Edição 481 | 21 Março 2016

Os mistérios que ainda cercam o Zika

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Leslie Chaves | Edição João Vitor Santos

Ana da Veiga destaca que ainda há muito que se descobrir sobre o vírus que está colocando o mundo em alerta e os seus efeitos nos seres humanos

Ainda há um longo caminho a ser percorrido para que então se possa afirmar que de fato conhecemos o vírus da Zika. Para a pesquisadora Ana da Veiga, que estuda epidemiologia molecular de vírus patogênicos humanos, tudo que cerca a doença ainda é muito nebuloso, desde a sua entrada nas Américas até as formas de transmissão, diagnóstico e tratamento. Há uma série de suspeitas e suposições, mas há poucas comprovações científicas. “A pesquisa científica é a base para o diagnóstico e o tratamento do paciente na clínica e para controlar melhor a doença na população, contribuindo para a saúde pública”, aponta. “Vários laboratórios praticamente pararam o que estavam fazendo para focar nessa doença. Tanto no Brasil quanto fora, especialistas estão criando redes de pesquisa para estudos de Zika”, completa.

Em entrevista concedida por telefone à IHU On-Line, Ana alerta que muitas notícias e boatos dão conta de certezas sobre o vírus da Zika, mas que não têm cunho científico. “Por enquanto, é importante destacar o que de fato sabemos sobre o Zika: é um vírus da mesma família do vírus da Dengue e do vírus da Febre Amarela e é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti — agora estão sendo estudadas outras possíveis espécies de mosquitos transmissores. E a melhor forma de evitar a doença é evitar ser picado pelo mosquito”, pontua. A relação com casos de microcefalia ainda está sendo estudada. Um artigo recente, publicado no periódico científico Cell Stem Cell, mostrou que, em testes in vitro, o vírus da Zika é capaz de se multiplicar em células progenitoras de neurônios. Outros estudos encontraram material genético do vírus no líquido amniótico, na placenta e em outras amostras obtidas de casos de microcefalia.

Vale destacar um artigo publicado neste mês no New England Journal of Medicine; o grupo de pesquisa da doutora Tatjana Avšič Županc, da Universidade de Ljubljanaque, na Eslovênia, relata o caso de uma europeia que engravidou durante sua estadia no Brasil em 2014-2015. Durante a gravidez, apresentou sintomas semelhantes à febre por Zika, mas não foi feito diagnóstico laboratorial. Posteriormente, exames de imagem confirmaram que o feto apresentava microcefalia, além de calcificações na placenta e no cérebro; a gravidez foi interrompida e foi confirmada a presença do vírus no cérebro. “A partir desses estudos, deduzimos a relação entre o Zika e a microcefalia, mas ainda são necessárias análises mais profundas para afirmar isso. Em outras palavras, temos fortes evidências, mas falta uma confirmação científica”, diz a pesquisadora.

O mesmo ocorre em relação à Síndrome de Guillain-Barré — há casos de pacientes que desenvolveram a síndrome após infecção por Zika — e a possibilidade de o vírus ser transmitido sexualmente: ambas são “mais uma suposição sem comprovação”. A pesquisadora alerta que as questões relacionadas ao desenvolvimento de vacinas, a existência de outros vetores em potencial, quanto tempo o vírus segue ativo em humanos e até mesmo sobre a entrada do vírus da Zika no Brasil ainda são ilações. “Sabemos muito, mas não o suficiente; há muito caminho pela frente”, enfatiza.

Ana Beatriz Gorini da Veiga é graduada em Licenciatura e Bacharelado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, é mestra e doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Biologia Celular e Molecular, do Centro de Biotecnologia da UFRGS. Durante seus estudos, atuou no National Institutes of Health, nos Estados Unidos. É professora na Fundação Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre - UFCSPA e tem experiência na área de Biologia Molecular. Também é orientadora nos Programas de Pós–Graduação em Patologia e em Hepatologia da UFCSPA. Atualmente está nos Estados Unidos, realizando um estágio sênior no Departamento de Microbiologia da Icahn School of Medicine at Mount Sinai, em Nova Iorque.

 

Confira a entrevista.


IHU On-Line - Como chega ao Brasil o vírus da Zika?

Ana da Veiga - Essas doenças estão muito relacionadas ao tráfego aéreo, pois está cada vez mais fácil sair de um lado do mundo e ir para o outro muito rapidamente. E com essas movimentações de seres humanos entre várias regiões, acabam sendo carregadas também doenças. No caso das doenças virais, isso se torna ainda mais grave, uma vez que podemos, em alguns casos, transmitir essas doenças pelo ar, como, por exemplo, nas gripes causadas pelo vírus Influenza. Se forem doenças que são transmitidas por vetores, passando entre os humanos através de um vetor, como é o caso da Dengue, Zika, Chikungunya, Malária, entre outras, a possibilidade de aquele patógeno passar a infectar uma população depende da presença do vetor. No caso do vírus da Zika, o vetor é o mosquito Aedes aegypti e aqui no Brasil também transmite os vírus da Dengue, que é da mesma família do Zika, e o Chikungunya, que já é um pouco diferente. 

Por tanto, estando presente o mosquito em determinado local, se chegar um paciente que estiver carregando o vírus — não precisa nem estar com a doença, basta estar apenas com o vírus —, pode contaminar esse vetor que vai sair por aí espalhando o vírus para outras doenças.

A chegada da Dengue

A Dengue, por exemplo, entrou no Brasil com força na década de 1980, no Rio de Janeiro. Na América Latina, o vírus começou sua distribuição por Cuba, vindo da Ásia, e acabou entrando no Norte do Brasil; na verdade ocorreram diferentes entradas, em diferentes períodos, e aos poucos o vírus se espalhou. Hoje, sabemos que até na região Sul temos inúmeros casos de Dengue. Se em 2007 e 2008 víamos a doença só em pessoas que haviam viajado, agora podemos perceber uma transmissão dentro do próprio estado.

No caso do Zika, é importante destacar que ainda não foram relatados no Rio Grande do Sul casos autóctones, isto é, transmitidos dentro da região e não por alguém que vem de fora. Mas sabemos que nas regiões Sudeste e Nordeste do país a doença está se distribuindo muito rapidamente; então é uma questão de tempo até chegar ao Sul, porque temos a presença do vetor.

A entrada do Zika no Brasil

Há indícios de que o vírus da Zika tenha chegado ao Brasil trazido por turistas durante o período da Copa do Mundo. Isso porque os primeiros casos confirmados surgiram no final de 2014 e os primeiros casos autóctones já surgiram entre março e abril de 2015. Por isso essa relação com a Copa, mas pode ser apenas uma possibilidade. Além disso, como o diagnóstico do Zika é difícil de ser feito, essa entrada pode ter sido anterior à Copa. Tanto que há registro de muitas doenças com sintomas semelhantes à febre da Dengue desde 2012 e 2013 e, nesses casos, os testes deram negativo para Dengue.

Como muitos diagnósticos laboratoriais deram negativo para a Dengue, a detecção exata da doença que acometia esses pacientes foi deixada como um diagnóstico inconclusivo. Quem sabe se já não era Zika circulante no país? Por isso, é difícil fazermos uma retrospectiva com 100% de certeza. Entretanto, todo esse estudo epidemiológico é importante para tentar se buscar realmente como foi a entrada da doença; é descrever melhor a história.

Diagnósticos difíceis e mapeamento nebuloso

Essa dificuldade de mapeamento do momento exato da entrada da doença se explica, em parte, porque tanto Chikungunya como Zika foram consideradas formas brandas da Dengue, já que os sintomas — como febre e dores no corpo — são bem mais leves. E, ainda, como os vírus que causam essas doenças são muito parecidos, pode haver o que chamamos de reação cruzada. Por isso os diagnósticos, algumas vezes, são tão difíceis. Não existe um teste laboratorial com 100% de certeza; além disso, o paciente tem de ser avaliado nas primeiras 72 horas de infecção para que se consiga detectar o vírus. Se não for possível, acabamos recorrendo a outros testes em que as reações cruzadas são muito comuns. 

O fato de não haver um teste e diagnóstico 100% confiável, ou sensível e específico para essas doenças, contribui para não conseguirmos ter um controle maior. Se o paciente tem alguns sintomas, mas o teste dá negativo, ele é considerado negativo. Porém, se estiver infectado, mesmo que o vírus não seja evidente nos exames, ainda assim poderá contribuir para a disseminação da doença na região.

 

IHU On-Line - Como está hoje o contexto de pesquisas sobre o vírus da Zika no Brasil e no mundo?

Ana da Veiga - A Organização Mundial da Saúde - OMS está dando prioridade total para as pesquisas com Zika. Vários laboratórios praticamente pararam o que estavam fazendo para focar nessa doença. Tanto no Brasil quanto fora, especialistas estão criando redes de pesquisa para estudos de Zika. Aqui nos Estados Unidos também ocorre isso, inclusive redes internacionais estão se articulando para criar formas de agilizar os testes de diagnósticos e o desenvolvimento de vacinas, assim como estudos para descobrir quais sintomas realmente o vírus causa, se existe ou não essa relação com a microcefalia, quais os riscos do paciente que está infectado com a doença, entre outras questões.

Esses sintomas iniciais, como um pouquinho de dor nas articulações, que depois passa, pode ser uma infecção inicial, mas ninguém sabe ainda o que aquele paciente pode desenvolver no longo prazo. Existem editais abertos para pesquisas sobre Zika em vários países, inclusive para aqueles que estejam dispostos a colaborar com grupos de pesquisas do Brasil.

No próprio Brasil, em São Paulo, por exemplo, existem grupos grandes de estudos com redes de colaboração na África e nos Estados Unidos. Isso porque a pesquisa científica é a base para o diagnóstico e o tratamento do paciente na clínica e para controlar melhor a doença na população, contribuindo para a saúde pública.

Zika e microcefalia

Sobre a relação de Zika com a microcefalia, de fato, as primeiras pesquisas a partir dos relatos vieram do Brasil. Observamos um aumento significativo dos casos de microcefalia no país concomitante ao aumento dos casos de infecção por Zika. No entanto, se existe uma relação direta dos casos de microcefalia com a infeção por Zika, ainda não foi comprovado cientificamente, mas muitos estudos recentes apresentam fortes evidências que apontam nessa direção.

O que já foi comprovado? Em alguns casos de microcefalia, a mãe estava infectada pelo Zika e o feto mostrou também a presença do vírus. Recentemente, foi publicado um estudo no The New England Journal of Medicine  mostrando que um feto natimorto estava com o vírus no cérebro e no próprio sangue, transmitido pela mãe através da placenta. Isso é o que se tem provado. Agora, ainda não se sabe se a microcefalia foi causada pelo vírus. Para descobrir se o vírus está de fato causando a microcefalia, são necessários muitos estudos in vitro  e in vivo . Assim como nos casos de Rubéola, quando uma mãe contrai a doença, a criança pode nascer com má-formação ou mesmo pode haver casos de aborto. A mesma situação pode acontecer em caso de infecção por Zika. 

 

IHU On-Line - O que significam as descobertas de evidências da presença do vírus da Zika em fluidos corporais humanos?

Ana da Veiga - Foi detectada a presença de material genético do vírus da Zika e da Dengue em fluidos como saliva e sêmen. Não é dizer que o vírus estava ali, mas sim o material genético. É como, por exemplo, quando alguém pega uma arma e deixa vestígios: não se pode dizer que aquele humano está na arma, mas sim que ele deixou materiais genéticos na arma. A presença do material genético viral no sêmen ou na saliva não significa que o vírus esteja ali ou que será transmitido por esses fluidos. Para perceber a presença do vírus, é necessário isolá-lo, fazer um cultivo viral a partir desses fluidos, e isso ainda não foi feito.

Por que dizem que o vírus pode ser transmitido sexualmente? Porque houve alguns casos de pacientes que chegaram de viagem infectados com Zika e o parceiro acabou apresentando sintomas da doença ou mesmo a presença do vírus no sangue. Mas não dá para saber se aquele indivíduo, ao chegar, não trouxe consigo um mosquito. Isso é possível. Ele não só pode ter trazido consigo o mosquito como também pode ter sido picado por um mosquito que já estava no local e que passou a espalhar o vírus. Assim, o parceiro pode ter sido contaminado pelo vetor. Não tem como saber se, nesses casos, a contaminação foi realmente por relação sexual. É preciso fazer um bom trabalho de vigilância ambiental para saber se havia o mosquito nesse local. E por isso reitero: existem evidências? Sim, existem. Já foram comprovadas cientificamente? Ainda não.

Apenas suspeitas

Vi muitas reportagens culpando algumas vacinas por casos de microcefalia, o que também não tem nenhum fundamento lógico e científico. Assim como não é fundamentada a afirmação de que tem relação com aplicação de venenos ou algum produto químico contra o mosquito. Esses casos de microcefalia ainda precisam ser muito estudados para que se possa compreendê-los.

No Brasil também houve uma mudança na forma como são notificados os casos de microcefalia. Antes, a redução do perímetro craniano tinha de ser bem maior para ser considerada microcefalia; hoje uma pequena redução já é considerada microcefalia, o que levou a um aumento no número de notificações. Outro detalhe também são outros sintomas relacionados com Zika, como a Síndrome de Guillain-Barré , que é um problema que acaba acometendo muito o movimento dos membros inferiores. Avalia-se a possibilidade de que a pessoa que tenha sido contaminada pelo vírus venha a desenvolver a Síndrome. Mas isso ainda está em discussão.

 

IHU On-Line - Como está o contexto de pesquisas para a elaboração das vacinas do vírus da Zika? Que impacto terão se forem desenvolvidas?

Ana da Veiga – Estão sendo realizados estudos para o desenvolvimento de vacinas, não só para Zika como também para Dengue. Já existe uma vacina contra a Dengue que estão tentando colocar no mercado. Para Zika, todos esses esforços científicos têm por objetivo não só compreender a doença, mas também buscar diagnóstico e tratamentos específicos para isso e profilaxia no caso das vacinas. Existem grupos de pesquisa já tentando desenvolver a vacina, com base nos laboratórios de virologia. Aqui em Nova Iorque há um laboratório de virologia que tem muita experiência com doenças virais e que está tentando desenvolver uma vacina contra Zika. E se, de fato, conseguirem acelerar isso, será muito importante para o controle da doença, como várias outras vacinas que já conhecemos e que tomamos desde pequenos.

 

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Ana da Veiga – Por enquanto, é importante destacar o que de fato sabemos sobre o Zika: é um vírus da mesma família do vírus da Dengue e é transmitido pelo mosquito Aedes aegypti — agora estão sendo estudadas outras possíveis espécies de mosquitos transmissores. E a melhor forma de evitar a doença é evitar ser picado pelo mosquito. Por isso é importante usar repelente e não só roupa comprida, pois os mosquitos podem picar através da roupa.

E o que nós pensamos que sabemos, mas que ainda não está certo? 1) Que o vírus pode ser uma causa de microcefalia. Isso é uma dedução; ainda não há confirmação científica. 2) Que o vírus pode causar Guillain-Barré. Nesse caso, estamos na mesma situação da microcefalia. 3) Que o vírus pode ser transmitido sexualmente; esta é mais uma suposição sem comprovação.

O que não sabemos? 

1) Não sabemos se teremos uma vacina no curto prazo, pois há muita pesquisa pela frente. 

2) Não sabemos se existem outras espécies de mosquitos que podem transmitir Zika. 

3) Também não sabemos quanto tempo o vírus fica no organismo do paciente. 

4) Sobre a entrada do vírus no Brasil temos algumas suposições, mas ainda não se sabe ao certo se foi durante a Copa do Mundo.■

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