Edição 478 | 30 Novembro 2015

A barbárie secular e a cegueira atual

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João Vitor Santos

Egon Heck recorda que a relação com os índios já se estabeleceu como expropriação, destituindo diferentes concepções de mundo. Hoje, se atualiza na recusa de direitos e na prática de genocídio

Egon Heck não nasceu índio. Depois de se aproximar de povos originários, passou a compartilhar dos mesmos sentimentos, da vontade de viver em uma sociedade que respeita as diferenças, aprende com a espiritualidade e sonha com justiça social. Assim, dentro do Conselho Indigenista Missionário – Cimi, passou a ter a causa indígena como sua bandeira pessoal e ao longo de anos vem encarando batalhas para assegurar direitos aos índios. Para ele, a relação entre branco e índio já nasceu conflituosa. “Não houve um processo de interpelação harmoniosa e enriquecedora. Houve a completa dominação física e cultural dos europeus que para cá vieram, sendo majoritariamente brancos e praticantes de crimes em suas terras de origem”, recorda.

Egon destaca que essa relação de dominação se atualiza na perversidade de um sistema capitalista que não permite reconhecimento de culturas diferentes da ocidental, aquela que é sua base. “O sistema capitalista se estrutura sobre pilares do individualismo, da competição, da propriedade privada e da terra como mercadoria, que são totalmente conflitantes com os projetos de vida e sociedades indígenas”, completa. Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Egon tenta demonstrar que o modo de vida indígena pode ser uma alternativa para um mundo obstinadamente baseado no consumo e na posse. “Faço minhas reflexões não a partir de pesquisas acadêmicas, mas a partir de mais de quatro décadas de vivência solidária e de compromisso com os povos indígenas e seus direitos. Como membro do Conselho Indigenista Missionário, tendo trabalhado em Mato Grosso do Sul, acompanhei covardes agressões perpetradas contra os povos indígenas na região. A mais recente, a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito - CPI contra o Cimi”, antecipa.

Numa perspectiva de que tudo está interligado, Egon revela a significância de seu lugar — geográfico e temporal — de fala: “inicio as respostas às questões, em Palmas, no Tocantins. Esse referencial geográfico e conjuntural, onde se realizam os Jogos Mundiais Indígenas , me possibilita, de forma privilegiada, refletir sobre algumas questões. Também estou escrevendo num momento de agressões extremas aos direitos dos povos indígenas, com a aprovação da PEC 215, na Comissão Especial, na fatídica noite de 27 de outubro”. 

Egon Heck faz parte do secretariado nacional do Conselho Indigenista Missionário – Cimi. 

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O que está por trás da luta entre os índios e o homem branco? Por que o homem branco não consegue entender a cultura e a forma de vida indígena, em conceitos como, por exemplo, o “Bem-Viver” ?

Egon Heck - Trata-se de processos civilizatórios e de valores distintos. Não estamos aqui falando do índio, do negro e do branco, supostamente elementos igualitariamente formadores da nossa nação. Estamos falando de uma guerra de conquista em que a voz das armas e das epidemias perpetrou um holocausto de mais de cinco milhões em território que veio a constituir o Brasil. Não houve um processo de interpelação harmoniosa e enriquecedora. Houve a completa dominação física e cultural dos europeus que para cá vieram, sendo majoritariamente brancos e praticantes de crimes em suas terras de origem.

Quanto à compreensão das culturas e modos de vida dos povos indígenas, pelos não indígenas (brancos), existe uma dificuldade estrutural, histórica e atual, pelas lógicas, pensamentos e valores distintos. Por exemplo, o sistema capitalista se estrutura sobre pilares do individualismo, da competição, da propriedade privada e da terra como mercadoria, que são totalmente conflitantes com os projetos de vida e sociedades indígenas. Estes se estruturam fundamentalmente sobre a prevalência do coletivo, da harmonia com a natureza, da partilha, da permanente espiritualidade.

A partir dessas premissas não fica difícil entender por que os não índios têm enorme dificuldade de entender propostas de vida como o “Bem-Viver” dos povos indígenas. Trata-se não apenas de uma postura individual, mas de processos civilizatórios que continuam a gerar e sustentar cosmovisões e formas de vida distintas, dominadoras e excludentes.

IHU On-Line - Como o senhor descreveria o atual conflito indígena vivido em Mato Grosso do Sul? Como compreender o conflito por terras nesta região?

Egon Heck - Seria redundante dizer que se trata de um processo complexo, de muitas interfaces com os atores sociais e políticos que interagem nessa região. Mas quero escrever mais com o coração do que com a racionalização dos conflitos, das violências, da guerra silenciosa e mortífera, movida pelo sistema econômico e político reinante na região.

Eu vi. Eu convivi. Eu senti. Por mais que procurasse sublimar e escamotear a cruel realidade, isso seria impossível, por uma razão muito simples: o grito e o clamor dos Kaiowá Guarani não são vozes que soam em vão. Ou seja, outras gentes estão acompanhando essa realidade. Observam o quanto são perversos os interesses econômicos e políticos naquela região. Estes negam condições mínimas de sobrevivência, destilam preconceito e ódio contra essas comunidades.

Não restam dúvidas de que se trata de um processo histórico que engendrou nos tecidos sociais essas feridas profundas. Agora o que não se pode entender é por que se continua a negar o direito ao menos ao fundamental para a sobrevivência, com dignidade, a esses povos, ou seja, o reconhecimento de suas terras, de seus territórios. É tão pouco o que os povos indígenas em Mato Grosso do Sul pedem. De 0,08% dos 36 milhões de hectares do Estado, ocupados hoje pelos indígenas, para 2%. Com certeza isso não significaria, como muitos defendem, a ruína do agronegócio no estado. Ao contrário. Traria enormes benefícios humanitários, como a recuperação ambiental e florestal, num mecanismo benéfico a toda a população e o país.

IHU On-Line - Podemos descrever o que está ocorrendo com as populações indígenas como genocídio? Por quê?

Egon Heck - Sem dúvida. O crime de genocídio é definido no Artigo 1º da Lei 2.889 (Define e pune o crime de genocídio), de 1º de outubro de 1956: “Quem, com a intenção de destruir, no todo ou em parte, grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como tal: a) matar membros do grupo; b) causar lesão grave à integridade física ou mental de membros do grupo; c) submeter intencionalmente o grupo a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou parcial; d) adotar medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo; e) efetuar a transferência forçada de crianças do grupo para outro grupo”.

Considerando, portanto, o caso específico dos povos de Mato Grosso do Sul, que no período de 2003 a 2014 foram 390 assassinatos de indígenas, fica sim caracterizado o crime de genocídio. Acrescente-se a essa situação os 707 casos de suicídios, só em Mato Grosso do Sul, entre os anos de 2000 e 2014.

Porém, o que nos interessa não é uma fria estatística, mais sim identificar as causas de toda essa violência e do genocídio. Para tanto, estaremos utilizando informações do Fórum Unitário dos Movimentos Sociais e Sindicais de Campo Grande, composto por quase uma centena de entidades regionais e nacionais, pedindo o boicote aos produtos do agronegócio de Mato Grosso do Sul.

Causas do genocídio

Dentre as principais causas dessa calamitosa situação de violência e genocídio a que estão submetidas as populações indígenas deste estado, destacamos:

1. O processo histórico de colonização e ocupação de Mato Grosso do Sul e o modelo econômico implantado à base de violência e confinamento dos povos nativos. Razão pela qual o Estado brasileiro tornou-se o principal responsável por essa situação de violência e genocídio;

2. A atuação institucional e organizada dos ruralistas que, por meio das suas instituições de classe, tem estimulado o enfrentamento aos povos indígenas;

3. A impunidade e a prepotência, na certeza de que não sofrerão qualquer punição pelas violências e assassinatos de indígenas, torturas, destruição e queima de casas/barracos, espancamentos, e inúmeros expedientes vis e torpes, contra a vida de comunidades indígenas, tem sido fatores dessa extrema violência contra esses povos;

4. Subjacente e sustentadora dessas práticas está a ideologia do bandeirantismo, de desbravadores que fazem o “progresso” com seu trabalho, como arautos de uma civilização superior;

5. Com o processo de mecanização da agricultura, substituindo aos poucos a pecuária, a partir do final da década de 1960 e intensificada nas décadas seguintes, foi se implantando o catastrófico processo de desmatamento e consequente expulsão e confinamento de dezenas de comunidades/aldeias Guarani Kaiowá. Nesse processo, conforme identificou Antônio Brand , mais de uma centena de tekoha foram simplesmente varridos do mapa, e as terras, acumuladas nas mãos de um número cada vez menor de supostos proprietários.

Resistência

Não gostaria de concluir essa questão sem uma breve referência à resistência Guarani Kaiowá. Lutaram brava e heroicamente com suas estratégias, forças, sabedoria e principalmente sua espiritualidade. Nunca desistiram de seus territórios. Diante das armas e das doenças invasoras, tiveram que, muitas vezes, fugir do enfrentamento direto para a resistência paciente dos desvios, do buscar os fundos das matas, como espaços possíveis de sobrevivência, temporária. Nunca é demais lembrar a resistência cultural, a religiosidade e espiritualidade, a língua, não apenas como comunicação, mas como arma de afirmação e resistência.

IHU On-Line - Como avalia a política indigenista do Brasil hoje? Quais foram os avanços e retrocessos nesses 12 anos do PT no governo?

Egon Heck - Só posso caracterizar a atual política indigenista como pífia, submissa e omissa. Confesso ter participado da construção da proposta de política indigenista do governo Lula, assumida pelo PT na década de 1980. Nela se projetava uma nova relação do Estado Nacional com os povos indígenas, baseada nas autonomias indígenas em seus territórios. A autodeterminação é defendida pelo Cimi desde 1975. Para não ficar em retórica ou utopia, foram sugeridos alguns passos concretos como a criação de um Conselho Nacional de Política Indigenista - CNPI e a realização de uma Conferência Nacional para que, conjuntamente com povos indígenas, sociedade nacional e governo, fosse definida uma política indigenista do governo Lula.

Depois de quase 13 anos de governo do Partido dos Trabalhadores, quase nada avançou. Ao contrário. Os conflitos e a violências aumentaram. Os assassinatos de lideranças e a criminalização de indígenas e comunidades em luta por seus direitos, especialmente a terra, têm sido crescentes. Com isso os povos indígenas se sentem traídos em sua esperança e disposição de garantir seus direitos, conquistados na Constituição de 1988. Como nos tempos do governo de Fernando Henrique Cardoso, a questão indígena tem sido usada como moeda de troca, e os inimigos dos povos indígenas, na base de sustentação do governo, passaram a exigir medidas cada vez mais restritivas dos direitos indígenas, como é o que ocorre nesse momento, com a aprovação da PEC 215 ; a vigência, na prática, da Portaria 303 da AGU ; o “marco temporal”  sendo usado no Supremo tribunal Federal - STF na tomada de decisões com relação às terras indígenas. Enfim, uma gama de iniciativas do Estado brasileiro, contrárias aos direitos constitucionais dos povos indígenas.

As poucas regularizações e desintrusões de terras que se deram — Raposa/Serra do Sol, em Roraima, Marãiwatsédé, em Mato Grosso, Pataxó Hã-Hã-Hãe, na Bahia, e Awá-Guajá, no Maranhão — ocorreram em função das lutas dos povos destas terras e de seus aliados. Estes conseguiram, junto ao Poder Judiciário, decisões que obrigaram o Governo Federal a realizar tais ações.

Funai

Com relação à Funai , em que pese as contradições em que se encontra envolta, continua sem as condições estruturais, de recursos e de pessoal, para realizar sua missão de defesa dos direitos dos povos indígenas, de seus projetos de vida, de recursos naturais, e do patrimônio material e imaterial dos mais de 300 povos indígenas existentes no país. Reconheço que pessoas bem intencionadas têm conseguido romper alguns dos limites dessas contradições e tomado atitudes e posições favoráveis aos povos nativos. Tanto isso é verdade que, apesar das amarras institucionais e de interesses políticos e econômicos, como do agronegócio, ela também vem sendo alvo de ataques dos mesmos setores e submetida a uma CPI, na Câmara dos Deputados , como o Cimi, na Assembleia Legislativa de Mato Grosso do Sul .

A Funai, em seu quase meio século de existência, viveu situações das mais inusitadas, desde apêndice dos órgãos de repressão no período da ditadura militar, ocupada literalmente por um quartel sem farda, ou como órgão liberador de licenças para obras em terras indígenas. O movimento indígena e indigenista, em sua maioria, defende a necessidade de um órgão de efetivo poder de definir e colocar em prática uma política indigenista em diálogo aberto, descolonizado, não assistencialista ou paternalista, mas com a força necessária para colocar as relações desses povos e seus direitos em outro patamar.

IHU On-Line - Qual o papel e como tem sido a atuação dos Poderes Legislativo e Judiciário acerca das causas indígenas?

Egon Heck - Com relação ao Poder Legislativo, podemos afirmar que deixou muito a desejar. Atuou muito mais e eficazmente contra os índios do que a favor dos direitos deles. Podemos afirmar que depois da Constituinte, quando teve o mérito de reconhecer os direitos indígenas para esses povos, o Congresso tem sido gradativamente “desconstituinte”.

Prova disso é o Estatuto dos Povos Indígenas que descansa nas gavetas do Congresso desde 1992. Inconformados, os setores conservadores e reacionários nunca se conformaram ou minimamente aceitaram a conquista dos direitos indígenas na Constituição. Já em 1993 esses setores iniciaram um forte movimento de “revisão constitucional”, cujos alvos principais foram os direitos sociais, especialmente os indígenas. Os mesmos argumentos e propostas anti-indígenas no Congresso de hoje já constavam na proposta de mudanças constitucionais daquela época. O alvo principal era impedir a demarcação das terras indígenas, e abrir as terras já demarcadas, à voracidade de setores madeireiros, mineradoras, militares (projetos geopolíticos), ao latifúndio e ao agronegócio. Naquela ocasião a tese da revisão foi rejeitada. E agora? O que acontecerá?

Poder Judiciário

Com relação ao Poder Judiciário, a situação é mais melindrosa. Sabe-se que sempre houve muita demora em julgar ações que envolvessem direitos indígenas. Assim foi com Raposa Serra do Sol  e também com a terra indígena Caramuru-Catarina Paraguaçu, no Sul da Bahia, cuja ação levou mais de 30 anos para, finalmente, ser julgada favorável aos Pataxó Hã-Hã-Hãe . Em ambas as áreas houve forte pressão por parte dos povos indígenas, sem dúvida fundamental para que as ações fossem julgadas. No caso de Raposa Serra do Sol, ficou um gosto amargo de uma vitória e 19 condicionantes que pesaram e pesam sobre os processos de reconhecimento de outras terras indígenas, principalmente no sul e centro-oeste do país, em especial as terras indígenas Terena e Guarani Kaiowá, em Mato Grosso do Sul.

Na atual conjuntura, o que mais tem preocupado são as decisões da 2ª Turma do STF, que deu decisões contra os Guarani Kaiowá, de Guiraroká e Arroio Korá, e os Kanela, da terra indígena Porquinhos, no Maranhão.

Marco temporal

A questão do “marco temporal”, utilizada em algumas ações no Poder Judiciário, tem causado muita preocupação aos povos indígenas, pois é uma interpretação ainda sem decisão final do STF. Tem havido decisões restritivas com relação aos direitos dos povos indígenas, porém acredita-se que aos poucos haja mudança nessa tendência. É possível que, na medida em que os ministros do Supremo tenham maior diálogo e conhecimento da realidade indígena, as decisões poderão ser favoráveis à vida e aos direitos dos povos nativos em nosso país.

IHU On-Line – Como fazer com que a sociedade brasileira entenda a importância e o legado do povo indígena? O que a sua narrativa pessoal diz sobre essa importância?

Egon Heck - A grave crise por que passa o país e a humanidade hoje pode levar a caminhos diversos com relação aos povos originários indígenas. Um movimento é o da busca de referenciais, de valores e sociedade diversos daqueles assumidos pelo sistema capitalista. E aí se deparam com projetos de sociedades contemporâneas e do futuro, como são os povos indígenas nativos que são mais de três mil, com uma população em torno de 40 milhões de pessoas. Com eles estabelecem um diálogo e constroem pontes para enfrentar a atual crise. Na América Latina temos fortes movimentos indígenas que já conseguiram garantir em suas constituições o “Bem-Viver”, “a plurinacionalidade dos países”, “os direitos da Mãe Terra”, dentre muitos outros. Experiências como a da “autonomia”, dos sandinistas na Nicarágua no início dos anos 80, a das autonomias regionais, dos Zapatistas, no México, na década de 90, e a vitória de Evo Morales, na Bolívia, são todas experiências que apontam para novas possibilidades, e salientam os difíceis caminhos que teremos pela frente.

No Brasil, por ocasião da Constituinte de 1988, foram dados passos importantes, principalmente com relação aos direitos originários dos povos indígenas sobre seus territórios, a superação da tutela, o reconhecimento de suas organizações sociais, o direito à educação e à saúde diferenciadas e de qualidade. É lamentável que ao invés de fazer disso a base de uma nova política indigenista do Estado brasileiro, se tenha caminhado no sentido inverso, chegando a voltar à tona famigerados projetos de integração como o da “emancipação”. Não podemos deixar de reconhecer que nas últimas quatro décadas houve também avanços e conquistas importantes dos povos e movimentos indígenas no Brasil. Grande parte das terras indígenas, especialmente na Amazônia, foi demarcada. Infelizmente muitas continuam invadidas ou sem apoio para construir seus projetos de autonomia e subsistência nesses territórios.

Consolidaram-se organizações indígenas locais, regionais e nacional. Apesar de todas as dificuldades inerentes à diversidade de compreensões da sociedade brasileira, eles lutam bravamente por seus direitos, constroem alianças, buscam consolidar a união e articulação entre os povos. Participam das lutas sociais e ambientais, pois são bandeiras comuns com as quais comungam e interagem.

Narrativa pessoal

Sou um dos milhares de cidadãos deste país e do mundo que, por caminhos e motivações diversas, se põem a caminho solidariamente com esses povos. Nada de extraordinário. A gente que vem de uma cultura marcadamente europeia, com uma forte carga de preconceitos e racismo, precisa ter a oportunidade de descolonizar a mente, os conhecimentos e os sentimentos. A gente só consegue entender o diferente, e no meu caso os povos indígenas, despindo-se de uma história mal dita e mal contada, que tenta justificar o processo de colonização e dominação.

Uma das questões que para mim foi determinante é que conheci a questão indígena no início da ditadura militar. Isso fez com que minha decisão de caminhar com os povos indígenas também fosse uma decisão de transformação social, mudança de paradigmas, de valores e de vida.

IHU On-Line - O senhor já destacou que os Guarani Kaiowá sofrem violência decorrente da falta da terra. Mas que violência é essa?

Egon Heck - O grito desse povo ecoou forte, contra o projeto de morte, a resistência, a luta, a guerra, a paciência. São admiráveis em sua sabedoria, pois se assim não fosse não mais viveriam. Confesso que não mais gostaria de falar de violência e morte dos Guarani Kaiowá, dos Terena e demais povos de Mato Grosso do Sul. Me dói muito. Uma sociedade que se diz cristã não pode conviver com tamanha injustiça e perversidade. Ou seremos capazes de interromper esse ciclo de morte ou seremos acusados pela história como cúmplices do genocídio.

Certa vez me pediram para discorrer sobre as violências que sofrem esses povos. Poder-se-ia encher páginas falando da violência física, da violência cultural, da violência psicológica e outras tantas. Quem sabe seja mais sábio estender a mão a algum deles e dizer: “Sou seu amigo, conte comigo!”.

As relações com a terra

Quanto à compreensão e relação dos povos indígenas, de uma maneira geral, com a mãe terra, já existem muitos trabalhos acessíveis. Só gostaria de ressaltar que na CPI do Cimi, em curso, os fazendeiros que vêm depor sempre têm como primeira arma acusatória a apresentação de seu título de propriedade. Normalmente de mil novecentos e alguma coisa. Diante dos papéis que são o ícone sagrado da sociedade capitalista, os índios têm respondido: o nosso papel é a terra que Deus nos deixou. Ele assinou o papel de vocês?

IHU On-Line - De que forma o modelo econômico neodesenvolvimentista representa risco à preservação da vida e da cultura de povos indígenas? Como pensar em alternativas para mudar essa concepção de governo e sociedade de que o índio precisa fazer parte do desenvolvimento?

Egon Heck - “Vítimas do milagre” é o título de um importante livro de Shelton Davis , onde o autor apresenta inúmeros exemplos de como o avanço do grande capital sobre a Amazônia fez milhares de vítimas entre as populações indígenas daquela região. Era o tempo do “milagre brasileiro”. Os presidentes de então não eram Lula nem Dilma, mas os generais Garrastazu Médici  e Ernesto Geisel . De lá para cá já tivemos “Avança Brasil”, “Programa de Aceleração do Crescimento” e outros tantos programas das elites brasileiras, procurando fazer o seu “desenvolvimento” ou “neodesenvolvimento”.

Essa forma agressivamente destruidora de fazer desenvolvimento não é apenas um risco à preservação da vida e da cultura dos povos indígenas. É uma grave e permanente armadilha às vidas de todos nós, do Planeta Terra, nossa casa comum.

IHU On-Line - Por que a esquerda parece não ser capaz de compreender a questão indígena?

Egon Heck - Porque talvez esteja deixando de existir. Ou melhor, endireita quando chega ao poder. Essa é apenas uma maneira hilariante de algo muito grave e desafiante para a humanidade hoje. É ser capaz de pensar positivamente a construção de olhares e sentires plurais na convivência e na concepção e estrutura dos estados nacionais. Nas Américas, na Ameríndia, tivemos mais de cinco séculos de extermínio e homogeneização. Genocídio e etnocídio. Será que seremos capazes de mudar os cursos e discursos dessa história?

A esquerda, o marxismo, as experiências concretas de socialismo, todos tiveram imensas dificuldades de tratar a questão étnica, de suas minorias e sua pluralidade cultural. Não será num estalar de dedos que isso vai mudar. Sempre prevaleceu a análise classista. A Teologia da Libertação  também teve dificuldades em compreender a resistência cultural dos povos. Porém, vemos que essa é uma das questões que precisam estar presentes em qualquer processo de transformação e construção de novos modelos de sociedade.

IHU On-Line - O que os inúmeros episódios relacionados aos jogos indígenas deste ano (problemas de infraestrutura, protestos, aparato policial, etc.) revelam sobre a relação entre governo, homem branco e índios?

Egon Heck - Crachá e polícia não dá! Em primeiro lugar, revela um processo nada indígena e altamente concentrador de se realizar um grande evento, tendo como mote o esporte e o encontro e celebração da diversidade dos povos originários do mundo. O que, aliás, ficou evidenciado e reconhecido pela própria organização do evento: infraestrutura precária e inacabada, promessas não cumpridas, desencontro de expectativas. Os governos municipal, estadual e federal investiram em retornos econômicos e políticos. O prefeito de Palmas  não cansava em justificar os investimentos com gordos retornos para a população local — a capital do Tocantins como a cidade mundial para os povos indígenas, para o turismo, para os projetos de investimento, em hotéis e outros projetos de infraestrutura.

No vácuo dos jogos, outros interesses em jogo. A Comissão Especial da Câmara aproveitou o clima de festa e distração para aprovar, com o rolo compressor dos ruralistas, a PEC 215, e ainda conseguiram aprovar a criação da CPI da Funai e do Incra. Já o Governo Federal também não perdeu tempo e aproveitou o momento para enviar ao Congresso Nacional seu projeto de privatização da saúde indígena através do Instituto Nacional de Saúde Indígena – INSI. O ministro dos Esportes prometeu 10 milhões de Reais para construções esportivas em Palmas. Aproveitou o ensejo para cair nas boas graças do povo Xerente, prometendo a construção de quadra poliesportiva na aldeia do Funil.

Os povos indígenas, especialmente os jovens, que eram mais de 80% dos participantes, vibraram com os esportes, os encontros, a festa. Para eles esses momentos são importantes para os intercâmbios e o lazer. Já para outros, os debates na Oca da Sabedoria deixaram a desejar, pois tinham poucos participantes. Os rituais, as celebrações sempre são bonitas e agradáveis, e acontecem em todos os momentos de luta do movimento indígena.

Até o Canadá!

Os próximos Jogos Mundiais Indígenas ocorrerão no Canadá, em 2017. Porém, para dar continuidade ao processo, foi criado um Conselho que terá sede no Brasil. Tudo “mui democrático”, diriam nossos hermanos de Abya Yala espanhola.

IHU On-Line - Quais os riscos para a cultura nativa e as possibilidades de uma integração do índio na sociedade?

Egon Heck – Partimos do princípio elementar de que todas as culturas são dinâmicas em constantes processos de mudança e que nenhuma sociedade, cultura ou civilização é superior ou inferior a outra. A partir desses princípios, poderíamos levantar uma série de questões como a do índio se integrar na sociedade moderna e vice-versa. Ou seja, haveria um patamar de reconhecimento mútuo de conhecimentos e sabedorias que poderiam se enriquecer e complementar?

Se entendemos a sociedade moderna apenas pelo aspecto de progresso tecnológico/científico e consumismo individualista e competitivo, então nos resta perguntar aos indígenas: É isso que vocês querem? É esse tipo de integração que almejam? Certamente teríamos surpresas.

A questão da qualificação profissional para depois retornar à sua comunidade para prestar serviços em diversas áreas é uma realidade em inúmeras aldeias. Porém, há que se ressaltar que não é um processo fácil e nem tranquilo. Em primeiro lugar, porque as nossas universidades formam profissionais para se “darem bem na vida”, e não para estar a serviço nas comunidades. Em segundo lugar, as universidades não fornecem conhecimentos adequados para as realidades de povos que têm outros tipos de necessidades, valores, conhecimentos, que os indígenas terão que buscar em outras realidades (talvez em universidades indígenas). Em terceiro lugar, as necessidades criadas (recursos, contratação) normalmente não são contempladas pela burocracia estatal.

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Egon Heck - Estamos num período de graves ameaças aos direitos desses povos. Eles precisam de nós e nós deles.■

 

Leia mais...

- Egon Heck: há 40 anos na universidade dos índios. Entrevista com Egon Heck, publicada na Revista IHU On-Line 348, de 25-10-2010.

 

- ''A lógica do sistema capitalista não deixa espaço para a sobrevivência dos povos indígenas''. Entrevista com Egon Heck, publicada nas Notícias do Dia, de 09-06-2012, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

 

- Guarani-kaiowá: um grito de desespero. Entrevista com Egon Heck, publicada nas Notícias do Dia, 15-10-2011, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

 

- "Não conseguiram destruir nossa raiz". Entrevista com Egon Heck, publicada nas Notícias do Dia, 07-02-2008, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

 

- “As reservas são confinamentos de índios”. Entrevista com Egon Heck, publicada nas Notícias do Dia, 30-10-2012, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

 

- Povo Krahô e os Jogos Mundiais Indígenas: “Estamos fora”. Artigo de Egon Heck, publicado nas Notícias do Dia, de 17-09-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

 

- Protestos e Silêncios nos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas. Artigo de Egon Heck, publicado nas Notícias do Dia, de 27-10-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

 

- CPI do Genocídio Indígena. Artigo de Egon Heck, publicado nas Notícias do Dia, de 28-09-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

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