Edição 468 | 29 Junho 2015

Homo oeconomicus, de Foucault, e animal laborans, de Arendt: conceitos para pensar o tempo presente

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Márcia Junges e Leslie Chaves

A progressiva subjugação da política pela economia é preocupação central da filósofa alemã ao cunhar essa ideia, enquanto que para o pensador francês trata-se de alguém que é sujeito ou o objeto do laissez-faire, “eminentemente governável”, aponta Adriano Correia

Mesmo não tendo centralizado suas pesquisas acerca da temática da financeirização da vida, Michel Foucault e Hannah Arendt podem oferecer “intuições iluminadoras para a configuração mais geral da servidão voluntária de uma vida determinada economicamente, e vivida a crédito”, argumenta o filósofo Adriano Correa na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. E acrescenta: “Desde As origens do totalitarismo (Rio de Janeiro: Ed. Documentário, 1975), Arendt devotou especial atenção aos impactos políticos da progressiva prevalência do econômico sobre todas as esferas da existência. Quando examina o imperialismo como a figura burguesa da política, Arendt examina a obsessão por gerar dinheiro ilimitadamente e o seu correlato político: a redução da política à mera força”. Sobre homo oeconomicus, conceito criado por Foucault, Adriano observa que no neoliberalismo este “é compreendido como empresário de si mesmo, como alguém que mesmo não sendo proprietário dos meios de produção, possui a si mesmo e investe suas habilidades e competências como um capital com vistas a uma renda futura que é o salário”. Assim, levando em consideração as indicações de Agamben, o pesquisador menciona que é extremamente frutífero aproximar os conceitos de animal laborans e de homo oeconomicus a fim de pensar o tempo presente.

Adriano Correia Silva possui graduação em Filosofia (bacharelado e licenciatura) pela PUC de Campinas e mestrado em Filosofia pela mesma universidade. É também mestre em Educação e doutor em Filosofia pela Unicamp. Leciona desde 2006 na Universidade Federal de Goiás – UFG, onde atua como diretor da Faculdade de Filosofia. Silva foi organizador dos livros Transpondo o abismo: Hannah Arendt entre a filosofia e a política (Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002) e Hannah Arendt e a condição humana (Salvador: Quarteto, 2006). Publicou ainda o livro Hannah Arendt (Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007) e assina a apresentação da edição brasileira do livro A Condição Humana (São Paulo: Forense Universitária, 2003), da própria Arendt.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - A partir do legado filosófico de Arendt e Foucault, em que medida se pode falar numa financeirização da vida?

Adriano Correia - Hannah Arendt  e Michel Foucault  ocuparam-se demoradamente com a compreensão dos nossos tempos, como é sabido. Penso não ser trivial que quando se detiveram mais demoradamente sobre os traços políticos mais decisivos do tempo presente tenham situado no centro dos seus respectivos diagnósticos a relação entre economia e política.

Desde As origens do totalitarismo (Rio de Janeiro: Ed. Documentário, 1975), Arendt devotou especial atenção aos impactos políticos da progressiva prevalência do econômico sobre todas as esferas da existência. Quando examina o imperialismo como a figura burguesa da política, Arendt examina a obsessão por gerar dinheiro ilimitadamente e o seu correlato político: a redução da política à mera força. 

Em A condição humana (São Paulo: Forense Universitária, 2003), no decisivo movimento de suas últimas sessões, ela reflete sobre o que nomeia “humanidade socializada”, na qual a palavra trabalho acaba por ser demasiado ambiciosa para descrever as atividades que desenvolvemos no mundo em que passamos a viver, constituído como uma sociedade de empregados. Em tal contexto mesmo o interesse próprio é açambarcado pelo conformismo de uma sociedade definida pelo acúmulo ilimitado de dinheiro. Ironicamente, ela chega a assinalar que o problema com o comportamentalismo não é que seja falso, mas que venha a se tornar verdadeiro e que a tão ativa era moderna venha a sucumbir à extrema passividade e ao agudo entorpecimento de uma vida financeiramente determinada. 

Intuições iluminadoras

Esta articulação entre a articulação estrita da vida pela economia e o conformismo de uma voluntária servidão também pode ser entrevista no exame do homo oeconomicus por Michel Foucault em seu curso O nascimento da biopolítica (1978-1979) (São Paulo: Martins Fontes, 2008). Consoante à compreensão liberal da relação entre economia e política, o homo oeconomicus é aquele em que não se deve mexer, é o sujeito ou o objeto do laissez-faire . Não obstante, em um paradoxo apenas aparente, ele é o eminentemente governável, pois sua divisa fundamental — enxergar em tudo, mesmo nas piores catástrofes, oportunidades de negócio — implica em uma integral adesão ao meio. Nas palavras de Foucault, o homo oeconomicus é aquele que “aceita a realidade” e justamente por isto é eminentemente governável por uma governamentalidade que agirá sistematicamente sobre o meio, reconfigurando-o e determinando indireta e persistentemente a conduta livre do agente econômico individual.

Tanto Arendt como Foucault interessaram-se pela progressiva determinação estritamente econômica da vida individual, cujo correlato é a constituição de um ethos conformista que se justifica, em última instância, por uma divisa de David Hume  na obra Uma investigação sobre os princípios da moral (Campinas: Ed. Unicamp, 1995), que ambos mostraram conhecer: se indagares a alguém por que deseja a saúde, poderia ouvir dele “que ela é necessária para o exercício de sua profissão. E se perguntas por que ele está preocupado com isso, responderá que é porque deseja ganhar dinheiro. E se perguntar por quê?, ele dirá que é o instrumento do prazer. E para além disso é um absurdo pedir uma razão”.

Arendt menciona, em A condição humana, o prejuízo de experiência do mundo resultante da conversão de toda propriedade em capital, de todo bem durável (como carros, casas) em prestações vitalícias. Penso que apesar de não focarem diretamente sua atenção sobre a financeirização da vida, ambos forneceram intuições iluminadoras para a configuração mais geral da servidão voluntária de uma vida determinada economicamente, e vivida a crédito. 

 

IHU On-Line - Quais são as possíveis aproximações entre o homo oeconomicus, de Foucault, e o animal laborans, de Arendt, para compreendermos o processo de cooptação da política pela economia?

Adriano Correia - Há muitos estudos recentes que têm buscado pensar em conjunto os diagnósticos e as reflexões de Arendt e Foucault sobre a modernidade política, sem ignorar a notável singularidade da obra de ambos, que jamais se conheceram. Giorgio Agamben  foi certamente pioneiro, em sua obra Homo sacer I – o poder soberano e a vida nua (Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002), e suas considerações iniciais sobre a relação entre biopolítica e totalitarismo ainda definem parte significativa dos marcos das aproximações entre ambos os autores.

Penso, sem ignorar as indicações de Agamben, que a aproximação entre os conceitos de animal laborans e de homo oeconomicus é das mais frutíferas para pensar o tempo presente junto a esses pensadores. O conceito de animal laborans é central em A condição humana, de Arendt, na definição do que para ela é o tipicamente moderno, no que tange à relação entre economia e política: a progressiva subjugação da política pela economia. Nesta obra a expressão animal laborans possui três sentidos fundamentais: o primeiro é o de dimensão da existência humana, que corresponde à nossa condição de viventes em permanente metabolismo com a natureza com vistas à conservação da vida; o segundo descreve a condição dos que foram historicamente expurgados da vida social normal pela exploração capitalista e foram assim condenados ao ciclo de esgotamento e regeneração que preside o mero viver; o terceiro indica um modo ou uma forma de vida extraída do mero viver — não mais uma dimensão da existência, não mais uma condição socioeconômica, mas um éthos cujas aspirações coincidem com a “felicidade” experimentada nos prazeres do mero viver, cristalizados na imagem do consumidor.

Empresário de si mesmo

O conceito de homo oeconomicus é empregado por Foucault no curso O nascimento da biopolítica (1978-1979) para examinar a noção de sujeito que está em jogo desde os primórdios do liberalismo, profundamente transformada, não obstante, por sua reinterpretação neoliberal. Quando reflete sobre o sujeito no âmbito do liberalismo, ele o diagnostica como um sujeito de interesses ou lugar de uma mecânica de interesses ao mesmo tempo irredutíveis e intransmissíveis. Irredutíveis porque a opção decisiva entre o doloroso e o não doloroso não se constitui como uma real opção, mas como uma espécie de, nas palavras de Foucault, “limitador regressivo na análise”. E intransmissíveis, por fim, porque mesmo quando prefiro sofrer algo por outrem é ainda meu próprio interesse que está em jogo: em suma, seria mais dolorosa a dor desse alguém em mim que a dor que eu mesmo sinto em seu lugar. Esse sujeito de interesses jamais se deixa transfigurar inteiramente na imagem do sujeito de direito, ou homo juridicus, porque mesmo no âmbito da vida política e de suas leis é sempre o interesse próprio que define seus cálculos com vistas à ação.

Foucault observa que com o neoliberalismo, e notadamente com a teoria do capital humano do neoliberalismo americano, a noção de homo oeconomicus é consideravelmente deslocada, pois o homo oeconomicus clássico é o parceiro da troca, e sua noção de utilidade não se dissocia da problemática das necessidades. No neoliberalismo o homo oeconomicus é compreendido como empresário de si mesmo, como alguém que mesmo não sendo proprietário dos meios de produção, possui a si mesmo e investe suas habilidades e competências como um capital com vistas a uma renda futura que é o salário. E não se tratam mais de interesses e necessidades, mas de consumidor e consumo, e do consumidor como produtor.

Penso ser significativo e digno de reflexão que tanto Arendt quanto Foucault tenham pensado os tempos presentes, no que tange à relação entre economia e política, considerando a centralidade do “consumidor” e da forma de vida que lhe é correlata, assim como que tenham indicado o caráter apolítico e mesmo antipolítico dessa forma de vida. Não se trata de indicar que as questões clássicas como a da expropriação e dos conflitos de classe tenham perdido a relevância, mas de enfatizar a prevalência de um modo de vida que, antes de tudo, “aceita a realidade”, nas palavras de Foucault, ou “aceita o mundo tal como é”, nas palavras de Arendt. 

 

IHU On-Line - Por outro lado, seria possível aproximar o animal laborans, que a tudo apequena, da figura do último homem nietzschiano?

Adriano Correia - A interpretação um tanto cínica da felicidade como saciedade não deixa de alegoricamente lembrar outro personagem, introduzido sarcasticamente por Nietzsche  no prólogo do seu Zaratustra. A autossatisfação moderna, não obstante a uniformidade e o rebaixamento das aspirações do homem moderno, acaba por não colocar em questão a associação entre virtude e bem-estar, felicidade e conforto. Trata-se, como bem observou Oswaldo Giacoia Júnior  em uma entrevista recente (IHU On-Line, 344) , do ideal niilista “do humano reduzido à intensidade minimalista da sobrevivência; o ideal de felicidade rebaixado ao hedonismo consumista, à incapacidade de elaborar uma experiência de sofrimento, ao desejo obsessivo de bem-estar, conforto burguês e segurança, o acobertamento no anonimato do coletivo, a diluição de toda verdadeira personalidade, a negação da diferença pela tirania identitária do uniforme”. Quando os últimos homens saltitam no mundo aos pulinhos e anunciam aos que os encontram que inventaram a felicidade e piscam o olho, é como se não se pudesse esperar mais coisa alguma dos homens da servidão voluntária.

 

IHU On-Line - Nesse sentido, qual é o nexo que une a figura do tipo burguês, para Arendt, com a despolitização e a apatia política?

Adriano Correia - Arendt recorreu frequentemente, desde As origens do totalitarismo (1951) até ao menos a polêmica em torno de Eichmann em Jerusalém (1963) (São Paulo: Companhia das Letras, 1999), à imagem do burguês, do indivíduo cujo horizonte esgota-se na acirrada competição por bens privados e cujo propósito máximo é o sucesso nessa luta. Quando examina os elementos que se constituíram em precedentes da dominação total, reserva um espaço privilegiado ao exame do tipo representado pelo burguês, “na falta de nome melhor”. O privatismo do burguês se afirmou de tal modo na modernidade que desde que o Estado assegurasse as suas posses, e o processo que permitia o progressivo acúmulo de riqueza e propriedade, não despertaria qualquer resistência ou oposição por parte da burguesia como classe.

Quando seus membros ingressaram na vida política, o fizeram justamente por concluir que o poder econômico fundado na expansão não poderia se afirmar sem a concomitante exportação de poder político. Quando se ocupam das questões que concernem a muitos, visam ainda apenas a seus interesses privados — o ápice de sua abnegação é o interesse coletivo, que jamais se transfigura em interesse público, de tal modo que a própria noção de bem comum é inteiramente absurda. Para esses indivíduos, que se compreendiam antes de tudo como pessoas privadas e são ainda hoje pouco raros, o Estado sempre representou apenas uma força policial bem organizada. Não é trivial que sob os auspícios da governamentalidade liberal o Estado tenha se reduzido ao governo e finalmente o governo tenha se reduzido à mera gestão ou administração. Mesmo a representação política, que pode muito bem ser articulada com a participação em conselhos populares, como pensava Arendt, acaba por se converter em integral desengajamento, mediante a delegação do julgamento e alienação dos processos de tomada de decisão, cada vez mais definidos pela técnica econômica.

Para Arendt, a “sociedade competitiva de consumo” engendrada pela burguesia produziu apatia e mesmo hostilidade em relação à vida pública tanto entre as camadas sociais excluídas da participação no governo quanto, principalmente, entre os membros de sua própria classe, os quais sempre conceberam o exercício dos deveres e responsabilidades dos cidadãos como perda inútil de tempo e energia — nada mais estranho a esta perspectiva, portanto, que a afirmação de Arendt em Sobre a revolução (São Paulo: Companhia das Letras, 2011) de que “ou ser cidadão significa participar ativamente do governo ou não significa coisa alguma”. O lema desse tipo burguês bem poderia ser a sentença de David Hume no Tratado da natureza humana (São Paulo: Editora UNESP, 2009): “não é contrário à razão eu preferir a destruição do mundo inteiro a um arranhão no meu dedo”.

 

IHU On-Line - É possível, ainda, estabelecer nexos entre essa figura do burguês despolitizado e apático com o burocrata acrítico, como retratado em Eichmann em Jerusalém?

Adriano Correia - Vários personagens emergidos com o nazismo interessaram a Arendt desde suas primevas análises do fenômeno totalitário, mas alguns lhe foram mais caros: os que se ajustaram prontamente à nova ordem, dos intelectuais oportunistas aos oportunistas de toda sorte; os que protagonizaram a concepção do regime, desde pequeno-burgueses a sádicos pervertidos; os aventureiros pais de família da crise do entreguerras, dispostos a sacrificar toda sua dignidade pessoal à segurança dos seus; aqueles que se alinharam ao regime apenas por não parecerem possuir uma resposta plausível à pergunta “por que não?”. Para Arendt, Eichmann  era um híbrido de oportunismo inconsequente e de burocrata irrefletido, em quem a irrestrita obediência era um simulacro de personalidade. A constatação de que é possível a uma pessoa absolutamente normal, social e psiquicamente, perpetrar um mal ilimitado foi uma das poucas conclusões seguras a que Arendt chegou a partir do exame do tipo representado por Eichmann.

Para Arendt, quem dentre os nazistas mais bem encarnava o tipo burguês era justamente Himmler , não Eichmann. Ele, que teve descumpridas por Eichmann suas ordens para interromper o extermínio dos judeus com vistas a trocar suas vidas por caminhões, no final da guerra, cultivava uma vida tipicamente burguesa, a cultivar os sinais públicos de respeitabilidade de um pai de família preocupado antes com o interesse dos seus. E foi com base no pressuposto de que a maioria das pessoas é constituída de empregados e bons pais de família, e não de sádicos ou fanáticos, que ele concebeu sua organização do terror. O pai de família, que despertaria em nós admiração e ternura em sua concentração no interesse dos seus, em sua consagração firme à mulher e aos filhos, em sua solicitude, preocupado basicamente com a segurança, teria se tornado, como enfatiza Arendt, um aventureiro no caos econômico do período entre as guerras, sem qualquer possibilidade de se sentir seguro em relação ao dia de amanhã.

Eichmann, apesar dos notórios traços do carreirismo burguês, teria mais conexões com a figura do homem de massa, emergido na Europa com o colapso do sistema de classes, examinado por Arendt em As origens do totalitarismo. Para ela, era traço típico da psicologia do homem de massa a abnegação, no sentido de não se importar consigo próprio, e a sensação de ser descartável. A obediência cadavérica de que Eichmann se orgulhava — algo fundamentalmente contrário à primazia burguesa do interesse próprio — era uma de suas manifestações mais radicais. Aquele autoabandono, em flagrante oposição ao privatismo burguês, revelou-se potencialmente devastador quando devidamente articulado e canalizado pela organização totalitária.

 

IHU On-Line - Como se pode compreender o mecanismo do dinheiro que gera dinheiro no âmbito do neoliberalismo?

Adriano Correia - Em As origens do totalitarismo, no segundo volume, sobre o “Imperialismo”, há uma seção decisiva que infeliz e frequentemente é negligenciada. Intitulada “O poder e a burguesia”, nela Arendt busca compreender o imperialismo como “o primeiro estágio do domínio político da burguesia”, como via privilegiada de sua emancipação política. Para Arendt, “a expansão imperialista havia sido deflagrada por um tipo curioso de crise econômica: a superprodução de capital e o surgimento do dinheiro ‘supérfluo’, causado por um excesso de poupança que já não podia ser produtivamente investido dentro das fronteiras nacionais”. Não buscavam, todavia, expandir as fronteiras nacionais, mas de rejeitá-las como barreira à expansão econômica. Não exportavam política, portanto, apenas a força que acompanhava o capital e a mão de obra supérflua, cuja primeira consequência era a de que a política e o exército, como instrumentos de violência do Estado, foram exportados apartados das demais instituições nacionais que também os controlavam, de tal modo que, grassando a violência mais livre que em qualquer país europeu, as chamadas leis do capitalismo tinham permissão para criar novas realidades.

Conto de fadas

Para Arendt, o desejo fundamental e não mais oculto da burguesia é o conto de fadas que consiste em fazer com que dinheiro gere dinheiro sem percorrer o óbvio e longo caminho que consiste em investir em produção. Trata-se de passar do dinheiro a mais dinheiro sem a mediação das coisas. Com o imperialismo isto veio a se tornar possível, mediante a exportação simultânea de capital e pura força, o que tornou claro que somente o acúmulo ilimitado de poder, compreendido como pura força, podia levar ao acúmulo ilimitado de capital. 

Os administradores da violência nos povos conquistados proclamaram, pelo que constatavam em sua experiência diária “que a força é a essência de toda estrutura política”, o que acabou por implicar em que a política mesma, enquanto engendra instituições estabilizadoras, passou a ser um obstáculo a ser combatido, com vistas ao acúmulo ilimitado de força e capital. A era imperialista se esgotou, ao menos sob a forma do expansionismo da virada do século XIX para o século XX, não sem antes provocar catástrofes proporcionais à magnitude da ilimitação buscada por seus agentes. Não obstante, o sonho oculto se transfigurou na era da especulação financeira na qual parece que viveremos ainda demasiado tempo.

Cooptação dos governos

O neoliberalismo, e as crises que periodicamente forja, é a imagem acabada e paroxística do sonho não mais oculto de produzir o dinheiro a partir do dinheiro. Esta conta só se fecha com a sujeição dos governos das diversas nações ao capital privado especulativo, cujos representantes notáveis são os bancos e os fundos de investimento, que não por acaso estão no cerne dos escândalos e crises político-financeiras desde tempos já não tão recentes. O neoliberalismo é o estágio mais recente e extremo da instrumentalização dos governos para fins de acumulação ilimitada de capital. Em um contexto de internacionalização ampla do capital as corporações financeiras tendem a cooptar os governos nacionais com agressividade cada vez mais aguda, fazendo retroceder em décadas legislações sobre direitos de seguridade, como os trabalhistas.

Se no contexto do imperialismo a produção era tida como um intermediário incômodo rumo à ampliação do capital, no contexto do neoliberalismo os próprios produtores convertem-se cada vez mais em proprietários de fundos de investimento, que com suas parceiras agências de classificação de risco achacam constantemente os governos com vistas a obter os retornos mais rentáveis das dívidas pública e privada. Para lograrem êxito, contam usualmente com a parceria de grupos políticos locais, frequentes beneficiários dos financiamentos desses mesmos agentes especuladores. Tais grupos podem dissimular em argumentos “liberais” sua cumplicidade interessada, beneficiando-se, por sua vez, da persistente companhia dos grandes conglomerados de mídia, que associam cotidianamente o tamanho das instituições políticas a corrupção, a ineficiência e o cerceamento de liberdades. Nesse círculo nada virtuoso, que saltou para o primeiro plano no momento presente, minguam os últimos vestígios de dignidade da política e de suas virtudes correlatas.

 

IHU On-Line - Quais são as contribuições de Arendt e Foucault para se pensar a liberdade em nossos dias, tendo em consideração esse cenário no qual há uma preponderância econômica? Qual é a importância da contraposição entre público e privado, entre política e economia como traços fundamentais no pensamento arendtiano? Nessa lógica, por que o liberalismo econômico se sobrepõe ao liberalismo político?

Adriano Correia - Em seu ensaio “O que é liberdade?”, reunido na obra Entre o passado e o futuro (São Paulo: Ed. Perspectiva, 2000), Arendt é enfática: apesar de seu nome, o liberalismo contribuiu para banir a noção de liberdade do âmbito político, na medida em que compreende a política apenas como um instrumento para salvaguardar os interesses econômicos e a manutenção da vida, em seu sentido estritamente biológico. Ela não se dá ao trabalho de distinguir entre liberalismo econômico e liberalismo político, mas em mais de uma ocasião, como na obra Sobre a revolução, insistiu na importância política da salvaguarda dos direitos civis, cuja defesa é cara à tradição liberal, assim como de não reduzir os direitos políticos à mera proteção contra a arbitrariedade estatal ou soberana.

O liberalismo borra a fronteira entre o público e o privado em benefício do último — e o que aparece no segundo artigo da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão , de 1789, ajuda a anuviar a fronteira entre liberalismo político e liberalismo econômico, apesar da distância abissal entre John Stuart Mill  e Von Mises . Se o liberalismo esforçou-se, como lembra Benjamin Constant , por conservar a integridade da esfera privada, acabou por conceder à esfera pública uma dignidade apenas instrumental.

A rigidez arendtiana na distinção entre público e privado foi frequentemente criticada, muitas vezes com razão, principalmente por seu relativo silêncio sobre o potencial politicamente emancipatório das disputas por direitos sociais, mas sua força heurística vem sendo progressivamente intensificada a cada movimento em que a política é colonizada pela economia.

Sujeitinho manso

Arendt e Foucault partilhavam da convicção de que o mundo do liberalismo não é o lugar da liberdade, mas está antes sempre no limiar do conformismo e da acomodação adesista. Quando Arendt examina o animal laborans, principalmente no final de A condição humana, é difícil não pensar nos traços psicológicos do novo tipo de homem da “antropologia liberal”, mais bem traduzida, segundo ela, por Hobbes : pois ele “previu como necessária a idolatria do poder que caracteriza esse novo tipo humano, e pressentiu que ele se sentiria lisonjeado ao ser chamado de animal sedento de poder, embora na verdade a sociedade o forçasse a renunciar a todas as suas forças naturais, suas virtudes e vícios, e fizesse dele o pobre sujeitinho manso que não tem sequer o direito de se erguer contra a tirania e que, longe de lutar pelo poder, submete-se a qualquer governo existente e não mexe um dedo nem mesmo quando o seu melhor amigo cai vítima de uma raison d’état incompreensível” (As origens do totalitarismo).

Liberdade x sujeição

Para Foucault trata-se, notadamente no caso do neoliberalismo, de uma liberdade que só é possível com segurança, mas para se sentirem seguros os indivíduos movimentam-se apenas no espaço pré-esquadrinhado pelos dispositivos de segurança. Por isto o homo oeconomicus do neoliberalismo é o que aceita a realidade, o que não põe em questão a própria disposição do estreito meio no qual circula e busca assimilar camaleonicamente cada gestão de sua conduta como uma oportunidade que se abre. No curso O nascimento da biopolítica (1978-1979) Foucault observa que a arte liberal de governar é uma gestora da liberdade, mas em um sentido bastante específico: “o liberalismo, no sentido em que eu o entendo, esse liberalismo que podemos caracterizar como a nova arte de governar formada no século XVIII, implica em seu cerne uma relação de produção/destruição [com a] liberdade [...]. É necessário, de um lado, produzir a liberdade, mas esse gesto mesmo implica que, de outro lado, se estabeleçam limitações, controles, coerções, obrigações apoiadas em ameaças, etc.”.

Penso que tanto Arendt quanto Foucault dedicaram atenção especial ao liberalismo em seus diagnósticos dos tempos presentes justamente por compreender que ele aposta a liberdade dos indivíduos precisamente onde encontram a mais sutil sujeição — talvez isto torne menos oblíqua a razão de Foucault nomear O nascimento da biopolítica um curso sobre liberalismo e neoliberalismo. Não apenas o terror totalitário deveria nos assustar, mas ainda a sujeição pelo fomento, que permite aos sujeitados bradarem da estreiteza do seu mundo: inventamos a felicidade (ou um novo tipo de liberdade, ou de segurança, afinal).■

Leia mais...

- Totalitarismo – O filho bastardo da modernidade. Entrevista com Adriano Correia, publicada na revista IHU On-Line, nº 438, de 24-03-2014;

- O mal que desafia a lógica. Considerações de Arendt sobre Eichmann. Reportagem publicada em Notícias do Dia, de 24-03-2014, no sítio do IHU;

- Liberalismo e a dominação econômica da política: Arendt e Foucault. Reportagem publicada em Notícias do Dia, de 17-04-2015, no sítio do IHU.

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