Edição 469 | 03 Agosto 2015

Manifesto Eco Modernista e Laudato Si’: duas visões da crise ecológica

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João Vitor Santos

Para Maurício Waldman, a Encíclica propõe repensar o tecnocentrismo. Já o Manifesto empodera a tecnologia

O sociólogo e antropólogo Maurício Waldman propõe outro olhar sobre a Encíclica Laudato Si’. Para entender a complexidade do documento, dos conceitos aos avanços que propõe no debate sobre a crise ecológica, traz o Manifesto Eco Modernista - documento lançado em abril de 2015 por personalidades ambientalistas, contestando teses clássicas da área. Para ele, tradutor e crítico do Manifesto, a Encíclica tem outra dimensão. Os dois nascem a partir da constatação de uma crise. “Embora expressando concepções muito diferentes, tanto o Manifesto Eco Modernista quanto a Encíclica Laudato Si’ se inscrevem num mesmo rol de preocupações e debates ambientais”, destaca. No entanto, lembra que “o Manifesto Eco Modernista adota uma linha inspirada no tecnicismo”. Já a Encíclica entende que “as tecnologias apenas poderão se traduzir em boas novas para as amplas maiorias, na hipótese de um sentido ético mais profundo ser emprestado ao conhecimento científico”.

Em certa medida, o movimento de análise proposto pelo professor evidencia o quanto a modernidade é cegada pela sedução tecnológica, a qual é vista como a opção mais viável para superar a crise ambiental. “No Manifesto esta tendência se materializa quando, no texto, a tecnologia é empoderada de opções que não são da sua alçada”, completa Waldman. Para ele, aproximando os dois documentos é possível perceber que o “Manifesto Eco Modernista pode ser definido enquanto uma proposta preocupada em adereçar a modernidade com um signo ecológico”. Já Laudato Si’ “é uma afirmação da vida humana como parte de um projeto maior, integrado à aspiração de um acerto de mundo, da continuidade da Criação e da interação dos humanos com elementos constitutivos da mística espiritual”. Por isso, busca uma saída da crise a partir da abordagem complexa apresentada pela ideia de ecologia integral.

Waldman também trata deste conceito de Ecologia Integral e da crítica ao antropocentrismo, presente na Encíclica, paralelamente ao conceito de “Bom Antropoceno”, presente no Manifesto. Este segundo conceito vê a solução a partir do acesso universal das ferramentas tecnológicas. “Os pobres adquiriram benesses técnicas e continuaram a ser o que sempre foram: uma massa de excluídos funcionalmente do sistema”, critica. Porém, pensando em alinhamento com a Encíclica, destaca que “um Bom Antropoceno será gerado não por mais tecnicidade, mas sim por mais humanidade”. 

Maurício Waldman é doutor em Geografia, mestre em Antropologia e graduado em Sociologia pela Universidade de São Paulo – USP. Cursou pós-doutorado em Geociências pela Universidade de Campinas - UNICAMP e em Relações Internacionais pela USP. Waldman iniciou em janeiro de 2014 seu 3º pós- doutorado, pesquisa centrada na área do meio ambiente com foco na questão dos catadores, incineração e reciclagem dos resíduos sólidos. A investigação possui respaldo institucional da Universidade do Oeste Paulista - UNOESTE, de Presidente Prudente, e financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq.

Ambientalista histórico do estado de São Paulo, participou em mobilizações antinucleares e em prol das águas doces da região da Grande São Paulo. Traduziu diversos textos e livros, tais como O Ecologismo dos Pobres, de Joan Martinez Alier, e 50 Grandes Filósofos, de Diané Collinson. Entre suas obras estão Ecologia e Lutas Sociais no Brasil (Contexto, 1992), Meio Ambiente & Antropologia (Senac, 2006), Antropologia Ambiental e Lixo: Cenários e Desafios (Cortez 2010). Neste ano, Maurício Waldman traduziu para o português, juntamente com Alcides Tadeu Marques, o Manifesto Eco Modernista, que pode ser lido na íntegra em http://bit.ly/1hfqfzw.

A entrevista foi publicada nas Notícias do Dia, de 07-07-2015, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Como ambientalista, qual valor o senhor atribui à Encíclica? 

Maurício Waldman – Primeiramente, cabem algumas palavras à figura-chave da Encíclica Laudato Si’: o Papa Francisco. Protagonista central do documento, Francisco é um pontífice cujo modo de ser e de pensar granjeou-lhe em pouco tempo calorosa popularidade. No campo católico, no seio das múltiplas confissões cristãs e em muitos ponderáveis segmentos da opinião pública mundial, o Papa projetou uma imagem de simpatia e receptividade. É visível o quanto tem se empenhado em criar uma atmosfera de interlocução entre atores diferentes e diferenciados entre si.

Em face da gravidade do momento que vivemos, deixou claro desde o início do seu pontificado uma disposição em abrir portas para o diálogo sobre temas candentes, cruciais para o futuro imediato. Dentre estes, evidentemente a temática ambiental. Aliás, é inescapável sublinhar que a adoção do nome Francisco foi em si mesmo um ato carregado de simbolismo ecológico. Em face da sua obra, trajetória e pregação de São Francisco de Assis — marcada pela compaixão para com todos os seres vivos, pelos pobres e desafortunados — o santo católico inspira forte vínculo com as ideias ambientalistas. Não há quem coloque em dúvida que São Francisco de Assis desfrute de popularidade em todos os segmentos sociais, grupos e comunidades, assertiva que incluiria até mesmo fiéis de outras religiões. Nesta sequência, a predileção demonstrada pelo Papa por São Francisco de Assis é seguramente inspiradora.

 

IHU On-Line – Por que esse recorte é importante para compreendermos a Encíclica?

Maurício Waldman - A Encíclica Laudato Si’, o Papa Francisco e São Francisco estão conceitualmente, contextualmente e conjunturalmente articulados das mais diversas formas na narrativa do documento. De mais a mais, como seria evidente para todo conhecedor de confecção de texto, não é nem um pouco fortuito que o próprio nome da Encíclica — Laudato Si’ — sinalize para um famoso cântico atribuído ao santo, conhecido pelo seu apreço à natureza e aos pobres.

A vocação da Encíclica em defesa da integralidade da Criação, evidente no subtítulo “Sobre o cuidado da Casa Comum”, se insere de igual modo na órbita das pregações franciscanas. Além de citado no preâmbulo, o ideário franciscano configura um fio condutor em inúmeros apontamentos tecidos ao longo do documento. Isto, tanto em menções textuais quanto como pressuposto das argumentações. Em suma, a presença da doutrina pastoral de São Francisco na grade conceitual da Encíclica é inquestionável. Ademais, o fato da Laudato Si’ ter uma redação construída na primeira pessoa do singular confirma o vínculo que conecta o Papa Francisco como a narrativa da Encíclica e com a mensagem franciscanista.

 

IHU On-Line - Qual o conceito central do documento?

Maurício Waldman - A noção mais importante é a responsabilidade dos humanos como mantenedores da Criação. Até porque, uma vez oriundos da terra, cabe aos humanos, como nos recordaria o livro de Gênesis, zelar e guardar pela mesma terra da qual foram formados. Uma função que apenas pode ser executada com o exercício da cultura da paz e da cultura da não violência, plataforma que na Encíclica engloba a justiça social. Nesta perspectiva, a Laudato Si’ resgata pronunciamentos de papas que antecederam Francisco. Dentre estes constam Pacem in Terris , proclamada por João XXIII  (1962), o Discurso à Organização das nações Unidas para Alimentação e Agricultura - FAO de Paulo VI  (1971) e as Cartas Redemptor hominis  e Centesimus annus , anunciadas por João Paulo II  (1979 e 2001). Não obstante, uma nota predominante da Encíclica é o franciscanismo, eventualmente mesclado a subsídios advindos dos debates que marcaram o trabalho dos hermeneutas bíblicos cristãos nos anos 1980 e 1990, em especial os filiados a uma declinação crítica.

Manifestadamente, o texto apreende uma índole mística, sensível ao mundo do mistério, básica para articular a visão crítica inscrita na Encíclica, voltada, no caso, para avaliar a crise ambiental. Com base nesta lógica, a Laudato Si’ afirma a necessidade de se pensar os sentidos místicos e espirituais que energizam o viver no mundo, desvelando sua profundidade, integralidade e, nesta perspectiva, o alcance postado pela plenitude. Uma plataforma que se justificaria unicamente através da animação de todos os seres e pelo respeito à vida e à justiça. Reflexão teológica que enquanto tal se associa às prédicas franciscanistas de Francisco de Assis.

 

IHU On-Line - De que forma a religião pode influenciar a ciência? É possível se pensar numa ciência mais humanista, baseada na relação com a religião?

Maurício Waldman - Entendo que a religião enquanto experiência contextualizada se articula ao conjunto de fenômenos socioculturais que modelam o ethos. Diz respeito ao caráter, crenças e ideais estruturantes da identidade de comunidades, nações, povos, grupos e civilizações. Os móveis que engendram a irrupção de determinado ethos são, neste exato sentido, reveladores do que em língua alemã corresponde a zeitgeist : espírito de uma época, de uma vivência histórico-social. Origem da palavra ética, ou seja, aquilo que pertence ao ethos.

O que se tem, portanto, é a religião como um modelo organizador de uma visão de mundo. Ao mesmo tempo, a experiência religiosa é específica na sua forma de ser, onde a fé como elemento fundante pode se contrapor à fundamentação científica. Por outro lado, nada disso indispõe a priori religião e ciência. Apesar de as esferas da ciência e da religião terem especificado, ao longo do surgimento e consolidação da civilização ocidental, vocações que em muitos momentos atritaram entre si, enquanto referencial ético está predicado à religião um papel de interpretação da realidade. Deste modo, para utilizar uma conceituação cara aos filósofos, nada disto implica que ontologicamente ciência e religião estejam condenadas a trilhar caminhos opostos. Tanto esta afirmação confere que a Encíclica Laudato Si’ elenca em defesa das teses arroladas no texto ampla coleção de dados científicos, respaldados em laudos e levantamentos técnicos cuja finalidade última, ao serem evocados, é subsidiar uma visão de mundo que de modo inconteste se filia a uma predicação religiosa. E, ao menos em minha opinião, o faz com muita leveza e profundidade por se prender ao sentido que as pessoas podem captar do que a crise ambiental vem mostrando aos olhos de todos. 

 

IHU On-Line - Como avalia a crítica ao antropocentrismo presente na Encíclica? 

Maurício Waldman - No enredo proposto por Laudato Si’, o texto posiciona duas visões de mundo. Uma é atinente à propositura bíblica, quer dizer, a uma cosmovisão categorizada pelas ciências sociais como enraizada num modo tradicional de compreensão do mundo. A segunda reporta às expectativas que lentamente se corporificaram em meio às percepções cultivadas pelo ocidente e pela sociedade moderna.

Nesta linha de argumentação, a Encíclica, quando se detém no modo de vida ocidental, refere-se a um antropocentrismo despótico, “desinteressado das outras criaturas”, também referendado como antropocentrismo desordenado, predisposto ao “uso desordenado das coisas” e ademais, um antropocentrismo moderno, preocupado em colocar “a razão técnica acima da realidade”, motivando “um estilo de vida desordenado”. Obviamente todas estas declinações são condizentes ao parecer proposto em toda extensão da Encíclica no sentido de ressaltar o laço umbilical que associa a sociedade moderna com a crise do meio ambiente. 

 

IHU On-Line - Que relação é possível estabelecer entre a concepção de antropocentrismo apresentada na Laudato Si’ e a visão pertinente ao Manifesto Eco Modernista ?

Maurício Waldman - Numa argumentação cara ao ambientalismo, seria cabível salientar que tanto a Laudato Si’ quanto o manifesto estão conotados por averbações que repetem a clássica dicotomia estabelecida entre modos de vida centrados no Ser com aqueles assentados no Ter. O texto da Encíclica é uma afirmação da vida humana como parte de um projeto maior, integrado à aspiração de um acerto de mundo, da continuidade da Criação e da interação dos humanos com elementos constitutivos da mística espiritual, processo este que reclama parceria com a esfera do divino. Compõe nesta acepção uma narrativa empenhada na defesa do Ser.

O Manifesto Eco Modernista adota por premissa um princípio radicalmente diferente. A preocupação básica do documento é propor uma alternativa para a crise ambiental contemporânea calcada no reforço dos mecanismos de reprodução material do sistema existente, basicamente pela intensificação do desenvolvimento e incorporação de tecnologias exponenciais. O cenário trabalhado pelo Manifesto constitui uma utopia materialista, em cujo cerne habita a pretensão em universalizar planetariamente o estilo de vida moderno. Por isso mesmo o título do documento agrega à máxima modernista o radical eco. Disso decorre que o Manifesto Eco Modernista pode ser definido enquanto uma proposta preocupada em adereçar a Modernidade com um signo ecológico. Por esta via, torna-se compreensível a razão de o Manifesto dispensar uma visão crítica dos condicionantes históricos e sociais que alimentaram a irrupção do mundo moderno. Neste prisma, o Manifesto tem axiomaticamente por pressuposto a continuidade de um modo de vida assentado no Ter. 

 

IHU On-Line - O senhor identifica alguns aspectos em que o Manifesto Eco Modernista dialoga com a Encíclica?

Maurício Waldman - Entendo que os dois documentos mais polarizam do que dialogam entre si. O que há em comum entre os dois textos é o fato de constituírem proposições cujo pano de fundo é o mesmo. Ou seja: a crise ambiental, cujas sequelas negativas recrudescem a cada dia que passa. O que vem depois disso simplesmente carece de analogias.

 

IHU On-Line - Em qual sentido a questão da tecnologia é tratada de forma diferente pela Encíclica na comparação com o Manifesto?

Maurício Waldman - O que irei dizer pode constranger alguns ouvidos, mas paciência. O que para mim parece claro é que o Manifesto Eco Modernista adota uma linha inspirada no tecnicismo. Ou seja: a técnica parece investida do poder de solucionar tudo, transformar o mundo por conta unicamente das suas possíveis virtudes e benfeitorias. Contudo, entendo que este primado é um equívoco. Basicamente porque, como insiste a Laudato Si’, não há como dissociar as proposições tecnológicas dos aparatos de poder hegemônicos. Especialmente quando se trata de uma estrutura de mando político-econômico a quem justamente cabe à boa parte o desastre ambiental dos dias de hoje.

Como pontua o Papa Francisco em diversos parágrafos da Encíclica, as tecnologias apenas poderão se traduzir em boas novas para as amplas maiorias na hipótese de um sentido ético mais profundo ser emprestado ao conhecimento científico, direcionando em favor da sociedade humana e dos ciclos naturais. Neste sentido, ao se desconectar da materialidade social, a proposição tecnológica do Manifesto incorre num nítido aporte de fundo ideológico. 

Por que Ideológico

O geógrafo brasileiro Milton Santos , uma das glórias da academia nacional, pondera que o nexo matricial da ideologia é seu pendor em ignorar a realidade concreta. Tal peculiaridade da ideologia, enquanto construção cognitiva, faz com que ela parta de um princípio abstrato posteriormente transformado num modelo pelo qual busca enquadrar o reino do real. Como resultado desta propensão, o que se estabelece como modelo termina ungido do poder de julgar, definir e explicar o real. Isto é, torna-se um sistema de justificativa alheio ao movimento da sociedade. Consequentemente, sua função passa a ser a manutenção do status quo e, de quebra, a condenação dos que o questionam. Trata-se de um processo que na literatura sociológica é definido como reificação. Ou dito de outro modo, fazer com que as coisas tenham significados que na prática não possuem, uma lógica pela qual o produto da cabeça passa a governar a própria cabeça. 

 

IHU On-Line - Em que momento isto ocorre no Manifesto?

Maurício Waldman - No Manifesto esta tendência se materializa quando, no texto, a tecnologia é empoderada de opções que não são da sua alçada. Basta adotar uma tecnologia e pronto: está tudo resolvido! Não é assim que as coisas acontecem. Mesmo porque não é a técnica que define a estrutura social. Inversamente, é a sociedade no seu movimento continuamente contraditório que irá determinar quais e de qual modo as tecnologias serão empregadas. Não é a tecnologia, mas a investidura de novas ideias e expectativas sociais que abrem espaço para novos aparatos tecnológicos surgirem e acontecerem. A propósito, identicamente neste particular a Encíclica se diferencia de modo cabal da tecedura do Manifesto.

Quebrar paradigmas

Para que as mudanças ocorram, é essencial mudar o paradigma. Não se chegou à lâmpada melhorando a iluminação a vela. Caso tivesse sido esta a direção, no lugar de lâmpadas iluminando praças e avenidas, teríamos velas gigantes. A partir desta imagem, podemos traçar uma analogia para diferenciar a Encíclica para com o Manifesto. 

Enquanto documento, o que a Laudato Si’ propõe é uma mudança de direcionamento da sociedade contemporânea, uma alteração do horizonte de expectativas. Questiona práticas que tem determinadamente pavimentado o caminho rumo ao colapso ambiental generalizado. O documento faz uma crítica sem meias palavras ao modern lifestyle . Portanto, aponta para a necessidade de alterar as prioridades. Mas, para os autores do Manifesto Eco Modernista, a linha mestra de conduta da Modernidade é poupada de contestações. Não subscreve qualquer crítica ao consumismo ou à descartabilidade. Por sinal, algo de resto coerente com o fato de que o gravíssimo problema gerado pelos resíduos sólidos não seja sequer mencionado ao longo deste texto. Mais desenvolvimento e não menos, acompanhado de mais tecnologia: eis a fórmula mágica que irá afastar para sempre o fantasma da crise ambiental. Ora, isto é na minha visão um disparate.

 

IHU On-Line - Sendo o Manifesto um texto assinado por grande número de técnicos, isto não lhe garante legitimidade? 

Maurício Waldman - Não necessariamente. Note-se que o Papa Francisco é ele mesmo um homem com formação técnica. Jorge Mario Bergoglio se formou técnico em Química, possuindo experiência em processamento de alimentos. Não é de modo algum uma pessoa que desconhece o universo técnico. Informação não é conhecimento e, por sua vez, conhecimento não é sabedoria. Fossem estes termos sinônimos entre si, o texto do Manifesto seria mais preciso e criterioso quando, por exemplo, põe na mesa propostas como o chamado “Bom Antropoceno” enquanto solução para o problema ambiental.

 

IHU On-Line - Em que consiste o conceito de “Bom Antropoceno”?

Maurício Waldman - Como sugere o próprio nome, semanticamente o “Bom Antropoceno” estaria em oposição ao que é considerado “Mau Antropoceno”. Referindo-se às paisagens esculturadas pelas sociedades humanas, o Antropoceno no seu avatar positivo ou modernizante se ajusta a uma propositura que na visão do Manifesto se confunde com a cidade moderna, particularmente na sua fisionomia metropolitana. Carregada de conteúdos técnicos, catalisada pela dissociação para com o mundo natural e determinada em aplicar sem qualquer hesitação os mecanismos de modernização. Esta urbe mantém relação siamesa com um horizonte utópico da Modernidade.

Neste novo reino expurgado dos desvios que teimam em contrariar os fundamentos que, em tese, traziam prosperidade e felicidade a todos os humanos, mazelas como a pobreza e a exclusão social seriam metabolizadas pela expansão do sistema de vida moderno. Assim, então, passaria a incluir sob sua tutela a totalidade da Humanidade. Contudo, trata-se de uma ideação absolutamente questionável por excluir do ferramental de análise o movimento contraditório das sociedades. Por isso mesmo está fadada ao insucesso.

Os autores ecomodernistas descortinam uma sociedade que estaria — acatando de certo modo modelos funcionalistas de entendimento da realidade — simplesmente solicitando ajustes e correções. Em síntese, o sistema estaria correto na sua fundamentação mais essencial. Se algo ocorre contrariando tal expectativa é porque as diretrizes sistêmicas não estão sendo aplicadas corretamente. Portanto mais e não menos sistema é que seria a solução.

Por esta via de compreensão, o Manifesto desconsidera que as formas de reprodução histórica da sociedade ocidental são diuturnamente magnetizadas pelo contraditório. Citando novamente o geógrafo brasileiro Milton Santos, no cenário urbano moderno, “a desordem é apenas a ordem do possível, já que nada é desordenado”. Nesta aferição, a grande cidade tecnológica antevista pelos ecomodernistas não passa de uma peça de ficção, uma mitologia que tende a confundir e mascarar a solução dos problemas vividos pelo mundo contemporâneo. 

 

IHU On-Line – Diante deste cenário, é possível vislumbrar uma saída?

Maurício Waldman - No âmbito da Economia e das Ciências Sociais, está bastante claro que garantir acesso ao aparato tecnológico é galhardamente insuficiente para solucionar os problemas sociais. Para exemplificar, basta de certo modo observar o que está ocorrendo no país. Na “nova bonança” inaugurada pela “socialização das mercadorias” levada adiante no último decênio, os excluídos passaram a adquirir CD players, celulares, laptops, computadores e automóveis. Mas continuaram pobres. Na nova universalização perversa das inovações, as favelas se tornaram high tech, os cortiços conquistaram feição inteligente e o casario dos bairros mais afastados passaram a usufruir impulsos digitais. Só que continuaram a ser favelas, cortiços e guetos. Persistiram como espaços animados por elevados níveis de desigualdade.

Em resumo, os pobres adquiriram benesses técnicas e continuaram a ser o que sempre foram: uma massa de excluídos funcionalmente do sistema. Por conseguinte, um Bom Antropoceno será gerado não por mais tecnicidade, mas sim por mais humanidade. Por esta razão que Laudato Si’ estaria mais próxima de identificar as raízes da crise ambiental e as formas para solucioná-la. É o que podemos ler no texto da Encíclica: “não existe ecologia sem uma adequada antropologia”. Em bom português: Bom Antropoceno tem que ser bom para todos.

 

IHU On-Line - De que forma um documento apostólico pode influenciar a discussão acerca de como enfrentar os dilemas ambientais do mundo contemporâneo? 

Maurício Waldman - Diria que não somente um documento apostólico, mas que muitos documentos e pronunciamentos elaborados por autoridades religiosas cumprem esta função. Basta observar a relevância alcançada pelo Dalai Lama  nos últimos 30 anos. Nesta linha de abordagem, Laudato Si’, ao se pronunciar em prol de uma casa comum, reforça o entendimento de que é um destino comum. Portanto, tonifica o ideal do que pode ser uma retomada da Criação, de um reinício de benefício para todos os humanos e todas as formas de vida. Esperança.

 

IHU On-Line - Como deve ser a repercussão no meio científico e entre ambientalistas?

Maurício Waldman - Seria um precário exercício de futurismo antecipar como meios tão diferenciados internamente — caso do campo acadêmico e da comunidade ambientalista — reagirão à Encíclica. Mas, arrisco um palpite de que será bem recebida pelo ambientalismo, ao mesmo tempo que dividirá o meio científico. O campo do conhecimento sistematizado é muito sensível à sedução tecnológica. Neste particular, documentos como o Manifesto ganham pontos em auferir apoios e convencimento. Contudo, minha tendência é prognosticar que no frigir das discussões a Encíclica tende a conquistar corações e mentes. Singularmente por estar apoiada em aspirações universais em favor do meio ambiente e do avanço da justiça social.

 

IHU On-Line - Laudato Si’ poderá desempenhar alguma influência nas decisões a serem tomadas na COP 21 ? Que perspectivas o documento traz a respeito de acordos internacionais?

Maurício Waldman - É sumamente importante assinalar que a COP 21, ao tratar das mudanças climáticas, coloca no centro das discussões um problema que atinge em especial os países do terceiro mundo e os grupos socialmente desfavorecidos. O que está em jogo é a seguridade climática global, tema que não pode ser dissociado de problemáticas como o intercâmbio ecologicamente desigual imposto pelas nações do hemisfério Norte aos países do Sul e das dessimetrias do consumo dos recursos naturais por classes, povos e países.

Todos estes pontos constituem temas abordados na Encíclica com forte subsídio dos debates científicos travados pelas mais diversas especialidades. Por isso mesmo Laudato Si’ corrobora influente corrente de opinião preocupada em determinar responsabilidades e metas que visem deter os processos de destruição da biosfera. Uma contribuição que chega em boa hora e em momento propício. Isto por chamar a atenção para a obrigatoriedade em rever, repensar e redirecionar as formas existentes de relação com a natureza, tema que, como foi observado, se vincula intimamente com as prioridades sociais. 

 

IHU On-Line - O senhor disse, em outras entrevistas, que a Encíclica foi lançada num momento de “encruzilhada ambiental”. Que momento é esse?

Maurício Waldman - A Modernidade configura uma civilização diferente de todas as demais que a antecederam. Em especial por singularidades como a de ser única quanto à ferocidade que demonstra em se apropriar do meio natural, dada devastação e fome insaciável por recursos e aptidão em multiplicar a exclusão social. Por isso mesmo, sentenciar a respeito de um dilema civilizatório colocado para a sociedade moderna não configura qualquer arroubo de oratória. Pelo contrário, a expressão elucida sobre as implicações suscitadas pelo uso dos recursos naturais e a voracidade por transformá-los em bens quase sempre descartados sem piedade após o uso. É a expressão de um modelo de sociedade cujas expectativas e determinações abarcam, nos dias de hoje, a totalidade do Planeta.

Neste sentido, a palavra dilema (do grego dupla proposição), de longa data assimilada pela linguagem coloquial, insere entendimentos pertinentes ao contexto vivenciado pela sociedade contemporânea. Dilema diz respeito a uma encruzilhada, uma situação embaraçosa cujas soluções são difíceis, mas ao mesmo tempo suscitando decisão . Trata-se exatamente disso: crise e oportunidade, dilema e decisão, problema e solução. Esperança, enfim.

 

IHU On-Line - Seria possível associar este dilema com o surgimento dos novos documentos e posições a respeito da crise ambiental?

Maurício Waldman - Certamente. Não é fruto do acaso que neste ano de 2015 já tenham vindo à luz dois documentos que procuram, adotando sua própria hermenêutica, interpretar o acirramento da crise ambiental. Embora expressando concepções muito diferentes, tanto o Manifesto Eco Modernista quanto a Encíclica Laudato Si’ se inscrevem num mesmo rol de preocupações e debates ambientais. Nada disto é coincidência. Até porque a história e o alento das sociedades são avessos ao aleatório. Aliás, a expectativa é que no final do ano um terceiro documento essencial — que advirá da COP 21 — estará compondo com esta dinâmica. E assim espero, incorporando o zeitgeist expresso pela Laudato Si’.

 

IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algo?

Maurício Waldman - É inevitável concluir esta entrevista mencionando meu grande amigo Frei Alamiro, padre franciscano com o qual participei do movimento ambientalista em meados dos anos 80 do século passado. Numa certa ocasião, Alamiro me confidenciou que éramos juntamente com o sociólogo Ricardo Ferraz (falecido em 2006) e o artista plástico de origem espanhola Miguel Abellá (falecido em 2000), assim como diversos outros colegas, integrantes de uma “Arca de Noé” do ambientalismo paulista. Ele dizia isto tanto em razão de formarmos um grupo muito pequeno quanto pela senioridade do nosso ativismo.

Porém, imagino que atualmente Frei Alamiro e todos os que chegaram até este momento têm motivo de sobra para estarem satisfeitos com a Encíclica Laudato Si’. Afinal, é um documento ímpar, que traduz o que há de mais primordial e inovador no pensamento ambientalista. E entendo que hoje não estaríamos sozinhos neste contentamento. É de fato uma boa notícia, uma boa nova para o ambiente e para as pessoas. Bom demais ver isto acontecendo. ■

 

Leia mais...

- Manifesto Eco Modernista e a crença tecnológica como superação da crise ambiental. Entrevista com Maurício Waldman, publicada nas Notícias do Dia, de 07-07-2015, no sítio do IHU;

- O 'milagre da multiplicação dos lixos' e a encruzilhada da Política Nacional de Resíduos Sólidos. Entrevista com Maurício Waldman, publicada nas Notícias do Dia, de 01-03-2015, no sítio do IHU;

- Decifrar o lixo, decifrar perspectivas. Entrevista com Maurício Waldman. Entrevista com Maurício Waldman, publicada nas Notícias do Dia, de 24-08-2014, no sítio do IHU;

- A era do lixo. "Ele está visceralmente associado ao atual modo de vida". Entrevista com Maurício Waldman, publicada nas Notícias do Dia, de 11-11-2011, no sítio do IHU.

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