Edição 469 | 03 Agosto 2015

Ecologia integral, um olhar científico sobre o conceito

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João Vitor Santos e Leslie Chaves | Tradução Gabriel Ferreira

Para Veerabhadran Ramanathan a aliança entre o campo religioso e o científico tem um potencial transformador

As desigualdades sociais acabam provocando também assimetrias quanto ao impacto da degradação ambiental. As camadas mais pobres da população mundial sofrem com mais intensidade os reflexos desses problemas. De acordo com o professor de Ciências Atmosféricas e Clima Veerabhadran Ramanathan, que concedeu entrevista por e-mail à IHU On-Line, além das populações mais vulneráveis social e economicamente, as gerações futuras também serão atingidas e, portanto, o debate sobre a preservação da natureza tem uma dimensão ética e moral importante. Para o professor a Encíclica chama a atenção para este aspecto das discussões através do fortalecimento dos laços entre ciência e religião. “Até agora, cientistas têm se esquivado de traduzir suas descobertas para a forma de problemas éticos e morais. Espero que essa atitude mude depois de verem o enorme impacto da Encíclica do Papa sobre a sociedade”, ressalta.

Ramanathan frisa ainda que “todas as religiões nos exortam para que protejamos a Mãe Natureza e, assim, outros líderes religiosos podem igualmente ter um impacto transformador”. Segundo o pesquisador, nas últimas duas décadas os cientistas perceberam que a complexidade envolvida na mudança climática e em outros problemas ambientais demanda uma abordagem integrada. Uma visão sistêmica que abranja perspectivas científicas, éticas, mas principalmente sociais e econômicas é fundamental para a busca de soluções. “Eu tenho apresentado diversos artigos no Vaticano mostrando como um bilhão das pessoas mais ricas do planeta contribuem para 60% do aquecimento global, enquanto os três bilhões mais pobres contribuem 6% ou menos, uma vez que não podem adquirir combustíveis fósseis. A mudança climática é um problema vital para esses três bilhões de pessoas mais pobres. As grandes empresas e as nações mais ricas têm de perceber que sua própria sobrevivência também depende drasticamente da redução da poluição do planeta”, aponta. 

Veerabhadran Ramanathan é professor de Ciências Atmosféricas e Clima do Instituto Scripps de Oceanografia da Universidade da Califórnia, em San Diego. Atualmente também preside uma equipe científica internacional da Ásia, África e América Latina no âmbito do Programa Atmospheric Brown Cloud – ABC, um projeto de cooperação internacional financiado pelo Programa Ambiental da Organização das Nações Unidas - ONU para questões de poluição transfronteiriça que visa formatar e promover iniciativas regionais e intergovernamentais de combate à poluição do ar. 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Como o senhor avalia os comentários e a recepção da Encíclica Laudato Si’ junto à comunidade científica?

Veerabhadran Ramanathan - Eu já esperava que a recepção fosse ser bastante positiva, mas me surpreendi acerca de quão unanimemente forte foi o apoio da comunidade científica.

 

IHU On-Line - De que forma a aliança entre ciência e religião pode fortalecer ações para frear a degradação do planeta?

Veerabhadran Ramanathan - A degradação ambiental e seu impacto desproporcionalmente maior sobre os pobres, bem como o impacto de tal degradação sobre as gerações vindouras, são problemas éticos e morais, assim, a aliança entre religião e ciência exercerá uma força transformadora na proteção da Terra e das pessoas.

 

IHU On-Line - Como a fragmentação e a compartimentação dos conhecimentos nos conduziu à Crise Ecológica em sentido conceitual?

Veerabhadran Ramanathan - Ela feriu as pessoas e o planeta imensamente. A falta de um forte envolvimento dos cientistas sociais e dos líderes religiosos (até agora) é um dos maiores fatores que impediram uma ação mais poderosa até o momento.

 

IHU On-Line - Em entrevistas para imprensa internacional, o senhor destaca a visão humanista e espiritual do Papa Francisco. É essa a visão que falta para a ciência na contemporaneidade? Esse é o maior ganho da aliança entre religião e ciência?

Veerabhadran Ramanathan - Sim. Até agora, cientistas têm se esquivado de traduzir suas descobertas para a forma de problemas éticos e morais. Espero que essa atitude mude depois de verem o enorme impacto da Encíclica do Papa sobre a sociedade.

 

IHU On-Line - Qual a importância da religião, e em especial a Instituição Igreja Católica, em acolher a ciência e a partir dela refletir sobre questões globais, como as mudanças climáticas?

Veerabhadran Ramanathan - Uma vez que a mudança climática se torna uma questão ética e moral, o chamado da religião católica para o zelo para com o planeta terá um poderoso impacto na sociedade. Todas as religiões nos exortam para que protejamos a Mãe Natureza e, assim, outros líderes religiosos podem igualmente ter um impacto transformador.

 

IHU On-Line - Laudato Si’ é reconhecida pela perspectiva de Ecologia Integral. Esse conceito é a materialidade do trabalho entre ciência e religião? Como o meio científico compreende esse conceito?

Veerabhadran Ramanathan - Concordo que o tema central que emerge da Encíclica seja Ecologia Integral. Ainda é cedo para dizer como a comunidade científica irá compreender esse conceito. Meu melhor palpite, a partir das minhas limitadas interações com outros cientistas, é que ele tem sido muito bem recebido. Nas últimas duas décadas, cientistas também perceberam que a mudança climática e outros problemas ambientais são muito complexos e demandam uma abordagem integrada.

 

IHU On-Line - Qual a responsabilidade das grandes empresas e dos países desenvolvidos nessa situação de mudanças climáticas em que nos encontramos? Como romper a barreira do lobby e da hegemonia das grandes corporações para estimular o uso de energias alternativas, renováveis?

Veerabhadran Ramanathan - Eu tenho apresentado diversos artigos no Vaticano mostrando como um bilhão das pessoas mais ricas do planeta contribuem com 60% do aquecimento global, enquanto os três bilhões mais pobres contribuem 6% ou menos, uma vez que não podem adquirir combustíveis fósseis. Ainda assim, esses três bilhões mais pobres irão sofrer as piores consequências da mudança climática e podem perder seus meios de subsistência, se não mesmo suas vidas. A mudança climática é um problema vital para essas pessoas mais pobres. As grandes empresas e as nações mais ricas têm de perceber que sua própria sobrevivência também depende drasticamente da redução da poluição do planeta. A mudança climática prevista será tão grande em poucas décadas que, se as empresas não evoluírem suas tecnologias para transformarem-nas em tecnologias mais amigáveis ao meio ambiente, sua viabilidade econômica se tornará bastante questionável.

 

IHU On-Line - Qual deve ser o papel dessas grandes empresas e de países desenvolvidos em acordos internacionais? 

Veerabhadran Ramanathan - Elas devem se comprometer a reduzir drasticamente sua poluição por carbono dentro dos próximos 25 anos. Além disso, devem reduzir drasticamente a emissão de poluentes climáticos de vida curta (como metano, ozônio, hidrocarbonetos halogenados e fuligem) a fim de trazer um alívio rápido a sete bilhões de pessoas ameaçadas pela mudança climática. Por último, elas devem fornecer acesso à energia limpa para aqueles três bilhões mais pobres; sem isso, a emissão de poluentes desses três bilhões se tornará tão grande em 2050, que irá levar a mudanças climáticas massivas para todos.

 

IHU On-Line - Como imagina que a Laudato Si’ pode inspirar as discussões da COP 21, em Paris? Como o senhor deve acompanhar o encontro e quais suas expectativas?

Veerabhadran Ramanathan - Imensamente, eu espero. A Encíclica fornecerá apoio das pessoas para que os líderes empreendam ações mais fortes.

 

IHU On-Line - Críticos da Encíclica apontam que o documento é falho por desconsiderar o campo da ciência que não reconhece as mudanças climáticas como provocadas pela ação do homem. Como responder a essa crítica?

Veerabhadran Ramanathan - A mudança climática antropogênica não é uma tese; é um fato documentado por milhares de observações. Cerca de 98% de um grupo de 10 mil cientistas e mais de 50 ganhadores de prêmios Nobel têm concluído que a mudança climática é real e causada por atividades humanas.

 

IHU On-Line - Em que medida o pensamento antropocêntrico engessa o desenvolvimento científico? Como fugir dessa concepção e das amarras do instrumental meramente técnico?

Veerabhadran Ramanathan - Essa é a área dos líderes religiosos. Nós temos de ensinar em todas as igrejas, todos os templos, todas as mesquitas e em todas as outras instituições religiosas o fato de que somos parte da natureza e que fazemos parte de uma “Ecologia Integral”. O conceito de Ecologia Integral tem de ser ensinado em todas as escolas, desde a mais tenra idade.

 

IHU On-Line - Um de seus trabalhos de maior repercussão constatou que não é somente o dióxido de carbono, a partir de combustíveis fósseis, que provoca o aquecimento global. Há também a incidência de outros gases, também liberados pela ação humana na Terra, que podem ser ainda mais perigosos. Essa sua tese é da década de 1970. Desde então, o quanto se evoluiu nas análises e no controle de emissão de gases? Quais os desafios do século XXI?

Veerabhadran Ramanathan - Essa tese tem sido amplamente aceita. O documento mais recente da ONU, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas - IPCC, reconhece que aproximadamente 45% do aquecimento é devido a quatro poluentes climáticos de vida curta - PCVCs. Em primeiro lugar estão os hidrocarbonetos halogenados. Em 1975, descobri o potente efeito estufa do hidrocarboneto halogenado clorofluorcarboneto, também conhecido como CFC, pertencente àquela família. Uma molécula de CFC tem o mesmo efeito de aquecimento que 10 mil moléculas de dióxido de carbono. CFCs são chamados gases-traço porque existem em pequenas quantidades na atmosfera, diferentemente do CO2.

Antes da minha descoberta, geralmente se pensava que o CO2 era o único gás estufa presente na atmosfera que era produzido pelo homem. Após o meu artigo da Science, em 1975, outros gases-traço, como metano e ozônio, também foram identificados como potentes gases com efeito estufa. Após o Protocolo de Montreal,  em 1989, CFCs foram banidos, uma vez que eles esgotam a camada de ozônio. Já que não se reconhecia, àquela época, que os CFCs também eram potentes agentes de efeito estufa, a Dupont produziu um composto de hidrocarboneto halogenado alternativo, chamado HFC, que não afetaria a camada de ozônio. Mas uma molécula de HFC tem o mesmo efeito aquecedor que 2.000 a 4.000 moléculas de CO2.

Atualmente tenho trabalhado com outros cientistas para banir os HFCs por conta de seu forte efeito aquecedor. Os quatro poluentes climáticos de vida curta são: hidrocarboneto halogenado, metano, ozônio e o carbono negro (partículas). De fato, há oito anos eu propus o corte pela metade, nas próximas quatro décadas, na emissão desses outros poluentes aquecedores, como hidrocarboneto halogenado, metano, ozônio e fuligem. Em resposta, as Nações Unidas formaram a Coalizão para o Clima e o Ar Limpo , a fim de diminuir a emissão desses poluentes. Mais de 50 países tomaram parte nessa coalizão.■

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