Edição 476 | 03 Novembro 2015

Contenção da Rússia, ontem e hoje

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Diego Pautasso

“A desintegração da União Soviética e as fragilidades da Nova Rússia governada por Boris Yeltsin (1991-1999) aparentaram o fim da política de contenção. Bastou surgir uma liderança como Vladimir Putin (presidente da Rússia de 1999 a 2008, retornando ao Kremlin desde 2012) disposto a recolocar a Rússia no centro da política internacional, desafiando iniciativas e impondo resistências aos planos dos EUA e seus aliados, para que a política de contenção ganhasse evidência novamente”, avalia Diego Pautasso.

Diego Pautasso é doutor e mestre em Ciência Política com ênfase em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, e graduado em Geografia pela UFRGS; atua como professor de Relações Internacionais da Unisinos. E-mail: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Eis o artigo.

O quadro histórico das relações da Rússia com o Ocidente é repleto de contradições: a invasão napoleônica, o apoio à contrarrevolução russa, o ‘cordão sanitário’ e a brutal agressão nazista. Durante a Guerra Fria, a política de contenção da URSS desencadeada pelos EUA inspirada em George Kennan redundou no cerco militar (OTAN, CENTO e OTASE), dando substância às formulações geopolíticas de Nycholas Spykman, segundo o qual quem controlasse o rimland controlaria a Eurásia (heartland mackinderiano) e, com efeito, o mundo. 

A desintegração da União Soviética (URSS) e as fragilidades da Nova Rússia governada por Boris Yeltsin (1991-1999) aparentaram o fim da política de contenção. Bastou surgir uma liderança como Vladimir Putin (presidente da Rússia em duas ocasiões, de 1999 a 2008 e retornando ao Kremlin desde 2012) disposto a recolocar a Rússia no centro da política internacional, desafiando iniciativas e impondo resistências aos planos dos EUA e seus aliados, para que a política de contenção ganhasse evidência novamente. Esta é a lógica da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN, aliança militar do Ocidente) que mais do que dobrou o número de integrantes: em 1999, ingressaram Hungria, Polônia e República Checa; em 2004, foram incluídas Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia; e em 2009, aderiram Albânia e Croácia — inclusive com uma intervenção fora do domínio dos países membros (Balcãs), sem que estes estivessem sendo ameaçados e, para completar, ultrapassando o mandato da ONU. Paralelamente à expansão da OTAN, tem ocorrido uma notável expansão da União Europeia (UE) em direção ao Leste Europeu, de modo que em 2004 entraram Malta e Chipre e os países do antigo campo socialista, como Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia, República Tcheca, Eslováquia, Hungria e Eslovênia, aos quais se somaram em 2007 Romênia e Bulgária e, em 2013, Croácia. E ainda estão em processo de tramitação sobretudo os países da antiga Iugoslávia (Sérvia, Bósnia, Macedônia), além de Albânia, Islândia e Turquia. Não por acaso, a Ucrânia de Petro Poroshenko (atual presidente e oligarca cuja fortuna tem duvidosa origem) assinou um acordo de associação com a União Europeia prevendo a liberalização comercial e a futura integração ao bloco. 

Além das expansões da OTAN e União Europeia, devemos destacar outras iniciativas ocidentais voltadas a limitar o espaço de atuação da Rússia na política internacional. Primeiro, o governo norte-americano do recém-eleito George W. Bush retirou em 2001 o país do Tratado de Mísseis Antibalísticos (ABM) assinado em 1972 com a URSS, objetivando levar adiante a ideia de construção de um Sistema de Defesa Antimíssil na Polônia e na República Tcheca. Em 2008, os três países assinaram um acordo que prevê a instalação desse sistema com uma base de dez mísseis interceptores na Polônia e um radar de detecção na República Tcheca, provocando fortes reações do presidente Dmitri Medvedev (sucessor de Putin e seu aliado, governando de 2008 a 2012) e o recuo do presidente Barack Obama. 

Destaque-se ainda que o intervencionismo e o unilateralismo dos EUA no Pós-Guerra Fria têm provocado insegurança. Note-se que tais demonstrações de força concentram-se no entorno estratégico da Rússia, principalmente as intervenções no Balcãs, quando da desintegração da Iugoslávia, e no Afeganistão, com a declaração da Guerra Global ao Terror. Paralelamente, os EUA aproveitaram a oportunidade para a ampliação de sua capacidade de projeção de força, com a construção de base aérea uzbeque de Khanabad e o aeroporto de Manas, na Quirguízia. A presença na região foi confrontada pela Rússia e China através da OCX, o que resultou no fechamento dessas bases militares em 2005 e 2014, respectivamente. Ademais, muitas intervenções ocorreram ultrapassando o mandato conferido pelas Nações Unidas, como as agressões ao Iraque (2003) e à Líbia (2011). Sem exceção, da Somália (1993) à Líbia e Síria (2013-14), todas as intervenções tiveram resultados trágicos, sob qualquer perspectiva.   

Some-se a isso o apoio aberto a grupos oposicionistas em países vizinhos da Rússia. As ‘revoluções coloridas’ são ilustrativas: a revolução das rosas na Geórgia (2003), a revolução laranja na Ucrânia (2004) e a revolução das tulipas na Quirguízia (2005). Nitidamente são os golpes do século XXI, com grande mobilização de inteligência, recursos financeiros, atuação de organizações não governamentais etc. O expansionismo dos EUA e a contenção da Rússia fazem parte da construção da narrativa da “Nova Guerra Fria”. Diante da desintegração da URSS, os EUA se viram desprovidos de inimigos capazes de prover a coesão para a sua liderança: o discurso do ‘fim da história’ e a Guerra Global ao Terror tinham limites espaciais e temporais. É assim que se enquadra a lógica de criar atritos e ameaças na fronteira russa e esperar respostas afirmativas como forma de forjar uma espécie de russofobia no Ocidente e isolar o gigante eurasiano. A vilanização da Rússia volta-se a evitar a formação de um heartland baseado num eixo Berlim-Moscou-Pequim completamente fora do controle de Washington. 

A vilanização da Rússia, em oposição a uma suposta Europa historicamente democrática e civilizada, é parte da narrativa voltada a reforçar visões maniqueístas. Entretanto, há mais contradições que perpassam os espaços europeu e russo nesses séculos. Dialeticamente, as principais potências europeias foram também promotoras do imperialismo no século XIX; o epicentro das duas sangrentas guerras mundiais; e, após isso e já concomitante com a integração europeia, os responsáveis por violentas guerras contra os movimentos de libertação nacional. No Pós-Guerra Fria, as potências ocidentais foram artífices da traumática desintegração da Iugoslávia, da expansão da União Europeia no ex-espaço soviético, da desestabilização de regimes na Geórgia (2003) e Ucrânia (2004 e 2014) em favor de regimes de perfil fascista. Sem mencionar suas contribuições na destruição política e territorial de países objetos de intervenção, como Afeganistão (2001), Iraque (2003) e Líbia (2011). A Rússia, ao contrário, foi palco da mais importante revolução do século XX, central para a universalização de direitos sociais inclusive na Europa do Estado de Bem Estar, e do combate à mais retrógrada força política do século, o nazifascismo. ■

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