Edição 475 | 19 Outubro 2015

Os filhos de todas as bombas

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Camila Alves da Costa

“Apenas na última década, autoridades afegãs apreenderam mais de 250 crianças que estavam sendo treinadas para o suicídio, escolhidas simplesmente por serem mais vulneráveis e por não levantarem maiores suspeitas das autoridades ao circular pelos populosos centros onde conduzem os ataques. As madrassas, escolas religiosas, servem como campos de recrutamento. Apenas no Paquistão, mais de 2 mil delas funcionam na doutrinação e treinamento de crianças e adolescentes entre os 5 e os 16 anos de idade”, afirma Camila Alves da Costa.

Camila Alves da Costa é mestre em Estudos Estratégicos de Defesa. Graduada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará, é pesquisadora do Observatório das Nacionalidades/UECE e membro do Comitê Editorial da revista Tensões Mundiais.

Eis o artigo.

Em 2003, prestes a invadir o Iraque, os Estados Unidos iniciaram testes de uma bomba não nuclear de 9,5 toneladas, capaz de causar destruição no raio de até 1 quilômetro em redor de seu ponto zero. Composta por 80% de TNT, foi complementada com 20% de alumínio, aumentando sua capacidade de destruição em pelo menos 18%. Era a “Mãe de Todas as Bombas” — ou MOAB, sigla para “Massive Ordnance Air Blast” (“Explosão Maciça de Munição Aérea”) —, desenvolvida pelos Estados Unidos para utilização no Iraque. Imagens dos dois testes realizados com o artefato foram amplamente divulgadas pela mídia global logo antes da invasão, com o claro propósito de desencorajar nacionais iraquianos e qualquer país disposto a se juntar em sua defesa no enfrentamento aos Estados Unidos e seus aliados da OTAN. Além dos dois artefatos testados, foram produzidos outros 15. Declaradamente, nenhum foi utilizado.

O epíteto “Mãe de Todas as Bombas” antecipava as consequências da explosão de um dispositivo cujo poder de destruição equivale ao de 11 toneladas de dinamite. A comunidade internacional conjeturava quanta desgraça se alimentaria e surgiria a partir do ódio, medo e insegurança causados pelo uso da MOAB; quantos novos extremistas, homens-bomba, mujahedeens se juntariam à resistência ao ver seus  pais, filhos, irmãos e primos transformados em meros números contabilizados como “danos colaterais”. A certeza de que a utilização da MOAB geraria uma prole com capacidade e disposição de buscar uma justiça que a comunidade internacional lhes negava ao ignorar o assassinato de milhares de iraquianos, afegãos, somalis, sudaneses, sírios e iranianos, dentre tantos outros povos eurasianos, médio-orientais e africanos, não impediu a ostentação dos destroços que a nova bomba seria capaz de deixar pelo caminho.

A Rússia, então, desenvolveu o Aviation Thermobaric Bomb of Increased Power, uma bomba termobárica, a que deu a alcunha “Pai de Todas as Bombas” (FOAB, sigla para “Father of All Bombs”), em clara resposta à MOAB. Um primogênito com capacidade de destruição quatro vezes maior que sua “mãe”: 44 toneladas de dinamite. Seu primeiro teste bem-sucedido foi realizado em setembro de 2007. A criação russa passava a ser a arma convencional (não nuclear) com maior poder de destruição do mundo, surpassando a capacidade de sua predecessora. O "Pai de Todas as Bombas", embora menor que a MOAB (pesa cerca de 7 toneladas) é ainda mais mortal: a temperatura que gera em seu centro de explosão é tão elevada que sua capacidade de destruição é comparada à de uma bomba atômica de pequeno porte, multiplicando a destruição em redor de seu ponto zero; porém, sem as consequentes nuvens radioativas deixadas pela arma nuclear. De acordo com as autoridades russas, foram produzidas 100 unidades da bomba, que deveria servir à renovação de seu arsenal, substituindo diversas armas nucleares de menor porte e capacidade de destruição. 

Há, contudo, efeitos menos discutidos e mais danosos da MOAB: seus filhos não tomam necessariamente forma de um novo artefato explosivo capaz de multiplicar o dano causado por ela. Nas duas últimas décadas, sobretudo nos últimos cinco anos, um novo fenômeno, mais cruel e aterrador, emergiu nos conflitos do Oriente Médio e da Eurásia e da África. Não tratamos mais de homens-bomba. As vítimas inocentes do conflito, crias da MOAB, são meninos-soldados e crianças-bomba.

Crianças de até 5 anos de idade têm sido doutrinadas, pelo menos desde 2005, para o suicídio em explosões de mercados, praças, masjids e shopping centers. Aproximadamente 90% dos ataques suicidas ocorridos no Paquistão desde 2007 são creditados a adolescentes entre 12 e 18 anos. Esta estratégia surgiu no conflito no Iraque, onde o emprego de crianças como instrumentos de guerra logrou atingir os alvos pretendidos. Convencidas por seus recrutadores de que, como a explosão vai matar estadunidenses e seus aliados, os "infiéis",  Alá lhes poupará a vida. Agem convencidas de que não morrerão com a explosão, certas de que não sentirão dor, ou tementes de que seus familiares sejam sacrificados no caso de fracasso ou desobediência. Acreditam-se heróis. Seus pais sabem-lhes vítimas, mas nada podem fazer frente às ameaçadoras tropas ocidentais ou aos insurgentes.

No primeiro semestre de 2015, o Boko Haram utilizou crianças-bomba em pelo menos duas ocasiões comprovadas na Nigéria: em junho, uma garota de 17 anos se explodiu em uma estação de ônibus, em Madiguri, assassinando 20 e deixando outros 50 feridos; no dia seguinte, um garoto de 12 anos, em um mercado na Vila de Wagir, deixou 30 feridos e 10 mortos. Ambos morreram nos atentados.

O recrutamento de crianças atende a duas especificidades que aumentam enormemente o sucesso de sua doutrinação e dos atentados que executam: isolados de suas famílias, tornam-se mais suscetíveis à autoridade de líderes religiosos, são convencidas de estarem agindo por uma causa religiosa, facilmente iludidas pela promessa de uma recompensa por seu sacrifício.

Apenas na última década, autoridades afegãs apreenderam mais de 250 crianças que estavam sendo treinadas para o suicídio, escolhidas simplesmente por serem mais vulneráveis e por não levantarem maiores suspeitas das autoridades ao circular pelos populosos centros onde conduzem os ataques. As madrassas, escolas religiosas, servem como campos de recrutamento. Apenas no Paquistão, mais de 2 mil delas funcionam na doutrinação e treinamento de crianças e adolescentes entre os 5 e os 16 anos de idade.

Como resultado dessa estratégia, militares estadunidenses admitiram alvejar crianças em suas ações, tendo executado três crianças e adolescentes entre 8 e 14 anos em apenas uma investida na tentativa de barrar um suposto atentado suicida.

Em 2013, os Estados Unidos ameaçaram lançar uma versão atualizada da “Mãe de Todas as Bombas” contra o Irã. Agora com 14 toneladas, caso a ameaça tivesse sido cumprida, o resultado seria o extermínio de milhares de civis, os quais seriam, certamente, contados como casualidades. 

A “Mãe de Todas as Bombas” exibe agora orgulhosa, embora dissimulada, sua prole. Não era apenas uma bomba. Era o bater das asas de uma borboleta cujas ondas geraram meninos-soldados, crianças-bomba, o extermínio sudanês, os escombros afegãos, o caos paquistanês, as agitações iranianas, a sangria síria, a crise dos refugiados que agora atinge a Europa. Impossível pensar estes eventos isoladamente. Apenas reconhecendo e encarando a origem da atrocidade seremos capazes de começar a discutir a solução para a crise nossa de todos os dias.

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