatro disciplinas da metafísica como praticada até o século XVIII, a saber, uma de metafísica geral ou doutrina do ente em geral, a ontologia, e três de metafísica especial ou do ente em espécie, nomeadamente, a psicologia ou doutrina da alma, a cosmologia ou doutrina do mundo e a teologia ou doutrina de Deus, são distribuídas em duas partes dessa lógica transcendental: a ontologia é reduzida à analítica dos conceitos e princípios do entendimento, tratada na analítica transcendental como lógica da verdade, e as disciplinas mais caras da tradição cristã, como a psicologia (na qual está em jogo a imortalidade da alma) e a teologia (na qual se trata essencialmente da existência de Deus), além naturalmente da cosmologia, são sistematicamente desconstruídas na dialética transcendental como uma lógica da ilusão, mostrando-se o caráter falacioso dos argumentos empregados para tentar estabelecer algum conhecimento acerca destes objetos caros à desmesurada expectativa de homens que não souberam ou não quiseram conviver com seus limites.

Tendo sido começado por Kant, este processo de transformação da metafísica em lógica é retomado por Hegel em 1801, conhecendo na década seguinte um aprofundamento e uma extensão tais, que a lógica passou a ser no sistema hegeliano a parte mais fundamental, aquela em que se articulam as categorias decisivas do conjunto do pensamento filosófico.

 

IHU On-Line - Como se dá tal transformação e qual é o seu impacto na filosofia sistemática de Hegel?

Joãosinho Beckenkamp - Um dos avanços substanciais da filosofia hegeliana em relação à kantiana é o aprofundamento da compreensão histórica da filosofia. Tomado em termos de história da filosofia e também de filosofia da história, a metafísica posta abaixo por Hume resultou de um processo de racionalização de fantasias religiosas de povos orientais que começaram a contrapor o mundo em que vivemos a uma divindade transcendente, concebendo inicialmente a ideia de que nosso mundo foi criado por tal divindade e posteriormente ainda a ideia de que há uma existência após a morte, em que a parte espiritual do indivíduo se juntaria à corte composta por aquela divindade e pelas pessoas já finadas, numa espécie de mundo puramente espiritual e completamente transcendente.

Tais representações religiosas colocam uma série de dificuldades para uma razão que busca entender como são possíveis as coisas. Estas dificuldades começaram a ser enfrentadas, com os recursos que a filosofia grega vinha desenvolvendo desde o século V a.C., quando a tradição judaica, e posteriormente também a cristã, encontrou-se com a racionalidade filosófica grega.

Como bem lembrariam mais tarde os cristãos, Platão  e o platonismo já haviam longamente elaborado sobre os conceitos metafísicos que permitem falar de um mundo inteligível como algo distinto e separado do mundo sensível. Estes conceitos foram largamente explorados pela tradição cristã para conferir um viés racional a crenças cuja origem é efetivamente a fantasia popular. Com todas as sutilezas da escolástica, aqueles conceitos metafísicos chegariam também à filosofia moderna, apenas se ensaiando com eles diversos arranjos entre Descartes  e Leibniz . A derrocada humiana atinge, pois, tanto metafísicos antigos quanto modernos, questionando-se radicalmente já a simples ideia de um inteligível destacado de todo sensível. Hume, aliás, reconhece e investiga a origem fabulosa das crenças no transcendente, diagnosticando o medo inerente à natureza humana como sua fonte principal.

Da metafísica à lógica

Em relação a este diagnóstico humiano, a estratégia kantiana de transformar a metafísica em lógica teve como efeito uma promoção inicial daqueles conceitos, visto que identifica sua origem na própria razão. Mas uma razão entendida como faculdade subjetiva de propor totalidades incondicionadas ao pensamento, sendo esta limitação ao sujeito o ponto inaceitável para Hegel. Este concorda com Kant no concernente à natureza puramente racional das ideias metafísicas, ou seja, que elas não se referem a algo externo à razão e a ela contraposto absolutamente. Mas discorda quanto à limitação subjetivista da própria razão, exigindo uma lógica que dê conta da razão como identidade do subjetivo e do objetivo. Ainda que seu lado formal seja tratado na lógica (que neste sentido também executa a transformação da metafísica em lógica), esta identidade racional do sujeito e do objeto perpassa toda a filosofia sistemática de Hegel.

 

IHU On-Line - Quais são as proposições fundamentais da metafísica hegeliana e em que sentido essas ideias divergem de autores que o influenciaram, como Espinosa , Kant e Fichte , por exemplo?

Joãosinho Beckenkamp - Antes de mais, é preciso que fique claro que, se continuamos a falar de uma metafísica hegeliana, trata-se sempre de uma metafísica transformada em lógica, ou seja, da lógica hegeliana, que tomou o lugar da metafísica, não se devendo confundi-la com a velha metafísica. Além disso, é difícil falar de proposições fundamentais de um pensamento sistemático que não tem começo, meio e fim, mas em que tudo está interconectado organicamente.

Posto isto, pode-se tomar como máxima que anima o sistema hegeliano o dito na Fenomenologia do espírito de que o absoluto tem de ser compreendido tanto como substância quanto como sujeito. A geração de Hegel sofreu um forte impacto da leitura de Espinosa, que propôs um sistema que reduzia tudo a uma única substância impessoal e destituída de entendimento e vontade, sendo qualquer subjetividade mera modificação em seus atributos. Esta mesma geração, entretanto, cresceu também sob a influência marcante da filosofia de Kant, cujo núcleo subjetivo foi desenvolvido por Fichte; via-se, pois, desafiada a conciliar os dois modos de filosofar.

Os românticos, como Schelling , Novalis  e Friedrich Schlegel  (em sua filosofia transcendental), enveredaram por uma filosofia da natureza que enfatiza o lado da substância, acabando por propor um panteísmo ou até retornando à dogmática cristã. Hegel optou pela via fichtiana, expondo a completa subjetivação da substância, o que para ele significa, no entanto, que o absoluto se realiza completamente através dos sujeitos num processo histórico em que educação e formação individuais, herança cultural e emulação dos povos constituem a verdadeira efetividade do espírito.

 

IHU On-Line - Nesse contexto, qual é a importância da Ciência da lógica?

Joãosinho Beckenkamp - O que em Kant mal começou a ter um nome, a lógica transcendental como lógica dos conceitos e princípios do entendimento e da razão, foi levado a cabo na Ciência da lógica, que pretende ser uma exposição sistemática da razão em seus diferentes momentos.

 

IHU On-Line - Quais são os motivos que fizeram a metafísica hegeliana tão influente, forte e duradoura na vida política?

Joãosinho Beckenkamp - No tratamento sistemático da razão como identidade da identidade e da diferença, Hegel desenvolveu uma lógica dos processos históricos que permite pensar a constituição de identidades culturais e políticas, não contra, mas através das diferenças e das contradições. Esta lógica tem constituído uma matriz bastante fértil do pensamento filosófico moderno, influenciando a vida política sobretudo em sua vertente marxista.

 

IHU On-Line - Enquanto a França se ocupava em assegurar a liberdade através da Revolução Francesa, na Alemanha os intelectuais se ocupavam com a ideia de liberdade. Em que medida esses diferentes cenários nos ajudam a compreender a recepção da filosofia de Hegel?

Joãosinho Beckenkamp - Parafraseando a troça de Marx  em Miséria da filosofia , seria possível dizer que os ingleses fabricam os chapéus, os franceses os usam e os alemães os transformam em ideias, com o que se caracterizaria o duplo atraso histórico dos alemães, o econômico, superado ao longo do século XIX, e o político, suplantado tão somente com intervenção externa após duas guerras mundiais. Aliás, neste mesmo texto Marx observa que, para Hegel, a metafísica se resume no método, o que seria outra maneira de considerar o resultado do processo descrito sumariamente acima.

Na altura em que o publicou, em 1847, Marx já havia passado do programa de uma simples revolução política para o de uma radical revolução social, com base numa aprofundada compreensão da economia capitalista que o levaria a desenvolver uma teoria crítica da sociedade moderna, viva e atuante até os dias de hoje. Muitos acreditam que Marx foi um crítico da religião por causa de sua observação de que a religião é o ópio do povo; mas no texto em que isto se encontra, do início de 1844, é dito também que na Alemanha a crítica da religião já está concluída, o que nos remete ao cenário em que se configuraram as duas linhas básicas de interpretação da filosofia hegeliana que marcam a história de sua recepção.

Hegelianos de direita

Após a morte de Hegel, em 1831, seus discípulos diretos se empenharam em apresentar a filosofia do mestre como um sistema acabado, no qual se justificava o Estado prussiano e se realizava uma conciliação entre cristianismo (representação religiosa) e filosofia (conceito). Conhecidos como hegelianos de direita, lançaram assim uma linha de leitura do sistema hegeliano que se mantém até hoje. Segundo esta leitura, o domínio filosófico do conceito não supera a representação religiosa, mas a eleva conservando, de acordo com os possíveis significados do termo Aufhebung.

Hegelianos de esquerda

Ao mesmo tempo, constitui-se na Alemanha um movimento cultural e político (nos eventos que precedem a revolução de 1848) que se vale da filosofia hegeliana para exigir mais liberdade, não aceitando sua conclusão de que o Estado prussiano já realizaria a liberdade e passando a trabalhar numa superação crítica do cristianismo. Conhecidos como hegelianos de esquerda, os autores deste movimento descortinam uma linha de interpretação da filosofia de Hegel que vê nela, não a elevação conservadora, mas a superação supressiva da representação religiosa no domínio do conceito, chegando à posição derradeira com Bruno Bauer , que, tendo participado da segunda edição (1840) das Lições sobre filosofia da religião de Hegel, lança em 1841 seu ultimato irônico A trombeta do Juízo Final sobre Hegel, o ateísta e anticristo, cujo título já resume o essencial.

Foram sobretudo David Strauss , Ludwig Feuerbach  e Bruno Bauer que executaram a crítica à religião de que Marx falava em 1844. Liberando a filosofia hegeliana do peso de sua associação com a representação religiosa, estes autores inauguraram uma linha de leitura que também se mantém viva e produtiva até os dias atuais.■

 

Leia mais...

- Schiller e Hölderlin: “as sementes de um novo universo poético”. Entrevista com Joãosinho Beckenkamp, publicada na IHU On-Line, nº 475, de 19-10-2015.

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