Edição 479 | 21 Dezembro 2015

Um Ocidente anestesiado na sua capacidade de hospitalidade

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Ricardo Machado e João Vitor Santos

Claudio Monge reflete sobre a realidade no Oriente Médio, desde sua experiência na Turquia, e sobre como se dá a relação com o mundo árabe que, armado pelo Ocidente, reage violentamente

Os recentes atentados pela Europa levam muitas pessoas a, apressadamente, responder às ações com a chamada “guerra ao terror”. Entretanto, antes de declarar mais uma guerra, é preciso se despir dos preconceitos ocidentalizados e mergulhar nas questões de fundo da relação com o mundo islâmico. O teólogo italiano Claudio Monge convida a esse movimento desde a perspectiva da hospitalidade. Vivendo na Turquia há bastante tempo, propõe um acolhimento da cultura do outro para entendê-lo e deixar que professe sua cultura. “Sem reconhecer a dignidade do outro, não há diálogo, pois ele começa no reconhecimento da humanidade do outro”, destaca. De certa forma, é o contrário do que historicamente vem ocorrendo.

O Ocidente quer sempre infiltrar-se no Oriente para, se for preciso, destituir sua cultura em nome de relações mercantis e baseadas no poder. “O Ocidente nunca mudou sua racionalidade, sempre preferiu um ditador forte que firmasse contratos político-econômicos a alguém que de fato representasse os interesses daquela sociedade” aponta. O resultado é o mundo árabe insurgindo a essa lógica de forma violenta. “Sinto-me desgostoso das lágrimas de crocodilo do Ocidente que chora a dor de Paris, mas é totalmente indiferente ao drama humanitário de milhares de crianças e adultos que são assassinados no Oriente Médio e no Norte da África em nome da liberdade econômica”, completa.

Na sua passagem pelo Brasil, há cerca de um mês, Monge participou de um bate-papo no Instituto Humanitas Unisinos – IHU, e lembrou que a relação com o mundo islâmico ainda se atualiza pela incompreensão do que é a Primavera Árabe. “A Primavera Árabe não acabou, trata-se de um processo longo”, destaca. “Não é uma revolução. As gerações dos jovens pós-islâmicos que, claramente, são formalmente crentes muçulmanos dizem que sabem bem que a verdade corânica não é o único horizonte de verdade. Não pretendem mais vender o Islã como uma ideologia política capaz de criar uma ordem melhor, mas movem-se como crentes em um espaço político secular”, explica.

São relações e conflitos políticos que o italiano se propõe a pensar pelo prisma teológico do diálogo com a cultura do outro. É por onde passa a categoria de hospitalidade. “Ao assumirmos nossa própria identidade e sermos capazes de tomar a sério a identidade do outro, compreenderemos que o encontro permitirá que saiamos diferentes dele. Neste encontro, ao fazer um pedaço do caminho juntos, o lugar deixa de ser caracterizado por uma única identidade, mas um espaço de encontro de identidades”, resume.

Claudio Monge é teólogo italiano. Frade da Ordem dos Pregadores, desde 1997 vive sua experiência teológica e pastoral em Istambul, Turquia, como Superior da comunidade e responsável pelo Centro Dominicano para o Diálogo Inter-religioso e Cultural - DOST-I no diálogo-encontro com a tradição muçulmana. O encontro com um turco hospitaleiro lhe levou a aprofundar a experiência existencial e teológica da hospitalidade, desde contextos culturais e religiosos mais diversos. O foco central é a experiência abraâmica, que na acolhida dos seus hóspedes misteriosos extrapola a "memória cultural" da theoxenia e adentra o espaço de uma autêntica teofania no serviço ao outro. Entre seus livros publicados, destacamos Taizé. L’espérance indivise (Paris: Les Éditions du Cerf, 2015). Outras obras importantes: Stranierità, nomadismo dell’anima (Milano: Sacra Doctrina, 2015), Stranieri con Dio. L’ospitalità nelle tradizioni dei tre monoteismi abramitici (Milano: Terra Santa, 2013) e Dieu hôte. Recherche historique et théologique sur les rituels de l'hospitalité (Bucharest: Zetabooks, 2008).

Confira a entrevista. 

IHU On-Line – Como é a relação da Turquia com os curdos ? Como isso está relacionado ao Isis ?

Claudio Monge – O conflito político e cultural entre os governos da Turquia, Irã, Iraque e Síria e a minoria curda tem uma longa história, com um histórico muito ruim. Desde o fim da I Guerra Mundial, o território do povo curdo foi arbitrariamente dividido pelas potências europeias vitoriosas. A eliminação sistemática das raízes culturais e linguísticas do povo curdo durou até os anos 1990 na Turquia. Quando o partido AKP  do governo chegou ao poder, houve um período bonito de negociações com os curdos, que receberam novos direitos, inclusive culturais, com a possibilidade de terem televisão, de fazerem cursos do idioma curdo.

A partir do final de 2012, os contatos entre Erdogan  e Ocalan, líder histórico do PKK , partido curdo, foram se intensificando, e foi decidido impor o cessar-fogo permanente, visando uma transição para a negociação política. A ideia não era finalizar com a criação de um grande Curdistão independente, mas, sim, reconhecer os direitos culturais do povo curdo. A política da União Europeia, entretanto, não foi capaz de reconhecer e incentivar esses esforços da liderança turca, e, na verdade, acentuou o isolamento de Erdoğan contra uma parte do seu eleitorado, justamente aqueles que eram contrários ao processo de integração europeia. Também por este motivo as políticas europeias tiveram uma responsabilidade muito importante no que se refere ao retrocesso autoritário do poder turco, porque não deu respostas aos esforços de maior democratização desse país.

Proximidade com os Estados Unidos

Não se pode esquecer que a Turquia faz parte da Organização do Tratado do Atlântico Norte – Otan desde 1952, então ela está historicamente próxima aos Estados Unidos e a Israel. Porém, é um estado islâmico, não pela sua estrutura, mas por sua cultura, que está próxima à dos Estados Unidos. A realidade árabe e o mundo turco são dois mundos completamente diferentes, a história sempre separou os dois. Vejam os curdos, por exemplo, em que a maioria é muçulmana, em que uma pequena parte integra expressões muçulmanas minoritárias.

Obviamente, o ressurgimento do conflito com o chamado “Estado Islâmico” e a escolha do Ocidente em armar o Peshmerga do Partido Democrático do Curdistão como uma espécie de anti-Estado Islâmico, retoma os tempos mais escuros da relação entre a Turquia e os curdos. Nos últimos meses, todo o processo de normalização democrática e de relacionamento com as minorias curdas na Turquia foi completamente congelado.

 

IHU On-Line – Como a Europa se relaciona com a Turquia?

Claudio Monge – A total falta de política europeia com relação à Turquia é determinante para a mudança em sua postura, pois a Turquia precisava buscar aliados para levar a cabo o sonho turco de ser um país importante para a estabilidade da região, um lugar onde todos possam se encontrar, conversar e espairecer. O atual primeiro ministro Davutoğlu — professor universitário alguns anos atrás —, tinha, como princípio, uma teoria de boa relação com todos os vizinhos de fronteira. O problema é que a Europa não tem prestado atenção a uma relação mais próxima com a Turquia, favorecendo a continuação de um processo democrático em nosso país e também por ter uma relação com países que apresentam um Islã muito particular, mais aberto historicamente a uma relação com governos democráticos.

É um Islã que conhece muito bem a diversidade, o seu próprio outro interno. Entretanto, há algum tempo a situação mudou e Erdogan, que é um homem naturalmente autoritário, tenta responder ao seu eleitorado tomando as atitudes de uma política nacionalista e autoritária, levantando-se como "Pai providente" que responde às necessidades dos seus "súditos". 

 

IHU On-Line – E com o Oriente Médio, como é a relação da Turquia?

Claudio Monge – A relação com o Oriente Médio começou com uma aproximação cada vez maior com os palestinos. Na época de Arafat , a Turquia foi o primeiro país a nomear um embaixador na Palestina, numa fase em que o governo turco começou a flertar com o mundo árabe (os irmãos na fé), buscando novos mercados, ao sul do Mediterrâneo, para a sua política externa. 

Islã moderno

O modelo de um Islã moderno, que prepara o ideal da Primavera Árabe , é muito particular, porque os árabes diziam que o país apresentava um crescimento econômico alinhado às expectativas atuais mesmo sendo islâmico; logo, o problema não é o Islã, mas a cultura. Então a questão para os muçulmanos era mostrar que o Islã como religião não era um problema, mas a questão estava no aspecto cultural, por isso seria necessário “converter” a Turquia em algo moderno. Erdogan percebeu muito rapidamente que podia jogar esta carta e começou uma campanha extraordinária falando de uma democracia muçulmana moderna.

Isso foi interessante, mas houve problemas no Cairo (Egito), porque ele falava de uma laicidade de Estado, dizendo que os cidadãos não podiam ser laicos, mas que o Estado poderia ser. Porém, quando o partido de Erdogan ganhou as eleições, ele logo se apresentou como um partido islâmico. Além de todas estas complexidades, há um problema de tradução, pois em árabe não há a palavra “laicidade” e no Cairo o termo foi traduzido como “ateu”, o que gerou desentendimentos com os líderes muçulmanos do Egito. 

 

IHU On-Line – Como entender a instabilidade política do Oriente Médio?

Claudio Monge – A política econômica da Turquia entre 2009 e o início de 2011 fez contratos, cujas cifras giraram em torno de 25 milhões de euros, com países árabes como Síria, Egito, Líbia, etc. Em outubro de 2010, Erdogan recebeu um prêmio como homem de paz, dado pelo Kadafi . Esse episódio ilustra a consagração do modelo turco. Bem, isso ocorreu em outubro de 2010, e em fevereiro do ano seguinte tudo cai, com o início da revolução árabe. Em seis meses a política de todos os então companheiros da Turquia e de sua plataforma de negociação os converte em inimigos, e são os primeiros a criar uma resistência armada contra Bashar Al Assad. Essa é uma situação muito difícil, e a comunidade internacional decide armar os curdos.

A estratégica posição turca

A Turquia, para lutar contra o novo inimigo Al Assad, funciona como um corredor de passagem de todos os chamados foreign fighters que vêm da Europa. Naquele momento, os opositores a Al Assad estavam seguros de que era possível criar uma oposição armada ao ditador. Meu amigo Paolo Dal’Oglio , que está desaparecido há dois anos, dizia, em seu último período de liberdade, que essa decisão era um erro. A situação humanitária é muito difícil porque enquanto os foreign fighters vêm em um sentido, os refugiados fazem o caminho contrário. 

Situação catastrófica

Neste momento, os 18 países mais ricos da União Europeia discutem como repartir a chegada de 120 mil refugiados. Somente na Turquia, nos últimos oito meses, foram recebidos 2,15 milhões de refugiados sírios. Ainda há 500 mil refugiados afegãos, uma vez que a situação no Afeganistão é uma catástrofe total. Infelizmente não há midiatização desta situação que é catastrófica. 

O “não” europeu

Atualmente, a Europa, que antes dizia “não podemos acolher a Turquia porque tem problemas de ‘Direitos Humanos’, de ‘Liberdade de Imprensa’”, se cala frente à eleição de Erdogan, que tem problemas com corrupção, liberdade de imprensa e outras questões mais graves. Além disso, Angela Merkel  e a União Europeia aplaudem a vitória de Erdogan e dizem ser “um voto pela estabilidade”. Por quê? Porque Erdogan disse “se vocês têm problemas, nós abrimos a porta”, eis a razão de a Turquia sediar dois milhões de refugiados sírios. Esta é a política internacional atual, e tudo o que a mídia ocidental faz é tratar esta complexidade como “choque civilizacional” do Ocidente com o Islã.

 

IHU On-Line – A Turquia faz parte da Liga Árabe ?

Claudio Monge – A Turquia faz parte apenas como observador, porém é membro da Organização dos Países Islâmicos. Apesar de ter observadores, não é um país árabe. É mais ou menos como o Vaticano, que tem observadores, mas não faz parte como membro ativo.

 

IHU On-Line – E a Primavera Árabe?

Claudio Monge – A Primavera Árabe não acabou, trata-se de um processo longo. Creio que há pontos de não retorno que são importantes e há uma questão teológica de fundo nisso tudo. A Primavera Árabe não é uma revolução. As gerações dos jovens pós-islâmicos que, claramente, são formalmente crentes muçulmanos — logo, não é um movimento laico — dizem que sabem bem que a verdade corânica não é o único horizonte de verdade. Não pretendem mais vender o Islã como uma ideologia política capaz de criar uma ordem melhor, mas movem-se como crentes em um espaço político secular. Essa dinâmica foi fundamental nos encontros da praça Tahrir, no Cairo, em 2011. Por isso eles lutam por liberdade, por trabalho e por dignidade humana, que são valores antropológicos e humanos, antes mesmo de serem religiosos.

Valores humanos

Não são valores somente porque vêm inspirados pelo Corão , senão porque ao praticar esses princípios se está coerente com o que está nas escrituras. Trata-se de uma perspectiva metacorânica, e isso é muito interessante em uma cultura islâmica, que tradicionalmente não divide o pensamento religioso do pensamento político. Há sinais simbólicos que ilustram esse fato, como as grandes manifestações nas praças, onde se fazem orações públicas, o que não é algo típico de uma cultura laica. Há milhares de muçulmanos que rezam e ao mesmo tempo centenas de coptas que rezam e fazem uma corrente humana, permitindo que os islâmicos orem sem ser atacados pela polícia. 

A religião continua ocupando o espaço público, mas deixa de ser a única perspectiva que dá sentido à vida. Por isso estas gerações acreditam que é possível construir uma sociedade multirreligiosa. Mais que isso, estes jovens estão convencidos de que aqueles que acreditam em alguma religião têm algo a mais para dar à sociedade. Isso também parece ser uma mudança geracional importante.

Novas perspectivas

A Primavera Árabe não tem nada a ver com a Revolução Islâmica do Irã, é um outro mundo: não está interessada em ideologia, tem um viés muito concreto e pragmático. São processos longos, muito longos, sobretudo porque as culturas árabe e do Oriente Médio são autoritárias. As tradições, originalmente tribais, sustentam que é preciso ter um homem forte e para mudar esse tipo de mentalidade são necessárias várias gerações. Além disso, não estou seguro de que nós, os ocidentais, temos condições de apresentar uma alternativa. Depois de os norte-americanos queimarem as mãos no Iraque, eles ficaram mais prudentes no desejo de exportar a “democracia”. O desafio é como ajudar os consensos internos dentro da cultura árabe a construir uma democracia: um governo de consenso e não apenas um homem forte!

 

IHU On-Line – Como o senhor vê a questão do Egito e da Líbia? Trata-se de governos autoritários?

Claudio Monge – Sim, são autoritários, mas diferentes. O que venho dizendo é que a cultura árabe é paternalista e autoritária. Estou me referindo, antes de tudo, à cultura árabe, porque não somente os islâmicos, mas também os cristãos árabes pensam do mesmo modo. Quando os iraquianos choram a morte de Saddam Hussein , os cristãos reagem do mesmo jeito, argumentando “vejam, não tem um homem forte, por isso estamos nesta situação”. Os ocidentais que querem ajudar os cristãos do Oriente Médio opõem a cristofobia à islamofobia, mas é um erro porque respondem não a uma lógica cultural, mas uma lógica de interesse político e econômico. O Ocidente, historicamente, é voluntarioso a um homem forte, mesmo que este homem seja um ditador, pois se trata de um parceiro econômico mais definido.

 

IHU On-Line – E por que Bush  perseguiu Hussein?

Claudio Monge – Porque ele não se comportava como um parceiro “leal” nas negociações econômicas. O Ocidente nunca mudou sua racionalidade, sempre preferiu um ditador forte que firmasse contratos político-econômicos a alguém que de fato representasse os interesses daquela sociedade. Isto também tem a ver com a postura de Israel, que nunca quis uma Síria forte e pacificada, pois o que interessa é uma Síria fragmentada. Apesar de ser um ocidental, sinto-me desgostoso das lágrimas de crocodilo do Ocidente que chora a dor de Paris, mas é totalmente indiferente ao drama humanitário de milhares de crianças e adultos que são assassinados no Oriente Médio e no Norte da África em nome da liberdade econômica. Creio que atualmente o único líder mundial que fala destas questões é o Papa Francisco.

 

IHU On-Line – Diante deste cenário, como o senhor vê o diálogo inter-religioso? 

Claudio Monge - Antes de tudo, o diálogo, sobretudo neste momento, é mais do que nunca necessário. Para os cristãos o diálogo é constitutivo do ser, porque acreditamos em um Deus que é diálogo, mas estamos conscientes de que o termo está bastante esvaziado de sentido. Precisamos recuperar seu sentido mais profundo, porque atualmente o diálogo é, em primeiro lugar, o reconhecimento da humanidade do outro. Testemunhamos, nos dias atuais, uma crise religiosa, que é uma crise do encontro, entretanto não é uma crise teológica, mas, sim, antropológica. A tradição cristã-católica, sobretudo a de matriz europeia, desenvolveu muito a metafísica e a teologia de Deus, mas esqueceu que uma teologia de Deus não serve se ela não for uma teologia para o homem. A teologia de Deus deve querer encontrar-se com o homem. Gosto sempre de relembrar uma frase do padre Congar , um dominicano que dizia: “Antes de uma boa teologia para o homem é preciso uma antropologia para Deus”. 

Islamofobia

Por isso me oponho radicalmente à ideia de uma cristofobia em oposição a uma islamofobia, sobretudo porque critico uma oposição de sistemas. Não creio que exista um diálogo islã-cristão em termos conceituais, isso porque esse diálogo vive no cotidiano e se torna possível na relação concreta entre crentes islâmicos e cristãos. Sem reconhecer a dignidade do outro, não há diálogo, pois ele começa no reconhecimento da humanidade do outro. Por isso é compreensível, mas criticável, a reação emocional das pessoas, que é midiaticamente muito bem arquitetada quando se trata das tragédias de quem é próximo a mim. Os meios tratam das tragédias como uma contabilidade confessional. No Ocidente se pensa que a tragédia da Síria é a morte dos cristãos que vivem lá, mas a verdade é que há a morte de milhares de crianças, de homens, mulheres e velhos.

 

IHU On-Line – Como, nesta perspectiva, podemos compreender a hospitalidade?

Claudio Monge – A hospitalidade entra no jogo porque é uma tentativa nova. Depois de termos experimentado tantos paradigmas de diálogo, parece que a perspectiva da hospitalidade pode nos levar mais longe. Hoje se diz que vivemos uma crise de diálogo porque as identidades são muito fortes e por isso se conflituam; mas para mim é o contrário, as identidades são muito fracas, por isso se combatem ou se fecham em si próprias. Não há acolhimento se não houver identidade, porque a hospitalidade acolhe o estrangeiro, sem fazê-lo entrar em “sua tenda”, como Abraão, sem querer englobá-lo dentro da própria identidade, mas respeitando sua alteridade. É isso que mantém em pé o diálogo. 

Identidade e diálogo

Ao assumirmos nossa própria identidade e sermos capazes de tomar a sério a identidade do outro, compreenderemos que o encontro permitirá que saiamos diferentes dele. Neste encontro, ao fazer um pedaço do caminho juntos (que não é neutro porque nossa identidade entra no jogo), o lugar deixa de ser caracterizado por uma única identidade, mas um espaço de encontro de identidades. Um lugar em que o outro não é totalmente capturável por nossa racionalidade, porque há algo que escapa à nossa compreensão, e este outro que não conseguimos compreender se torna um caminho mestre para Deus que só é possível de ser acolhido no momento em que ele se dá a nós. 

Hospitalidade e Pobreza

De qualquer modo, a hospitalidade é sempre uma experiência de pobreza para que o outro continue sendo hóspede e não sequestrado, porque um deus que é refém deixa de ser uma divindade e se torna um ídolo. Estou consciente de que esta não é solução definitiva, mas penso que pode ser uma solução útil e urgente em uma sociedade onde, finalmente, experimentamos de fato a pluralidade. Fala-se de pluralidade religiosa de fato e de direito — Deus quer a humanidade plural e aí ela passa a ser de direito. 

Nesse sentido, trata-se, também, de uma intuição corânica, que afirma “se Deus quisesse de toda a humanidade um só povo ele a teria feito assim”. Os muçulmanos creem, no entanto, que no final todos os caminhos deverão levar ao Islã. Todos os povos têm dentro de si uma centelha, um desígnio de chegarmos a formar uma grande comunidade universal. O Islã se considera a plenitude da revelação e eles aceitam que há um caminho histórico de diversidade. Esse caminho histórico deve ser administrado, inclusive, teologicamente, porque esse é o desejo de Deus. Há nisso uma diferença importante entre o monoteísmo islâmico e o cristão, porque o segundo se trata de um monoteísmo trinitário. Essa é uma diferença fundamental, pois o monoteísmo não trinitário tem dificuldades ontológicas para reconhecer a alteridade.

 

IHU On-Line – O que está por trás da crise que o Islã tem vivido?

Claudio Monge - Atualmente o Islã vive uma crise interna dramática. O Islã, que tratou de combater e conquistar o mundo, sempre pensou que a alteridade estivesse do lado de fora dele, mas agora descobre a própria alteridade e a diversidade radical, mas não sabe como administrá-la. Às vezes pergunto se há elementos teológicos e dogmáticos para gerir momentos comuns, visto que o islamismo se pensa muito à sombra de uma visão radicalmente monolítica da unidade de Deus. Creio que a grande nostalgia atual do Islã, obviamente não expressa nem exprimível teologicamente, é o fenômeno da encarnação. 

Até agora o Islã afirmou tanto os direitos de Deus, que esmagou os direitos dos humanos, afirmando a onipotência de Deus e negando os homens. Os fenômenos violentos, que eu considero niilistas, são a expressão máxima da negação dos direitos humanos em nome de Deus e eles agora começam a se dar conta de que há algo que não está funcionando.

 

IHU On-Line – Quem são os muçulmanos que tensionam esta perspectiva?

Claudio Monge – A maioria deles são intelectuais jovens que vivem no ocidente e começam a desconfiar desta postura dura. Eles levam em conta algo muito parecido com o que Ratzinger  disse em Regensburg, afirmando que Deus não pode agir contra a razão humana. Esta violência cega que esmaga o ser humano é irracional. Por isso, opor a islamofobia à cristofobia é fazer o jogo dos extremistas. É preciso uma descontinuidade antropológica, que não fica restrita aos muçulmanos, senão é parte de uma mudança de postura também dos cristãos. Aquilo que os muçulmanos do norte do Iraque fizeram, isolando com um cordão humano as Igrejas e dizendo que se o Estado Islâmico quisesse queimar a igreja deveria passar por cima deles, cria estas fraturas antropológicas.

Defender o outro

Todos os interlocutores estão fascinados por essa perspectiva antropológica de defesa do outro, mesmo que eles professem outro tipo de fé. Isso aconteceu depois do episódio de Charlie , em que muitos jovens do mundo ocidental tomaram uma posição de pura contestação àquela violência com a famosa hashtag #NotInMyName. Isto é muito importante para mim e revolucionário dentro de uma cultura islâmica. Eu me distancio do Deus que você está falando, que justifica a morte, este não é o meu Deus, ainda que sejamos todos muçulmanos. Trata-se de uma posição fortemente icônica à exposição das faces diferentes, em uma tradição não figurativa. Isso é claramente uma herança da Praça Tahrir e da Primavera Árabe. 

Em uma conferência de que participei e que ocorreu em abril deste ano em Marselha, conheci jovens que queriam buscar uma terceira via. Isto é, não estamos com os terroristas, mas não estamos com Charlie, porque neste caso há um outro problema, que é o do conceito de liberdade. 

 

IHU On-Line – Qual foi a motivação dos ataques de extremistas religiosos realizados recentemente em Paris?

Claudio Monge – Eu não acho que só possa haver explicações religiosas. Eu não sou especialista nesse campo, mas há um psiquiatra muçulmano que fez um diagnóstico sobre o episódio, explicando os atentados praticados por estes jovens radicais. Isso contradiz a impressão de que estes fatos exprimem uma lógica niilista, porque no fundo eles justificam as próprias posturas como uma superafirmação da vida, se autoconvencendo de que se martirizando eles jamais morreriam. Isso é a expressão do fracasso total da integração sociocultural, é quase a vingança metafísica da desgraça da sociedade. Há um aspecto estético macabro da destruição dos corpos. 

Eu não busco explicações metafísicas e religiosas para estes atentados. Em uma sociedade onde qualquer um pode se armar e com a midiatização oferecendo diariamente um palco global de horror, só podemos estar vivendo na ordem do delírio. Também há aí a irresponsabilidade da política internacional. O chefe do grupo que praticou os últimos atentados de Paris era o primeiro na lista de procurados de todos os serviços secretos do Ocidente, assim como os quatro homens que praticaram os atentados contra o Charlie. Como isso pode ocorrer? Como pessoas estão nas listas de procurados de todos os países da Europa e ninguém os prende? Há algo nisso tudo que não se encaixa. Há algo estranho nisso tudo.

 

IHU On-Line – Como a Igreja Ortodoxa Grega se posiciona nas tensões atuais da Turquia?

Claudio Monge – Na Turquia há diversos patriarcados. Bartolomeu , o patriarca de Constantinopla, dos gregos Ortodoxos, está tentando fazer valer sua amizade com o Papa Francisco para dar suas cartas no jogo da "primazia" moral das igrejas ortodoxas. Para o ano que vem, foi convocado pela enésima vez o Sínodo da Igreja Ortodoxa, e a questão mais difícil de resolver é que os patriarcados são muito autônomos, são estruturalmente organizações independentes. O patriarcado de Constantinopla sempre foi um pouco fictício como liderança geral, o que é justificável historicamente.

Bartolomeu e Francisco

Apesar da proximidade de Bartolomeu com o Papa Francisco, os outros patriarcados já disseram que ele não está autorizado a falar em nome das demais igrejas ortodoxas. Por outro lado, creio que as tomadas de posição de Bartolomeu com Francisco são sinceras. Na última viagem à Turquia ficou claro como estes dois homens estão isolados, ambos muito à frente dos fiéis de suas respectivas Igrejas, esperando que o espírito santo faça o seu trabalho para que a Igreja possa avançar. 

Paradoxo

Bartolomeu agora parece mais perto da figura de Francisco, que é líder de uma Igreja que teologicamente não pode viver uma comunhão eucarística, ao passo que está mais distante de seus irmãos das igrejas ortodoxas autocéfalas com as quais ele pode praticar tranquilamente a comunhão eucarística. O que eu vejo, atualmente, é que as Igrejas Orientais estão em crise de identidade frente à realização da fé, pois as Igrejas que não trabalham suas memórias não têm identidade teológica. ■

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